Antes de estudarmos a doutrina da predestinação (que breve chegará), é indispensável considerarmos a doutrina dos decretos de Deus, desde que a predestinação, como já foi dito na introdução, é um ramo dessa importante doutrina. A relação entre elas é tão íntima que alguns teólogos têm usado a palavra "predestinação" “como equivalente à palavra genérica "decreto", incluindo todos os eternos propósitos de Deus”.
Significado do termo "DECRETO":
“O termo decreto divino é uma tentativa para reunir em uma designação aquilo que a Bíblia apresenta com várias palavras e expressões: “o propósito divino”, (Ef.1:11), “determinado conselho”, (At.2:23), “presciência” (1Pe.1:2; comparar com 1:20), “eleição”, (1Ts.1:4), “predestinação”, (Rm.8:30), “a vontade divina”, (Ef.1:11), e “beneplácito” (Ef.1:9).”
Decreto divino é o termo geral, e refere-se ao plano de Deus em toda a criação; predestinação é um aspecto particular ou divisão do decreto de Deus, e, refere-se a seres morais, tanto anjos como homens, e está dividida em dois aspectos: a eleição dos salvos, e a reprovação ou preterição dos condenados.
Declaração da doutrina dos decretos de Deus:
A mais concisa e compreensiva declaração da doutrina dos decretos divinos está no Breve Catecismo de Westminster, na resposta a pergunta 7:
“Os decretos de Deus são o seu eterno propósito de acordo com o conselho da sua vontade, pelo qual, para sua própria glória, Ele predestinou tudo que acontece”. Essa definição é formada pelas próprias palavras das Escrituras, que são à base da doutrina.
A mesma doutrina é definida no Catecismo Maior de Westminster com as seguintes palavras (resposta à pergunta 12):
“Os decretos de Deus são os atos sábios, livres e santos do conselho da sua vontade, pelos quais, desde toda a eternidade, Ele, para sua própria glória, imutavelmente, predestinou tudo que acontece, especialmente com referência aos anjos e aos homens”.
Na confissão de fé de Westminster a doutrina é apresentada nestes termos:
“Desde toda a eternidade. Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém, de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas”.
O Dr. A. A. Hodge define esta doutrina com as seguintes palavras:
“O decreto de Deus é o seu eterno, imutável, santo, sábio e soberano propósito que compreende ao mesmo tempo todas as coisas que foram e que hão de ser em suas causas, condições, sucessões e relações, e que determinam o seu futuro. Os vários conteúdos do eterno propósito são denominados decretos, por causa da limitação das nossas faculdades que os concebem em seus aspectos parciais e em suas relações lógicas”.
Isto é suficiente para a declaração da doutrina.
Consideremos agora os argumentos que provam sua veracidade.
Argumentos que provam a Doutrina.
1. Argumento da Bíblia.
Para aqueles que crêem na Bíblia como a revelação de Deus para a humanidade, a prova suprema, o argumento por excelência em favor de qualquer doutrina é aquele que é derivado das Escrituras. Assim começaremos com esta espécie de prova.
Há muitas passagens na Bíblia que ensinam a doutrina dos decretos de Deus. Esta doutrina constitui na realidade uma das tônicas gerais dos ensinos bíblicos. O Dr. Benjamin Warfield fez a seguinte declaração acerca desse fato:
“Não é dizer demais que ela (a doutrina da predestinação, e por conseguinte, os decretos de Deus) é fundamental para a consciência religiosa de todos os escritores da Bíblia; e assim, envolve todas as suas concepções religiosas, que, se fossem erradicadas, toda a apresentação bíblica seria transformada. Isto é verdade tanto com respeito ao Velho como ao Novo Testamento, como poderá ser suficientemente manifesto se prestarmos atenção à natureza e às implicações dos elementos formativos do sistema do Velho Testamento, bem como as suas doutrinas de. Deus, da providência, da fé e do reino de Deus”.
O que se segue é uma série de passagens bíblicas que ensinam essa doutrina:
“O conselho do Senhor dura para sempre, os desígnios do seu coração por todas as gerações”. (Sl.33:11).
“Este é o desígnio que se formou concernente a toda a terra; e esta é a mão que está estendida sobre todas as nações. Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem, pois, o invalidará? A tua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?” (Is.14:26-27).
“Lembrai-vos das coisas passadas da antigüidade; que sou Deus e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer, e desde a antigüidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”. (Is.46:9-10).
“... e eu bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: que fazes?” (Dn.4:34-35)
“Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados.” (Mat.10:29-80).
“Porque o Filho do homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído”. (Lc.22:22).
“... sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mão de iníquos”. (At.2:23)
“Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e povos de Israel para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram”. (At.4:27-28).
“... de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação.” (At.17:26).
“Diz o Senhor que faz estas coisas conhecidas desde séculos”. (At. 4:18)
“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes a imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.” (Rm.8:28-30).
“Mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para nossa glória”. (1Co.2:7)
“... nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas, conforme o conselho da sua vontade”. (Ef.1:11).
“Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”. (Ef.2:10)
“... segundo o poder de Deus, que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos”. (2Tm.1:8-9)
“... sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifesto no fim dos tempos, por amor de vós”. (1Pe.1:18-20), etc, etc.
Estas passagens e muitas outras que poderiam ser facilmente acrescentadas, mostram que o Deus todo poderoso tem um plano ou propósito para este universo que é dele. Este plano ou propósito foi concebido na eternidade e está sendo executado no tempo. É um plano SÁBIO porque está de acordo com o conselho de Deus. É um plano BOM porque é para a glória de Deus. É um plano ETERNO porque foi concebido “antes da fundação do mundo”. É um plano PODEROSO porque ninguém pode anular. É um “plano suficientemente grande para abarcar todo o universo, suficientemente minucioso para se interessar com os mínimos detalhes, e atualizando-se com inevitável certeza em cada acontecimento que sucede”. (Dr. Warfield).
2. Argumento da sabedoria divina.
Se Deus é um ser racional e superior, deve ser sábio. Sendo infinito, deve ser infinitamente sábio. Nenhum ser sábio faria alguma coisa sem um plano bem pensado e bem preparado antecipadamente. Um arquiteto, por exemplo, não iniciaria a construção de um edifício sem preparar primeiro a planta do edifício cuidadosamente com todos os seus detalhes. Um general não daria ordens para o seu exército lutar contra o inimigo, sem antes preparar, com seu estado maior a estratégia para a batalha. Jesus mesmo indicou a sabedoria e a necessidade de fazer plano com antecedência, quando disse: “Pois, qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para concluir. Ou, qual é o rei que, indo para combater outro rei, não se assenta primeiro para calcular se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil?” (Lc.14:28,31).
“Nenhuma dedução a respeito de Deus pode ser mais desonrosa e enganosa do que a suposição de que Ele, não é soberano sobre as suas obras, ou que Ele não está agindo de acordo com um plano que articula a ordem de sua inteligência infinita. A mente humana poderia imaginar uma situação em que nada tivesse ainda sido criado, quando Deus tinha diante dele uma infinita variedade de planos possíveis para escolher; e que finalmente escolheria o melhor plano divisado pela infinita sabedoria, consumado pelo infinito poder, e, que seria a suprema satisfação para seu infinito amor.”
“Um Deus existente por si próprio, independente, perfeito, imutável, existindo sozinho desde toda a eternidade, começou a criar o universo físico e moral no vácuo absoluto; impulsionado a fazer isso, partindo de certos motivos para atingir determinados fins, e de acordo com idéias e planos totalmente emanados de seu interior e de sua iniciativa. Se Deus governa o universo, Ele deve também, como um ser inteligente, governá-lo de acordo com um plano; e, este deve ser perfeito em EXTENSÃO, ALCANCE e DETALHES. Se Ele tem um plano agora, deve ter tido o mesmo plano imutável desde o princípio. Decreto de Deus, por conseguinte, é o ato de uma pessoa infinita, absoluta, eterna, imutável e soberana, compreendendo um plano que abrange todas as suas obras, de todas as espécies, grandes e pequenas, desde o começo da criação até a infindável eternidade. Por esta razão ele deve ser incompreensível e não pode ser condicionado por algo exterior a Deus, pois já estava acabado antes que existisse qualquer coisa exterior a Ele, e, por isso, abrange e determina todas essas supostas coisas exteriores e todas as condições delas para sempre.”
“Um universo sem decreto seria tão IRRACIONAL e ESPANTOSO como um trem viajando na escuridão da noite, sem farol e sem maquinista, e sem nenhuma certeza de que a qualquer momento poderia precipitar-se no abismo”.
“Apesar de algumas pessoas se oporem teoricamente à predestinação, todos nós, em nossa vida diária seguimos praticamente à predestinação. O nosso maior e mais importante empreendimento teve um plano feito por nós, de outro modo, nossa obra terminaria em fracasso. Uma pessoa seria considerada mentalmente perturbada se resolvesse construir um navio, ou uma estrada de ferro, ou governar uma nação, sem um plano. Foi-nos contado que antes de Napoleão começar a invasão da Rússia, tinha feito um plano bem elaborado em seus detalhes, mostrando que linha de marcha cada divisão de seu exército devia seguir, onde devia estar em determinado tempo, que equipamento e provisão devia ter, etc. Tudo o que faltou no plano foi devido às limitações da sabedoria e do poder do homem. Se Tivesse Napoleão uma previsão perfeita e um controle absoluto dos acontecimentos, seu plano, ou como nós poderíamos dizer, sua predestinação teria se estendido a cada soldado que executou aquela marcha.”
É Deus menos sábio que Napoleão?
