sábado, 3 de fevereiro de 2018

O Acróstico TULIP:

Introdução:
Em 1618, um sínodo eclesiástico reuniu-se em Dort, na Holanda, para definir os pontos principais da igreja reformada no tocante à doutrina bíblica acerca da salvação. Isso ocorreu devido a certas novidades teológicas, propostas por Jacó Armínio, que estavam tumultuando o contexto reformado e afastando alguns do ensino paulino defendido desde os dias da Reforma Protestante.
Para deixar bem claro e definido o que a igreja reformada cria, ensinava e defendia, o Sínodo de Dort fixou cinco pontos que ficaram conhecidos como Os cinco pontos do calvinismo. São eles:
1. Depravação total
2. Eleição incondicional
3. Expiação limitada
4. Graça irresistível
5. Perseverança dos santos
Em inglês, as iniciais dessa lista formam o acróstico “TULIP”, o nome de uma flor (em português, tulipa). Por isso, a figura da tulipa ficou associada à fé calvinista e, de vez em quando, a gente vê imagens dessa flor em sites, artigos e livros que defendem a doutrina reformada.
  Não somos calvinistas no sentido técnico e pleno da palavra (pois não somos aliancistas), mas somos calvinistas na nossa soteriologia, adotando os pontos fixados em Dort. O fato de sermos calvinistas num contexto teológico tão antropocêntrico ou  humanista  (que coloca o homem no centro ou exalta o ser humano) e tão reducionista na sua visão de Deus cria certos problemas. Muita gente se opõe aos nossos ensinos, pervertendo-os, alegando que dizemos coisas que nunca dissemos, torcendo o significado de versículos que embasam nossa fé e até negando a validade e a inerrância da Bíblia nas partes que mostram que estamos no caminho certo.
Há, porém, pessoas que são realmente sinceras no seu desejo de conhecer a antiga fé dos reformadores. Muitos, lendo a Bíblia com o coração aberto, ficam impactados com as doutrinas que foram ensinadas não somente por Calvino — mas por Agostinho, Gotescalco, Tomás de Aquino, João Huss, Guilherme de Occam, John Wyclif, Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio, John Owen, Jonathan Edwards, George Whitefield, Charles Spurgeon e Abraão Kuyper (para citar somente alguns) — e entram em contato conosco para fazer perguntas sobre a “tulipa” dentre outros assuntos. É com o intuito de ajudar um pouco essas pessoas que escrevo este texto.
Nas seções seguintes, quero expor as cinco tocantes verdades da Tulipa. Então, todos poderão entender melhor as maravilhosas dimensões da soteriologia bíblica e, com razões muito mais sólidas, louvar a Deus por sua imensa graça.

A depravação total
Os teólogos dizem que as cinco verdades da Tulipa estão interligadas, de forma que a segunda decorre da primeira; a terceira, decorre da segunda; e assim por diante. Eles estão certos. De fato, os cinco pontos fixados em Dort compõem um sistema unificado e interdependente. Se um ponto for aceito, será muito difícil se livrar dos demais.
É por isso que os oponentes da Tulipa fazem de tudo para desacreditar o primeiro ponto de Dort, A depravação total. De acordo com esse ponto, o pecado afetou a totalidade da natureza humana, cada aspecto dela, não havendo nada que o homem, de si mesmo, consiga fazer para obter o favor divino.
Calvino disse que “todos os homens são concebidos em pecado e nascem como filhos da ira, indispostos a qualquer bem salvífico, com propensão para o mal, mortos no pecado e escravos da iniquidade; e, sem a graça regeneradora do Espírito Santo, eles não querem nem são capazes de se voltar para Deus, de corrigir sua natureza depravada ou mesmo de se disporem a isso”.
A base bíblica para essa doutrina é ampla: Gênesis 6.5; Salmos 51.5; Jeremias 17.9; João 8.43; 15.4,5; Romanos 3.10-18; 1Coríntios 1.18; 2.14; 12.3; 2Coríntios 3.14-16; Efésios 2.1-3; 4.17-18, etc. É por causa desse grau de depravação que o homem depende da iniciativa de Deus para ser salvo (Mt 11.27; Jo 1.13; 6.37,44,65; At 16.14).
Conforme dito, os que se insurgem contra a soteriologia reformada sabem que, se a doutrina da depravação total for acolhida, todo o sistema também terá de ser aceito. Por outro lado, se esse ponto for destruído, todo o edifício da soteriologia reformada ruirá.
No meio evangélico, os maiores inimigos da Tulipa são chamados arminianos, uma designação que vem de Jacó Armínio, teólogo que se insurgiu contra alguns elementos da doutrina ensinada pela igreja reformada da Holanda. No Brasil, o arminianismo não reflete com precisão as ideias de Armínio. Na verdade, a maior parte dos arminianos que conhecemos se define assim somente porque não se simpatiza com a doutrina bíblica da eleição. A maioria deles nunca leu nada sobre Armínio, nem jamais compreendeu a totalidade da sua doutrina. O que fazem é apenas adotar o título “arminiano” de forma intuitiva, como se fosse uma palavra que significa “alguém que não acredita na predestinação”.
Isso torna o arminianismo brasileiro uma espécie de pelagianismo (doutrina que prega a salvação à parte da ação graciosa de Deus), mesclado com ideias liberais (como a negação da inerrância bíblica especialmente nas partes em que a Escritura fala do controle absoluto de Deus sobre todas as coisas), marcado por extremado humanismo (a vontade humana é livre e soberana, capaz de gerar fé salvífica) e por um conceito reducionista de Deus (Deus abriu mão de sua soberania por “respeito” ao homem. Muitos arminianos dizem que Deus também abriu mão de sua presciência!).
Se Armínio soubesse o que hoje pregam em nome dele, certamente se reviraria em seu túmulo. Tendo formação calvinista, ele rejeitava frontalmente o pelagianismo pregado hoje em dia sob a capa do seu nome. Prova disso, é que ele aceitava a primeira verdade da Tulipa, a depravação total. Ele cria, assim, que o ser humano, em si mesmo, é alguém totalmente destituído de qualquer capacidade de buscar a Deus. Armínio escreveu em sua Declaração de sentimentos:  
Em seu estado pecaminoso e caído, o homem não é capaz de, e por si mesmo, quer seja pensar, querer ou fazer o que é, de fato, bom; mas é necessário que seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade e em todas as suas atribuições, por Deus, em Cristo, através do Espírito Santo, para que seja capaz de corretamente compreender, estimar, considerar, desejar e realizar o que quer que seja verdadeiramente bom.
O problema de Armínio estava na solução que dava para esse problema. Ele propôs um novo conceito da “graça preveniente”, dizendo que, por ela, todo o ser humano (ou toda pessoa que é evangelizada) tem seu livre arbítrio restaurado, podendo então aceitar Cristo por decisão própria, sem a necessidade da graça especial irresistível (quarto ponto da Tulipa). É impossível achar na Bíblia esse conceito de “graça preveniente” ou “graça capacitadora” dada a todo ser humano ou dada a todos que são evangelizados. Aliás, na Bíblia se encontra exatamente o oposto disso, ou seja, Deus endurecendo ainda mais o coração de muitas pessoas para que não creiam (Êx 9.12; Is 6.10; 63.17; Rm 9.18; 11.7 2Ts 2.11).
Bom, em termos práticos quais são os efeitos de se aceitar ou não a doutrina da depravação total? Pessoalmente, eu acredito que isso cause impacto no campo da devoção pessoal, no campo da realização ministerial e no campo da liturgia. Eu explico: no campo da devoção pessoal, o crente que entende a doutrina da depravação total se torna mais humilde e grato por sua salvação, entendendo melhor o quanto Deus foi gracioso com ele. Ele será incapaz de se orgulhar por ter “aceitado a Cristo”, sabendo que era incapaz de qualquer coisa e que, se um dia creu, isso foi graças ao grande poder e graça do Salvador.
No campo da realização ministerial, o ministro terá descanso. Ele saberá que as conversões não dependem de sua retórica ou talento e, por isso, não cansará as pessoas com apelos infindáveis para que “tomem uma decisão”. Também não se orgulhará quando conduzir pessoas a Cristo. Antes, saberá que todos os frutos que vê em seu ministério são obra de Deus e que, considerando a depravação do homem, ninguém daria atenção às suas pregações se o Senhor não atuasse de modo poderoso nos ouvintes.
Finalmente, no campo litúrgico, a igreja que entender a doutrina da depravação total não investirá em projetos de “multiplicação” adotando estratégias de marketing barato (festas, diversão, atrações artísticas) para “conquistar almas”, fazendo de tudo para convencê-las a usar o “livre-arbítrio” e crer. Antes, dará mais valor à pregação e à súplica, sabendo que só pelo poder de Deus a dureza humana pode ser rompida.

