quarta-feira, 13 de junho de 2012
Sproul sobre o Calvinismo de Quatro Pontos
Sproul sobre o Calvinismo de Quatro Pontos -
Há um grande número de pessoas que se intitulam calvinistas de quatro pontos porque eles não conseguem engolir a doutrina da expiação limitada. Às vezes dizem: "Eu não sou nem calvinista nem arminiano, eu sou um ‘calviniano’". Eu penso que um calvinista de quatro pontos é um arminiano. Digo isso pelo seguinte: Quando eu falei com pessoas que se dizem calvinistas de quatro pontos e tive a oportunidade de discutir o assunto com eles, acabei descobrindo que eles eram calvinistas de nenhum ponto. Eles achavam que acreditavam em depravação total, em eleição incondicional, em graça irresistível, e na perseverança dos santos, mas eles não tinham entendido estes pontos.
Só uma vez eu encontrei uma exceção a esta regra geral, uma pessoa que se auto-proclamava calvinista de quatro pontos e que não era um calvinista de nenhum ponto. Ocorre que essa pessoa era um professor de teologia. Eu estava interessado na posição dele, então eu lhe disse: "Eu gostaria de ouvir como você lida com isso, porque eu confio em você. Eu sei que você é versado em teologia, e queria ouvir como você pensa sobre isso". Eu esperava que ele não tivesse uma compreensão precisa do T, U, I, e P*. Mas para minha surpresa, quando ele discorreu sobre eles, percebi que ele os expôs tão claramente quanto um calvinista estrito jamais teria feito. Eu estava exultante, mas também pasmo. Aí eu disse: "Agora fale-me sobre a sua visão quanto à expiação limitada". Quando ele me passou o seu ponto de vista quanto à expiação limitada, descobri que este homem não era um calvinista de quatro pontos. Ele era um calvinista de cinco pontos. Ele acreditava na expiação limitada e não sabia disso.
O ponto que quero enfatizar é que há muita confusão sobre o que a doutrina da expiação limitada realmente ensina. Porém eu penso que se uma pessoa realmente entende os outros quatro pontos e está pensando com clareza, ela tem que acreditar na expiação limitada por causa do que Lutero chamou de “lógica irresistível”. Ainda assim, há pessoas que vivem em uma feliz inconsistência. Creio que é possível uma pessoa acreditar em quatro pontos sem acreditar no quinto, embora eu ache que não é possível fazê-lo consistente ou logicamente. Porém, é certamente uma possibilidade dada nossa tendência à inconsistência.
terça-feira, 5 de junho de 2012
A tolice de tentar agradar a homens
A tolice de tentar agradar a homens - [Richard Baxter, um dos grandes pastores e teólogos puritanos, mostra, ao estilo puritano, o quanto é tolo tentar agradar a homens enquanto se está tentando viver a vida para Deus. O orgulho que faz com que nos preocupemos tanto com o que os outros pensam de nós e o que sentem por nós, nos prega ciladas e armadilhas que, por fim, podem destruir nossas almas. Quando tenta agradar a homens, o crente compromete seu testemunho e torna-se virtualmente inútil na obra de Deus.
Baxter nos dá 22 razões e advertências para que não sejamos tolos e para que procuremos sempre agradar a Deus e não a homens. As primeiras 8 aparecem nessa primeira parte.]
"Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo." - Gálatas 1:10
1. Lembrem-se de que multidão vocês têm para agradar; e quando vocês agradarem a alguns, quantos mais permanecerão insatisfeitos, e quantos ainda permanecerão insatisfeitos depois que vocês derem o seu melhor. Infelizmente somos completamente inaptos para observar a todos que nos observam e que se agradariam de nós. Vocês são como alguém que só tem 12 moedas no bolso e mil mendigos vêm rodeá-los em busca delas, e cada um deles ficará insatisfeito se não puder ter todas elas. Se vocês decidirem dar tudo que tem para os pobres, e fizerem isso para agradar a Deus, vocês poderão atingir seu objetivo. Mas se vocês derem tudo para agradar a eles, quando tiverem agradado aqueles poucos que receberem alguma coisa, talvez o dobro deles irá insultá-los e amaldiçoá-los porque não ganharam nada. O mendigo que for mais rápido irá declarar que vocês são generosos, e o que for mais lento proclamará que vocês são mesquinhos e impiedosos. Dessa forma vocês terão mais gente para ofendê-los e desonrá-los do que para confortar-lhes com seus elogios, se é que era esse o conforto que vocês buscavam.
2. Lembrem-se que todos os homens são tão egocêntricos, que as suas expectativas serão sempre mais altas do que vocês jamais serão capazes de satisfazer. Eles não considerarão suas dificuldades, afazeres, ou o que quer que vocês façam pelos outros. A maior parte deles procurará ter tanto para si como se vocês não tivessem ninguém mais para pensar a não ser neles. Muitas e muitas vezes, quando tive uma hora do dia para gastar, uma multidão (cada um deles) esperava que eu passasse aquela hora consigo. Quando eu visito um, freqüentemente há dez que se ofendem porque não estou visitando-os na mesma hora. Quando estou falando com um, muitos outros se ofendem porque não estou falando com eles ao mesmo tempo. Se aqueles com quem converso me consideram cortês, humilde, e respeitável, aqueles com quem não consegui conversar, ou só pude dirigir uma palavra, me considerarão descortês e antipático. Quantos já me censuraram porque não lhes dei o tempo que Deus e a minha consciência me mandaram gastar em algum trabalho maior e mais necessário! Se vocês têm algum cargo ou função para preencher, ou um privilégio para conceder, que só uma pessoa pode receber, todos se consideram os mais indicados para recebê-lo. E se você agradou aquele que recebeu, deixou insatisfeitos todos os outros que nada receberam e foram privados dos seus desejos.
"Quando eu visito um, freqüentemente há dez que se ofendem porque não estou visitando-os na mesma hora."
3. Vocês têm um grande número de pessoas para agradar que são tão ignorantes, irracionais e débeis, que consideram suas maiores virtudes como defeitos e que não sabem distinguir quando vocês fazem alguma coisa boa ou ruim. E não há ninguém que censure tão severamente como aqueles que menos entendem as coisas que estão censurando. Muitas e muitas vezes meus sermões e os de outros foram criticados, e abertamente difamados, por aquilo que nunca esteve neles, devido a ignorância ou falta de atenção de algum ouvinte mais crítico. Até mesmo por aquilo que os sermões falavam contra acabavam sendo repreendidos porque nunca foram compreendidos. Especialmente aqueles sermões com um estilo fechado, livre de tautologia, em que cada palavra precisa ser muito bem definida para evitar confusão, serão freqüentemente distorcidos e atacados.
4. Vocês terão muitos zelotes facciosos para agradar que, sendo estranhos ao amor à santidade, à cristandade e à unidade, são governados pelo interesse por alguma opinião ou grupo. E esses nunca estarão satisfeitos com vocês a não ser que vocês venham para lado ou partido deles, e se adaptem às suas opinões. Se vocês não forem abertamente contra eles, mas procurarem reconciliar a todos e pôr um fim nas diferenças da igreja, eles os odiarão por não promover as opiniões deles e ainda enfraquecê-los através de abomináveis sincretismos. Assim como na guerra civil, também na guerra eclesiástica os atiçadores não conseguem suportar os pacíficos. Se vocês forem neutros, serão considerados inimigos. Ainda que vocês dêem o máximo por Cristo, pela santidade e pela fé comum, tudo isso será nada, a não ser que vocês sejam também por eles e seus conceitos.