O homem foi feito à imagem de Deus. Isso significa que o homem é uma espécie de miniatura de Deus. O que o homem é e tem em uma escala limitada, Deus é e tem em uma escala absoluta e infinita (exceto o pecado, que é alguma coisa que o homem adquiriu depois de ser criado por Deus).
A inteligência é um dos atributos do homem. Por conseguinte, Deus deve ser infinitamente inteligente e sábio. Como nós temos visto, uma das expressões da inteligência e da sabedoria do homem é que ele, em tudo que faz, prepara um plano e o segue. A conclusão lógica, portanto, é que Deus, sendo infinitamente inteligente e sábio, deve ter um plano perfeito e compreensivo para toda a sua criação. É este plano que nós chamamos decretos de Deus. Por conseguinte, a sabedoria de Deus provê os decretos divinos.
3. Argumento da Soberania de Deus:
O dicionário define a palavra soberano como um que “possui suprema autoridade”; que exerce ou possui “suprema ou original jurisdição de poderes”; que não está sujeito a nada. A palavra vem do latim super — acima, e significa literalmente um que está acima dos outros. Deus está acima de cada coisa e de cada criatura. Ele é soberano. Uma boa definição de soberania de Deus é a seguinte: “Soberania de Deus é seu poder e direito de domínio sobre todas as suas criaturas para dispô-las e determiná-las, como lhe parece melhor. Este atributo é evidentemente demonstrado no sistema da criação, providência e graça; pode ser considerado como absoluto, universal e eterno.”
Soberano é sinônimo de rei, monarca, potentado e imperador. Reconhecer a soberania de Deus é, por conseguinte, reconhecer sua realeza. A mais alta concepção que o homem pode ter de autoridade está incorporada na pessoa de um rei. Esta é a concepção bíblica de Deus. “Tua, Senhor, é a grandeza, o poder, a honra, a vitória e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu, Senhor, é o reino, e tu te exaltaste por chefe sobre todos. Riquezas e glória vem de ti, tu dominas sobre tudo, na tua mão há força e poder; contigo está o engrandecer e a tudo dar força.” (1Cr.29:11,12).
“Reina o Senhor. Revestiu-se de majestade; de poder se revestiu o Senhor, e se cingiu. Firmou o mundo, que não vacila. Desde a antigüidade está firme o teu trono: tu és desde a eternidade”. (Sl.93:1,2).
“Porque o Senhor é o Deus supremo, e o grande rei acima de todos os deuses... Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemo-nos diante do Senhor que nos criou” (Sl.95:3,6).
“Com efeito, eu sei que o Senhor é grande, e que o nosso Deus está acima de todos os deuses. Tudo quanto aprouve ao Senhor, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl.135:5,6).
“Então ouvi uma voz como voz de numerosa multidão, como de muitas águas, e como de fortes trovões, dizendo: Aleluia! pois reina o Senhor nosso Deus, o Todo-Poderoso” (Ap. 19:6).
Há muitas outras passagens que falam a respeito de Deus como rei e governador, sobre todas as coisas e sobre cada ser que ele criou nos céus e na terra. São tão numerosas porém essas passagens que é impossível citar todas. Elas apresentam Deus reinando com todo poder, bondade e sabedoria. Elas falam dele assentado sobre um alto e sublime trono, como o rei dos reis, Cada criatura no universo tem que se curvar diante dele. Até satanás e os demônios têm que reconhecer sua soberania. Satanás não podia fazer qualquer coisa contra Jó sem sua permissão (Jó.1:9-12; 2:4-6). Reconhecendo Cristo como Deus, os demônios admitiam a possibilidade de serem atormentados por ele “antes do tempo”, e de serem por ele mandados imediatamente para o abismo. E eles não podiam entrar nos porcos sem a permissão dele (Mt.8:28,33; Mc.5:1-13; Lc.8:26-33).
“Criação implica soberania. Qualquer que acredita em Deus como criador não pode negar sua soberania sobre tudo que Ele fez. Isto é observado na vida diária. Ninguém jamais teve oportunidade de dizer que ia existir antes de existir. A existência lhe foi dada sem que fosse pedido o seu consentimento. Uma mão soberana o introduziu na existência, colocou-o dentro de um torvelinho de experiências, sem possibilidade para interrupção e descanso; e fez isso sem perguntar se ele queria ou não. Nenhum homem jamais escolheu a data e o lugar do seu nascimento, ou sua nacionalidade; se nasceria na época ante-diluviana ou no século XX, se nasceria na China ou na América, se seria esquimó ou americano. Nada é mais evidente para o homem racional do que o fato de existir uma soberania dirigindo sua vida”.
“Na grande expansão da eternidade que se estende antes de Gn. 1:1, o universo não tinha nascido e a criação existia somente na mente do Criador. Em sua soberana majestade Deus existia sozinho. Nós nos referimos àquele longínquo período antes que os céus e a terra fossem criados. Não havia anjos para entoar hinos de louvor a Deus, nem criatura para ocupar sua atenção, nem rebeldes para serem trazidos em sujeição. O grande Deus era a totalidade única no meio do espantoso silêncio de seu próprio vasto universo. Mas, ainda naquele tempo, se é que pode ser chamado tempo, Deus era soberano. Ele podia criar ou não criar, de acordo com o seu beneplácito. Podia criar desta ou daquela maneira; podia criar um mundo ou milhões de mundos; e quem existia para se opor à sua vontade? Ele podia chamar à existência um milhão de criaturas diferentes e colocá-las em igualdade absoluta, dotando-as com as mesmas faculdades, pondo-as no mesmo ambiente; ou Ele podia criar milhões de criaturas, cada uma diferente da outra, não possuindo nada em comum, exceto a sua condição de criatura, e quem haveria para se opor a esse direito? Se Ele assim desejasse poderia chamar á existência um mundo tão imenso que suas dimensões estariam além da estimativa finita. E, se estivesse disposto, poderia criar um organismo tão pequeno que nada, exceto o mais poderoso microscópio poderia revelar sua existência aos olhos humanos. Era seu soberano direito criar, por um lado, o exaltado serafim para queimar ao redor do seu trono, e, por outro lado, criar um inseto tão frágil que morre na mesma hora que nasce. Se o poderoso Deus escolhesse ter uma vasta gradação em seu universo, desde o mais sublime serafim até o réptil que se arrasta, desde os mundos em revolução aos átomos flutuantes, do macrocosmo ao microcosmo, em vez de fazer cada coisa uniforme, quem poderia questionar sua vontade soberana?”. (Ver Jó 38:1-2).
Dr. Warfield prova em seu artigo (“Predestinação” Biblical Doctrines, p. 7) que a concepção do Velho Testamento sobre Deus é a de uma pessoa moral, toda poderosa que dirige todo o universo.
“Não podemos pensar em Deus senão como um ser que determina tudo o que acontece no mundo, deste mundo que é produto de seu ato criador. A doutrina da providência, que está espalhada em todas as páginas do Velho Testamento sustenta totalmente esta crença. O Todo Poderoso construtor é apresentado também como o irresistível governador de tudo quanto Ele tem feito. Todas as coisas sem exceção estão dispostas por Ele, e sua vontade é a última palavra para tudo o que acontece. Os céus e a terra e tudo o que neles há são instrumentos pelos quais Ele executa seus planos. A natureza, as nações e o destino do indivíduo são, igualmente, em todas as suas mutações, cópia de seu propósito. Os ventos são seus mensageiros, a chama de fogo sua serva, cada ocorrência é seu ato; a prosperidade é seu dom, e, se a calamidade cai sobre o homem é o Senhor que tem feito (Am.3:5,6; Lm. 3:33-38; Is.45:7; Ec.7:14; Is.44:16). É Ele que dirige os passos dos homens, quer eles saibam ou não, quem ergue e derriba; abre e endurece o coração; e, cria os pensamentos e intentos verdadeiros do coração.”
“Em uma palavra, a soberania da vontade divina, como princípio de tudo que acontece, é um postulado primário da vida religiosa, como também da visão do mundo como apresentada no Velho Testamento. Ela está implicada na verdadeira idéia de Deus, está dentro da concepção da relação de Deus com o universo e com tudo que acontece na natureza, na História e no destino dos indivíduos. Ela está também dentro do esquema da religião, seja nacional ou pessoal. Está colocada na base de todas as emoções religiosas e é o fundamento de todo o caráter religioso construído em Israel".
Como o Dr. Charles Hodge mostra, a soberania de Deus é exercida:
1) Estabelecendo as leis físicas e morais que governam suas criaturas;
2) Determinando a natureza e os poderes das diferentes ordens dos seres criados e designando cada um em sua esfera apropriada;
3) Apontando para cada indivíduo sua posição e seu destino;
4) E, também, nas distribuições de seus favores. "porventura não me é lícito fazer o que eu quero do que é meu?” Mt.20:15.
Em resumo, reconhecer Deus como o supremo soberano do universo, como governador moral do mundo, é admitir sua divindade e seu direito de dispor o que ele criou de acordo com sua vontade e seu plano, é dizer que Ele é na realidade um Deus e não um títere sujeito às circunstâncias que Ele não criou e não pode controlar; não um fantoche que acomoda seus planos às circunstâncias que não dependem dele, mas da vontade livre e dos atos de suas próprias criaturas. A concepção que nós temos de Deus, especialmente de acordo com o que aprendemos na Bíblia, obriga-nos a crer que, sendo soberano Ele decretou tudo o que acontece para sua glória e para o bem daqueles que o amam, “daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. (Rm.8:28). Ele nunca é derrotado. Ainda quando tudo parece estar contra o que Ele planejou, como quando Cristo era rejeitado pelas cidades onde operou a maioria de seus milagres e onde pregou a maioria de seus sermões; ainda assim, devemos fazer como Cristo fez naquela ocasião, isto é, deu graças a Deus porque tudo aconteceu de acordo com o seu plano. “Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido: Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo. Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado”. (Mt.11:20-26). A morte de Cristo parecia ser uma grande derrota, no entanto, lemos na Bíblia, em referência a essa aparente frustração o seguinte: “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos”. (At.2:22,23). Ainda quando tudo está tão escuro como num dia de tempestade, nós sabemos que além e acima das nuvens escuras de nossa aflição e perplexidade, o sol da misericórdia e do poder de Deus brilha e que, no fim, tudo acontecerá como Ele planejou e determinou para sua glória e nossa felicidade. É claro, portanto, que a soberania de Deus, pressupõe os seus decretos.