A eleição incondicional
Conforme dito anteriormente, as cinco verdades da Tulipa estão interligadas de forma que, se você rejeitar a primeira, terá de rejeitar a segunda, e assim por diante. Pois bem, até o século 18, seria muito difícil encontrar um protestante que negasse o primeiro ponto da fé reformada, ou seja, a depravação total. Todos os reformadores tinham ensinado que o pecado havia afetado gravemente cada faculdade humana e os crentes viam isso claramente nas Escrituras. Consequentemente, a grande maioria dos crentes desde a época da Reforma (século 16) também aceitava a eleição incondicional, pois, se o homem era incapaz de se mover na direção de Deus, então a única saída era Deus tomar a iniciativa e se mover na direção do homem, quebrando seu coração endurecido. Por que Deus fazia isso somente com alguns e não com todos? A resposta estava mais uma vez na Bíblia: Deus tinha seus eleitos!
Ocorreu, porém, que os avanços científicos e tecnológicos dos séculos 18 e 19 criaram um ambiente intensamente otimista em relação ao homem e também fortemente cético em relação aos dogmas da Bíblia. Nesse contexto, várias doutrinas consagradas da fé cristã foram negadas — inclusive por pastores e teólogos (os chamados teólogos liberais). Entre essas, uma que foi totalmente repudiada foi a doutrina do pecado original, a qual destacava a realidade da depravação total. Rejeitando essa doutrina, as igrejas passaram a ver o pecador como alguém capaz de tudo, inclusive de, por si mesmo, produzir a fé salvífica no próprio coração, bastando apenas que decidisse fazê-lo. É claro que, rejeitando a depravação total, os crentes, a partir de então, rejeitaram também a doutrina da eleição, ou a reinterpretaram de forma que preservassem seu conceito positivo do homem.
A partir daí, muitas pessoas viram nas ideias de Armínio uma opção atraente. Seu conceito de um livre-arbítrio resgatado pela “graça preveniente” e suas ideias de uma eleição baseada naquilo que Deus antevê no homem se encaixavam melhor dentro do ambiente humanista que passou a reinar.
É por causa de todo esse processo iniciado no século 18 — um processo racionalista/humanista — que grande parte das igrejas evangélicas de hoje é liberal ou arminiana. Aliás, muitos liberais são também arminianos (são os arminianos da mente, em contraste com os arminianos do coração), dizendo que o homem tem as faculdades livres (ênfase arminiana) e negando a depravação total como uma ideia decorrente do “mito” da Queda (ênfase liberal).
Conforme já foi destacado, sem a doutrina da depravação total, a verdade da eleição incondicional cai por terra. No modelo arminiano, o homem, tendo as faculdades livres dos efeitos do pecado pela ação da “graça preveniente”, é capaz de ele próprio eleger Deus. No fim das contas, a eleição deixa de ser um ato divino em favor do homem e passa a ser um ato humano em favor de Deus! Sem a doutrina da depravação total nasce a doutrina da inversão total!
A verdade, porém, é que não existe nenhuma graça preveniente livrando todas as pessoas das limitações impostas pelo pecado, como Armínio acreditava. O coração humano permanece corrupto e está morto para as coisas de Deus, sendo incapaz de buscá-lo, amá-lo ou desejá-lo. Para que isso mude, é necessária a ação sobrenatural da graça de Deus. E essa graça não atua sobre todos como pensam os arminianos. Atua somente nos eleitos. Estes foram escolhidos sem que Deus visse neles mérito algum (por isso, a eleição é chamada “incondicional”), tudo com base apenas na “determinação e graça” (2Tm 1.9) “daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).
Essa doutrina tem um vasto fundamento bíblico. Jesus afirmou que tinha um povo disperso que lhe pertencia e que ele reuniria esse povo, chamando cada integrante dele pelo nome (Mt 24.31; Jo 10.3,16; Jo 11.51-52). Ele disse ainda que esses escolhidos eram poucos (Mt 22.14), mas que eles seriam preservados e protegidos do engano (Mt 24.22,24) e que Deus um dia faria justiça a eles (Lc 18.7).
O livro de Atos também fala sobre os eleitos dizendo que Deus tinha pessoas que lhe pertenciam nas cidades gentílicas e que essas pessoas ouviriam a pregação dos apóstolos (At 18.9-10). Em Atos é dito ainda que os que criam no evangelho eram pessoas que tinham sido destinadas para a vida eterna (At 13.48).
Paulo é quem mais escreve sobre a doutrina da eleição (Rm 8.29-30; Ef 1.4-5,11), dizendo que essa doutrina realça a soberania de um Deus que tem autoridade de fazer o que quiser com quem quiser (Rm 9.14-18), não tendo o homem o direito de questionar suas ações (Rm 9.19-21). Paulo diz ainda que é graças à eleição que Deus preserva um remanescente fiel a ele (Rm 11.1-5) e que esses escolhidos não podem ser alvos de nenhuma acusação (Rm 8.33). Segundo o apóstolo, a fé salvadora pertence somente aos eleitos (1Ts 1.4-6; Tt 1.1), sendo certo que Deus incluiu no número de escolhidos muitas pessoas simples a fim de humilhar a ilusória grandeza do mundo e ninguém se gloriar diante dele (1Co 1.27-29. Ver tb. Tg 2.5).
Todas essas evidências tornam inegável a eleição de Deus e os crentes não devem se insurgir contra ela, como faz a corrompida igreja atual. Em vez disso, o cristão deve se curvar em gratidão, sabendo que foi salvo não por ter percepções espirituais melhores, mas porque Deus, sem ver nele atrativo algum, o escolheu soberanamente.
Muitos arminianos tentam se livrar da doutrina da eleição incondicional, afirmando a eleição condicional.Eles dizem que a eleição é uma realidade bíblica, mas que está condicionada à previsão da fé. Trocando em miúdos: Deus elegeu sim, mas ele fez isso porque previu de antemão a fé de alguns. Essa ideia tenta buscar fundamentos na expressão “os que de antemão conheceu”, presente em Romanos 8.29. Essa frase, porém, não significa “aqueles em quem Deus anteviu a fé”, mas sim “aqueles a quem Deus decidiu de antemão mostrar seu favor” (veja o mesmo sentido em Rm 11.2). Note ainda que, de acordo com 1Pedro 1.20, conhecer de antemão não é somente saber o que vai acontecer, mas sim saber o que foi decretado que vai acontecer.
Outro texto que os arminianos usam na defesa da eleição condicional é 1Pedro 1.2, que diz que os crentes foram eleitos “segundo a presciência de Deus”. Contudo, a preposição grega usada nesse versículo (katá) não permite o entendimento de que as pessoas foram eleitas por causa da presciência de Deus, mas sim que Deus, de conformidade com sua presciência, sabia desde o início a quem iria salvar.
Tudo isso realça o antigo princípio paulino de que a eleição teve como causa “aquele que chama” (Rm 9.11) e não aqueles que são chamados, destacando fortemente que o decreto eletivo do Senhor se fundamentou unicamente no “beneplácito de sua vontade” (Ef 1.5,11) e não em virtudes que porventura tenha antevisto em alguns. Isso também destaca a gratuidade completa da eleição, pois mostra que ela não foi uma retribuição pelo bem que Deus supostamente viu de antemão no eleito (o que ele, de fato, anteviu no eleito foi somente pecado e morte) e sim um ato de graça pura, verdadeiro favor imerecido.

A expiação limitada
A verdade da eleição incondicional conduz forçosamente à terceira “pétala” da TulipaA expiação limitada. A pergunta central ligada a esse ponto é a seguinte: se Deus tem seus eleitos, por quem então Cristo morreu? A resposta rápida e certeira é: pelos eleitos, é claro! No entanto, mesmo sendo isso tão óbvio, a terceira verdade da flor é a que mais tem causado divisões e conflitos até mesmo entre os teólogos reformados. Entre estes há muitos que afirmam a expiação ilimitada, posição também conhecida como universalismo hipotético. De acordo com essa concepção, Cristo morreu em benefício e em lugar de todos os indivíduos, mas sua morte só tem eficácia para os eleitos.
Os universalistas hipotéticos (ou calvinistas de quatro pontos) ensinam que Deus decretou que a expiação de Cristo fosse feita em favor de cada ser humano independente de crerem ou não, mas visto que ninguém tinha capacidade de crer (depravação total), Deus escolheu aqueles que iria salvar (eleição incondicional). Assim, a expiação permanece eficiente e suficiente para todos, mas eficaz somente para os eleitos.
O universalismo hipotético ganhou destaque graças ao trabalho de Moisés Amyraut (1596-1664), da Academia de Saumur, na França. Por isso, essa posição teológica é também chamada de amiraldismo ou amiraldianismo.
Ainda que pareça atraente à primeira vista, o calvinismo de quatro pontos esbarra em diversos problemas. Em primeiro lugar, o próprio Jesus disse que daria a sua vida “pelas ovelhas” (Jo 10.11,15). Disse ainda que muitas dessas ovelhas por quem ele morreria estavam espalhadas fora do aprisco de Israel, mas que elas afinal creriam nele e ele as agregaria (Jo 10.16). Depois, voltou-se para os judeus que o afrontavam e disse: “Vós não sois das minhas ovelhas”, excluindo-os desse grupo por quem ele morreria e um dia chamaria para si (Jo 10.26).
Jesus também disse que daria a sua vida em resgate de muitos (Mc 10.45) e, ao instituir a Ceia, repetiu essa verdade, declarando que o sangue da Nova Aliança seria derramado em favor de muitos, limitando o alvo de sua obra (Mt 26.28).
João, em seu evangelho, ao fazer alusão ao objetivo da morte de Cristo, disse que ele morreria para reunir “os filhos de Deus que andam dispersos” (Jo 11.51-52), ou seja, pelo bem de um grupo específico que estava espalhado pelo mundo e que ainda não tinha sido alcançado (Tt 2.14).
Paulo, por sua vez, quando falou aos presbíteros de Éfeso, disse que o sangue de Cristo serviu para comprar a igreja (At 20.28). Quando mais tarde escreveu à mesma igreja de Éfeso, o apóstolo realçou novamente que Cristo se entregou pela igreja (Ef 5.25). O Apocalipse aponta na mesma direção, dizendo que por sua morte Cristo não comprou todo mundo, mas sim certas pessoas espalhadas pelo mundo todo (Ap 5.9).
Outra questão que deve ser levada em conta é que a morte de Cristo teve um efeito retroativo, beneficiando pessoas do Antigo Testamento (AT), ou seja, indivíduos que já haviam morrido, como Abraão, Moisés e Davi, por exemplo (Rm 3.25; Hb 9.15). Assim, se Cristo morreu em lugar de cada ser humano, então ele morreu inclusive por pessoas do AT que já estavam no inferno — gente como Faraó, Jezabel e os inimigos de Daniel. Ora, que sentido haveria em Cristo dar a sua vida pelos pecados de pessoas irremediavelmente perdidas? Morrer pagando pela redenção do profeta Isaías faz sentido, mas morrer em favor dos homens de Sodoma teria algum propósito?
A doutrina da expiação limitada também tem de lidar com certas dificuldades oriundas de algumas passagens bíblicas. Por isso, na próxima seção, vamos dedicar umas poucas linhas para resolver essas questões.
Dificuldades
Os arminianos e os calvinistas de quatro pontos dizem que a doutrina da expiação limitada esbarra em textos bíblicos que dizem que Cristo morreu por todos ou pelo mundo inteiro. Alguns exemplos desses textos (com breves explicações calvinistas) são os seguintes:
2Coríntios 5.15 — Esse versículo diz que Cristo “morreu por todos”, sendo essa a base para o desafio de viver para ele. Os universalistas hipotéticos entendem que aqui a palavra “todos” se aplica a cada ser humano. No entanto, uma leitura mais ampla e atenta revelará que nesse texto o vocábulo “todos” se refere a todos os crentes. Essa palavra aparece também no v.14 (“todos morreram”), onde esse é o único sentido possível.
1Timóteo 2.6 — Nessa passagem, há o registro da frase que diz que Cristo se entregou “como resgate por todos”. Mais uma vez, os oponentes da teologia reformada entendem que aqui é ensinada a expiação ilimitada. Contudo, nessa passagem a palavra “todos” se refere a todos os tipos de pessoas — servos e senhores, ricos e pobres, judeus e gentios, etc. (veja os vv.1-2, onde somente esse sentido é possível).
De fato, a análise do contexto histórico dessa passagem mostra que Paulo estava muito preocupado em quebrar a ideia proposta pelo gnosticismo incipiente da época de que somente uma elite de homens tinha privilégios espirituais (1Tm 1.3-7). Daí sua afirmação de que Cristo morreu por todos os tipos de pessoas, anulando as distinções ensinadas pelos hereges (veja tb. Tt 2.11, onde o sentido é o mesmo. Aliás, logo a seguir, nessa passagem, o v.14 mostra o alvo limitado da expiação).
Hebreus 2.9 — Esse texto afirma que Jesus provou a morte “em favor de todos”. Será que isso comprova a doutrina da expiação ilimitada? É claro que não. Aqui a palavra “todos” se refere a judeus e gentios. Deve ser lembrado que a carta em questão foi escrita para cristãos judeus. Ora, no século 1 havia entre esses crentes a tendência a crer que somente pessoas da nação israelita seriam beneficiadas pela obra do Messias. Os cristãos hebreus não assimilaram de pronto a ideia de que o Cristo tinha vindo em benefício de todos os povos. Por isso, era necessária a afirmação de que o Messias havia morrido por todos (judeus e gentios), no afã de enfraquecer a noção de exclusivismo soteriológico israelita.
Ademais, nesse ponto é preciso lembrar que, na Bíblia, nem sempre é possível que a expressão “todo homem” e similares signifique cada indivíduo que vive no mundo. Veja, por exemplo, João 12.32, 1Coríntios 15.22 e Colossenses 1.28. Em todas essas passagens, as expressões “todos” e “todo homem” têm um sentido limitado. Isso de fato é muito óbvio!
2Pedro 3.9 — Segundo os arminianos, esse versículo ensina que Deus não quer que ninguém pereça. Logo, dizem, não existe eleição incondicional e Cristo só pode ter morrido por todos. No entanto, nessa passagem, Pedro fala do anseio do Senhor em relação aos crentes e não em relação a todos os seres humanos (observe o uso de “convosco”). Ocorre que, naqueles dias, os cristãos estavam se deixando influenciar pelo ensino de falsos mestres (ver 2Pe 2.1-22; 3.16) e isso os levaria a sofrer algum tipo de dano, caso fossem surpreendidos nessa condição por ocasião da vinda do Senhor (1Co 3.13-15; 1Jo 2.28). Por isso, Pedro alerta os cristãos, dizendo que o Senhor tardava sua vinda a fim de que eles se arrependessem, pois não queria que nenhum deles provasse qualquer tipo de castigo paterno (3.14). Aliás, é bom destacar que o termo usado por Pedro e traduzido como “pereça” (ARA) é apóllymi, que não implica necessariamente perdição eterna, mas qualquer forma de ruína, perda, dano ou prejuízo (veja Rm 14.15).
Além desses textos, existem aqueles que pertencem aos escritos joaninos (Evangelho de João; 1,2,3 João e Apocalipse). Nesses livros, os versículos mais citados contra a expiação limitada são João 3.16 e 1João 2.2. Os arminianos e os calvinistas de quatro pontos entendem que, nesses dois trechos, a palavra “mundo” significa cada ser humano que há na Terra e acreditam, com isso, derrubar a terceira pétala da Tulipa.
Contudo, nos escritos joaninos há vários textos que provam que o vocábulo “mundo” nem sempre (talvez nunca) pode significar cada indivíduo do planeta. Veja, por exemplo João 1.29; 6.33 e 16.8. Se nesses trechos o termo “mundo” abranger cada pessoa, então cairemos no universalismo, afirmando que todos os homens estão salvos, o que é um grande desvio doutrinário. Considere ainda 1João 5.19. Note que nessa passagem, o termo “mundo inteiro” está restrito em sua aplicação apenas aos incrédulos, sendo excluídos os salvos.
Como, então, deve ser interpretada a palavra “mundo” em João 3.16 e 1João 2.2? Nos escritos joaninos só existe um versículo que revela como o termo “mundo” deve ser entendido em textos como esses. Trata-se de Apocalipse 5.9. Esse é o único texto que mostra o que João tinha em mente quando dizia que Deus amou o mundo ou que Cristo é a propiciação pelos pecados do mundo. De fato, Apocalipse 5.9 indica que quando João falava assim, ele não pensava em cada indivíduo que vive aqui, mas sim em homens espalhados por “toda tribo, povo, língua e nação”.
Assim, quando a boa teologia afirma que Cristo se entregou pelo mundo, isso significa que ele morreu por homens que vivem no mundo todo e não por todos os homens que vivem no mundo. Percebeu a diferença? Foi por isso que Jesus disse que derramou o seu sangue em favor de “muitos” (e não todos — Mc 10.45; 14.24).