5. A maior parte do mundo é formada por pessoas que odeiam a santidade e tem uma sagaz inimizade contra a imagem de Deus, não tendo sido renovadas pelo Espírito Santo. Esses não se agradarão de vocês a não ser que vocês pequem contra o Senhor, e ajam como eles agem. 1 Pedro 4:3-5, "Porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios, tendo andado em dissoluções, concupiscências, borracheiras, orgias, bebedices e em detestáveis idolatrias. Por isso, difamando-vos, estranham que não concorrais com eles ao mesmo excesso de devassidão, os quais hão de prestar contas àquele que é competente para julgar vivos e mortos." Se vocês lhes falarem sobre o seu pecado, vocês serão considerados como Ló entre os sodomitas, homens ocupados que chegam entre eles fazendo as vezes de juiz, para controlá-los. Se vocês não forem tão maus quanto eles são , vocês serão chamados de arrogantes, metidos e hipócritas (ou talvez algo pior). O mesmo ocorrerá se vocês, por sua abstinência (mesmo que não digam nada), parecerem repreender a sensualidade e o desrespeito a Deus que eles demonstram. Entre os insanos vocês precisam bancar os insanos se quiserem escapar das suas presas injuriosas. Será que vocês podem ter alguma esperança de agradar a homens assim?
"Pecadores inveterados negam-se a ir para o inferno sozinhos. É um tormento para eles verem outros em melhor estado que o seu."
6. Entre aqueles que precisarão agradar, vocês se depararão com inimigos satânicos de Deus, e homens de consciência cauterizada e perversa, os quais são maliciosos e cruéis, e não ficarão satisfeitos com nada a não ser com alguma iniqüidade terrível, e com a destruição de das almas de vocês, e com a possibilidade de levar outros à perdição. São como aquele monstro de Milão, que quando punha de joelhos seu inimigo, o fazia blasfemar contra Deus na expectativa de salvar sua vida, e então o apunhalava considerando aquela uma justa vingança, pois matava o corpo e condenava a alma de uma só vez. Há no mundo aqueles que farão tão abertamente o trabalho do diabo, que corromperiam as consciências de vocês com os mais horríveis perjúrios, perfídias e impiedades, a fim de triunfar sobre suas miseráveis almas. Se vocês responderem a eles que não podem agradá-los, a não ser sendo desonestos e desagradando a Deus e pecando contra o conhecimento e a consciência, e pondo em risco a sua própria salvação, eles retrucarão apenas com um gracejo zombeteiro diante desses argumentos e esperarão que vocês aventurem suas almas em seguir suas opiniões, e se preocupem tão pouco com Deus e suas almas quanto eles mesmos fazem. Pecadores inveterados negam-se a ir para o inferno sozinhos. É um tormento para eles verem outros em melhor estado que o seu. Aqueles que são cruéis e impiedosos consigo mesmos, e não têm pena de suas próprias almas, mas as vendem por uma prostituta, ou por uma promoção, ou por honra, ou por prazeres sensuais, dificilmente terão misericórdia da alma alheia: Mateus 27:25, "E o povo todo respondeu: Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!"
7. Vocês terão homens duros, implicantes, não caridosos e injustos para agradar; os quais farão com que "por causa de uma palavra condenam um homem, os que põem armadilhas ao que repreende na porta, e os que sem motivo negam ao justo o seu direito." Isaías 29:20,21. Esses não têm nenhum traço daquela caridade que cobre faltas e interpreta palavras e ações favoravelmente. Também não têm nada daquela justiça que faz com que um homem faça aos outros como quer que lhe façam, e julgue ao próximo como gostaria de ser julgado. Entretanto, como julgam sem misericórdia, provavelmente serão julgados sem misericórdia. Eles ficam felizes quando encontram algum assunto em que possam repreendê-los e quando encontram um (verdadeiro ou falso) eles jamais o esquecerão, mas insistirão nele como a mosca insiste em voltar ao local infectado.
8. Vocês terão que agradar pessoas passionais, cujos julgamentos são cegados, e que não são capazes de serem satisfeitas. São como o doente e ferido que sente dor a qualquer toque e que, por fim, como disse Sêneca, sente dor com a própria presunção de que foi tocado. Como podem agradar a esses se a insatisfação é a sua enfermidade, que habita no interior deles, no âmago do seu próprio coração?
9. Vocês verão que a disposição de condenar e criticar é um hábito comum, e apesar de poucos serem competentes para julgar as ações de vocês, por não estarem suficientemente a par da sua rotina diária, praticamente todos se aventurarão a reprová-los. Um entendimento orgulhoso e presunçoso é um defeito muito comum. Esse tipo de conhecimento se considera capaz de julgar qualquer coisa assim que ouve apenas uma pequena porção do tema, e não tem consciência de sua própria falibilidade, apesar de experimentá-la diariamente. Poucos estão perto de vocês e nenhum no seu coração, de forma que todos desconhecem as circunstâncias e as razões de tudo que vocês fazem. Também não ouvem o que vocês têm a dizer por si mesmos e mesmo assim insistem em censurá-los, sendo que talvez os tivessem absolvido se ao menos ouvissem as suas explicações. É raro encontrar alguém, mesmo entre aqueles que professam a maior sinceridade e que são muito cuidadosos e zelosos de não pecar, que não tenha a capacidade ou o chamado para executar esse tipo de julgamento precipitado e desprovido de fundamento.
10. Vocês vivem entre tagarelas incontroláveis e contadores de histórias que divertem outros lançando acusações contra vocês. Quem é que tem ouvidos e nunca teve algum desses vermes tentando ocupar-se deles? Talvez um ou outro homem mais correto, cuja face zangada espantou essas línguas fofoqueiras pra longe de si. E tudo que é coisa será dita nas costas de vocês quando não tiverem como responder. E se houver um homem a quem os ouvintes estimam, e que acuse e calunie vocês, então eles acharão correto acreditar nele. E a maioria daqueles que são amigos desse homem, ou do seu partido, ou têm interesses semelhantes, certamente o considerarão honesto e portanto crerão nele. E não é incomum uma pessoa sábia, inteligente e piedosa se precipitar em repetir algum relato da boca de outros e aí o ouvinte pensa que está totalmente justificado em acreditar nela e repassar a mesma história a outros. O próprio Davi, pela tentação de Ziba, foi levado a injustiçar Mefibosete, o filho do seu grande e digno amigo. 2 Sm. 16:3. Não surpreende então, que Saul tenha dado ouvidos a Doegue, para amaldiçoar Davi e matar os sacerdotes. Pv. 18:8 "As palavras do maldizente são doces bocados que descem para o mais interior do ventre." Pv. 26:20 20 "Sem lenha, o fogo se apaga; e, não havendo maldizente, cessa a contenda." E enquanto esses estiverem ainda perto dos homens e vocês longe, é fácil para eles persistirem nas mais odiosas representações das mais louváveis ações de uma pessoa.
"Experimentem servir aos homens da forma mais submissa e cuidadosa que puderem e, ao final, algum acidente ou a frustração de alguma das injustas expectativas nutridas por eles fará com que tudo o que vocês já fizeram seja esquecido."