Gostaria de concluir este estudo com as seguintes observações do Dr. Charles Hodge:
“Não obstante essa soberania ser universal e absoluta, é soberania de sabedoria, santidade e amor. A autoridade de Deus não é limitada por nada fora dele mesmo, mas é controlada em todas as suas manifestações, por suas perfeições infinitas. Esta soberania é a base da paz e da confiança de todo o seu povo. Eles se regozijam porque o Senhor Deus Onipotente reina, porque nem a necessidade, nem o acaso, nem a loucura dos homens, nem a malícia de satanás controla a seqüência dos acontecimentos e os seus resultados finais. Sabedoria infinita, amor e poder pertencem ao nosso grande Deus e Salvador, em cujas mãos estão confiados todos os poderes nos céus e na terra”.
4. Argumento da Presciência de Deus:
Deus sendo eterno, não há uma seqüência de tempo em suas atividades.
Por conseguinte, sua presciência e seus decretos são de fato simultâneos. Existe, no entanto, uma relação lógica nas atividades, de Deus, embora não haja uma relação cronológica. Sendo assim, podemos perguntar: A presciência divina precede ou sucede aos decretos de Deus? Precisamos fazer aqui uma distinção muito importante para responder essa pergunta. Há de fato em Deus duas espécies de conhecimento, uma que logicamente precede, e outra que logicamente sucede aos seus decretos. A primeira é o conhecimento que Ele tem das possibilidades; e a segunda é o seu conhecimento ou antes, sua presciência da certeza dos fatos possíveis. Antes de decretar ou preordenar, Deus deve ter conhecido uma multidão de planos possíveis. Porém de nenhum desses planos possíveis podia haver certeza enquanto ele não decidisse neste sentido.
E com referência a este fato que a “Confissão de Fé” declara:
“Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições.”
Na “Confissão” citam-se duas passagens bíblicas que ilustram o conhecimento que Deus teve de possibilidades que nunca chegaram a ser realidades. Em 1Sm.23:11,12, Davi perguntou a Deus, “Entregar-me-ão os homens de Queila nas mãos dele? Descerá Saul, como o teu servo ouviu? Ah! Senhor, Deus de Israel, faze-o saber ao teu servo. E disse o Senhor: Descerá. Perguntou-lhe Davi: Entregar-me-ão os homens de Queila, a mim e aos meus servos, nas mãos de Saul? Respondeu o Senhor: Entregarão.” Deus sabia o que aconteceria se Davi ali ficasse. Mas como não estava decretado que tal acontecesse, Davi foi avisado e retirou-se, pelo que aquilo jamais se realizou. Em Mat.11:21,23 Cristo disse que se tivesse feito em Tiro, Sidom e Sodoma os prodígios que fizera em Corazim, Betsaida e Cafarnaum, aquelas cidades pagãs ter-se-iam arrependido. Isso é conhecimento de uma possibilidade que não chegou nunca a se tornar realidade, porque não fora incluída nos decretos de Deus. Este não criou as circunstâncias que teriam resultado no arrependimento daquelas cidades pagãs, e assim é claro que Ele não preordenou a conversão delas. Todos os eventos, porém, que Deus conheceu antes ou previu como certos, esses Ele incluiu nos seus decretos, e os previu pela simples razão de havê-los decretado. Reconhecer, pois, que Deus prevê ou conhece de antemão tudo o que acontece é reconhecer que Ele tudo decretou.
“Decretar a criação implica em decretar-lhe os resultados previstos... Na eternidade não podia haver nenhuma causa da futura existência do universo fora do próprio Deus, visto como nenhum ser existia além dele. Na eternidade Deus previu que a criação do mundo e o estabelecimento das leis que o regem fariam certa sua história atual, até mesmo nos mais insignificantes detalhes. Mas Deus decretou criar e estabelecer essas leis. Assim decretando, decretou necessariamente tudo quanto haveria de acontecer. Por fim, Ele previu os acontecimentos futuros, do universo, como certos, porque decretou criar; porém tal determinação de criar envolveu também a determinação de todos os resultados atuais dessa criação ou, em outros termos, Deus decretou esses resultados”.
“O conhecimento de um plano como ideal ou possível pode preceder ao decreto; mas o conhecimento de um plano como real ou decidido deve seguir-se ao decreto... Deus portanto prevê a criação, as causas, as leis, os acontecimentos, as conseqüências porque decretou a criação, as causas, as leis, os acontecimentos, as conseqüências; isto é, porque Ele incluiu tudo isso em seu plano. A negação dos decretos envolve logicamente a negação da presciência que Deus tem das livres ações humanas; a isto são levados de fato os socinianos e alguns arminianos... Deus conheceu as livres ações humanas como possíveis, antes de decretá-las; conheceu-as como futuras, haveriam de acontecer, porque as decretou... Quando digo, “Sei o que vou fazer”, é evidente que antes já tomei uma resolução; esse meu saber não precede a resolução, mas vem depois dela e nela se baseia... Existem pois duas espécies de conhecimento divino:
1. conhecimento do que pode acontecer — do possível (scientia simplicis intelligentiae);
2.conhecimento do que há e do que vai acontecer, porque Deus o decretou (scientia vísionis). Entre essas duas, o jesuíta espanhol Molina concebeu erroneamente uma outra, a saber, um conhecimento intermediário do que haveria de acontecer, embora Deus não o decretasse (scientia media). Seria este naturalmente um conhecimento que Deus fizesse derivar não de si mesmo, mas de suas criaturas! Mas decretar criar, quando Ele prevê que certos atos livres dos homens virão depois, é decretar tais atos livres no único sentido em que empregamos a palavra decreto, a saber, tornar certo, ou abranger em seu plano. Nenhum arminiano, que creia na presciência que Deus tem das livres ações humanas, tem boa razão para negar os decretos de Deus, explicados assim".
Mas, como harmonizar a presciência de Deus neste sentido, isto é, como resultado de seus decretos, com a responsabilidade do homem? Por causa desta dificuldade, os socinianos não admitem que Deus conheça de antemão as ações livres e contingentes dos homens, e assim negam de fato a onisciência divina. Os arminianos, no entanto, reconhecem que Deus prevê como certas as livres ações do homem, sem decretá-las, embora as inclua no seu plano. Mas se Deus viu antes que certa pessoa, criada em determinado tempo e lugar e colocada em certas circunstâncias, agiria de certo modo, e apesar disso a criou exatamente em tais circunstâncias, não é que Ele decretou que essa pessoa agisse desse modo? Entretanto, Deus não será responsável pelos atos dessa pessoa, porque esta age livremente, espontaneamente, de acordo com sua própria natureza e suas inclinações. Deus não a compele a fazer coisa alguma — a pessoa age por si mesma. Por que o povo de Queila não cometeu o crime de entregar Davi a Saul? Porque Deus avisou a Davi, de modo a desaparecerem as circunstâncias que a eles teriam sido favoráveis para a perpetração do delito. Suponha-se que Deus não tivesse avisado a Davi, que teria acontecido? Tê-lo-iam entregue a Saul. Isto provaria que Deus decretara que eles agissem dessa maneira, criando as circunstâncias que iam resultar naquele ato. Podemos dizer que Deus seria responsável pelo que fizessem com Davi? Não absolutamente. Eles é que seriam responsáveis pelo que fizessem, apesar de estar isso incluído nos decretos de Deus. O mesmo podemos dizer dos irmãos de José, e também de Judas e de todos quantos contribuíram para a crucificação de Cristo. Cometeram um crime, agiram livremente nisso, foram acusados por sua própria consciência. Nada obstante, seus atos pecaminosos foram incluídos nos decretos de Deus e, por isso, foram conhecidos de antemão.
“Disse José a seus irmãos: Agora, chegai-vos a mim... Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos, por me haverdes vendido para aqui; porque para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós... Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra, e para vos preservar a vida por um grande livramento. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá e, sim, Deus.”(Gen.45: 4-8).
“O Filho do homem vai, como está escrito a seu respeito, mas, ai daquele por intermédio de quem o Filho do homem está sendo traído!” (Mat.26:24; cf. Jó.17:12).
“Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e povos de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram”.(At.4:27,28).
“Os arminianos mostram muita reverência pelas perfeições de Deus a ponto de limitarem o conhecimento dele quanto às ações de agentes livres. Mas esforçam-se por fugir à conclusão inevitável do decreto e por salvar sua doutrina favorita dos propósitos condicionais, limitando o interesse divino pelos atos, e especialmente pelos pecados, de agentes livres, a simples conhecimento prévio, permissão e intenção de fazer do ato permitido uma condição de alguma parte do decreto.
Sustento que aqueles que concedem tanto não podem consistentemente parar aí. Se o ato pecaminoso (para fazer o mínimo possível de concessão aos calvinistas) do agente livre foi previsto com certeza por Deus desde a eternidade, então sua ocorrência deve ser certa. Contudo neste universo nada acontece sem uma causa; deve pois haver algum fundamento para a certeza dessa ocorrência. E é nesse fundamento que assenta a presciência de Deus.