A graça irresistível
De todas as pétalas da Tulipa, essa é a que eu acho a mais notável e bonita. Trata-se do ponto da teologia reformada que mais mexe com a nossa memória, fazendo-nos lembrar daquele dia maravilhoso em que o Senhor nos chamou doce e mansamente pelo nosso próprio nome e, rompendo a dureza do nosso coração, nos atraiu para si (Jo 10.2-3).
Mesmo, porém, envolvendo realidades tão ricas e belas, a quarta pétala da nossa flor não fica livre dos ataques da teologia humanista que reina no meio evangélico. Por isso, antes de tudo, é preciso destacar o que a graça irresistível não é.
Em primeiro lugar, a graça irresistível não é uma violência contra a personalidade ou, mais especificamente, contra a vontade humana (já vi arminianos dizendo que a doutrina da graça irresistível ensina uma forma de estupro espiritual)! Outros dizem que ela transforma os salvos em marionetes. Para mim, essas afirmações beiram a blasfêmia). É claro que Deus não tem obrigação nenhuma de “respeitar” a vontade humana e ele, muitas vezes sendo o Senhor soberano, a “atropela” (os arminianos usam esse termo para criticar os calvinistas), sem que isso em nada diminua ou destrate a grandeza de seu caráter (veja, por exemplo, a história de Jonas, em que a vontade do profeta de ir para Társis foi “atropelada” por Deus. Veja tb. Is 43.13 e Dn 4.35).
Na maior parte das vezes, porém, não é assim que age a graça irresistível. Essa graça, constantemente, atua por meio do convencimento lento e paciente, algo que se processa frequentemente ao longo de anos — anos em que o Senhor busca o seu eleito em diferentes ocasiões, fala com ele aos poucos (por muitas e variadas formas), trabalha lentamente em seu coração e o persuade, enfim, a segui-lo.
Obviamente, há casos em que Deus age com vigor maior (veja como foi com Paulo, em At 9.3-5), mas mesmo nessas ocasiões, o Senhor atua na vontade humana, fazendo com que a pessoa creia nele e queira segui-lo. O fato é que ninguém se torna discípulo de Jesus “pela orelha”. Todas as suas ovelhas quiseram e querem segui-lo. A questão não é essa. A questão é como, estando espiritualmente mortas (depravação total), essas pessoas desejaram um dia segui-lo. E a resposta é simples: a graça irresistível de Deus atuou nelas.
Em segundo lugar, a graça irresistível não é do tipo que nunca é resistida. Já vi arminianos dizerem absurdos do tipo: “Eu não creio na doutrina da graça irresistível porque eu mesmo resisti muito tempo antes de crer”. A pessoa que diz isso prova o que todos os calvinistas já sabem sobre o arminianismo moderno: é um modelo que critica o calvinismo sem saber o que ele ensina. Na verdade, a teologia reformada jamais negou que a graça salvadora de Deus pode ser resistida. O que o modelo reformado diz é que essa graça não pode ser resistida para sempre. Veja o exemplo de Paulo. O Senhor lhe disse: “Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões” (At 26.14). Essa frase talvez indique que Paulo estava sendo incomodado por Jesus já havia algum tempo, mas se recusava a se curvar. No fim, porém, o Senhor o derrubou (literalmente!) e a graça se mostrou então não somente salvadora, mas também vencedora.
Outras histórias além da de Paulo provam que a graça irresistível pode ser resistida por algum tempo, mas sai vitoriosa ao final, convencendo, humilhando, quebrantando e fazendo o indivíduo desejar o Salvador. Entre essas histórias, talvez  possa acrescentar a sua própria, lembrando a forma especial, amorosa e paciente com que o Senhor, talvez ao longo de um lento processo, o buscou e o convenceu a segui-lo de todo o coração.
Tendo mostrado um pouco do que a graça irresistível não é, vamos agora ver o que ela é. Essa graça, quando em operação, é também denominada “chamado eficaz”, pois trata-se de uma vocação divina para a fé que, conforme vimos, no fim sempre sai vitoriosa. O chamado eficaz é diferente do chamado geral. Este é dirigido a todos os que ouvem o evangelho, enquanto aquele só é dirigido aos eleitos.
Por exemplo: veja o caso de Lídia, em Atos 16.13-14. Enquanto escutavam a pregação dos apóstolos, todas as mulheres ali ouviram o chamado geral (o convite dos pregadores a crer no evangelho), mas somente Lídia ouviu o chamado eficaz (o Senhor lhe abriu o coração). Note a diferença: o primeiro chamado (o geral) alcançou todas; já o segundo (o chamado eficaz) só alcançou Lídia. Outro exemplo pode ser visto em Atos 13.46-48. Esse texto mostra que Paulo e Barnabé começaram a pregar para todos os gentios (chamado geral), mas creram somente os que haviam sido designados para a vida eterna (graça especial ou chamado eficaz). Foi por causa dessas realidades que Jesus disse em Mateus 22.14 que muitos são chamados (ouvindo o convite geral do evangelho), mas poucos são escolhidos (para atender o chamado de Deus). Esses “escolhidos” são aqueles que a eleição divina separou, de maneira que Deus atua neles de forma especial, conduzindo-os à fé.
Outros textos bíblicos que falam da graça irresistível são os seguintes:
João 6.37 — Nessa passagem, Jesus diz que aqueles que o Pai lhe dá irão até ele. Isso mostra que só podem ir a Cristo as pessoas que são sobrenaturalmente dirigidas pelo Pai. Ninguém pode ir por si mesmo, sem que Deus o capacite (veja os vv. 44 e 65). É a essa condução e capacitação de Deus que chamamos de graça irresistível.
João 10.16 — Esse versículo mostra que Jesus tem seus escolhidos espalhados pelo mundo e que, no tempo devido, ele os chama individualmente (veja os vv.2-3). Quando isso acontece, essas pessoas ouvem a sua voz e o seguem numa nova vida de comunhão e conhecimento de Deus (veja Mt 11.27).
Romanos 8.30 — Aqui Paulo diz que aqueles que Deus predestinou, a estes também chamou, justificando-os a seguir. Obviamente, trata-se de um chamado especial, dirigido somente aos que Deus predestinou. O chamado de que se trata nessa passagem é eficaz, pois é seguido pela justificação.
1Coríntios 1.26-29 — É clara aqui a alusão que Paulo faz à vocação especial de Deus. Ele estimula os coríntios a aprender algo sobre essa vocação observando os crentes em geral (os que “Deus escolheu”, vv.27-28). Ele afirma que Deus chamou de forma eficaz um número grande de “fracos”. Em contrapartida, essa chamada eficaz atuou num número pequeno de “poderosos”. O apóstolo ensina que a vocação salvífica foi administrada dessa forma para que a sabedoria do mundo fosse humilhada e ninguém se orgulhasse achando que foi salvo por algum mérito pessoal (veja Mt 11.25-26).
A doutrina da graça irresistível torna a flor reformada ainda mais linda, gerando humildade e gratidão no homem salvo, pois este saberá que creu não por ser mais inteligente ou apto, mas porque Deus agiu de modo sobrenatural em seu coração. E mais do que isso: essa doutrina remove também do “ganhador de almas” toda a base para o orgulho, mostrando a ele que, caso tenha algum sucesso em sua obra evangelística, isso será fruto da graça irresistível e do chamado eficaz de Deus, nunca dos seus talentos ou habilidades pessoais. Assim, o evangelista reformado dirá como Paulo: “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.6-7).

