quarta-feira, 1 de agosto de 2018

As Doutrinas da Graça de Deus



Estudaremos resumidamente a "TULIP" – acróstico formado pelas iniciais em inglês das cinco doutrinas reformadas da salvação, conhecidas também como as “Doutrinas da Graça de Deus”, a saber:

Total Depravity (Depravação Total), Unconditional Election (Eleição Incondicional), Limited Atonement (Expiação Limitada), Irresistible Grace (Graça Irresistível) e Perseverance of the Saints (Perseverança dos Santos).

As doutrinas da graça dependem umas das outras, e juntas elas apontam para uma verdade central: a salvação ocorre inteiramente pela graça, porque ela pertence inteiramente a Deus. E por ser inteiramente dele, ela é inteiramente para a sua glória. Para que possamos apreciar a glória de Deus nas doutrinas da graça em toda sua plenitude, é útil reconhecer o papel desempenhado por cada pessoa da Trindade nos cinco Pontos do Calvinismo.

A eleição é a escolha de Deus Pai. A expiação é o sacrifício de Deus Filho. A graça que nos leva a Cristo e nos capacita a perseverar até o fim é a obra de Deus Espírito Santo. Assim, a salvação é uma obra divina do início ao fim – o trabalho coordenado do Deus triúno –, como é necessário para que sejamos salvos. Leve o seguinte em consideração: se estamos realmente mortos em nossos pecados (depravação radical), só Deus poderia nos escolher em Cristo (eleição incondicional), somente Cristo poderia expiar os nossos pecados (redenção particular), e somente o Espírito poderia nos levar a Cristo (graça eficaz) e nos preservar nele (graça perseverante).

Portanto, todo louvor e glória pertencem somente a Deus: “Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre!” (Romanos 11.36).

A ORIGEM DOS “CINCO PONTOS”

Os Cinco Pontos do Calvinismo tiveram sua origem a partir de um protesto que os seguidores de Jacob Arminius (um professor de seminário holandês) apresentaram ao “Estado da Holanda” em 1610, um ano após a morte de seu líder. O protesto consistia de “cinco artigos de fé”, baseados nos ensinos de Armínio, e ficou conhecido na história como a “Remonstrance”, ou seja, “O Protesto”. O partido arminiano insistia que os símbolos oficiais de doutrina das Igrejas da Holanda (Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg) fossem mudados para se conformar com os pontos de vista doutrinários contidos no Protesto. As doutrinas às quais os arminianos fizeram objeção eram as relacionadas com a soberania divina, a inabilidade humana, a eleição incondicional ou predestinação, a redenção particular (ou expiação limitada), a graça irresistível (chamada eficaz) e a perseverança dos santos. Essas são doutrinas ensinadas nesses símbolos da Igreja Holandesa, e os arminianos queriam que elas fossem revistas.

OS “CINCO PONTOS DO ARMINIANISMO”

Os cinco artigos de fé contidos na “Remonstrance” podem ser resumidos no seguinte: 1. Deus elege ou reprova na base da fé prevista ou da incredulidade. 2. Cristo morreu por todos os homens, em geral, e em favor de cada um, em particular, embora somente os que creem sejam salvos. 3. Devido à depravação do homem, a graça divina é necessária para a fé ou qualquer boa obra. 4. Essa graça pode ser resistida. 5. Se todos os que são verdadeiramente regenerados vão seguramente perseverar na fé é um ponto que necessita de maior investigação. Esse último ponto foi depois alterado para ensinar definitivamente a possibilidade de os realmente regenerados perderem sua fé, e, por conseguinte, a sua salvação. Todavia, nem todos os arminianos estão de acordo, nesse ponto. Há muitos que acreditam que os verdadeiramente regenerados não podem perder a salvação e estão eternamente salvos.