Perguntais que fundamento é esse?
Respondo com uma pergunta: Como pode o conhecimento que Deus tem do possível passar para o seu conhecimento do real? Somente pela sua determinação de assegurar a ocorrência deste último. Conceba-se Deus a criar um agente livre, de acordo com o seu plano, e a lançá-lo aí em liberdade. Se Deus conhece de antemão tudo o que esse agente livre vai resolver fazer, se for criado, acaso não propõe a realização desses atos, quando cria esse agente? Negá-lo é uma contradição. Podemos não ser capazes de ver perfeitamente como é que Deus consegue com certeza a prática desses atos por agentes livres, e ainda deixando-os agir unicamente pela própria vontade deles (espontaneamente), mas o que não podemos é negar que Ele o faz. Do contrário teríamos a subversão de sua soberania e presciência. Com relação ao homem tais acontecimentos podem ser de todo contingentes, duvidosos, eventuais; mas quanto a Deus, nenhum deles pode ser contingente; de outro modo, todas as partes do seu decreto' ligadas, como efeitos, com tais eventos como causas, seriam contingentes no mesmo grau”.
“Os arminianos admitem que todos estes atos intermediários dos homens foram previstos eternamente por Deus, e assim foram incluídos no seu plano como condições: mas não foram preordenados. Replicamos: se foram previstos com certeza, sua ocorrência era certa; se esta era certa, então alguma coisa devia haver que determinasse tal certeza. Essa alguma coisa ou era a sábia preordenação de Deus, ou um fado, destino, cego e físico. Os arminianos que escolham”.
Em conclusão, sendo onisciente. Deus sabe tudo o que pode acontecer, inclusive os atos de agentes livres. E sendo onipotente, só aquilo que Ele faz ou permite que se faça pode ocorrer. Por conseqüência, tudo quanto Deus previu foi por Ele decretado. Concluímos, assim, que a presciência de Deus prova os seus decretos.
segunda-feira, 2 de julho de 2018
Os Elos da SALVAÇÃO BÍBLICA!
O PROCESSO DA SALVAÇÃO: COMO ACONTECE?
Eleição, predestinação, regeneração (fé salvífica, arrependimento), justificação (adoção, redenção, propiciação, remissão, reconciliação, perdão), santificação e glorificação.
ELEIÇÃO: É o ato soberano e livre exercido por Deus, em escolher os que serão salvos. (Jo 15:16; Rm 8:29; Ef 1:4; 2 Ts 2:13; 2 Tm 1:9).
PREDESTINAÇÃO: São os meios determinados por Deus para trazer os eleitos até Ele. (Jo 6:37, 44; Rm 8:29; Ef 1:5; 2:10; 2 Ts 2:14).
REGENERAÇÃO: É a transição do estado de morte para o estado de vida. (Jo 5:24; Cl 2:13; Ef 2:1, 5, Tt 3:4-7).
JUSTIFICAÇÃO: É a remoção da culpa e da punição do pecado. (Rm 3:24-25; 5:1-2).
SANTIFICAÇÃO: É a libertação do poder do pecado e o processo pelo qual o cristão passa a se parecer com Jesus Cristo, se separando e se consagrando a Deus. (Jo 15:16; Rm 6:18-23; Ef 2:10; 1 Ts 4:7; 1 Pe 2:9).
GLORIFICAÇÃO: É a remoção da presença do pecado. (1 Co 15:43-58; Fp 3:21; 1 Jo 3:2).
BIBLICAMENTE FALANDO, ESTE É O PROCESSO DA SALVAÇÃO.
Sola Scriptura!
Sola Gratia!
Sola Fide!
Solus Christus!
Soli Deo Glória!
Eleição, predestinação, regeneração (fé salvífica, arrependimento), justificação (adoção, redenção, propiciação, remissão, reconciliação, perdão), santificação e glorificação.
ELEIÇÃO: É o ato soberano e livre exercido por Deus, em escolher os que serão salvos. (Jo 15:16; Rm 8:29; Ef 1:4; 2 Ts 2:13; 2 Tm 1:9).
PREDESTINAÇÃO: São os meios determinados por Deus para trazer os eleitos até Ele. (Jo 6:37, 44; Rm 8:29; Ef 1:5; 2:10; 2 Ts 2:14).
REGENERAÇÃO: É a transição do estado de morte para o estado de vida. (Jo 5:24; Cl 2:13; Ef 2:1, 5, Tt 3:4-7).
JUSTIFICAÇÃO: É a remoção da culpa e da punição do pecado. (Rm 3:24-25; 5:1-2).
SANTIFICAÇÃO: É a libertação do poder do pecado e o processo pelo qual o cristão passa a se parecer com Jesus Cristo, se separando e se consagrando a Deus. (Jo 15:16; Rm 6:18-23; Ef 2:10; 1 Ts 4:7; 1 Pe 2:9).
GLORIFICAÇÃO: É a remoção da presença do pecado. (1 Co 15:43-58; Fp 3:21; 1 Jo 3:2).
BIBLICAMENTE FALANDO, ESTE É O PROCESSO DA SALVAÇÃO.
Sola Scriptura!
Sola Gratia!
Sola Fide!
Solus Christus!
Soli Deo Glória!
segunda-feira, 18 de junho de 2018
Aborto - O massacre dos inocentes contra os poderosos
“Ouvindo esta a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; então, Isabel ficou possuída do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre!” (Lucas 1:41-42)
Muitos cristãos, evangélicos e católicos, até mesmo não-cristãos pró-vida, vêm denunciando o ponto mais frágil do argumento em favor da descriminalização ou legalização do aborto: a falta de um conceito claro do que significa ser humano (antropologia)[1] que dê garantias de que não se está matando ou interrompendo uma vida humana quando se aborta.
A discussão toda vai na direção do conceito de “pessoa”. Basicamente este é o argumento: um embrião ou um aglomerado celular, sem consciência, não pode ser considerado uma “pessoa”, logo, nesta fase o aborto seria eticamente viável. Para alguns ou algumas militantes pela legalização ou descriminalização do aborto, por “pessoa” entende-se aquele indivíduo biologicamente humano que desenvolveu consciência ou autonomia.
As consequências lógicas e éticas do argumento acima chegam a lugares antes inimagináveis. Hoje há filósofos envolvidos em reflexões sobre ética médica que defendem a seguinte hipótese: se até aproximadamente os 3 anos não há “pessoalidade” plenamente desenvolvida, não seria antiético matar uma criança até aproximadamente essa idade[2]. Parece “lógico”: se a fronteira entre aborto ético e antiético é a pessoalidade relacionada à consciência ou inconsciência, se argumentos plausíveis apontarem na direção de que uma criança não tem sua consciência plenamente desenvolvida até 3 ou 4 anos, logo, ela poderia ser morta, ou seja, um infanticídio eticamente justificável. As conclusões parecem absurdas, mas são perfeitamente compatíveis com o principal argumento que justifica a interrupção da vida intrauterina.
Com um pouco de discernimento filosófico, mesmo para não filósofos como eu, o que se percebe é que quem dá o tom ao argumento em favor do aborto é uma antropologia (definição de ser humano) radicalmente dualista. O conceito de ser humano que orienta a maioria dos que argumentam a favor da legalização do aborto se baseia em uma diferenciação radical e artificial entre a dimensão biológica e psicológica. Obviamente, neste caso, o que há é uma clara fragmentação ou fatiamento do que significa ser humano.
A ironia é que cristãos, sem necessariamente usar argumentos religiosos, insistem que seres humanos são mais do que meramente uma massa biológica, mas também, são mais do que mera consciência racional. Não admitem nenhum tipo de redução da condição humana a nenhum de seus aspectos constitutivos. E, de fato, nenhum deles pode ser contraposto ao outro sem que com isso sua integridade seja comprometida.
A biologia ou a neurociência não podem dizer quando a pessoalidade começa ou termina em termos seguros. Podem descrever a formação do sistema nervoso ou níveis de complexificação celular, mas produzir uma definição antropológica segura a partir dos dados que fornece, seria dar um salto metafísico estranho às ciências da natureza.
Mesmo sem uma clara definição, a antropologia que justifica o aborto se fundamenta em um dualismo radical. Ou seja, uma separação brusca entre “consciência” e “corpo”. Não há integralidade, mas sim uma dependência da antropologia moderna que reduz o ser humano apenas à esfera da “consciência”, o velho dualismo cartesiano, só que agora cheio de penduricalhos pós-estruturalistas. Em contrapartida, cristãos ortodoxos insistem: seres humanos são integrais e irredutíveis. E, isto, repito, tem relação com uma percepção elevada de dignidade humana.
Cristãos não acreditam em “neutralidade confessional” na orientação de políticas públicas. Toda política pública se orienta ética e antropologicamente a partir de determinadas “confissões” ou “percepções” de mundo, ou seja, dependem de crenças ideológicas ou filosóficas, não necessariamente racionais. Cristãos liberais que flertam com agendas seculares pecam, por ingenuidade ou por devoção ideológica, quando usam o termo “estado laico” ao associarem o conceito a uma espécie de “não participação ou aplicação de uma cosmovisão cristã na esfera pública”. O discurso é claramente percebido quando se lê algo como o que a militante e defensora da legalização do aborto, Thamyra Thâmara, escreveu recentemente:
“a gente não pode querer que a nossa forma de pensar ou a nossa forma de se relacionar com a fé seja regra para a sociedade. Não podemos querer que religião seja lei, o estado é laico.”[3]
Se a preocupação é que não haja uma imposição de regras eclesiásticas na esfera pública, neste ponto, concordamos. Lutero, Calvino e Kuyper concordariam também. A distinção entre a esfera da igreja e a esfera jurídico-política deve ser mantida e com regras derivadas de suas respectivas estruturas. Mas isso não significa que cristãos, inspirados em seus pressupostos, não podem defender a plausibilidade pública de sua antropologia ante outras antropologias, como a utilizada pelos que defendem a legalização do aborto. Indivíduos pró-escolha (pró-aborto ou pró-legalização do aborto) fundamentam sua opinião ética a partir de conclusões metafísicas e não necessariamente científicas. A metafísica é um campo de reflexão filosófica que lida com a noção de origem e propósito das coisas. Neste sentido, cristãos falam sem pudor que possuem uma metafísica e antropologia melhores do que aquelas que territorializam o corpo, que separam a constituição psicológica da biológica, e que brincam de definir fronteiras entre pessoalidade e não-pessoalidade humanas.