A perseverança dos santos
Chegamos ao último ponto da soteriologia reformada. Aqui, os oponentes do calvinismo se dividem. Muitos (especialmente entre os batistas) rejeitam os demais pontos, mas adotam esse. Outros rejeitam esse também (por exemplo, os assembleianos), dizendo que o crente tem de tomar muito cuidado para não perder a salvação. No cômputo geral, porém, a maioria dos arminianos acredita que o crente pode sim perder a condição de filho de Deus e herdeiro do céu.
Armínio nunca foi contra a doutrina da perseverança dos santos. Na verdade, ele disse apenas que acerca desse assunto era necessária uma reflexão maior. Assim, os que negam essa doutrina são os arminianos posteriores, que tendem muito mais a centralizar no homem a responsabilidade por sua salvação.
A doutrina da perseverança dos santos é também chamada de doutrina da “preservação” dos santos e afirma que aqueles a quem Deus escolheu desde a eternidade e chamou de forma irresistível, ele também guarda da queda absoluta, sendo impossível que percam a salvação. Trata-se de um ensino que realça a segurança eterna dos salvos e fornece o fundamento teológico para a famosa fórmula: “Uma vez salvo, salvo para sempre”.
As bases bíblicas para a doutrina da perseverança dos santos são as seguintes:
João 6.39  Essa passagem afirma que a vontade do Pai é que Jesus não perca nenhuma pessoa que ele lhe entregou. Jesus garante que realizará essa vontade, ressuscitando no último dia todos aqueles que o Pai lhe deu e que, assim, creram nele (veja tb. o vv.40 e 44).
João 10.27-29  Nesse texto, Jesus afirma que dá a vida eterna às suas ovelhas e que elas não podem perecer. Ele diz ainda que suas ovelhas estão em suas mãos e nas mãos do Pai, sendo que nada pode arrebatá-las dessas mãos.
Romanos 8.29-30,33-35,38-39 — Esses versículos indicam que aqueles que Deus predestinou serão fatalmente glorificados. Também destacam que os eleitos do Senhor estão acima de qualquer acusação e que absolutamente nada no universo visível e invisível pode separar essas pessoas do amor de Deus.
1Coríntios 3.15 — Esse texto ensina que, no dia do Tribunal de Cristo, até mesmo os crentes que o serviram mal serão salvos, deixando apenas de receber galardão.
1Coríntios 5.1-5 — Aqui Paulo fala de um crente que fornicava com a mulher do seu próprio pai. O apóstolo diz que esse homem devia ser expulso da igreja e afirma que, mesmo assim, ele seria salvo no dia do Senhor.
Efésios 1.13-14 — Nessa passagem, Paulo fala que os crentes foram selados com o Espírito Santo da promessa e que esse selo é a garantia da sua herança até o dia da redenção (Ef 4.30).
1Coríntios 1.7-8, Filipenses 1.6, 1Tessalonicenses 5.23-24, 1Pedro 1.5; 5.10 e Judas 24-25 — Todos esses textos ensinam que é o próprio Deus quem firma o crente e o preserva em fidelidade até o último dia, sendo a perseverança dos santos uma obra dele operada em seus eleitos.
Mesmo diante de textos tão claros, os arminianos atacam ferozmente a doutrina da segurança eterna dos salvos. Geralmente, eles fazem isso alegando que esse ensino estimula o pecado e a lassidão espiritual. Segundo os arminianos, o crente que acreditar que a salvação não pode ser perdida, não terá temor de Deus e viverá fazendo o que bem entende, sob a falsa segurança de que, de um modo ou de outro, irá para o céu.
Essas alegações, porém, decorrem da ideia nutrida pelos arminianos de que a fé salvadora é uma mera reação humana ao evangelho. Sabe-se, contudo, que, conforme já visto, a fé que salva é uma obra sobrenatural na vida daqueles que Deus escolheu. Essa fé sobrenatural é poderosamente transformadora e santificadora, sendo impossível que aquele que a tem viva continuamente no pecado, se revolvendo alegre na podridão deste mundo (1Jo 2.4,19). Decididamente, os que atacam a doutrina da perseverança dos santos com essas alegações não compreenderam o caráter transformador e renovador da fé salvífica (1Jo 5.4-5).
Os inimigos da preservação eterna dos santos também tentam basear suas ideias em alguns textos bíblicos. Na próxima seção, vamos analisar brevemente esses textos.
Dificuldades
Num cenário evangélico dominado por uma forma de arminianismo rasa e ingênua, é natural que existam ataques à doutrina da preservação dos santos. Muitas vezes, esses ataques buscam fundamento em textos bíblicos. A seguir são alistados alguns desses textos, com breves comentários que mostram quão distantes estão de ensinar a perda da salvação.
Mateus 10.22; 24.13 (em paralelo com Ap 2.26) — Esses versículos dizem que “quem perseverar até o fim será salvo”. Isso faz com que alguns entendam que a salvação é pela fé somada à firmeza e afirmam que crer em Cristo não basta, sendo preciso também ficar firme em meio às provas. Contudo, o próprio Mestre disse que é impossível que os escolhidos abdiquem de sua fé, mesmo nos tempos mais difíceis (Mt 24.24). Portanto, o que esses versículos realmente significam é que existe uma fé falsa que, não tendo origem divina, é sem resistência e cedo desaparece, tão logo surjam as provas. Na Parábola do semeador, Jesus falou dessa fé ilusória e passageira e a contrastou com a fé real e perene dos crentes (Mt 13.1-23). Assim, quando Jesus disse que quem perseverar até o fim será salvo, seu objetivo não era ensinar a perda da salvação ou a salvação pela fé somada à perseverança. Antes, seu propósito era declarar que os crentes verdadeiros são aqueles cuja fé é do tipo que perdura, haja o que houver (Hb 3.14). Os que não têm essa fé durável não serão salvos, pois uma fé assim não é a fé salvadora que Deus concede aos seus eleitos.
Romanos 11.17-22 — Nesse texto, Paulo usa uma analogia, dizendo que os crentes são ramos que foram enxertados na “oliveira” de Deus. Então, ele adverte esses “ramos” acerca do perigo de serem cortados. Muitos entendem que aqui Paulo alerta sobre o risco de alguém perder a salvação. Na analogia de Paulo, porém, ser parte da oliveira não significa unicamente ser salvo. Note-se que quando ele fala dos ramos naturais que foram cortados (v.17), não se refere a judeus que tinham sido salvos e que depois caíram dessa posição. Antes, fala de judeus que desfrutavam das bênçãos dirigidas a Israel, mas que nunca tinham experimentado o novo nascimento. Isso também podia acontecer com alguns gentios ligados à igreja de Roma. Eles podiam se beneficiar das bênçãos do evangelho e depois serem cortados do desfrute dessa “seiva” por não terem uma fé perseverante. Na verdade, isso é muito comum de se ver nas igrejas.
Gálatas 5.4 — Nessa passagem, o desligar-se de Cristo e o cair da graça podem dar a entender que isso se aplica a pessoas que estavam ligadas a Cristo e firmadas na graça, tendo depois perdido essa condição. No entanto, essa passagem se dirige a pessoas que procuravam “ser justificadas pela Lei”, ou seja, a incrédulos judaizantes infiltrados nas igrejas da Galácia — pessoas a quem Paulo chama de “falsos irmãos” (2.4). Os termos usados nesse texto mostram que essas pessoas, na busca da justificação pelas obras, haviam se afastado de Cristo e se autoexilado longe dos domínios da graça.
Hebreus 6.4-8 — Ao contrário do que os arminianos dizem, esse texto não fala de crentes, mas sim de incrédulos que durante um longo tempo se envolveram com as coisas do Reino, participando de suas bênçãos e testemunhando seu poder, mas que, depois disso tudo, produziram somente coisas más. A ilustração dos vv.7-8 mostra que o texto fala de pessoas sobre quem a “chuva” do Espírito caiu “frequentemente” e que, mesmo assim, produziram “espinhos e ervas daninhas”. Trata-se, portanto, aqui, de um incrédulo diferente, que ouviu, provou e testemunhou por anos a fio o poder do Espírito Santo, virando-lhe, afinal, as costas e mergulhando no mal. O v.6 diz que é “impossível” que esse tipo de incrédulo seja restaurado — algo que não se aplica no caso de desvio de crentes, conforme mostram a Bíblia e a experiência comum.
Hebreus 10.26-31 — Muitos entendem que a palavra "fogo" presente nesse texto se refere ao inferno e à perdição eterna que pode alcançar crentes que pecam deliberadamente. No entanto, a palavra fogo deve ser entendida aqui como um castigo presente, aplicado neste mundo. O v.28 mostra que é esse tipo de castigo que o autor tem em mente. Veja esse sentido também em 1Pedro 4.12.
Os inimigos da doutrina da perseverança dos santos não devem apenas rever a hermenêutica desses textos, mas também lidar com questões difíceis. Por exemplo: se alguém perder a salvação, como pode obtê-la novamente? A resposta a essa pergunta geralmente envolve alguma obra Iigada ao abandono do pecado. Assim, o que o crente deve fazer para restaurar sua comunhão com Deus, se torna uma obra pessoal para restaurar sua salvação diante de Deus. No final das contas, a “segunda salvação” acaba sendo pela fé somada a uma medida que a pessoa toma para ser readmitida na igreja.
Outro problema diz respeito à segurança e à paz interior do crente. Se a salvação pode nos escorrer por entre os dedos, quando poderemos, de fato, descansar na redenção que há em Cristo? Quando poderemos saber que tudo está realmente “OK” entre nós e Deus? Ora, todos nós pecamos todos os dias! Como podemos saber se “ainda” estamos salvos? Sim, pois se a salvação se perde por causa do pecado pessoal do crente, quantos pecados bastariam para perdermos nossa herança? Um seria suficiente? Ou seriam necessários dez? E quanto tempo teríamos de permanecer nesses pecados para deixarmos de ser filhos de Deus? Um dia, um mês, um ano? E mais: quais pecados seriam mais eficazes em fazer com que percamos a salvação? Seria necessário adulterar, roubar e matar ou uma fofoca é suficiente para que sejamos condenados novamente ao inferno? Precisamos saber essas coisas para não ultrapassar os limites!
Ora, uma vida vivida nesse suspense está muito longe daquela realidade de paz, descanso e segurança que a Bíblia promete aos crentes em Jesus (Jo 14.1-3; Rm 5.1-2; 2Tm 1.12; 4.8).