11. A imperfeição do entendimento e da piedade dos homens é tão grande, que mesmo as mais sensatas diferenças de julgamento, levarão à injúria e ao desprezo aos irmãos. Alguém está plenamente confiante de que sua visão é a correta, outrem está plenamente convencido do contrário. Quem não percebe a que contendas e insultos essas diferenças conduzem, já tendo um certo tempo de vida, não perceberá jamais. Não precisamos ir a Paulo e Barnabé para um exemplo (esse foi um caso bem mais leve); nem a Epifânio, Jerônimo e Crisóstomo; nem àquelas eras trágicas daqueles bispos conflituosos, que viveram antes de nós na igreja oriental e ocidental: cada um pensando que sua causa era tão clara que o justificava em tudo que dizia e fazia contra os que ousavam pensar de forma diferente. E certamente vocês devem esperar certo desconforto por parte de homens bons e cultos, quando a igreja sente tão terríveis choques, sangrando até hoje em divisões tão horrendas, por causa dos restos daquele orgulho e ignorância de que seus reverendos guias continuam sendo culpados.
12. Vocês terão homens de grande inconstância para agradar. Em um momento eles estarão prontos a louvá-los como se fossem deuses e no instante seguinte prontos para apedrejá-los como se fossem demônios; como fizeram com Paulo e com o próprio Cristo. Que inconstante é a mente do homem! Especialmente a mente dos comuns e mundanos! Passem todos os dias da sua vida construindo sua reputação sobre essa areia e um único sopro de vento ou de tempestade a derrubará e todo o seu esforço e trabalho estará perdido. Experimentem servir aos homens da forma mais submissa e cuidadosa que puderem e, ao final, algum acidente ou a frustração de alguma das injustas expectativas nutridas por eles fará com que tudo o que vocês já fizeram seja esquecido. Então vocês deixarão este mundo com o lamento de Wolsey: "Se eu tivesse servido a Deus com a fidelidade que servi ao homem, teria sido melhor recompensado, em vez de ser abandonado na minha agonia." Quantos já caíram pelas mãos ou olhares carrancudos daqueles cujo favor haviam encarecidamente adquirido, talvez pagando o preço da sua própria salvação! Se algum dia vocês puserem tanta confiança em um amigo, sem considerar a possibilidade dele vir a se tornar algum dia um inimigo, então vocês não conhece os homens; e talvez sejam levado a conhecê-los melhor, pagando um alto preço.
13. Todo homem será envolvido, inevitavelmente, pelo próprio Deus, em alguns deveres que correm o risco de ser mal interpretados e que têm uma aparência externa de coisas más. Com isso ofenderão aqueles que não conhecem todas as circunstâncias internas. Assim, boa parte da história é pouco digna de respeito; porque as ações de pessoas públicas são julgadas com parcialidade por aqueles que escrevem sobre elas. Eles escrevem mais por ouvir dizer; ou só conhecem o exterior e as aparências das coisas, e não o espírito, a vida e a realidade do caso. Os homens não escolhem seus deveres. Deus os determina pela Sua Lei e providência. E muitas vezes Ele se agrada em provar seus servos dessa forma: muitas das circunstâncias de seus atos permanecem ocultos aos homens. Estes os justificariam se o soubessem, mas acabam considerando-os pessoas publicamente escandalosas, porque não as conhecem. Quão parecido com o mal foi o fato de os israelitas tomarem os bens dos egípcios! Assim também a tentativa de Abraão de sacrificar seu filho; também Davi comendo os pães da proposição e dançando quase nu diante da arca. Cristo comendo e bebendo com publicanos e pecadores, Paulo circuncidando Timóteo e a sua purificação no templo. Não é surpresa que José tenha pensado em abandonar Maria até que ele tivesse evidência da sua milagrosa concepção. E quão merecedora de reprovação ela era, por parte daqueles que não conheciam os fatos! Portanto, quão vazio é o julgamento do homem! E quão contrário ele é freqüentemente à verdade! E com que cautela a história precisa ser lida! E quão aguardado é o grande dia do Senhor, quando toda censura humana será censurada com justiça!
"Se eu aceito uma promoção sou ambicioso, orgulhoso e mundano. Se recuso, por mais humildemente que o faça, eles dirão que estou descontente e querendo criar confusão e discórdia. Se eu não pregar quando sou proibido de fazê-lo serei acusado de abandonar o chamado que recebi e obedecendo a homens, contrariando a Deus. Se eu pregar serei chamado de desobediente e rebelde."
14. A perversidade de muitos é tal que eles exigem de vocês coisas contraditórias e até impossíveis só para deixar claro que eles estão decididos a nunca gostar de vocês. Se João jejua eles dizem que "tem demônio", se Cristo vem "comendo e bebendo", dizem, "vejam um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores" Mateus 11:18,19. Se o julgamento e a prática de vocês adaptarem-se aos requisitos de seus superiores, especialmente quando estes mudam alguma coisa, vocês serão considerados meros aduladores e contemporizadores. Se não for assim, serão considerados desobedientes, rebeldes e sectários. Se vocês falarem moderada e gentilmente eles os chamarão de bajuladores e dissimulados. Se falar mais livremente, mesmo quando necessário, dirão que é grosseiro. Se eu aceito uma promoção sou ambicioso, orgulhoso e mundano. Se recuso, por mais humildemente que o faça, eles dirão que estou descontente e querendo criar confusão e discórdia. Se eu não pregar quando sou proibido de fazê-lo serei acusado de abandonar o chamado que recebi e obedecendo a homens, contrariando a Deus. Se eu pregar serei chamado de desobediente e rebelde. Se ajudar um amigo ou parente a conseguir uma posição para a qual ele não é adequado ou que irá prejudicar a outrem; se eu atendo-lhe o pedido, serei chamado de desonesto, que por parcialidade prejudiquei a outros. Se negar-lhe o desejo, serei considerado antinatural e não amigo, e pior que um infiel. Se eu der ao pobre enquanto tenho o que dar, serei reprovado ao parar de dar quando não tiver mais. Aqueles que não sabem se vocês têm ou não para dar, ficarão descontentes se vocês não derem e se por muitos anos vocês permanecerem dando livremente, será tudo considerado nada se tiverem que cessar, não importando se pararam porque seu estoque acabou ou porque outro teve que ser objeto da sua caridade. Se vocês sofrerem algum dano em relação aos seus bens e forem à justiça, dirão que são contenciosos; se vocês deixarem tudo como está e sofrerem o dano então dirão que vocês são tolos e idiotas. Se fizerem alguma obra de caridade à vista dos homens, dirão que são hipócritas e o fazem para receber aplausos; se fizerem secretamente, de forma que ninguém saiba, dirão que são cobiçosos e não têm boas obras e que apesar de professar a religião vocês não fazem o bem. Se vocês forem alegres e divertidos eles os reprovarão porque são levianos e fúteis. Já se forem mais sérios e tristes, serão chamados de melancólicos e descontentes. Em uma palavra, façam o que fizerem, tenham a certeza de que sempre alguns os condenarão. E fazendo ou não fazendo, falando ou calando, certamente vocês desagradarão e nunca escaparão das censuras do mundo.