Thamyra, talvez sem perceber, parte de uma antropologia com data e hora de nascimento, argumenta:
“Você sabia que lá no Uruguai o aborto pode ser feito por qualquer motivo até a 12ª semana de gestação, ou seja, antes da formação do sistema nervoso. O feto não iria sofrer.”
Observe que para ela, o limite moral para legalizar o aborto é o “sofrimento” ou “não sofrimento” do feto. Não há nenhuma menção sobre o potencial vital e os fascinantes e providenciais dispositivos biológicos antiabortivos (lembra da progesterona?) disparados no corpo de uma mulher para que aquela vida humana (e não de um cachorro, gato ou golfinho) logre êxito rumo ao nascimento. Não há nenhum receio por parte da autora a respeito das fronteiras difíceis de serem definidas pela ciência, filosofia, psicologia ou teologia. Falta reverência pela vida intrauterina, enquanto há uma forte consideração por uma ética fundada em pura subjetividade e em uma ideologia secular.
A autora desconsidera o fato de que mães que querem o sucesso de sua gravidez não tratam aquele que está em seu útero como “feto” ou “embrião”, mas como “filho”. A preocupação legítima com o sofrimento de mulheres com uma gravidez indesejada, porém associada a uma distinção entre “vida embrionária” e “vida humana”, tem um apelo emocionalista e um efeito retórico colateral que é um verdadeiro “tapa na cara” de outras milhares de mulheres que lidam com esta vida intrauterina em termos de “Eu-Tu” e não “Eu-Isso”[4]. Nenhuma mulher que conheço diz: “- Meu feto querido!” ou “- Meu embrião amado e tão esperado!”. Desde o início, seu corpo, afetos e expectativas projetam-se para um ser humano até seu nascimento, independente do lapso temporal. Para militantes da legalização do aborto essas mães são bobinhas e ingênuas.
A antropologia que orienta as conclusões éticas de muita gente que apoia a legalização do aborto tem fronteiras tão fluídas e arbitrárias que não seria nenhum exagero alegar que:
“o conceito de pessoalidade desconectado da biologia, se torna subjetivo e arbitrário — abrindo a porta para a desumanidade e opressão. Qualquer um em qualquer estágio da vida poderia ser rotulado ao status de ‘não-pessoa’ lhe sendo negado o direito a viver.”[5]
Baseado em tudo que fora discutido até agora, postula-se que:
- Qualquer defesa da legalização ou da não-legalização do aborto deve se basear em conclusões metafísicas e definições antropológicas precisas e claras, sem apelo sentimentalista;
- Depois de definida a antropologia, deve-se defender a plausibilidade e qual antropologia aprecia adequadamente a dignidade humana;
- A antropologia por trás do principal discurso pró-aborto é dualista, não-integral, com um fundo racionalista, sentimentalista e subjetivista;
- A defesa cristã de uma antropologia elevada, irredutível e integral não permite o apoio a nenhuma política pública de legalização do aborto sem que isso fira a consciência do cristão;
- A antropologia cristã está no cerne da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Vale uma consulta ao livro “Justice: rights and wrongs” de Nicholas Wolterstorff. Qualquer relativização deste princípio levará a humanidade a uma ética arbitrária. Basta lembrar de Richard Rorty, filósofo pragmatista americano, que defendeu no II Fórum de Filosofia da UNESCO (Paris, 1996), que a superação da noção de “direitos universais” é uma questão urgente, afinal, tal conceito têm raízes judaico-cristãs. Em seu lugar, seria necessária uma nova antropologia fundada em superioridade econômica, e um explícito escalonamento entre “humanos” e “sub-humanos”. Honesto, se partirmos da noção secular de que a antropologia judaico-cristã é obsoleta e não tem relevância pública, como indiretamente defendem secularistas travestidos de laicistas, inclusive cristãos.
- Seria irresponsável desprezar a noção de dignidade humana universal como um grande e incalculável legado da antropologia judaico-cristã ao ocidente. Sua importância não é de agora, está no coração de qualquer debate sobre direitos humanos. Uma discussão seriamente plural sobre a legalização do aborto deveria considerar interlocutores que se apoiam nesta sabedoria, sem o mito de neutralidade secular que se esconde em memes de laicização.
- Se entendemos que seres humanos, desde a concepção até a velhice, estão em permanente, integral e complexo desenvolvimento, garantir a proteção à vida desde a concepção, é garantir o desenvolvimento humano em todas as suas etapas. Não considerando nenhuma delas “não-humana” “menos humana” ou “sub-humana” em relação às outras. O problema é que a antropologia dualista ou naturalista tende a seccionar o desenvolvimento humano em etapas temporais estanques, em que cada fase se tem entidades diferentes. Este seccionamento ontogenético produz uma distorção metafísica que pode levar a conclusões como que se existissem fases do desenvolvimento da vida humana em que na verdade não podem ser consideradas intrinsecamente humanas[6]. Neste caso, bastaria argumentar, ainda que de maneira arbitrária ou subjetiva, que em uma determinada fase ainda não se tem um “ser humano” para justificar um aborto “ético”. Em outras palavras: acredita que o desenvolvimento humano é um direito? Então, garanta-o desde sua concepção.
Baseado nos postulados acima, concluímos que a resistência à legalização do aborto inspira-se em pelos menos três princípios: 1. Uma concepção de ser humano (antropologia) integral e elevada; 2. No direito que o ser humano tem à vida e a seu pleno desenvolvimento desde sua concepção até a velhice; 3. Na irredutibilidade de sua condição humana, ou seja, seres humanos não podem ser reduzidos nem à consciência/racionalidade, nem à esfera biológica e tampouco a nenhum de seus outros aspectos constitutivos.
Enfim, esses parecem ser princípios plausíveis e razoáveis para se tratar com cuidado posições éticas em relação a um tema tão sensível. A legalização do aborto e a defesa de sua prática de modo irrestrito, dependerão sempre de uma concepção reduzida da dignidade humana. E, conceber o ser humano menor do que ele é ou deveria ser é sempre uma violação dos direitos humanos, ou seja, violência.
__________________________
[1] O termo antropologia é usado neste texto em seu sentido filosófico, ou seja, como sendo o campo ou disciplina filosófica responsável pela definição ou que lida com a natureza humana. A antropologia filosófica trata do problema: O que é o ser humano?
terça-feira, 29 de maio de 2018
A Quem Deus Ama?
A quem Deus ama?
“Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (1Jo 4.8).
Que Deus é amor é fato. A questão que se levanta é “a quem Deus ama?” Ao longo da história, tal pergunta tem recebido diversas respostas inadequadas, dentre as quais destaco cinco:
1 - Deus não se relaciona com a criação ao ponto de estabelecer vínculos de afeto. Ele criou o cosmos e se afastou dele. Este é o ponto de vista do deísmo.
2 - Deus não ama suas criaturas. Ele trata o universo caprichosamente, manipulando anjos e homens como fantoches. Isso é enfatizado em algumas correntes do satanismo. Ensina-se em tais círculos que Satanás é apenas uma pobre vítima dos atos arbitrários e injustos do Criador.
3 - O amor de Deus por tudo e todos sobrepuja sua justiça. Por amar, Deus não julga. Destarte, todos serão salvos. Define-se essa concepção comouniversalismo.
4 - Deus ama a todos os homens tanto como Criador quanto como Redentor e deseja que sejam todos salvos, mas o homem possui a capacidade de rejeitar o gracioso convite de Deus feito por meio de Cristo. Em suma, a vontade do homem pode impedir Deus de realizar seu propósito de salvação. Eis o Arminianismo — as denominações cristãs que creem dessa forma são chamadas arminianas, uma vez que esse ensino foi defendido por Jacó (James ou Thiago) Armínio, um teólogo do século 16 (1560-1609).
5 - Uma ala do calvinismo proclama que Deus ama somente aos eleitos. Os réprobos[1] são objeto unicamente da ira de Deus. O amor de Deus é entendido exclusivamente como seu favor concedido aos predestinados para a salvação, nada além disso.
Os três primeiros postulados são absolutamente contrários ao ensino da Escritura e rejeitados pela Igreja Cristã. O quarto não é abraçado pela Igreja Presbiteriana do Brasil e outras igrejas reformadas. Quanto ao quinto, é aceito por alguns calvinistas, mas eu a considero também inadequada.
Entendo que existe uma sexta resposta, mais fiel ao evangelho.
A essencialidade e unidade dos atributos divinos
Proponho uma ponderação sobre a harmonia essencial dos atributos divinos. Não se trata de nada sofisticado nem sustentado por dezenas de textos-prova. Eis o argumento:
Primeira premissa: Deus é amor e justiça.[2]
Segunda premissa: Se os atributos acima fazem parte da essência divina, e esta é indivisível, em Deus, amor e justiça jamais se separam.
Conclusão: Deus não deixa de ser amor quando se ira, nem deixa de ser justo quando ama.