Conclusão
Eis aí as cinco tocantes verdades da Tulipa. São verdades que serão acolhidas por todos os que colocam as Escrituras acima das percepções e juízos pessoais; verdades que geram assombro e que, com frequência, levantam questões muitas vezes sem resposta; verdades que os servos de Deus aceitam pela fé, mesmo sem entendê-las plenamente, sabendo que a mente de Deus está muito acima da deles (Rm 11.33-36).
Além de sua grandeza e dos mistérios que encerram, o que mais torna essas verdades bíblicas tão importantes? Em outras palavras: por que lutar tanto por elas? Que diferença fazem, afinal? A resposta a essas questões não é difícil e partes dela já foram mencionadas ao longo desta exposição. De fato, conforme destacado anteriormente, as cinco verdades da flor produzem certos efeitos piedosos, tais como gratidão (pela salvação concedida sem mérito algum), humildade (por saber que em nós, antes de sermos alcançados, só havia depravação) e dependência (decorrente da certeza de que só por causa da ação dele é que somos salvos e nos mantemos em seus caminhos). Ora, gratidão, humildade e dependência são os três maiores pilares da espiritualidade cristã e nada fortalece mais essas colunas do que as tocantes verdades da flor.
Efeitos práticos também decorrem da Tulipa. Eu já os mencionei em parte na primeira seção deste texto, mas quero frisá-los novamente nesta conclusão. Notem: o servo de Cristo que adota a Tulipa abandonará as técnicas humanas de convencimento no trabalho evangelístico; deixará de perder tempo com os insistentes apelos à conversão que enfastiam os crentes ao final de cada sermão de domingo à noite; dará ênfase à pregação da Palavra e à oração como instrumentos do Espírito para a atração dos perdidos em vez do marketing secular e da promoção de eventos na igreja; não se sentirá frustrado nem com seu valor pessoal ameaçado quando pregar e ninguém se converter, pois saberá que isso depende exclusivamente da ação de Deus e não das “habilidades” do pregador; e jamais se sentirá orgulhoso quando conduzir pessoas a Cristo, sabendo que, se isso ocorrer, a causa estará em Deus somente e não em suas aptidões ou preparo.
É assim (entre outras coisas) que os cinco pontos do calvinismo edificam e protegem os crentes, os ministros e as igrejas. Com base neles é que se constrói uma vida de serviço vibrante e realizador a Cristo, além de uma comunidade de fé madura que compreende a dimensão infinita da graça salvadora e, dessa forma, se sente verdadeiramente alegre e grata por sua redenção.

- Soli Deo gloria

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A Graça Comum!

A Graça Comum:

I. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA

A. Introdução e definição

Quando Adão e Eva pecaram, tornaram-se réus da punição eterna e da separação de Deus (Gênesis 2:17). Do mesmo modo, hoje, quando os seres humanos pecam, eles se tornam sujeito à ira de Deus e à punição eterna: “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). Isso significa que, uma vez que as pessoas pecam, a justiça de Deus requer somente uma coisa — que elas sejam eternamente separadas de Deus, alienadas da possibilidade de experimentar qualquer bem da parte dEle, e que elas existam para sempre no inferno, recebendo eternamente apenas a Sua ira. De fato, isso foi o que aconteceu aos anjos que pecaram e poderia ter acontecido exatamente conosco também: “Pois Deus não poupou aos anjos que pecaram, mas os lançou no inferno, prendendo-os em abismos tenebrosos a fim de serem reservados para o juízo” (2 Pedro 2:4).

Mas, de fato, Adão e Eva não morreram imediatamente (embora a sentença de morte começasse a ser aplicada na vida deles no dia em que pecaram). A execução plena da sentença de morte foi retardada por muitos anos. Além disso, milhões de seus descendentes até o dia de hoje não morrem nem vão para o inferno tão logo pecam, mas continuam a viver por muitos anos, desfrutando bênçãos incontáveis nesta vida. Como pode ser isso? Como Deus pode continuar a conferir bênçãos a pecadores que merecem somente a morte — não somente aos que finalmente serão salvos, mas também a milhões que nunca serão salvos, cujos pecados nunca serão perdoados?

A respostas a essas perguntas é que Deus concede-lhes graça comum. Podemos definir graça comum da seguinte maneira: Graça comum é a graça de Deus pela qual Ele dá às pessoas bênçãos inumeráveis que não são parte da salvação. A palavra comum aqui significa algo que é dado a todos os homens e não é restrito aos crentes ou aos eleitos somente.

Diferentemente da graça comum, a graça de Deus que leva pessoas à salvação é muitas vezes chamada “graça salvadora”. Naturalmente, quando falamos a respeito da “graça comum” e da “graça salvadora”, não estamos sugerindo que há duas diferentes espécies de graça no próprio Deus, mas apenas estamos dizendo que a graça de Deus se manifesta no mundo de duas maneiras diferentes. A graça comum é diferente da graça salvadora quanto aos resultados (ela não traz salvação), seus destinatários (é dada aos crentes e descrentes igualmente) e sua fonte (ela não flui diretamente da obra expiatória de Cristo, visto que a morte dEle não obtém nenhuma medida de perdão para os descrentes e, portanto, nem os crentes nem os descrentes fazem jus às suas bênçãos). Contudo, sobre o último ponto, deve ser dito que a graça comum flui indiretamente da obra redentora de Cristo, porque o fato de Deus não julgar o mundo assim que o pecado entrou nele talvez seja apenas porque Ele planejou finalmente salvar alguns pecadores por meio da morte de Seu Filho.

B. Exemplos de graça comum

Se olhamos para o mundo ao nosso redor e o contrastamos com o fogo do inferno que ele merece, podemos ver imediatamente a abundante evidência da graça comum de Deus em milhares de exemplos na vida diária. Podemos distinguir diversas categorias específicas nas quais essa graça comum pode ser vista.

1. A esfera física. Os descrentes continuam a viver neste mundo somente por causa da graça comum de Deus — cada vez que as pessoas respiram é pela graça, pois o salário do pecado é a morte, não a vida. Além disso, a terra não produz somente espinhos e ervas daninhas (Gênesis 3:18), nem permanece um deserto ressequido, mas a graça comum de Deus provê comida e material para roupa e abrigo, muitas vezes em grande abundância e diversidade. Jesus disse: “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque Ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” (Mateus 5:44,45). Aqui Jesus apela para a abundante graça comum de Deus como encorajamento aos seus discípulos, para que eles também concedam amor e orem para que os descrentes sejam abençoados (cf. Lucas 6:35,36). Semelhantemente, Paulo disse ao povo de Listra: “No passado [Deus] permitiu que todas as nações seguissem os seus próprios caminhos. Contudo. Deus não ficou sem testemunho: mostrou sua bondade, dando-lhes chuva do céu e colheitas no tempo certo, concedendo-lhes sustento com fartura e um coração cheio de alegria” (Atos 14:16,17).

O Antigo Testamento também fala da graça comum de Deus que vem aos descrentes tanto quanto aos crentes. Um exemplo específico é o de Potifar, o capitão da guarda do Egito que comprou José como escravo: “o Senhor abençoou a casa do egípcio por causa de José. A bênção do Senhor estava sobre tudo o que Potifar possuía, tanto em casa como no campo” (Gênesis 39:5). Davi fala de modo muito mais geral a respeito das criaturas que o Senhor fez:

“O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas. [...] Os olhos de todos estão voltados para ti, e tu lhes dás o alimento no devido tempo. Abres a tua mão e satisfazes os desejos de todos os seres vivos” (Salmos 145:9,15,16).

Estes versículos são outro lembrete de que a bondade que é encontrada em toda a criação não acontece automaticamente — ela se deve à bondade de Deus e Sua compaixão.

2. A esfera intelectual. Satanás é “mentiroso e pai da mentira” e “não há verdade nele” (João 8:44), porque lhe foi dado ter domínio sobre o mal e sobre a irracionalidade e comprometimento com a falsidade que acompanha o mal radical. Mas os seres humanos no mundo de hoje, mesmo os descrentes, não estão totalmente entregues à mentira, irracionalidade e ignorância. Todas as pessoas são capazes de ter um pouco de compreensão da verdade; de fato, algumas possuem grande inteligência e entendimento. Isso também deve ser visto como resultado da graça comum de Deus. João fala de Jesus como “a verdadeira luz, que ilumina todos os homens” (João 1:9), pois, em seu papel como criador e sustentador do universo (não particularmente em seu papel como redentor), o Filho de Deus concede iluminação e entendimento que vêm a todas as pessoas no mundo.

A graça comum de Deus na esfera intelectual é vista no fato de que todas as pessoas têm certo conhecimento de Deus: “porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças” (Romanos 1:21). Isso significa que há um senso da existência de Deus e muitas vezes a fome de conhecer Deus que Ele permite que permaneça no coração das pessoas, embora isso resulte muitas vezes em muitos religiões diferentes criadas pelos homens. Portanto, mesmo quando falando a pessoas que sustentavam religiões falsas, Paulo pôde encontrar um ponto de contato com respeito ao conhecimento da existência de Deus, exatamente como fez quando falou aos filósofos atenienses: “Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos [...] o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio” (Atos 17:22,23).

A graça comum de Deus na esfera intelectual também resulta na capacidade de captar a verdade e distingui-la do erro e de experimentar crescimento em conhecimento que pode ser usado na investigação do universo e na tarefa de dominar a terra. Isso significa que toda ciência e tecnologia desenvolvida pelos não-cristãos é resultado da graça comum, permitindo-lhes fazer descobertas e invenções incríveis, para desenvolver os recursos do planeta na criação de muitos bens materiais, para produção e distribuição desses recursos e para alcançar habilidades na obra produtiva. Em sentido prático, isso significa que, cada vez que entramos em uma mercearia, andamos em um automóvel ou entramos em uma casa, devemos lembrar que estamos experimentando os resultados da abundante graça comum de Deus derramada tão ricamente sobre toda a raça.

3. A esfera moral. Pela graça comum Deus também refreia as pessoas de serem tão más quanto poderiam. Novamente o reino demoníaco, totalmente dedicado ao mal e à destruição, proporciona um contraste claro com a sociedade humana, na qual o mal é claramente refreado. Se as pessoas persistem dura e repetidamente em seguir o pecado durante o curso de sua vida, Deus finalmente as entregará ao maior de todos os pecados (cf. Salmos 81:12; Romanos 1:24,26,28), mas no caso da maioria dos seres humanos eles não caem nas profundezas às quais seus pecados normalmente os levariam, porque Deus intervém e coloca freio na sua conduta. Um refreamento muito eficaz é a força da consciência. Paulo diz: “De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os” (Romanos 1:32). E em muitos outros casos, essa sensação interior da consciência leva os indivíduos a estabelecer leis e costumes na sociedade que são, em termos da conduta exterior que eles aprovam ou proíbem, totalmente iguais às leis morais da Escritura. As pessoas muitas vezes estabelecem leis ou têm costumes que respeitam a santidade do casamento e da família, protegem a vida humana e proíbem o roubo e a falsidade no falar. Por causa disso, elas muitas vezes seguem caminhos moralmente retos e exteriormente andam conforme os padrões morais encontrados na Escritura. Embora a conduta moral delas não possa ganhar méritos com Deus, visto que a Escritura claramente diz que “diante de Deus ninguém é justificado pela Lei” (Gálatas 3:11) e “Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Romanos 3:12), contudo, em algum sentido menor que ganhar a aprovação ou o mérito eterno de Deus, os descrentes realmente fazem “o bem”. Jesus sugere isso quando diz: “E que mérito terão, se fizerem o bem àqueles que são bons para com vocês? Até os 'pecadores' agem assim” (Lucas 6:33).