15. Há entre os homens uma contrariedade tão grande de julgamentos, disposições e interesses que eles nunca concordarão entre si. E se vocês agradarem a um, o resto ficará descontente. Aquele que vocês agradarem é considerado inimigo para outro e, assim, vocês desagradam seu inimigo agradando a eles. Às vezes, diferenças de estado dividem reinos em partidos e um partido ficará descontente com vocês se vocês forem do outro, e ambos ficarão se vocês forem neutros ou não gostarem de nenhum dos dois. Cada partido acha que sua causa justifica qualquer acusação que façam contra vocês ou títulos odiosos que queiram lhes conceder e até mesmo sofrimentos que possam querer lhes infligir. Diferenças e grupos sempre existiram na igreja e vocês não podem ter a opinião de todos os partidos. Quando há tal abundância de conceitos, vocês não podem concordar com todas elas ao mesmo tempo. E se vocês forem de um partido, desagradarão os demais. Se aderirem a um lado em opiniões controversas, o outro lado os considerará hereges e é impressionante até que ponto os interesses deles podem levá-los. Metade do mundo cristão, nos dias de hoje, condena o outro lado de ser cismático, para dizer o mínimo; e a outra metade faz o mesmo com a primeira. E será que vocês podem ser papistas, protestantes e gregos, e tudo mais? Se não, vocês terão que desagradar tantos quantos agradam. E ainda mais, se homens inconstantes ficam mudando o tempo todo, eles esperam que vocês mudem tão rápido quanto eles, e qualquer que sejam seus interesses conflitantes vocês terão que segui-los. Em um ano vocês precisarão jurar e no ano seguinte terão que desfazer o juramento. Qualquer causa ou ação que eles abraçarem, por mais diabólica que seja, vocês terão que aprovar ou permitir, e tudo que eles fizerem vocês terão que dizer que é bem feito. Em uma palavra, vocês terão que treinar sua língua a dizer ou jurar qualquer coisa, e terão que vender sua inocência e colocar sua consciência totalmente a serviço deles, ou não poderão agradá-los. Micaías precisa dizer, com os outros profetas, "Vá e prospere", senão será odiado por não profetizar coisas boas para Acabe, mas somente coisas más. 1 Rs 22:8. E como poderão servir a todos os interesses de uma só vez? Parece que a providência divina embaralhou, de propósito, os assuntos do mundo, para tentar e envergonhar todos os que procuram agradar a homens e os contemporizadores que estão debaixo do sol. É evidente então, que para agradar a todos você precisa falar e ficar calado, ratificar contradições, estar em muitos lugares ao mesmo tempo, ter a mente e seguir o caminho de muitos homens. De minha parte, pretendo ver o mundo tendo um pouco mais de acordo entre si, antes de ter como minha ambição agradá-lo. Se vocês podem reconciliar todas as suas opiniões e interesses, o estado de coisas, as disposições, e fazer com que todos tenham uma só mente e vontade, só então passem a ter esperança de agradá-los.
16. Se vocês se sobressaírem em alguma qualidade pessoal ou atividade, mesmo isso não os isentará da difamação na direção oposta; tal é a irracionalidade dos homens maliciosos. Nada neste mundo pode proteger vocês das línguas fofoqueiras e difamadoras. A perfeita santidade de Jesus Cristo não o livrou de ser chamado de glutão, bebedor de vinho e amigo de publicanos e pecadores. O esplêndido desprezo que ele tinha pelas honras e pompas mundanas, e a sua sujeição a César, não evitaram que ele fosse ultrajado e crucificado como inimigo do imperador. A grande piedade dos antigos cristãos não os livrou de calúnias vulgares que diziam que eles se reuniam no escuro para cometer torpeza, e também não os livrou do clamor da turba: "Fora com os impíos", provocada porque os cristãos eram contra a adoração dos ídolos que eles idolatravam. Conheço pessoas que deram tudo o que tinham para os pobres, exceto a própria comida e mais algumas coisas indispensáveis, e ainda assim (apesar das coisas serem de valor considerável) foram reprovadas como tendo sido inclementes em relação àqueles que não receberam tanto quanto esperavam. Muitos, cujas vidas inteiras foram de castidade incorruptível, foram difamados por rumores escandalosos de impureza. Os mais eminentes santos foram difamados como culpados dos mais horrendos crimes, que nunca sequer passaram pelo pensamento deles. A coisa que eu mais busquei nos meus estudos e com que mais me preocupei sempre foi a reconciliação, unidade e paz entre os cristãos. Sempre escrevi contra a falta de amor, a turbulência e a divisão. Mas, surpreendentemente, há muitos cujo interesse e malícia os fez acusarem-me exatamente daquele pecado que gastei meus dias, meu zelo e meus estudos para atacar. Com que freqüência facções contrárias me acusaram com acusações perfeitamente opostas! Não consigo pensar em nada que eu faça neste mundo que deixe de ofender alguém; nem em deveres tão grandes e claros que não sejam chamados de pecado; nem numa auto-renúncia tão grande (mesmo com o risco da própria vida) que não seja chamada de egocentrismo; ou algo totalmente puro que não seja considerado exatamente o contrário. Portanto, em vez de servir a este injusto e malicioso mundo, eu desprezo as suas cegas e injustas censuras e recorro ao infinitamente justo Deus.
17. Se vocês planejam manter um nome honrado quando morrerem, considerem bem o poder que uma facção prevalecente pode ter de corromper a história da sua vida e representá-los para a posteridade de forma perfeitamente contrária àquilo que vocês são. E é difícil para a posteridade avaliar qual história é produto de mentiras maliciosas e vergonhosas, e qual é a verdade imparcial. Quantas histórias contraditórias há por aí sobre pessoas e ações particulares, escritas por homens da mesma religião: como é o caso do Papa Gregório VII e os imperadores que brigaram com ele; e sobre o Papa João, e muitos outros parecidos. Casos em que vocês podem ler grande quantidade de historiadores posicionando-se de um lado ou de outro.
18. Lembrem-se de que os maiores santos e apóstolos nunca puderam agradar o mundo, nem escapar das suas censuras, calúnias e crueldades. Não; nem mesmo o próprio Jesus escapou. E vocês acreditam honestamente que podem agradá-lo melhor que Cristo e seus santos puderam? Vocês não têm a sabedoria que Cristo tinha para agradar aos homens e evitar ofensas. Vocês não possuem a perfeita inocência e ausência de culpa que Cristo tinha. Vocês não podem curar as doenças e enfermidades deles, e fazer a eles aquele bem que poderia agradá-los e ganhá-los, como Cristo fez. Vocês não podem convencer e constranger a eles para que os reverenciem por seus muitos milagres como Cristo fez. E será que vocês podem imitar um padrão tão elevado como o estabelecido pelo santo, paciente, amoroso e infatigável apóstolo Paulo? Atos 20; 1 Cor 4; 9; 2 Cor 4; 5; 6; 10; 11; 12. Se não podem, como poderão agradar àqueles que não se satisfizeram com tais inimitáveis obras de amor e poder? Quanto mais Paulo amava alguns de seus ouvintes, menos ele era amado (2 Cor 12:15). Eles o consideraram um inimigo por lhes dizer a verdade (Gl 4:16). Apesar de ele ter se tornado todas as coisas para todos os homens, ele apenas pôde salvar alguns e agradar alguns (1 Cor 9:22). E o que são vocês para que sejam mais bem sucedidos que ele?
"Será que os homens serão satisfeitos por meio de coisas que eles odeiam?"
19. Piedade, virtude, e até mesmo honestidade, não agradam ao mundo e, portanto, vocês não devem ter esperanças de agradá-los com coisas que os desagradam. Será que os homens serão satisfeitos por meio de coisas que eles odeiam? E por meio daquelas ações que eles podem sentir que são as mesmas que os acusam e condenam? E se vocês forem ímpios e depravados para agradá-los, vocês estarão vendendo suas almas, suas consciências e seu Deus, só para satisfazê-los. Lembre-se que Deus e eles não se agradam dos mesmo caminhos. E qual dos dois vocês acham que deve ser satisfeito primeiro? Se vocês o desagradarem em favor deles, é certo que pagarão um alto preço.