Note que, na primeira premissa, utilizo a expressão “é” em lugar de “possui”. Além disso, entre os atributos, coloco um “e” e não um “ou”. Deus não apenas age com amor ou com justiça, mas amor e justiça fazem parte de sua essência. Uma vez que a essência de Deus é indivisível, nele, amor e justiça jamais se separam. Deus ama sendo justo e julga sendo amor. Amor e justiça coexistem no UM divino. Sendo assim, é plausível afirmar que o fato de os eleitos serem amados por Deus não significa que Deus não se ira com eles. Por conseguinte, o fato de Deus revelar-se irado contra os réprobos não quer dizer que ele não os ame.
Tal argumentação, estou certo disso, é contestável. Pode ser dito que a presença de um atributo não equivale à obrigatoriedade de sua manifestação em determinado contexto. Mesmo sendo amor, Deus pode demonstrar exclusivamente sua justiça aos réprobos ou vice-versa. Pode ser dito ainda que utilizo sem muita qualificação os termos “amor” e “ira”. Quem sabe eu descubra, para meu aperfeiçoamento, que alguém já assumiu tal posição no passado e foi corrigido de seu erro. Com humildade, porém, pretendo mantê-la como referência, pelo menos até o ponto de confirmá-la ou alterá-la, com base em mais leituras da Escritura e da Teologia.
Outra proposição, agora, sobre o cristão e o ódio
Convido você para acompanhar-me na reflexão sobre uma palavra de Jesus no sermão do monte:
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. […] Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste (Mt 5.43-45, 48).
O cristão pode odiar seus inimigos? Cristo responde que não; é preciso amar até o mais cruel opositor. Como crianças espirituais questionamos a razão disso: Por que devemos amar nossos inimigos? A resposta do Redentor é dupla. Ele diz primeiramente que o amor ao inimigo é necessário “para que vocês se tornem filhos do Pai de vocês”.[3] Jesus estabelece uma ligação entre ser filho de Deus e amar aos inimigos.[4] A segunda parte da resposta é: Vocês devem amar aos inimigos porque Deus “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (v. 45). Em suma, Cristo afirma que mesmo os piores seres humanos são objeto do amor providencial de Deus. A ideia é simples: Os inconversos são inimigos de Deus; mesmo assim Deus cuida deles com sua providência (sol e chuvas). Este amor providencial é o modelo para o amor que o cristão deve dispensar aos seus adversários.
Como explica Bavinck, “também, no lugar de perdição, há graus de punição e, consequentemente, chispas de sua misericórdia”[5] e ainda, “não é verdade que a justiça de Deus só pode ser manifesta na bem-aventurança dos eleitos, pois também no céu sua justiça e santidade estão radiantemente presentes, e até mesmo no inferno há alguma evidência de sua misericórdia e bondade”.[6] Por fim:
Os reprovados também recebem muitas bênçãos, que, como tais, não surgem do decreto da reprovação, mas da bondade e da graça de Deus. Eles recebem muitos dons naturais — vida, saúde, vigor, comida, bebida, bom ânimo e assim por diante (Mt 5.45; At 14.17; 17.27; Rm 1.19; Tg 1.17) — pois Deus não se permite ficar sem testemunho. Ele os suporta com muita paciência (Rm 9.22). Ele quer que o evangelho de sua graça seja proclamado a eles e não tem prazer em sua morte (Ez 18.23; 33.11; Mt 23.27; Lc 19.41; 24.47; Jo 3.16; At 17.30; Rm 11.32; 1Ts 5.9; 1Tm 2.4; 2Pe 3.9).[7]
A palavra de Jesus em Mateus 5.43-48 deve ter soado estranha aos ouvidos dos judeus mais rigorosos porque estes sabiam, pelo AT, que Deus “não suporta” e “detesta” os pecadores (Sl 5.5).[8] Lemos que os “maus” e “injustos” são inimigos de Deus, destinados à condenação (Sl 11.4-7). O judeu mais espiritual podia afirmar como o salmista: “Não aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem? E não abomino os que contra ti se levantam? Aborreço-os com ódio consumado; para mim são inimigos de fato” (Sl 139.21-22). Eis que, então, surge Jesus, Verbo de Deus, um com o Pai, ensinando que os “inimigos”, os “maus”, os “injustos” devem ser amados. E mais: A palavra traduzida por “amai” (agapaō) é a mesma que João usa com respeito ao amor de Deus pelos eleitos (Mt 5.44; Jo 3.16). Seria demais concluir que os discípulos devem amar aos “maus” e “injustos” assim como Deus, providencialmente, os ama?
O ensino é fechado nesses termos: Os discípulos, ao amarem os inimigos se tornam “perfeitos como perfeito é o […] Pai celeste” (v. 48). O adjetivo usado no original (teleioō) assegura o sentido de “genuíno”, “completo” ou “maduro”: “Sejam inteiros, indivisíveis em amor, assim como Deus é”,[9] ou como sugere Peterson: “Resumindo, o que quero dizer é: cresçam!Vocês são súditos do Reino; tratem de viver como tais. Assumam sua identidade, criada por Deus. Sejam generosos uns para com os outros, pois Deus age assim com vocês”.[10]
Uma leitura dos textos bíblicos que se referem ao ódio de Deus
Olhemos agora para alguns textos da Escritura que se referem ao ódio de Deus. Em Salmos 5.5, citado acima, consta que Deus “não suporta” e “detesta” os pecadores. Ele “abomina” os que amam a violência e “fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre”, além de “vento abrasador” (Sl 11.4-7). A situação é tão séria que, de acordo com Provérbios 3.33, “a maldição do Senhor habita na casa do perverso”.
O leitor certamente já ouviu a frase “Deus ama ao pecador e odeia o pecado”. Para alguns estudiosos sérios, essa afirmação é errada. Baseados nos textos acima (dentre outros), argumentam que Deus ama somente aos eleitos. Quanto aos ímpios, eleunicamente os odeia.[11] Afirmar o amor de Deus pelos réprobos — dizem — não apenas contradiz o ensino bíblico sobre a predestinação, mas também sobre a unidade divina (Deus não pode demonstrar dois amores, duas misericórdias), sua imutabilidade (Deus amaria os réprobos no tempo e os odiaria na eternidade), sua justiça (como é que Deus, que “não pode ver o mal”, amaria os que são completamente iníquos?). A ideia do amor de Deus pelos réprobos implicaria em uma noção incorreta de “amor temporário, limitado, mutável e injusto de Deus (fora de Jesus Cristo!)”.[12] Isso resultaria na destruição da antítese (Gn. 3.15), na amenização da depravação total, no comprometimento da expiação particular, na pregação do desejo de Deus de salvar o réprobo, no silenciamento e negação da eleição e reprovação incondicional, na recusa de condenação do arminianismo e seus mestres, e, finalmente, na permissão de comunhão com os arminianos.[13]
De fato aprecio respeitosamente a todos esses argumentos, que provêm de pessoas piedosas e teologicamente mais capazes do que eu. No entanto, proponho uma leitura diferenciada.
Primeiro, a fidelidade às Escrituras exige a pregação e o ensino de verdades aparentemente contraditórias. Sendo assim, o mestre e pregador fiel proclamará em alto e bom som e com toda a convicção, tanto a soberania de Deus quanto a responsabilidade do homem. Ele anunciará que Deus — Santo, Santo, Santo — odeia não apenas a transgressão, mas também ao transgressor. Ademais, afirmará ele que Deus é amor que se desdobra em atos benevolentes para com os inconversos.
Segundo, a afirmação do amor providencial de Deus pelos ímpios não fere a predestinação, pois deve ser dito que antes de os gêmeos nascessem, Deus escolheu a Jacó e odiou a Esaú (Rm 9.11-13). Por outro lado, Esaú subsistiu e prosperou graças à generosidade divina (Gn 33.9; cf. 1Cr 29.12). Se Isaque, o eleito, é o descendente “mediante a promessa” (Gl 4.23), Ismael, o inconverso filho da ”escrava” é tratado carinhosamente por Deus (Gn 21.8-21). Não é contestada a unidade divina: O mesmo Deus concede amor salvador aos eleitos e amor providencial àqueles que ele criou (sim, o fato de um réprobo existir e manter-se vivo é ato de misericórdia divina; Deus poderia não trazer tal indivíduo à luz ou mesmo matá-lo imediatamente após o seu nascimento). Não é atacada a imutabilidade divina pois é o mesmo Deus, rocha imutável, que no tempo faz chover sobre maus e bons, justos e injustos, e que na eternidade separa os salvos dos reprovados. Ao mesmo tempo, apregoa-se a justiça divina em amar a totalidade de sua criação e, ao mesmo tempo, derramar-se em ira sobre os que se recusam a ouvir ao evangelho.
Deus ama salvificamente aos eleitos e providencialmente a tudo o que criou. Discordo que essa seja uma noção incorreta do amor de Deus, nos termos apontados por Stewart. Trata-se de amor que sobrepuja nossa capacidade de entendimento. É amor que, afirmando a antítese, nos faz amar ao injusto, que declara a depravação total, mas enxerga no pagão Ciro (Is 45.1) um instrumento da bondade e justiça de Deus. Que crê e insiste na expiação particular e, ao mesmo tempo, declara que Deus ama ao mundo e salva a todo o que nele crê, que alardeia a eleição e reprovação incondicionais e firma-se na declaração de erro dos arminianos, ao mesmo tempo em que os ama. Sim, subscrevendo a condenação reformada ao Arminianismo do Sínodo de Dort, cremos na possibilidade de comunhão com aqueles que não têm um entendimento esclarecido dos chamados cinco pontos do Calvinismo (acróstico TULIP), pois é salvo aquele que está incluído no Pacto da Graça, que foi regenerado e creu em Cristo como Senhor e Salvador, mesmo que não saiba articular com maestria a doutrina (cf. At 18.24-28).