4. A esfera da criatividade. Deus distribuiu medidas significativas de capacidade em áreas artísticas e musicais, assim como em outras esferas nas quais a criatividade e a habilidade podem expressar-se, como praticar esportes, cozinhar, escrever, e assim por diante. Além disso, Deus nos dá a capacidade de apreciar a beleza em muitas áreas da vida. E nessa área, assim como na esfera física e intelectual, as bênçãos da graça comum são às vezes derramadas sobre os descrentes até mais abundantemente que sobre os crentes. Todavia, em todos os casos, ela é resultado da graça de Deus.

5. A esfera da sociedade. A graça de Deus também é evidente na existência de várias organizações e estruturas na raça humana. Vemos isso primeiramente na família humana, ressaltado pelo fato de que Adão e Eva permaneceram marido e mulher após a queda e então tiveram filhos, homens e mulheres (Gênesis 5:4). Os filhos de Adão e Eva casaram-se e formaram famílias para si mesmos (Gênesis 4:17,19,26). A família humana permanece ainda hoje, não simplesmente como instituição para os crentes, mas para todas as pessoas.

O governo humano é também resultado da graça comum. Ele foi instituído no princípio por Deus após o dilúvio (ver Gênesis 9:6) e, segundo Romanos 13 claramente afirma, foi estabelecido por Deus: “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas”. Está claro que o governo é dom de Deus para a raça em geral, pois Paulo diz que a autoridade “é serva de Deus para o seu bem” e que ela é “serva de Deus, agente de justiça para punir quem pratica o mal” (Romanos 13:4). Um dos principais meios que Deus usa para refrear o mal no mundo é o governo humano. As leis humanas, as forças policiais e os sistemas judiciais proporcionam poderosa repressão às más ações, e esses são freios necessários, pois há muito mal no mundo que é irracional e pode ser restringido somente pela força, já que ele não será impedido pela razão ou pela educação. Obviamente a pecaminosidade das pessoas pode também afetar os governos em si mesmos, de forma que o governo humano, igual a todas as outras bênçãos da graça comum que Deus dá, pode ser usado tanto para o propósito do bem como do mal.

6. A esfera religiosa. Mesmo na esfera da religião humana, a graça comum de Deus traz algumas bênçãos para as pessoas incrédulas. Jesus nos diz: “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” (Mateus 5:44), e desde que não há qualquer restrição no contexto para que se ore simplesmente pela salvação deles e como a ordem de orar pelos que nos perseguem é combinada com a ordem de amá-los, parece razoável concluir que Deus pretende responder a nossas orações pelos que nos perseguem em muitas áreas de suas vidas. De fato, Paulo especificamente ordena que oremos “pelos reis e por todos os que exercem autoridade” (1 Timóteo 2:2). Quando procuramos o bem dos descrentes, isso é coerente com a própria prática divina de conceder sol e chuva a “maus e bons” (Mateus 5:45) e também está de acordo com a prática de Jesus durante o Seu ministério terreno, quando Ele curou cada pessoa que lhe era trazida (Lucas 4:40). Não há indicação alguma de que ele tenha exigido que todos cressem nele ou concordassem que ele era o Messias antes de lhes conceder cura física.

Deus responde às orações dos descrentes? Embora Deus não tenha prometido responder às orações dos descrentes como prometeu responder às orações dos que vêm a Ele em nome de Jesus, e embora Ele não tenha obrigação de responder às orações dos descrentes, mesmo assim Deus pode por Sua graça comum ouvir e responder positivamente às orações deles, demonstrando dessa forma Sua misericórdia e bondade de outro modo ainda (cf. Salmos 145:9,15; Mateus 7:22; Lucas 6:35,36). Esse é provavelmente o sentido de 1 Timóteo 4:10, que diz que Deus é o “Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem”. Aqui “Salvador” não significa restritamente “quem perdoa pecados e dá vida eterna”, porque tais coisas não são dadas aos que não crêem. “Salvador” deve ter aqui um sentido mais geral — a saber, “quem resgata da miséria, quem liberta”. Em caso de pobreza e miséria, Deus muitas vezes ouve as orações dos descrentes e os livra graciosamente de seus problemas. Além disso, mesmo os descrentes muitas vezes possuem um senso de gratidão para com Deus pela bondade da criação, pela libertação em meio ao perigo e pelas bênçãos da família, do lar, das amizades e do país.

7. A graça comum não salva pessoas. A despeito de tudo isso, devemos perceber que a graça comum é diferente da graça salvadora. A graça comum não muda o coração humano nem traz pessoas ao genuíno arrependimento ou à fé — ela não pode salvar e não salva pessoas (embora na esfera intelectual e moral ela possa preparar as pessoas para torná-las mais dispostas a aceitar o evangelho). A graça comum refreia o pecado, mas não muda a disposição fundamental de pecar nem purifica a natureza humana decaída.

Devemos também reconhecer que as ações que os descrentes realizam por causa da graça comum não merecem a aprovação ou o favor de Deus. Essas ações não procedem da fé (“tudo o que não provém da fé é pecado”, Romanos 14:23) nem são motivadas pelo amor a Deus (Mateus 22:37), e sim pelo amor ao ego sob uma ou outra forma. Portanto, embora possamos prontamente dizer que as obras dos descrentes que se conformam externamente às leis de Deus são “boas” em algum sentido, contudo elas não são boas em termos de merecer a aprovação de Deus nem de tornar Deus endividado para com o pecador em sentido algum.

Finalmente, devemos reconhecer que os descrentes muitas vezes recebem mais graça comum que os crentes — eles podem ser mais habilidosos, trabalhar com mais esforço, ser mais inteligentes, mais criativos ou ter mais dos benefícios materiais desta vida para desfrutar. Isso não indica de forma alguma que eles são mais favorecidos por Deus no sentido absoluto ou que eles vão ganhar qualquer coisa relativa à salvação eterna, mas significa somente que Deus distribui as bênçãos da graça comum de vários modos, muitas vezes concedendo bênçãos bastante significativas a descrentes. Em tudo isso, obviamente, eles devem tomar consciência da bondade de Deus (Ateus 14:17) e reconhecer que a vontade revelada de Deus é que essa “bondade de Deus” finalmente os conduza “ao arrependimento” (Romanos 2:4).



C. Razões para a graça comum

Por que Deus concede graça comum a pessoas imerecedoras que nunca virão à salvação? Podemos sugerir ao menos quatro razões.

1. Para redimir os que serão salvos. Pedro diz que o dia do juízo e da execução final de punição está sendo retardado porque há ainda mais pessoas que serão salvas. “O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Ao contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento.” (2 Pedro 3:9,10). De fato, essa razão foi verdadeira desde o princípio da história humana, pois, se Deus quisesse salvar qualquer pessoa entre todos que compõem a humanidade pecaminosa, Ele não poderia destruir todos os pecadores imediatamente (nesse caso não sobraria ninguém da raça humana). Ao contrário, Ele resolveu permitir que seres humanos pecaminosos vivessem algum tempo de modo a ter uma oportunidade de arrependimento e também para que pudessem gerar filhos, capacitando gerações subseqüentes a viver, a ouvir o evangelho e se arrepender.

2. Para demonstrar a bondade e a misericórdia de Deus. A bondade e a misericórdia de Deus não são vistas somente na salvação dos crentes, mas também nas bênçãos que Deus dá aos pecadores que não as merecem. Quando Deus “é bondoso para com os ingratos e maus” (Lucas 6:35), essa bondade é revelada no universo, para a Sua glória. Davi diz: “O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas” (Salmos 145:9). Na história de Jesus conversando com o moço rico, lemos: “Jesus olhou para ele e o amou” (Marcos 10:21), embora o homem fosse um descrente que no mesmo instante afastou-se de Jesus porque possuía muitas riquezas. Berkhof diz que Deus “derrama incontáveis bênçãos sobre todos os homens e também indica claramente que elas são expressões de uma disposição favorável de Deus que, contudo, fica muito aquém da volição positiva exercida para lhes perdoar, suspender a sentença a eles imposta e assegurar-lhes a salvação”.

Não é injusto Deus retratar a execução da punição do pecado e dar temporariamente bênçãos aos seres humanos, porque a punição não é esquecida, mas apenas retardada. Retardando a punição, Deus mostra claramente que não tem prazer em executar o juízo final, mas, ao contrário, Ele se deleita na salvação de homens e mulheres. “Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o SENHOR, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem dos seus caminhos e vivam” (Ezequiel 33:11). Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4). Em tudo isso o tempo de espera da punição dá uma evidência clara da misericórdia, bondade e amor de Deus.

3. Para demonstrar a justiça de Deus. Quando repetidamente Deus convida os pecadores a virem à fé e repetidamente eles recusam os Seus convites, a justiça de Deus em condená-los é vista muito mais claramente. Paulo adverte que quem persiste na incredulidade está simplesmente acumulando a ira para si mesmo: “Contudo, por causa da teimosia e do seu coração obstinado, você está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento” (Romanos 2:5). No dia do juízo todas as bocas serão silenciadas (Romanos 3:19), e ninguém será capaz de contrapor que Deus foi injusto.

4. Para demonstrar a glória de Deus. Finalmente, a glória de Deus é mostrada de muitas formas pelas atividades dos seres humanos em todas as áreas nas quais a graça comum está em operação. No desenvolvimento e no exercício do domínio sobre a terra, homens e mulheres demonstram e refletem a sabedoria do seu Criador, comprovam as qualidades dadas por Deus, as virtudes morais e a autoridade sobre o universo, e coisas semelhantes. Embora todas essas atividades sejam contaminadas por motivos pecaminosos, elas apesar disso refletem a excelência de nosso Criador e, portanto, trazem a glória a Ele, não de forma plena e perfeita, mas ainda assim significativa.

C. Nossa resposta à doutrina da graça comum

Pensando sobre as várias espécies de bondades vistas na vida dos descrentes por causa da graça comum que Deus dá abundantemente, devemos ter em mente três pontos.

1. Graça comum não significa que quem a recebe será salvo. Mesmo uma porção excepcional de graça comum não significa que quem a recebe será salvo. Até as pessoas mais habilidosas, mas inteligentes, mais ricas e poderosas no mundo ainda carecem do evangelho de Jesus Cristo ou serão condenadas eternamente! Os nossos vizinhos mais bondosos e de moral mais elevada ainda carecem do evangelho de Jesus Cristo ou serão condenados eternamente! Exteriormente pode parecer que eles não têm necessidade algumas, mas a Escritura ainda diz que os descrentes são “inimigos de Deus” (Romanos 5:10; cf. Colossenses. 1:21; Tiago 4:4) e são “contra” Cristo (Mateus 12:30). Eles são “inimigos da cruz de Cristo” e “só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3:18,19), sendo “por natureza merecedores da ira” (Efésios 2:3).

2. Devemos ser cuidados em não rejeitar as coisas boas que os descrentes fazem, considerando-as totalmente más. Pela graça comum os descrentes fazem algumas coisas boas, e devemos ver a mão de Deus nelas, sendo agradecidos por elas, como por exemplo nas amizades, em cada ato de bondade, no que elas trazem de bênçãos para outras pessoas. Tudo isso — embora o descrente não o saiba — procede em última análise de Deus, e Deus merece a glória por tudo.