20. Os homens não se agradam nem mesmo de Deus; aliás, ninguém desagrada a tantos, e tanto, como Ele. E será que vocês podem fazer mais do que Deus para agradá-los? Ou será que vocês merecem o favor deles mais do que Ele? Eles se desagradam dEle diariamente por causa da sua providência: um quer chuva enquanto o outro não quer. Um quer ventos para ajudar na sua viagem e o outro os quer soprando em outra direção. Um grupo fica desgostoso, porque outro está feliz e exaltado. Cada um dos adversários quer que a sua causa seja bem-sucedida e que a vitória seja sua, cada rival quer que tudo penda para o seu lado. Eles querem que Deus seja dirigido por eles e se adapte a eles e a seus interesses mais injustos, e à vontade dos mais depravados, e aja como se eles fossem donos dEle, e seja um servo dos seus prazeres. Se não for assim, eles não se agradarão dEle. E a Sua natureza santa, Sua imaculada Palavra, Seus santos caminhos, desagradam-nos mais ainda do que a sua providência do dia-a-dia. Eles ficam incomodados por Sua Palavra ser tão rígida e precisa, e porque Ele lhes ordena uma vida tão santa e disciplinada, e também porque Ele ameaça todos os ímpios com condenação. Deus precisa alterar suas leis, torná-las mais flexíveis, adaptá-las aos interesses carnais e às cobiças deles, dizer o que eles querem ouvir, antes que eles possam aceitar (a não ser que Ele transforme suas mentes e corações). E será que vocês imaginam que eles ficarão satisfeitos com Deus no final, quando Ele cumprir suas ameaças? Quando Ele os matar e tornar seus corpos em pó e suas almas culpadas forem lançadas no tormento e no desespero?
"Os homens não se agradam nem mesmo de Deus; aliás, ninguém desagrada a tantos, e tanto, como Ele."
21. Como vocês poderão agradar a homens que não se agradam a si mesmos? Seu próprio desejo e escolhas os satisfarão por muito pouco tempo. Como crianças, eles logo se entediam com aquilo pelo que clamavam. Eles precisam desesperadamente tê-lo, e quando têm, aquilo passa a ser como nada e é jogado fora. Não se satisfazem tendo e deixando de ter. São como pessoas enfermas que anseiam por todo tipo de comida e bebida, e quando finalmente podem tê-los não conseguem engoli-los, porque a enfermidade ainda está dentro deles e lhes causa desconforto. Quantos e quantos enfrentam problemas e atormentam-se por causa de paixões e bobagens dia após dia! E será que vocês conseguirão agradar a esses auto-destruidores?
22. Como poderão agradar a todos os outros homens se não podem agradar nem a si mesmos? Se vocês são pessoas tementes a Deus e sentem o fardo dos seus pecados, e têm vida suficiente para serem sensíveis às suas mazelas, eu ouso dizer que não há ninguém no mundo tão desgostoso de vocês quanto vocês mesmos. Vocês carregam consigo, e sentem no íntimo, aquilo que os desagrada mais do que todos os inimigos que possam ter no mundo. Suas paixões e corrupções, sua falta de amor a Deus, e a sua distância em relação a Ele e ao porvir; a imperfeição diária de seus deveres e sua vida, são o seu fardo diário, e os desagradam mais que tudo. E se vocês não são capazes, sábios e bons o suficiente para agradarem-se a si mesmos, poderão ser capazes, sábios e bons o suficiente para agradar o mundo? Assim como seus pecados estão mais próximos de vocês mesmos, assim ocorre com as suas graças; e assim como vocês conhecem mais maldade sobre si mesmos do que os outros, assim vocês conhecem mais bondade. Um pequeno fogo não aquecerá a casa se não consegue aquecer a lareira em que repousa.
Há um Antídoto para a Depravação Humana?
Há um Antídoto para a Depravação Humana? -
O fato da nossa queda torna a graça soberana essencial
Voltemos à passagem com que começamos esta série: Efésios 2:1-3. Desta vez eu acrescentarei (em negrito e itálico) duas palavras do versículo 4. Essas duas palavras marcam a declaração central do capítulo:
Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. Mas Deus...
D. Martyn Lloyd-Jones pregou um dos seus sermões mais famosos nestas duas palavras: "Mas Deus." Aquela simples conjunção marca a transição que o apóstolo Paulo faz do problema da depravação humana para a sua solução. A única solução possível, diz Paulo, é a aplicação soberana de graça salvadora ao pecador. Você está procurando uma declaração explícita de doutrina calvinista nas epístolas paulinas? Aqui está uma dentre muitas, e esta é clássica. Veja: Todo o argumento de Paulo ao expor a doutrina da depravação humana neste contexto visava afirmar que a nossa queda nos deixa totalmente à mercê de Deus para a salvação. Nossa completa inabilidade, que Paulo há pouco descreveu como um estado de morte espiritual, salienta a absoluta necessidade da soberania de Deus na salvação. É porque nós somos tão completa e espiritualmente incapacitados que a nossa salvação precisa ser obra de Deus e obra de Deus somente.
"É porque nós somos tão completa e espiritualmente incapacitados que a nossa salvação precisa ser obra de Deus e obra de Deus somente."
Esta verdade não surgiu do nada. Paulo já estabelecera a verdade da soberania divina no capítulo 1, onde ele lembrara aos Efésios que Deus os escolheu (4), os predestinou (5), garantiu a adoção deles (5), concedeu-lhes a sua graça (6), redimiu-os (7), perdoou-lhes (7), derramou riquezas da Sua graça sobre eles (8), desvendou-lhes os mistérios da Sua vontade (9), obteve uma herança para eles (11), garantiu que eles O glorificassem (11-12), salvou-os (13) e selou-os com o Espírito (13-14). Todas essas verdades são verdades sobre todo crente. Em resumo, Ele “nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (3). Tudo isso é obra da Sua graça soberana, não motivada por qualquer bem em nós, mas simplesmente "segundo o beneplácito de sua vontade" (5, 9) e "segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade" (11).
Não há sequer um vestígio de Arminianismo nisso. Não há sequer um sussurro de ênfase no livre arbítrio humano. Paulo está expressamente ensinando que toda a salvação é obra de Deus e que Ele é absolutamente soberano no processo. Na realidade, Efésios 2 começa com a passagem no primeiro parágrafo acima, dando ênfase à inabilidade absoluta de pecadores espiritualmente mortos, e então culmina com a declaração de Paulo no verso 10 de que até mesmo as boas obras feitas pelos crentes foram de antemão preparadas por Deus! De que forma Paulo poderia ter sido mais claro ou enfático quanto à verdade da soberania de Deus em nossa salvação?
"Não há sequer um vestígio de Arminianismo nisso. Não há sequer um sussurro de ênfase no livre arbítrio humano."
Na verdade, esta é a mensagem central de Efésios 2: a salvação é inteiramente obra de Deus. Não devemos pensar que a redenção depende de qualquer obra, movimento, atividade ou escolha livre por parte do pecador. Por isso os versos 8 e 9 constituem uma declaração sucinta da tese do capítulo inteiro: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie." (8-9).
"Mas Deus!" - aqui nós vemos a única possível cura para a depravação humana, a graça de um Deus amoroso:
Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.
Como Herdamos a Pecaminosidade de Adão?
Como Herdamos a Pecaminosidade de Adão? -
Como nós entramos neste estado? A Bíblia joga toda a culpa em Adão. Romanos 5:12 diz: "por um só homem [Adão] entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram." O pecado entrou no mundo por Adão, e então passou a todos os homens. O pecado de Adão trouxe morte espiritual – depravação total - sobre toda a raça. 1 Coríntios 15:22 diz: "em Adão, todos morrem".
Lembre-se que nós somos pecadores antes de cometermos qualquer ato evidente de pecado. Nós nascemos com a mácula do pecado. Na verdade, é apropriado dizer, como o fez Davi, que nós somos pecadores desde o momento da nossa concepção (Sl 51:5). Os teólogos referem-se a isto como o “pecado original”.