Eis o resumo da sexta posição: Descarto o universalismo; somente os que creem em Cristo como Senhor e Salvador serão salvos e os que não crerem serão eternamente condenados (Jo 5.24-29, 6.47). Rejeito também o Arminianismo; somente os eleitos recebem a dádiva da fé salvadora (Jo 6.65; At 13.48, 16.14; Rm 8.28-30, 9.6-18; Ef 1.3-14, 2.4-10). Não aceito ainda a proposição do amor divino unívoco — dispensado somente aos eleitos. Deus ama aos eleitos salvificamente, como Pai que os adota para íntima comunhão. Ao mesmo tempo ele possui um vínculo de amor providencial com toda a sua criação, o que inevitavelmente inclui os não-crentes. Esse último tipo de dispensação de amor não implica, necessariamente, em salvação, mas em criação e preservação. Não apenas isso: Deus até concede dons aos não-convertidos de modo que estes produzam coisas boas e belas, ainda que rebelando-se contra o Criador.
O escorregadio universo das palavras
Você aprendeu até aqui que todos os calvinistas concordam quanto ao amor de Deus pelos eleitos. Há uma divisão, porém, quando se fala do amor divino pelos réprobos. Um grupo diz que Deus só ama aos eleitos; o outro entende que ele ama a todas as suas criaturas, aos eleitos salvificamente e aos réprobos providencialmente. Eu me situo no segundo grupo.
O segundo grupo diz que Deus demonstra amor aos réprobos na graça comum. O primeiro argumenta — e prova biblicamente — que os termos “graça” e “misericórdia” só podem ser aplicados no contexto da aliança da salvação, da mediação de Cristo, da regeneração e do perdão de pecados. Tais palavras, dizem, não fazem sentido no contexto da criação. Eles citam teólogos do passado[14] e atuais que demonstram, pela Escritura, que o bem-estar e prosperidade dos ímpios não decorrem da benevolência divina e sim são como lugares escorregadios que os levam à “destruição” (Sl 73.18). Alguns desses teólogos chegam ao ponto de considerar como heresia a defesa da graça comum e propõem separação radical — impossibilidade de comunhão — entre os dois grupos, ou seja, para eles, o calvinismo puríssimo exige rompimento tanto com arminianos quanto com outros calvinistas que assumam a graça comum (ou o amilenismo, ou outros pontos de doutrina).
Os calvinistas da graça comum, por sua vez, admitem que nos primeiros quatro capítulos do livro de Gênesis não são encontradas as palavras “aliança” e “graça”; no entanto, ambas as ideias estão presentes, nos seguintes termos:
Na criação Deus estabeleceu um vínculo de amor e vida com tudo o que criou. Ele criou o universo e providenciou condições para o florescimento e manutenção da existência biológica. Criou o homem e deu-lhe ordenanças. A desobediência humana traria a morte como consequência. Todos os aspectos que compõem um pacto ou aliança estão presentes em Gênesis (as partes pactuantes, o vínculo de vida e amor e, por fim, privilégios e responsabilidades).[15]
Após a queda Deus podia simplesmente matar o primeiro casal, mas ele não fez isso. Pelo contrário, estabeleceu a antítese entre a descendência da serpente e o descendente da mulher (Cristo) e prometeu que este último esmagaria a cabeça do Tentador (Gn 3.15). Em seguida, cobriu a nudez do primeiro casal (Gn 3.21). Note que a palavra “graça” não se encontra no texto, mas a ideia está presente: Favor imerecido relacionado à salvação — a redenção dos eleitos de Deus.
Lemos em Gênesis 4 que Eva deu à luz a Caim que, ao matar seu irmão, demonstra pertencer à linhagem da serpente e tornou-se o primeiro ser humano amaldiçoado na Bíblia (Gn 4.1-8, 11; cf. 1Jo 3.12). Então, surpreendentemente, depois de amaldiçoar a Caim, Deus o marca a fim de preservar-lhe a vida física (Gn 4.15). Logo adiante, a descendência de Caim desenvolve pecuária, artes e siderurgia (cf. Gn 4.20-22). Deus dá a Caim, imerecidamente, condições para viver e desenvolver aspectos dos mandatos social e cultural, ainda que sob a égide do pecado, mui toscamente e para juízo. Isso se configura não como um favor para a salvação, mas providencial (Mt 5.45; cf. Ec 2.24-25) e torna possível falar do amor divino dirigido aos homens réprobos.
Perceba que ambos os grupos identificados como calvinistas abraçam a eleição, são conservadores em sua Teologia, entendem que Deus ama aos eleitos e trata a todos nesta vida — convertidos e inconversos — imerecidamente. A diferença é que, para o primeiro grupo, não podem ser usadas as palavras “misericórdia”, “graça” e “amor”, muito menos “graça comum”, quando se refere aos réprobos. O segundo grupo não vê problema no uso de tais termos.
Respeitando aos grandes teólogos do primeiro grupo, afirmo que, no escorregadio universo das palavras, dividimo-nos. “Você não pode usar a palavra graça nesse caso; os réprobos recebem uma benevolência divina que é diferente do amor”; ou “se você crê na graça comum não pode mais tomar santa ceia comigo”. Respeito quem pensa assim, mas discordo.
Mais: Por estranho que pareça, sou da opinião que a maior dificuldade do ser humano não é crer no ódio, e sim, no amor de Deus. Os réprobos descreem absolutamente e os eleitos, mesmo crendo, duvidam.[16] Ainda que eu pregue sem titubear que Deus julga (e condenará-castigará definitivamente) o Mal e os Maus, entendo que devo proclamar o amor divino revelado primeiramente na criação e providência e, de modo pleno e maravilhoso, em Cristo. Como Paulo no Areópago, proclamo aos ouvintes não-crentes que Deus “não está longe de cada um de nós”, nele “vivemos, e nos movemos, e existimos” e, por meio de Cristo há tanto redenção para os que crerem quanto juízo para os que não crerem (At 17.24-31). Os réprobos, quais réplicas de Satanás, já possuem de forma inata a certeza de que estão sob o juízo de Deus, e o odeiam por isso. Os eleitos, presos à sua estrutura pecaminosa, sabem que são pecadores, e afastam-se constrangidos de Deus. Cabe aos pregadores auxiliar as ovelhas do Senhor a beber nas águas da graça que perdoa, limpa e santifica e então, desafiá-las a demonstrar e anunciar a todos o amor de Deus que “excede todo entendimento” (Mt 5.43-48; Jo 3.16; Ef 3.14-21).
________
Notas
[1] Ainda que sujeito a contestação, neste artigo eu utilizo o vocábulo eleito referindo-me ao indivíduo separado por Deus para ser dele, no desfrute de sua salvação. Os que são deixados no estado de depravação e, por conseguinte, serão condenados, são aqui denominados réprobos.
[2] Isso equivale a dizer que Deus é amor e santo (1Jo 4.8; cf. Is 6.3).
[3] Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).
[4] O termo usado no original grego denota finalidade: É preciso amar ao inimigo para tornar-se filho do Pai celestial. Essa condicionalidade é semelhante à encontrada na oração do Pai-Nosso: “Perdoa as nossas ofensas como também nós perdoamos as pessoas que nos ofenderam” (Mt 6.12 — NTLH).
[5] BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada: Deus e a Criação. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 395. v. 2.
[6] BAVINCK, op. cit., p. 398.
[7] Ibid., p. 407.
[8] A tradução Revista e Atualizada (ARA) traduz como “aborreces” e “abomina”. Os termos na Bíblia Hebraica contêm a ideia de “ódio”.
[9] LOUW, J. P.; NIDA, E. A. Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains. 2. ed. New York: United Bible Societies, 1996, 88.100, p. 752–753.
[10] PETERSON, Eugene. Bíblia A Mensagem.
[11] Cf. BAKER, Kyle. O Ódio de Deus. Em formato PDF. Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[12] STEWART, Angus. Graça Comum. Em formato PDF. Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[13] Será que a “comunhão com os arminianos” é vedada aos crentes calvinistas? Eu não entendo que George Whitefield, um calvinista, pecou ao cultivar comunhão com o arminiano John Wesley.
[14] Especialmente VERMIGLI, Peter Martyr. Manual de Teologia Sistemática (cerca de 1656), citado por MOORE, Jonathan. É Novidade Negar a Graça Comum? Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[15] Cf. VAN GRONINGEN. Criação e Consumação. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. v. 1.
[16] Ao ensinar os crentes sobre a correção divina, Calvino sublinha a necessidade de sermos confirmados na certeza de que Deus nos é propício, ou seja, nos ama infinitamente por meio de Cristo — CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. III.4.38. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. v. 3).
sexta-feira, 25 de maio de 2018
Quem é Deus?
Quem é Deus? Que pergunta intrigante. Há muitas pessoas que não acreditam na existência de Deus, há outras que acreditam que se Deus existe ele não pode ser conhecido, há outros que acreditam em muitos deuses, há outros que acreditam que Deus está longe, distante, que não interage com as suas criaturas. Mas, quem é Deus? Deus é auto-existente, Deus é eterno, Deus é infinito, Deus é imenso, Deus é onipotente, Deus é onisciente, Deus é onipresente, Deus é transcendente, Deus é soberano, Deus não foi criado, ele é o criador de todas as coisas, Deus não teve um começo, ele mesmo é o Pai da eternidade. O salmo 139 vai descrever pra nós a majestade, a grandeza, a sublimidade deste Deus vivo e verdadeiro, só existe um Deus, não existe outros deuses; é o Deus Pai, o Deus Filho e o Deus Espírito Santo.