A REJEIÇÃO DO ARMINIANISMO PELO SÍNODO DE DORT E A FORMULAÇÃO DOS CINCO PONTOS DO CALVINISMO

Em 1618, foi convocado um Sínodo nacional para reunir-se em Dort, a fim de examinar os pontos de vista de Armínio à luz das Escrituras. Essa convocação foi feita pelos Estados Gerais da Holanda para o dia 13 de novembro de 1618. Constou de 84 membros e 18 representantes seculares. Entre esses estavam 27 delegados da Alemanha, Suíça, Inglaterra e de outros países da Europa. Durante os sete meses de duração do Sínodo houve 154 sessões para tratar desses artigos. Após um exame minucioso e detalhado de cada ponto, feito pelos maiores teólogos da época, representando a maioria das Igrejas Reformadas da Europa, o Sínodo concluiu que, à luz do ensino claro das Escrituras, esses artigos tinham que ser rejeitados como não bíblicos. Isso foi feito por unanimidade. Não somente isso, mas o Concílio impôs censura eclesiástica aos “remonstrantes” – depondo – os de seus cargos, e a autoridade civil (governo) os baniu do país por cerca de seis anos. Além de rejeitar os cinco artigos de fé dos arminianos, o Sínodo formulou o ensino bíblico a respeito desse assunto na forma de cinco capítulos que têm sido, desde então, conhecidos como “os cinco pontos do Calvinismo”, pelo fato de Calvino ter sido grande defensor e expositor desse assunto. Embora cause estranheza a muitos essa posição, devido à mudança teológica que as igrejas têm sofrido desde vários séculos, os reformadores eram unânimes em condenar o arminianismo como uma heresia ou quase isso. A salvação era vista como uma obra da graça de Deus, do começo ao fim, sem qualquer contribuição do homem.

 – DEPRAVAÇÃO TOTAL

O ponto de vista que alguém toma a respeito da salvação será determinado, em grande escala, pelo conceito que essa pessoa tem a respeito do pecado e de seus efeitos sobre a natureza humana. Por isso, o primeiro ponto tratado pelo sistema calvinista é a doutrina bíblica da DEPRAVAÇÃO  TOTAL ou INABILIDADE TOTAL. Quando o calvinista fala do homem como sendo totalmente depravado, quer dizer que sua natureza é CORRUPTA, PERVERSA e TOTALMENTE  PECAMINOSA. O adjetivo “total” NÃO significa que cada pecador está tão completamente corrompido em suas ações e pensamentos quanto lhe seja possível ser.

O termo é usado para indicar que TODO O SER do homem foi afetado pelo pecado. A corrupção estende-se a todas as partes do homem, CORPO e ALMA. O pecado afetou a totalidade das faculdades humanas – sua MENTE, sua VONTADE, etc. (Confissão de Fé, VI, 2). Também se pode usar o adjetivo “total” para incluir nele toda a raça humana, SEM EXCEÇÃO. Como resultado dessa corrupção inata, o homem natural é TOTALMENTE INCAPAZ  de fazer qualquer coisa espiritualmente boa. É o que se quer dizer por “inabilidade total”. A inabilidade referida nessa terminologia é a “inabilidade espiritual”. Significa que o pecador está tão espiritualmente falido que ele nada pode fazer com respeito à sua SALVAÇÃO. É evidente que muitas pessoas não salvas, quando julgadas pelos padrões humanos, possuem qualidades admiráveis e realizam atos virtuosos. Porém, no CAMPO  ESPIRITUAL, quando julgadas pelos padrões divinos, são incapazes de fazer o bem (Confissão de Fé, XVI, 1 e 7).

O homem natural está ESCRAVIZADO pelo PECADO: é FILHO de Satanás, REBELDE para com Deus, CEGO para com a verdade, CORROMPIDO e INCAPAZ de salvar-se a si mesmo ou de preparar-se para a salvação. Em resumo, o NÃO  REGENERADO está morto em pecado e sua vontade está escravizada à sua NATUREZA MÁ. O homem não veio das mãos do seu Criador nessa condição depravada. Deus fez a Adão perfeito, sem qualquer maldade em sua natureza. Originalmente, a vontade de Adão estava livre do domínio do pecado. Ele não estava sujeito a qualquer compulsão natural para escolher o mal; porém, por sua queda, trouxe a morte espiritual sobre si mesmo e sobre toda a sua posteridade. Desse modo, lançou a si mesmo e a toda a raça na ruína espiritual e perdeu para si e para os seus descendentes a habilidade de fazer escolhas certas no campo espiritual.