"Cinco versículos seguidos atestam de formas diferentes que o pecado de Adão corrompeu a raça inteira. Adão, como cabeça representativa da raça humana, mergulhou a todos nós no pecado."
Então como a culpa de Adão foi passada para você e para mim? Essa questão torna-se complexa e há várias opiniões teológicas diferentes que foram propostas para explicar este processo. Se você quiser aprofundar-se na pergunta, recomendo o livro de John Murray: A Imputação do Pecado de Adão ou os sermões de Martyn Lloyd-Jones em Romanos 5. Um dia desses, trataremos com mais atenção do assunto “pecado original”.
Nesta série, entretanto, não é realmente necessário entrar em grande detalhe na pergunta de como o pecado foi transmitido a nós a partir de Adão. É suficiente afirmar o fato de que o pecado de Adão nos condenou. Sem entrar profundamente em todos os mistérios que cercam esta pergunta, simplesmente declaremos o que a Palavra de Deus tem a dizer sobre o assunto: "pela ofensa de um só, morreram muitos" (Rm 5:15); "o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação” (v. 16); "pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte” (v. 17); "por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação” (v. 18); "pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores” (v. 19).
Cinco versículos seguidos atestam de formas diferentes que o pecado de Adão corrompeu a raça inteira. Adão, como cabeça representativa da raça humana, mergulhou a todos nós no pecado. Mas nós não podemos ficar à distância e apontar o dedo para ele em uma tentativa de nos desculparmos. Nós herdamos a culpa dele bem como a sua pecaminosidade. Somos tão condenáveis quanto Adão. A pergunta sobre como a culpa dele foi passada para nós não é tão importante quanto a realidade de que isso de fato aconteceu. Nenhum fato em toda a filosofia ou religião é atestado com tanta evidência empírica. Toda a descendência de Adão – com uma significativa e divina exceção – tem sido formada por pecadores. Nós nascemos moralmente corruptos.
Quero chamar sua atenção a um par de corolários desta doutrina. Primeiro, sugere que Adão foi uma pessoa histórica. Aqueles que querem tratar os capítulos iniciais de Gênesis como simbolismo ou mito destroem a doutrina do pecado original. Se Adão não foi um indivíduo histórico, nada disso faz sentido. Não há nenhuma explicação razoável para definir como a nossa raça tornou-se pecadora, a menos que o relato da queda em Gênesis 3 seja literalmente verdadeiro. Portanto, a pecaminosidade de toda a humanidade testemunha a respeito da veracidade do relato bíblico da queda.
"Se Adão não foi um indivíduo histórico, nada disso faz sentido. Não há nenhuma explicação razoável para definir como a nossa raça tornou-se pecadora, a menos que o relato da queda em Gênesis 3 seja literalmente verdadeiro."
Segundo corolário: Aqueles que negam que natureza humana é pecadora são culpados de ignorância voluntária. A universalidade da pecaminosidade humana é irrefutável. É patente. Todas as pessoas que conhecemos são pecadoras. Não há qualquer evidência que corrobore o mito de que as pessoas são básica e fundamentalmente boas.
O pecado original não é uma marca secundária na alma humana. Ele corrompe todos os aspectos de nosso caráter. Preste atenção nas palavras de Romanos 3, onde Paulo resumiu a doutrina da depravação universal. Estes versos vêm logo depois de dois capítulos com argumentos que mostram que os pagãos, os gentios moralistas, e até mesmo os judeus religiosos são todos pecadores perdidos. Em Romanos 3:9-18, Paulo conclui e estabelece com clareza e de forma inequívoca :
Nós já demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado [ele vinha provando este ponto por dois capítulos]; como está escrito [e aqui ele cita uma série de textos do Antigo Testamento]: “Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer”. “A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura”; “são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz”. “Não há temor de Deus diante de seus olhos”. Esse é exatamente o ponto em que começamos esta série, não é mesmo? Os não-crentes são incapazes de amar, temer, confiar, ou obedecer a Deus. Eles podem enganar a si mesmos pensando o contrário, mas isso só prova a falsidade de um coração doente pelo pecado.
Como podemos ser responsabilizados por nossa própria inabilidade?
Como podemos ser responsabilizados por nossa própria inabilidade? -
OK, antes de eu sair para um intervalo de duas semanas, eu comecei uma série sobre a doutrina da depravação total na qual eu propus lidar com as seguintes perguntas:
Em que sentido a depravação é total?
Como podemos ser responsabilizados por nossa própria inabilidade?
Como herdamos a pecaminosidade de Adão?
Há um antídoto para a depravação humana?
Hoje consideraremos a segunda dessas perguntas.
A Confissão de Westminster declara a doutrina de depravação total nestes termos: "O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso." (Cap. IX, seção 3).
"Em outras palavras, os pecadores não têm nenhuma habilidade para fazer bem espiritual que mereça o favor de Deus ou Seu perdão. Eles são completamente antagônicos à verdadeira retidão."
Cada elemento desta declaração é crucial. Note precisamente que tipo de inabilidade é descrita aqui. Não é uma inabilidade para fazer coisas boas. É uma inabilidade para "qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação". Em outras palavras, os pecadores não têm nenhuma habilidade para fazer bem espiritual que mereça o favor de Deus ou Seu perdão. Eles são completamente antagônicos à verdadeira retidão. Eles estão desesperadamente em escravidão ao pecado. Eles não podem salvar-se ou até mesmo tornar-se adequados à salvação de Deus. Eles não têm nenhum apetite pela verdade espiritual, nenhuma habilidade para entendê-la. Portanto, eles não têm a menor possibilidade de acreditar na verdade ou apropriar-se da salvação por quaisquer meios.
Em João 8:44, Jesus disse aos Fariseus: " Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos". Os desejos deles eram corruptos, e era uma corrupção que emanava do próprio núcleo da sua natureza. Jesus disse que eles eram como o diabo. Ele continuou dizendo: "[O Diabo] jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira".
A implicação é: Vocês estão no mesmo barco. Na verdade, ele estava dizendo àqueles fariseus: É da natureza de vocês serem maus. Não há nenhuma forma de fazer com que você se torne alguém que você não é. "Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas? Então, poderíeis fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal." (Jeremias 13:23)
"Nossa vontade é livre para escolher de acordo com nossos desejos, mas não é livre para determinar esses desejos."
Neste ponto, alguns leitores perguntarão: "Se as coisas são assim - se nós somos pecadores por natureza, totalmente incapazes de ser outra coisa – como pode um Deus justo considerar-nos responsáveis por isso? Não seria justo ordenar a um paraplégico que ele corresse a maratona e depois castigá-lo porque ele é incapaz de fazê-lo, seria?"
Mas a nossa inabilidade não é a inabilidade de um paraplégico; é uma inabilidade da vontade. Nossa inabilidade não procede de uma falta de faculdades físicas, racionais, ou cognitivas. Procede de uma inclinação moral errada – uma vontade que está firmemente posicionada contra a verdade e que não tem nenhuma inclinação para desejar de outra forma.
Todas as nossas faculdades - nossas mentes, emoções, e vontades – funcionam muito bem. Isto é, nós podemos pensar, agir e escolher livremente de acordo com qualquer dos nossos próprios desejos e motivações. Mas este é precisamente o problema: nossos desejos e motivações são exatamente as coisas que o pecado corrompeu. Nossos desejos são defeituosos. Assim a própria vontade está inclinada contra a retidão. Nossa corrupção é, portanto, uma depravação deliberada. É um defeito moral, e não o tipo de inabilidade que impede um paraplégico de correr uma corrida.