O salmo 139 abre com a verdade gloriosa da onisciência de Deus. Esse texto diz: Senhor, tu me sondas e me conheces, conhece o meu levantar, o meu deitar, o meu andar, de longe de penetras os meus pensamentos. A palavra nem chegou a minha língua e tu, Senhor, já conheces toda. Isso significa que este Deus único, vivo e verdadeiro conhece tudo a seu respeito; conhece seus movimentos, conhece os lugares aonde você vai, conhece as palavras que você profere, conhece os pensamentos que você alimenta em sua mente, Deus cerca você com pleno e total conhecimento; Deus conhece você mais que você se conhece; nada escapa ao conhecimento de Deus, absolutamente nada, esse Deus é de fato majestoso e glorioso.
Mas esse texto, o salmo 139, trata agora da onipresença de Deus: para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugir da tua face? Se tomar as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá haverá de me guiar a tua mão. Se descer ao mais profundo abismo, lá estás também. Se tentar me esconder nas sombras das trevas, as trevas e a luz para Deus é a mesma coisa. Você não pode escapar de Deus, os olhos de Deus estão sobre você, você não pode esconder nada dele; aquilo que você fecha a porta para ninguém ver, Deus está vendo. Deus conhece as suas obras, Deus conhece o seu coração, Deus conhece as suas palavras, Deus conhece os seus sentimentos, você não pode fugir dele nem nos confins dos mares, nem nos altos céus, nem nas profundezas do abismo, nem vestido com o manto das trevas. Deus está presente em toda parte. Neste vastíssimo e insondável universo, que os estudiosos afirmam ter mais de 92 bilhões de anos luz de diâmetro, não há um centímetro sequer que Deus não esteja presente. Portanto, não tente fugir de Deus, porque Deus está presente em todo lugar. Renda-se a ele, capitule-se aos seus pés, entregue o seu coração para ele, não tente mais fugir de Deus, corra para os braços deste Deus.
Mas em terceiro lugar, Davi ao escrever esse salmo, depois de falar da onisciência de Deus, e da onipresença de Deus, Davi começa a falar da onipotência de Deus, e começa a mostrar como é que Deus nos fez, de forma assombrosamente maravilhosa no ventre da nossa mãe; como Deus conheceu a nossa substância quando éramos ainda informes no ventre da nossa mãe, como ele entreteceu os nossos ossos. E hoje, quando a ciência revela para nós as maravilhas desta criação, entendemos que você é um ser programado por Deus geneticamente. Você tem mais de 60 trilhões de células no seu corpo; em cada uma dessas células, você tem um metro e 70 centímetros de fita de DNA, onde estão gravados e computadorizados todos os seus dados genéticos: a cor de seus olhos, a cor da sua pele, o seu temperamento. Se você pegar esta fita de DNA no seu corpo e espichá-la, você tem 102 trilhões de metros de fita de DNA, você tem 102 bilhões de quilômetros de fita de DNA no seu corpo. Deus criou você de uma maneira assombrosamente maravilhosa, este Deus é onipotente.
Quem é Deus? Deus é onisciente, ele sabe tudo a seu respeito; Deus é onipresente, ele está em todo lugar, você não pode fugir dele; Deus é onipotente, ele criou você, ele formou você, e ele tem poder para salvar você, para perdoar você, para restaurar você, para fazer de você uma nova criatura, dar sentido à sua vida, dar paz à sua alma, trazer alegria indizível, cheia de glória para o seu coração. Deus tem poder para tirar esse cenário cinzento, sombrio da sua vida. Deus tem poder para fazer de você uma nova criatura, arrancar de você esse coração de pedra, insensível, e dar para você um coração de carne, um coração sensível à sua voz. Deus tem poder para quebrar suas algemas, para perdoar seus pecados, para limpar você, lavar você com o sangue do seu filho Jesus. Deus tem poder para fazer de você seu filho, seu herdeiro. Deus tem poder para tirar você das garras de Satanás, das garras do vício. Deus tem poder para fazer de você nova criatura, vaso de honra para a glória do seu nome. Este Deus é o Deus da salvação; o mesmo Deus que criou você é poderoso para salvar você.
Quem é Deus? Deus este maravilhoso criador, protetor, provedor, consolador, redentor, o único Deus vivo digno de ser adorado; você conhece esse Deus? Conhecer a Deus é a razão da própria vida eterna; e a vida eterna é essa, disse Jesus, conhecer a Deus, o único Deus vivo e verdadeiro, e a Jesus Cristo, a que enviaste. Como é que você pode conhecer a esse Deus? Através de Jesus; Jesus Cristo disse: que me ver a mim vê meu pai. Quando você vem para Jesus, quando você se entrega para Jesus, quando você confia em Jesus, e põe sua fé em Jesus, você conhece o verdadeiro Deus, porque Jesus representa Deus, veio revelar Deus, ele e o pai têm a mesma substância, quem olha para Jesus, vê o próprio Deus. Este Jesus pode tomar você pela mão e levar você para o Pai e dar a você a vida eterna.
“SENHOR, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto; de longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos. Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, SENHOR, já a conheces toda. Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões a mão. Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir.” Salmo 139.1-6.
quinta-feira, 24 de maio de 2018
A Divindade de Cristo
ArtigoA divindade de Cristo
Os cristãos não podem acreditar que o Deus que criou este vasto universo realmente entrou em sua própria criação como filho de um carpinteiro em uma localidade comum do Império Romano, há quase dois mil anos atrás, podem? Certamente, os cristãos estão apenas fazendo uma declaração teológica quando falam da divindade de Cristo, certo? Eles não podem acreditar que Jesus é realmente o Deus-homem, o Criador em meio à sua própria criação, certo?
Por incrível que pareça, é exatamente essas crenças que os cristãos afirmam. Além disso, nós realmente acreditamos que esta é a única maneira consistente de ler os escritos dos seus discípulos. De fato, as próprias palavras de Jesus, quando lidas no contexto do judaísmo do primeiro século, indicam claramente que ele viu a si mesmo como tendo descido do céu como o próprio Filho de Deus. Uma dessas indicações pode ser derivada do evangelho geralmente considerado o mais antigo, o evangelho de Marcos. Quando Jesus estava em seu julgamento diante do Sinédrio Judaico, ele foi solenemente inquirido: “És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?”, sua resposta foi direta: “Eu sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu” (Mc 14.61–62). Os leitores modernos podem perder o significado das palavras de Jesus, mas seus ouvintes certamente não o fizeram. Eles sabiam que ele estava citando duas passagens bem conhecidas e significativas das Escrituras hebraicas, Salmo 110.1 e Daniel 7.13, a última apresentando uma figura divina que tem seguidores que o adoram. A resposta foi rápida: “Que mais necessidade temos de testemunhas? Ouvistes a blasfêmia; que vos parece? E todos o julgaram réu de morte” (Mc 14.63-64). Aqueles que ouviram as suas palavras sabiam o que elas queriam dizer.
Mais cedo em seu ministério, depois de realizar uma cura milagrosa, Jesus fez uma afirmação semelhante que também resultou na acusação de blasfêmia. No evangelho de João, Jesus defendeu a cura de um homem no dia de sábado, dizendo: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). Aqui Jesus apela para o fato de que Deus trabalha no sábado, sustentando o universo. Ele chamou Deus de seu próprio Pai de uma maneira única e reivindicou a mesma prerrogativa. E novamente seus ouvintes entenderam a importância de suas palavras: “Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (v. 18). Os judeus não estavam procurando matá-lo apenas por serem confusos ou arrogantes. Eles entenderam suas palavras como blasfêmia, cuja penalidade era a morte. Jesus não os corrigiu, mas lançou-se em uma longa discussão de sua perfeita harmonia com o Pai.
É claro que Jesus também reivindicou ter autoridade sobre a própria morte, ilustrada não apenas no fato dele haver ressuscitado um homem chamado Lázaro da morte, publicamente, diante de seus inimigos (cap. 11), mas em sua afirmação de que ele daria sua vida e a reaveria novamente (10.17-18), uma promessa que ele cumpriu ao ressuscitar dos mortos após a crucificação. É sempre sábio considerar bem as palavras de alguém que não apenas prediz a sua morte (algo que muitos homens sábios fizeram através dos séculos), mas alguém que também afirma que ele reaverá a sua vida novamente e ressuscitará da morte (somente Jesus previu e o realizou). O túmulo vazio é um testemunho silencioso da veracidade das afirmações de Jesus.
Não nos surpreende, portanto, que os seguidores originais de Jesus, os apóstolos, tenham dito frases como “nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tt 2.13; 2Pe 1.1) e “o Senhor da glória” (1Co 2.8) ao longo de suas epístolas. O apóstolo Paulo incluiu Jesus em uma versão expandida da antiga oração judaica conhecida como o Shemá, identificando-o com o Deus de Israel (1Co 8.6), assim como outros fizeram a mesma afirmação (Jo 12.41; Hb 1.10-12). A linguagem sublime que eles usaram para descrever Jesus nunca poderia ter sido usada em relação a um simples homem. Não, eles criam inequivocamente que Jesus era o Deus-homem — verdadeiramente homem e, ainda assim, verdadeiramente Deus.
Claramente, se o Criador invadiu a sua própria criação, não podemos nos esconder de suas reivindicações sobre nós. Não podemos ser neutros em relação a Jesus. Ele convoca todas as pessoas, em todos os lugares, a se arrependerem, crerem e dobrarem os seus joelhos perante ele. Ele é verdadeiramente digno de nosso louvor e fidelidade.
Assinar:
Postagens (Atom)