3. A doutrina da graça comum deveria estimular nosso coração à gratidão muito maior a Deus. Quando descemos uma rua e vemos casas, jardins e famílias vivendo em segurança, ou quando negociamos no mercado e vemos os resultados abundantes do progresso tecnológico, ou quando andamos pelos bosques e vemos a beleza da natureza, ou quando somos protegidos pelas autoridades, ou quando somos educados no vasto conhecimento humano, devemos perceber não somente que Deus, em Sua soberania, é o responsável último por todas essas bênçãos, mas também que Deus as tem concedido aos descrentes, embora eles não tenham absolutamente nenhum mérito com relação a elas! Essas bênçãos no mundo não são apenas evidências do poder e sabedoria de Deus, mas a manifestação contínua da Sua graça abundante. A percepção deste fato deveria fazer nosso coração se encher de gratidão a Deus em cada atividade de nossa vida.

 Fonte: Teologia Sistemática, Wayne Grudem.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O Dom de Línguas Hoje

Dada a IGNORÂNCIA BÍBLICA ATUAL, segue Mais uma vez o assunto já tão  discorrido:

O DOM DE LÍNGUAS  HOJE- 

O grande número de igrejas e doutrinas diferentes que caracterizam nosso tempo tem trazido as mais diversas dúvidas aos membros das igrejas históricas. Um desses dilemas é o “dom de línguas”. É muito divulgada, no meio evangélico, a ideia de que o crente espiritual deve falar em línguas para que cresça em comunhão com Deus, ou como resultado natural de um profundo conhecimento e experiência com ele.Dom de Linguas

O resultado é que crentes sinceros passam a se preocupar com sua saúde espiritual e com a comunhão da sua denominação com Deus ao verem outras denominações repletas de prodígios, revelações e línguas. As próprias denominações históricas ficam, na mente de muitos, relegadas a um plano de superficialidade espiritual, rotuladas de “igrejas frias”.

Nossa intenção é averiguar o que e Bíblia realmente ensina sobre o dom de línguas e comparar com as práticas e ensinos modernos a fim de nos posicionarmos diante desse dilema e seguirmos o ensino de Deus por intermédio dos apóstolos e profetas.

O que é o dom de línguas?

A Bíblia expõe o dom de línguas como uma capacitação sobrenatural que permitia que algumas pessoas falassem das grandezas de Deus em outro idioma sem que nunca o tivessem aprendido. O dom de línguas descrito na Bíblia não era fruto de exercícios ou de aprendizado, mas um “dom”, algo dado por Deus. Outra característica marcante desse dom é que ele não estava ao alcance de todos. Todo cristão recebia, e ainda recebe, algum dom do Espírito Santo. Porém, o dom não era escolhido pelas pessoas, mas dado pela vontade de Deus para a edificação do corpo de Cristo (1Co 12.28-30; 1Pe 4.10,11).

Além de cada crente possuir um dom distinto, em todas as relações de dons espirituais da Bíblia, o dom de línguas sempre aparece nos últimos lugares, a não ser em 1Coríntios 13, onde Paulo discorre sobre a inutilidade dos dons sem a presença do amor. O fato é que o dom de línguas ocupava uma posição secundária no plano de edificar a igreja. Tinha como principal objetivo ser um sinal aos incrédulos e não aos crentes. Apontava para o juízo de Deus que recairia sobre Israel por ter rejeitado o Senhor Jesus (1Co 14:21-22 cf. Dt 28:45-46,49).

As línguas pronunciadas por aqueles que possuíam o referido dom eram de natureza terrena. No Novo testamento, duas palavras são usadas para se referir a línguas: Glossa e Dialéktos. A primeira significa “idiomas”, ou língua (órgão anatômico). A segunda significa “idioma” ou “dialeto”. Esses sentidos apontam para línguas terrenas, idiomas utilizados ao redor do mundo.

Apesar da clareza dos termos, parte da confusão sobre o dom de línguas no Brasil se deve à tradução da versão “Almeida Revista e Corrigida”. Ela traduz a palavra glóssais (línguas) em 1Co 14.5,6,23, com a expressão “línguas estranhas”. Isso deu margem ao entendimento equivocado de que as línguas fossem estranhas à raça humana, justificando a produção de sons e sílabas sem qualquer sentido ou a crença de se tratar de um idioma exclusivo dos anjos. Essa certamente não era a intenção dos tradutores da versão Almeida, pois resolveram este mal-entendido na versão “Almeida Revista e Atualizada”, com a expressão “outras línguas”.

A afirmação de que as línguas faladas pelos discípulos eram “línguas de anjos” não é verdadeira. Paulo combate os desvios e maus usos do dom de línguas em 1Coríntios 14 normatizando sua utilização, cortando os excessos cometidos na igreja e proibindo algumas pessoas de exercê-lo no culto público. A preparação para esse tratamento começa no capítulo anterior: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1 Co 13.1). Paulo comparou as pessoas que falavam em outras línguas, mas que não amavam seus irmãos, a sinos ou gongos metálicos cuja única função era fazer barulho quando golpeados. Eram homens e mulheres que não desenvolviam sua habilidade sobrenatural para o bem dos outros, nem para o crescimento do corpo de Cristo, mas para exibição pessoal e para serem admirados e invejados.

O apóstolo estava tão preocupado com a situação que, ao mostrar a necessidade do amor, utilizou uma figura de linguagem chamada hipérbole. A hipérbole consiste no exagero de uma expressão a fim de realçar uma idéia ou demonstrar a forte intensidade de um sentimento. Os três primeiros versículos do capítulo 13 são expostos sob esse prisma. No v. 1 Paulo diz que falar “muitas” línguas sem amor é algo inútil e sem propósito. Ele estende o raciocínio e afirma que o mesmo se daria se alguém falasse até mesmo a linguagem dos anjos. Devemos notar que não há relatos na Bíblia de uma língua específica de anjos, pois em todas as vezes que os anjos falaram com os homens, o fizeram em idiomas humanos. Paulo falou sobre “língua dos anjos” em 1Co 13.1 para ressaltar, por meio de uma hipérbole, que não importava o quanto os irmãos de Corinto se impressionavam com esse dom – o amor era maior e necessário.

Portanto, quando a Bíblia fala sobre o dom de línguas ela se refere a uma “capacitação exterior ao homem que o habilita a falar da glória de Deus em outro idioma humano não conhecido para aquele que fala.”

O dom de línguas é sinal de espiritualidade?

Dois livros bíblicos que tratam sobre o dom de línguas são Atos e 1Coríntios. Atos não é um livro fundamentalmente normativo ou doutrinário. É uma obra histórica que narra corretamente os primeiros anos da Igreja cristã. Por sua vez, 1Coríntios é um livro doutrinário que traça normas claras de conduta visando ao desenvolvimento da igreja. Apesar da diferença de enfoque, ambos os livros apontam para a mesma realidade a respeito das línguas.

É possível notar no livro de Atos que o dom de línguas não era sinal de maturidade espiritual. Apesar de sua primeira aparição ter-se dado em 120 “discípulos de Cristo” (At 2), em outras ocasiões se deu em recém-convertidos (At 10.44-46; 19.6,7). Em resumo, o livro de Atos olha para o dom de línguas de uma maneira positiva. Ele é a demonstração da vinda do Espírito Santo sobre a Igreja como Jesus prometeu (At 1.8 cf. Jo 14.16; 15.26; 16.7) e da habitação do Espírito Santo em cada crente a partir da sua conversão (At 2.38 cf. Ef 1.13,14).

Em 1Coríntios, o apóstolo Paulo trata do dom utilizado por crentes que, tendo condições de serem espirituais, comportavam-se ainda como carnais e mundanos (1Co 3.1,2). A igreja de Corinto, apesar de ser rica em dons, não era uma igreja espiritual.

Mais uma característica do ensino de 1Coríntios é que em parte alguma Paulo ensina que “todos” os crentes deviam falar em línguas. Em lugar disso ele afirma que cada crente recebe um dom dado segundo a vontade de Deus (1Co 12.11) para a edificação da igreja. O fato de Paulo associar a falta de amor ao dom de línguas dentro da igreja de Corinto (1Co 13.1; 14.1) demonstra que alguns tinham dons desejados pela maioria – como falar em línguas – e outros não, sendo esse o motivo da soberba dos que falavam e dos ciúmes dos que não falavam (1Co 13.4 – “... o amor arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece.”). Além disso, Paulo afirma expressamente que nem todos possuíam o dom de línguas (1Co 12.28-30).

Devido à inutilidade do dom de línguas sem que houvesse interpretação (1Co 14.9,16-19) e dos danos que podia causar ao Evangelho entre os visitantes (1Co 14.23-25), Paulo também deu normas e proibições para o uso do dom de línguas no culto público. Assim, não poderiam falar no culto todas as pessoas que tinham o dom de línguas, mas apenas duas ou, “no máximo”, três, no momento adequado e não ao mesmo tempo. Se ao falar não houvesse ninguém na igreja que pudesse entender o idioma e traduzir para o restante da igreja, quem estava falando deveria se calar. Paulo diz que se não houvesse interpretação ninguém seria edificado (1Co 14.27,28).

Quando o dom de línguas era exercido segundo essas regras, ele não podia ser proibido (1Co 14.39,40). Paulo também afirma que a espiritualidade dos crentes que falavam em outras línguas poderia ser avaliada não pelo fato de falarem, mas pelo fato de se submeterem a tais orientações (1Co 14.37,38).

Há diferenças entre as línguas de hoje em relação às dos do ‘Novo Testamento’?

Atualmente, o que se conhece por dom de línguas guarda diferenças marcantes entre o dom descrito e normatizado nas páginas no Novo Testamento. Quando olhamos para o fenômeno das línguas na igreja moderna, percebemos que ele difere diametralmente do dom na igreja primitiva. Algumas características das línguas da atualidade são:

Elas são consideradas sinal de espiritualidade e demonstração de que o Espírito Santo age de uma maneira mais profunda naqueles que as falam.
Todos os crentes são encorajados a falar em línguas para progredirem espiritualmente.
Há momentos no culto público em que todos, ou grande parte das pessoas, falam em línguas simultaneamente.
Não se trata de idiomas, mas de sílabas unidas ao acaso e sem significado ou repetições de palavras e fonemas.
São ensinados métodos para que pessoas que não falam em línguas possam aprender a falar por meio de relaxamento ou de treino.
As línguas não são traduzidas a fim de haver edificação da igreja e evangelização dos visitantes incrédulos.
Há grande resistência quanto à aceitação e aplicação das normas que Paulo deu para o uso do dom de línguas.
De onde vieram os conceitos atuais sobre o dom de línguas?

Uma análise histórica entre os séculos I2 e 19 mostra que os teólogos de maior expressão, tanto da antiguidade como da reforma protestante, não exerciam nem ensinaram a prática do dom de línguas. Durante todo esse tempo, a maioria dos casos em que esporadicamente se ouve falar sobre o dom de línguas é entre grupos como montanistas, jansenistas (católicos pietistas), quacres, shakers e mórmons.

Entretanto, o início marcante do dom de línguas da atualidade veio por intermédio do movimento conhecido como “Avivamento da Rua Azusa”, fundado em 1906 por William J. Seymour. Ele se inspirou em Charles Fox Parham, pioneiro da idéia de que o sinal específico do batismo do Espírito Santo é “falar em línguas”.