A depravação inclina a vontade de um pecador caído para amar o pecado, de forma que a retidão de Deus torna-se moralmente repugnante. O pecador torna-se incapaz de amá-lO, incapaz de escolher obedecer à Sua lei. É um defeito moral e, portanto, o próprio pecador é moralmente culpável.
Mas a vontade humana não é livre? Em um sentido ela é, mas no sentido normalmente empregado pelas pessoas e que faz com que os mais liberais usem a expressão "livre-arbítrio", a vontade não é livre. Ela está escravizada pelo pecado.
"Portanto nossa inabilidade não é nenhuma desculpa para nossa pecaminosidade. É precisamente o oposto. É a própria razão porque estamos condenados."
Nossa vontade é livre para escolher de acordo com nossos desejos, mas não é livre para determinar esses desejos. Nossa vontade é livre no sentido de que nossas escolhas não são forçadas sobre nós ou compelidas através de pressão externa. Mas nossa vontade não é "livre" no sentido de ser soberana sobre a nossa natureza moral. Nós não podemos, por um ato da vontade, mudar nosso caráter para melhor. Esse é o ponto enfatizado em Jeremias 13:23: O pecador tem exatamente a mesma habilidade para transformar seu próprio coração e fazer com que este faça o bem que o leopardo tem de remover suas manchas.
Em outras palavras, a depravação corrompe o nosso coração e perverte todos os nossos apetites. Ela inclina a nossa natureza de tal forma que passamos a amar o pecado. Desejos maus, então, governam as escolhas que fazemos. E já que nós fazemos essas escolhas livremente e com grande satisfação, nós somos culpados por elas.
Portanto nossa inabilidade não é nenhuma desculpa para nossa pecaminosidade. É precisamente o oposto. É a própria razão porque estamos condenados. O pecado flui do próprio centro de nossas almas. O coração daquilo que somos é mau. Nós somos "por natureza, filhos da ira" (Efésios 2:3). É por isso que nós fazemos coisas más. Disse Jesus: "Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem." (Marcos 7:21-23)
Em outras palavras, nós não somos pecadores porque pecamos; nós pecamos porque somos pecadores. Nós nascemos pecadores, e todos os nossos atos de pecado procedem desse fato.
Isso traz à tona a terceira pergunta com a qual nós lidaremos da próxima vez.
Em que sentido a depravação é total?
Em que sentido a depravação é total? -
Todo membro da raça de Adão nasce totalmente depravado, caído, alienado de Deus, e em escravidão ao mal. Em Romanos 6, Paulo chama isso de escravidão ao pecado. Ele diz, além disso, em Romanos 6:20, que as pessoas que são escravas do pecado são totalmente destituídas da verdadeira retidão. Todos os que estão em tal estado de pecado e incredulidade são inimigos de Deus (Romanos 5:8,10). Eles são "estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas" (Colossenses 1:21)".
Totalmente.
A depravação humana é "total" da mesma forma que a morte é total. Você não pode estar parcialmente morto. Você pode estar muito, muito doente ou extremamente machucado e sendo mantido por aparelhos, mas você está ou morto, ou vivo. Não existem graus de morte.
De fato, quando a Bíblia descreve a depravação humana, normalmente utiliza a linguagem da morte espiritual.
Efésios 2, por exemplo, diz que as pessoas em seu estado decaído estão mortas em delitos e pecados – espiritualmente mortos (v. 1). Eles andam em mundanismo e desobediência (v. 2). Eles vivem segundo as inclinações da carne, enquanto "fazendo a vontade da carne e dos pensamentos" e são, "por natureza, filhos da ira, como também os demais" (v. 3). Eles estão "sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo" (v. 12).
"A depravação humana é "total" da mesma forma que a morte é total. Você não pode estar parcialmente morto."
Em Romanos 8:6, Paulo diz que "o pendor da carne dá para a morte". Ele está falando sobre a mentalidade carnal da incredulidade, descrevendo o que significa ser totalmente depravado. Ele segue adiante dizendo (v. 7-8): "O pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus."
Em outras palavras, a morte espiritual é uma total inabilidade de amar a Deus, uma total inabilidade em obedecê-lO, e uma absoluta incapacidade de agradá-lO.
Ora, muitos não-cristãos negarão que eles são hostis a Deus. Mas eles estão se auto-iludindo. Na verdade, muitos que invocam o nome de Cristo e reivindicam amar a Deus não amam, de fato, o Deus da Bíblia. Eles amam um deus que só existe na imaginação deles – um deus tolerante, profano, passivo, frágil e fraco. Esse não é o Deus da Bíblia. O Deus da Bíblia é santo demais para o gosto dos pecadores. Ele é irado demais contra pecado. Os Seus padrões são por demais elevados. As Suas leis não estão de acordo com a preferência deles. Portanto, apesar deles professarem amar a Deus, não amam o verdadeiro Deus que se revelou nas Escrituras. Eles não são capazes de amá-lO.
A incapacidade de amar a Deus como devemos é a própria essência da depravação total. Ela torna-nos impotentes para cumprir o primeiro e grande mandamento: "Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força" (Marcos 12:30)". Portanto, tudo o que o pecador faz é permeado pelo pecado, porque ele está vivendo a vida em violação constante do mandamento mais importante de todos.
Por outro lado, "depravação total" não significa que todos os pecadores sempre são tão ruins quanto podem ser. Não significa que todo incrédulo viverá a sua depravação integralmente. Não significa que todos os não-cristãos são moralmente iguais a animais irracionais ou serial killers. Não significa que pessoas de não-convertidas são incapazes de cometer atos de bondade ou benevolência para com outros seres humanos. Na verdade o próprio Jesus declarou que os incrédulos fazem bem às pessoas em troca do bem que é feito a eles próprios (Lucas 6:33).
A raça humana foi criada à imagem de Deus. Embora o pecado tenha corrompido aquela imagem, até mesmo não-cristãos são capazes de subir a altos níveis de bondade humana, honestidade, decência e excelência. Depravação "total" não significa que toda mulher não salva deve ser uma terrível bruxa, ou que todo homem não-crente é um psicopata degenerado. Significa que incrédulos, aqueles que estão na carne, não podem agradar a Deus.
"Assim a palavra "total" em "depravação total" refere-se à extensão da nossa pecaminosidade e não ao grau em que nós a manifestamos."
Assim a palavra "total" em "depravação total" refere-se à extensão da nossa pecaminosidade e não ao grau em que nós a manifestamos. Significa que o mal contaminou todos os aspectos do nosso ser – nossa vontade, nosso intelecto, nossas emoções, nossa consciência, nossa personalidade, e nossos desejos.
Usando terminologia bíblica, o pecado corrompeu totalmente o coração humano. Jeremias 17:9 diz, "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?" Se o coração é corrupto, toda a pessoa está contaminada.
Descrevendo nossa depravação como corrupção do coração, as Escrituras deixam claro que o real problema conosco encontra-se no centro do nosso ser. Nossa própria alma é infectada pelo pecado. Nada em nós permanece puro. Nossa tendência para pecar é inflexível e, no final das contas, inconquistável. O pecado, então, define quem nós somos.
Diante de um Deus perfeitamente santo e impecavelmente íntegro nós somos profanos, pecadores, completamente degenerados – não importando quão bons aparentemente sejamos em termos humanos. Ser verdadeiramente íntegros não é meramente difícil para nós; é impossível.
Isso é tão verdade sobre alguém como Mahatma Gandhi ou Madre Teresa como é sobre Adolph Hitler ou Jeffrey Dahmer*. A relativa bondade das melhores pessoas do mundo nunca é suficiente para merecer a aprovação de Deus. Seu único padrão é a perfeição absoluta. O melhor dos pecadores não chega nem perto.