A análise bíblica e histórica do dom de línguas e a presença de inúmeras contradições e diferenças entre o uso atual das línguas e o uso na igreja primitiva levam-nos à conclusão de que o dom de línguas atual não é, de modo algum, a mesma experiência que a igreja apresentou no primeiro século. As normas paulinas são o divisor de águas entre as línguas do passado e as de hoje.

Qual foi o propósito do dom no ‘Novo Testamento’?

A constatação da descontinuidade do dom de línguas descrito no Novo Testamento em relação à experiência atual levanta algumas perguntas. Uma delas é: “Se o dom de línguas da igreja primitiva não servia aos propósitos difundidos na atualidade, qual era sua real função?”.

Em 1Coríntios 14, Paulo não apenas proibiu o uso indevido do dom de línguas e o graduou como secundário na edificação da igreja. Paulo também revelou o propósito “principal” das línguas: servir como um “sinal” de Deus para os incrédulos (1Co 14.22).

Deuteronômio 28 contém dois tipos de promessa de Deus aos judeus. O primeiro é a promessa de bênçãos pela obediência dos judeus ao Senhor (Dt 28.1-14). O segundo é a promessa de castigo pela desobediência (Dt 28.15-68). Em meio à lista de castigos prometidos ao povo judeu caso “não dessem ouvidos à voz do Senhor”, um deles fica em destaque: “O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra virá, como o vôo impetuoso da águia, nação cuja língua não entenderás; nação feroz de rosto, que não respeitará ao velho, nem se apiedará do moço. Ela comerá o fruto dos teus animais e o fruto da tua terra, até que sejas destruído; e não te deixará cereal, mosto, nem azeite, nem as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas, até que te haja consumido. Sitiar-te-á em todas as tuas cidades, até que venham a cair, em toda a tua terra, os altos e fortes muros em que confiavas; e te sitiará em todas as tuas cidades, em toda a terra que o SENHOR, teu Deus, te deu. Comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas, que te der o SENHOR, teu Deus, na angústia e no aperto com que os teus inimigos te apertarão” (Dt 28.49-53).

Essa é a promessa de um grande castigo de Deus pela desobediência de Israel usando como instrumento de castigo uma nação poderosa. Essa nação seria estrangeira, pois falaria uma língua não seria entendida pelos israelitas. Esse povo, por fim, traria grande destruição e mortandade a Israel. Pouco antes de decretar tal punição, o Senhor revelou que esses eventos seriam um “sinal” para os israelitas de que eles estavam sob a mão punitiva de Deus (Dt 28.46,47). Essa promessa se cumpriu algumas vezes de maneira clara e arrebatadora. Três datas notáveis desse cumprimento foram 722 a.C., 587 a.C. e 70 A.D.

Em 722 a.C., quando Israel estava divido em dois reinos – o reino do norte (Israel) com suas dez tribos, e o reino do sul (Judá) formado pelas tribos de Judá e Benjamim – o reino do norte foi devastado pelos assírios e o povo foi levado cativo para a Assíria, onde foi miscigenado com outros povos (2Re 17.5,6,22,23). Em 587 a.C., o mesmo aconteceu ao reino do sul (Judá). Jerusalém, capital de Judá, foi destruída junto com o Templo que Salomão havia construído para o culto a Deus. Os habitantes foram exilados na Babilônia até o ano 539 a.C. (2Re 25.8,9).

Prevendo esse tipo de punição, o Senhor enviou profetas para alertar o povo dos seus pecados, conclamá-los ao arrependimento e anunciar o juízo caso não mudassem seu modo de agir. Entre esses alertas dois deles chamam a atenção para si:

a) Isaías pregou arrependimento ao povo garantindo que Deus os perdoaria e purificaria. Contudo, alertou que a obstinação deles os tornaria alvo de “espada” (Is 1.16-20). Infelizmente, o povo não deu ouvidos à voz do Senhor. Isaías, então, profetizou a punição de Deus e disse que nem mesmo o castigo e o sinal de uma “língua estranha” seriam capazes de produzir arrependimento na nação de Israel (Is 28.11,12 cf. v.1).

b) Deus falou à nação de Judá, por meio de Jeremias, convidando-a ao arrependimento e à purificação (Jr 3.14,15). A exemplo de Israel, Judá também não deu ouvidos à voz do Senhor. Portanto, Deus usou a Babilônia, sob o comando de Nabucodonosor, para castigar Judá. Nesse caso, o “sinal” do juízo de Deus também foi dado por meio de um povo destruidor, cuja língua eles não entendiam (Jr 5.12-17).

Nos dias no Novo Testamento também houve uma grande destruição em Jerusalém (70 A.D.) e em todo o país. Os acontecimentos da guerra entre os judeus e os romanos (66–70 A.D.) não foram narrados nas Escrituras, mas a História não os deixou passar em branco. O historiador Flávio Josefo conta que Vespasiano derrotou e devastou toda a Galiléia, Peréia e Iduméia e partiu em direção a Jerusalém. Nessa época, a cidade estava tomada e dividida por três partidos de judeus que se destruíam mutuamente. Crimes, roubos e assassinatos aconteciam à luz do dia. Qualquer um que tentasse fugir de Jerusalém era morto. Essa guerra civil custou o próprio mantimento de trigo que serviria para sustentar anos de cerco. A fome e o roubo de mantimentos pelos rebeldes em Jerusalém chegaram a níveis insuportáveis.

Quando Vespasiano foi feito imperador, seu filho Tito assumiu o comando do exército romano e sitiou Jerusalém. Em quinze dias tomou o primeiro muro e em mais nove, o segundo. Restando apenas a terceira muralha e o muro do Templo, Tito ofereceu, em vão, a paz aos judeus. Como não houve rendição, depois de quatro meses de cerco o Templo foi invadido e, mesmo contra as ordens de Tito, foi queimado e destruído. Quinze dias depois Jerusalém estava completamente destruída e quem passasse por ali teria dificuldades em acreditar que ali fora um centro populoso. Os números da guerra, não levando em conta o quase meio milhão de judeus mortos em todo o território palestino e egípcio, foram: 97 mil prisioneiros e 1,1 milhão mortos em Jerusalém por crimes, fome, peste e guerra.

O motivo de tamanha destruição foi o mesmo de 722 a.C. e 587 a.C: desobediência às ordens de Deus. Quatro décadas antes Jesus pregou entre os judeus e se apresentou como Deus e Salvador. Ele transmitiu à nação as palavras e promessas de Deus a respeito da redenção mediante o arrependimento e a fé no Filho (Jo 10.24-26,30; 14.6). O livro de Hebreus diz que Jesus falou aos homens do seu tempo assim como Deus falou com os antigos por meio dos profetas (Hb 1.1,2).

Infelizmente, a reação dos judeus a tais palavras não foi fé e obediência, mas rejeição e morte a Jesus (Jo 19.15,16). Novamente o povo deixou de obedecer e “não deu ouvidos à voz do Senhor”. Desse modo, Judá seria punida mais uma vez. O vislumbre do castigo que traria destruição a Jerusalém e ao Templo fez com que Jesus anunciasse e lamentasse a terrível tragédia (Mt 24.1,2; Lc 19.41-44; 21.20-24).

Como das outras vezes, Deus levantou uma nação poderosa para trazer castigo pela incredulidade e desobediência dos judeus. A diferença é que, dessa vez, o instrumento usado por Deus (o povo romano) dominava sobre os israelitas havia mais de cem anos. Como Deus prometeu que os castigos descritos em Deuteronômio 28 seriam “um sinal aos judeus para sempre” (Dt 28.46,47), ele possivelmente decidiu sinalizar o castigo por meio da Igreja. Para esse fim a Igreja passou a sinalizar tal juízo por intermédio de línguas estrangeiras que não eram entendidas pelo povo judeu. Por esse motivo Paulo diz que as línguas não eram para crentes, mas para incrédulos (1Co 14.21,22). O povo que rejeitou e matou o Deus Filho estava sendo alertado sobre a dura punição que recairia sobre eles e sendo convidado ao arrependimento.

A primeira vez que o dom de línguas ocorreu na História foi cinquenta dias após a morte de Jesus. Os 120 discípulos de Cristo que receberam o Espírito Santo começaram a falar em outros idiomas na presença de grande multidão de judeus incrédulos de todas as partes do mundo. Ao ficarem espantados por verem galileus iletrados falando correta e claramente em idiomas de terras distantes, esses judeus incrédulos foram repreendidos por Pedro a respeito do que fizeram com Jesus (At 2.22-24). Em vista disso, muitos deles se arrependeram e buscaram um meio de fugir da condenação por tão grande crime. Para eles Pedro ordenou que se arrependessem e se convertessem do caminho dos perversos (At 2.37-40). Diante da pregação e do anúncio da culpa 3 mil judeus foram convertidos somente nesse dia (At 2.41).

Desse modo, encontramos o propósito da concessão do dom de línguas à Igreja. Ele foi o sinal que Deus enviou aos incrédulos que apontava para o juízo que recairia sobre eles. E o fato de uma pequena porcentagem ter crido em tais promessas demonstra que o propósito do dom de línguas não era primariamente evangelizar os incrédulos, mas trazer sobre eles o juízo de Deus.

O dom de línguas ainda existe hoje?

O juízo que o dom de línguas sinalizava aconteceu no ano 70 A.D. Estando Jerusalém destruída por sua rejeição a Jesus e às palavras de Deus, o dom “atingiu seu propósito”. Não havia, a partir de então, o que ser sinalizado diante dos judeus e, assim, o sinal “deixou de ser necessário”. Por isso, o dom de línguas cessou após a destruição de Jerusalém no ano 70 A.D.

Na verdade, esse não é o único exemplo na Bíblia que mostra que Deus usa um sinal somente até que o fato sinalizado aconteça. Encontramos um bom exemplo em Colossenses 2.16,17. Paulo ensina aos colossenses que eles não deviam seguir os aspectos cerimoniais da Lei judaica por serem “sombras das coisas que haveriam de vir”. Em outras palavras, eram sinais e símbolos de aspectos da obra redentora de Cristo que seriam cumpridos com sua vinda. Depois que Cristo consumou sua obra, esses sinais perderam a utilidade. Por isso não fazemos mais sacrifícios, nem guardamos o sábado, nem nos abstemos de alimentos que eram considerados impuros. De forma semelhante, o dom de línguas deixou de existir assim que Jerusalém foi destruída.

Conclusão

Portanto, o dom de línguas não mais existe desde a destruição de Jerusalém pelos romanos na segunda metade do século 1, em meio à incrível mortandade de israelitas.

Se as línguas de hoje são tão confusas e diferentes do que a Bíblia relata e ensina, é por serem uma tentativa de fazer artificialmente o que o Espírito Santo fez no passado com um propósito definido que não existe mais. É por isso que, em vez de buscar falar em línguas, os cristãos de hoje devem “dar ouvidos à voz do Senhor” e priorizar o serviço e o amor a Deus e aos homens com um coração fiel, submisso e transformado.

- Pr. Thomas Tronco