Vejamos uma ilustração: suponhamos que todos os leitores de Pyromaniacs fossem enfileirados em Point Dume (a praia mais próxima da minha casa), e todos nós tentássemos nadar até Cingapura. A maioria de nós provavelmente se afogaria antes de atingir Catalina – que fica apenas a 42 quilômetros. Uma coisa é certa: Ninguém chegaria a Cingapura. Todos nós estaríamos mortos muito antes da meta ser atingida. Se eu fosse um jogador (e eu não sou) eu apostaria tudo o que tenho que ninguém chegaria até mesmo até o Havaí, que fica a menos da metade do caminho.
Uma pergunta: Será que aqueles que morreram antes de nadar duas milhas são piores do que aqueles que morreram a trinta e sete quilômetros da praia? É claro que não. Todos estariam igualmente mortos. A meta era tão desesperadora para o nadador especializado e ultra-treinado, como para o sujeito gordo que fez seu treinamento sentado em frente a um computador escrevendo em seu blog o dia inteiro.
"As pessoas estão preparadas para serem chamadas de pecadoras no seu pecado, mas elas não querem ser rotuladas de pecadoras na sua religião."
É assim que as coisas são com o pecado. Todos os pecadores estão condenados diante de Deus. Até mesmo os melhores da descendência de Adão são completamente pecadores no coração. Não importa quão bons eles possam parecer pela lente do julgamento humano, eles estão exatamente na mesma condição desesperadora do mais vil degenerado – talvez até em um estado pior, porque é mais difícil para eles reconhecerem o seu pecado. De forma que eles combinam o seu pecado com a auto-justificação.
As pessoas estão preparadas para serem chamadas de pecadoras no seu pecado, mas elas não querem ser rotuladas de pecadoras na sua religião. Mas isso é crucial: A religião humana não contradiz a depravação. Ela a confirma e prova. A religião humana coloca outros deuses no lugar legítimo do verdadeiro Deus. É a própria essência do ódio a Deus. É falsa adoração. Nada além de uma tentativa de depor o próprio Deus. É a pior expressão da depravação.
Lembrem-se: Foram os fariseus que Jesus condenou com a injúria mais severa que Ele jamais proferiu. Por quê? Afinal de contas, eles acreditavam que as Escrituras eram literalmente verdade. Eles tentavam obedecer rigidamente a lei. Eles não eram como os Saduceus, liberais religiosos que negavam o sobrenatural. Eles eram os fundamentalistas teológicos dos seus dias.
Entretanto, eles se recusaram a reconhecer a falência dos seus próprios corações. Eles confiaram em si mesmos de que eram íntegros e continuaram a tentar estabelecer a sua própria retidão, em vez de submeterem-se à retidão de Deus (Romanos 10:3). Lembram-se do que eles disseram ao cego de nascença em João 9:34? "Tu és nascido todo em pecado" - como se eles não fossem.
Em outras palavras, eles rejeitaram a doutrina da depravação total, e isso conduziu à sua absoluta condenação. Jesus disse: "Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores" (Marcos 2:17). "Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido" (Lucas 19:10).
Eles pensavam que todas as suas boas obras os tornavam justos. Mas religião e boas obras não cancelam a depravação. A depravação corrompe até as formas mais elevadas de religião e boas obras. George Whitefield disse que Deus poderia nos condenar pela melhor oração que nós pudéssemos fazer. John Bunyan concordou. Ele disse que achava que a melhor oração que ele já tivesse feito tinha pecado suficiente nela para condenar o mundo inteiro. Isaías escreveu: "Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arrebatam" (Isaías 64:6).
Pecadores não remidos são, portanto, incapazes de fazer qualquer coisa que agrade a Deus. Eles não podem amar o Deus que se revela nas Escrituras. Eles não podem obedecer à lei de coração, com uma motivação pura. Eles não podem sequer compreender a essência da verdade espiritual. Primeira Coríntios 2:14 diz: "O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente". Incrédulos são, portanto, incapazes de ter fé. E "sem fé é impossível agradar a Deus" (Hebreus 11:6).
Notem: A palavra chave em tudo isso é incapacidade. Pecadores são totalmente incapazes de responder a Deus, à parte da Sua graça capacitadora.
Este é o ponto de partida para um entendimento saudável e bíblico da soteriologia.
Maus até os Ossos
Maus até os Ossos -
As Escrituras são muito claras e consistentes em seu ensino de que nós nascemos em um estado de pecaminosidade, culpa, e morte espiritual. Quando verdadeiramente compreendemos nosso estado decaído, podemos ver imediatamente que o nosso próprio pecado é um dilema moral e espiritual do qual somos totalmente incapazes de nos desembaraçar.
Paulo disse aos cristãos de Eféso: "estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais" (Efésios 2:1-3). Os "demais" de que ele fala é todo o mundo. Esse é o estado de toda pessoa que entra neste mundo. O apóstolo estava descrevendo os efeitos espirituais da nossa natureza humana decaída.
"A propósito, a doutrina da "depravação total" não foi inventada por Calvino. É uma doutrina bíblica."
Observem de perto o que ele diz ali: Toda pessoa não regenerada está espiritualmente morta, andando de acordo com Satanás, sendo por natureza filha da ira. Nós nascemos neste mundo como completos pecadores - não simplesmente um pouco manchado pelo pecado, mas completamente, desesperadamente, em escravidão a ele. Todo aspecto de nosso ser - mente, emoções, desejos, e até mesmo nossa constituição física - é corrompido, controlado, e desfigurado pelo pecado e seus efeitos. Ninguém escapa desse veredicto. Nós somos totalmente depravados.
A propósito, a doutrina da "depravação total" não foi inventada por Calvino. É uma doutrina bíblica. Ela também foi teologia cristã ortodoxa padrão, expressamente afirmada por todo o cristianismo dominante por mais de mil anos antes da Reforma, da controvérsia pelagiana em diante. Portanto não descarte a depravação total como sendo meramente uma novidade da época da Reforma, peculiar ao dogma calvinista. Não é.
"Eu não cedo nenhum terreno àqueles que querem diluir a soberania de Deus ou a inabilidade do pecador. Fazer isso é corromper o evangelho desde o seu ponto de partida."
Por outro lado, se você verdadeiramente entender a doutrina da depravação, você terá visto a verdade que está no coração da ênfase do calvinismo. É por isso que nós damos ênfase à graça divina em vez da livre vontade humana como o principal fator na nossa salvação. E eu não me desculpo por ser enfático quanto a isto: as Escrituras ensinam claramente que Deus é totalmente soberano, e os pecadores são totalmente impotentes para se salvarem. Uma vez que você compreende essas verdades da forma como a Bíblia as apresenta, você terá abraçado o próprio coração do que é comumente chamado de calvinismo. Esta ênfase dual na depravação humana e na necessidade da graça soberana de Deus na salvação dos pecadores também é a base de toda a verdade que pode ser chamada legitimamente de "evangélica". Eu não cedo nenhum terreno àqueles que querem diluir a soberania de Deus ou a inabilidade do pecador. Fazer isso é corromper o evangelho desde o seu ponto de partida.
Nesta série de artigos, pretendo considerar quatro das perguntas mais difíceis sobre a doutrina da depravação com respostas claras e bíblicas:
1. Em que sentido a depravação é total?
2. Como podemos ser responsabilizados por nossa própria inabilidade?
3. Como herdamos a pecaminosidade de Adão?
4. Há algum antídoto para a depravação humana?
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