Seus descendentes ainda são livres para escolher – todo homem faz escolhas em sua vida – mas, visto que a geração de Adão nasce com natureza pecaminosa, não tem a habilidade para escolher o BEM ao invés do MAL. Por conseguinte, a vontade do homem não é mais livre (i.e., livre do domínio do pecado) como era livre a vontade de Adão, antes da queda. Em vez disso, a vontade do homem, como resultado da DEPRAVAÇÃO HERDADA, está escravizada à sua natureza pecaminosa. A Confissão de Fé de Westminster nos dá uma declaração clara e concisa dessa doutrina: “O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso” (IX, 3).

Como resultado da transgressão de Adão, os homens são nascidos em pecado e são, por natureza, espiritualmente mortos; portanto, para se tornarem filhos de Deus e entrarem no Seu reino precisam NASCER  DE NOVO, do Espírito.

1. Como resultado da transgressão de Adão, os homens são nascidos em pecado e são, por natureza, espiritualmente mortos; portanto, para se tornarem filhos de Deus e entrarem no Seu reino precisam nascer de novo, do Espírito.

a) Quando Adão foi colocado no jardim do Éden, foi advertido para não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, sob pena de imediata morte espiritual;

b) Adão desobedeceu e comeu do fruto proibido (Gn 3:1-7); por conseguinte, trouxe morte espiritual sobre si mesmo e sobre a raça;

c) Davi confessou que tanto ele, como os demais homens, fora nascido em pecado (Sl 51);

d) Porque os homens são nascidos em pecado e são, por natureza, espiritualmente mortos. Jesus ensinou que, para alguém entrar no reino de Deus, é preciso nascer de novo (Jo 3.5-7);

2. Como resultado da queda, os homens estão cegos e surdos para a verdade espiritual. Suas mentes estão entenebrecidas pelo pecado; seus corações são corruptos e malignos. (Gn 6:5; 8:21; Ec 9:3; Jr. 17:9; Mc 7:21-23; Jo. 3:19; Rm 8:7-8; 1Co 2:14; Ef. 4:17-19, 5:8; Tt 1:15)

3. Antes dos pecadores nascerem no reino de Deus pelo poder regenerador do Espírito, são filhos do diabo e estão debaixo de seu controle. São escravos do pecado. (Jo 8:34, 44; Rm 6:20; Ef 2:12; 2Tm. 2:25-26; Tt 3:3; 1Jo 3:10)

4. O domínio do pecado é universal: todos os homens estão debaixo do seu poder; por conseguinte, ninguém é justo, nem um só. (Rm 3:9-18)

5. Os homens, sendo deixados em seu estado de morte, são incapazes, por si mesmos, de se arrepender, de crer no evangelho ou de vir a Cristo. Não têm poder, em si mesmos, para mudar sua natureza ou preparar-se para a salvação (Jr 13:23; Mt 7:18; Jo 6:37, 44, 65 Rm 11:35; 1Co 2:14; 2Co 3:5).

Para mais textos bíblicos sobre o tema, veja:

 (Gn 2:17; 6:5; 8:21; 1 Rs 8:46; Sl 51:5; 58:3; Ec 7:20; Is 64:6; Jr 4:22; 9:5-6; 13:23; 17:9; Jo 3:3,19,36; 5:42; 8:43-44; 14:4; Rm 3:10-11; 5:12; 7:18,23; 8:7; 1 Co 2:14; 2 Co 4:4; Ef 2:3; 4:18; 2 Tm 2:25-26; 3:2-4; Tt 1:15).

 – ELEIÇÃO INCONDICIONAL


Devido ao pecado de Adão, seus descendentes entram no mundo como pecadores culpados e perdidos. Como criaturas caídas, eles não têm desejo de ter comunhão com o seu Criador. Ele é santo, justo e bom, ao passo que eles são pecaminosos, perversos e corruptos- Deixados à sua própria escolha, eles inevitavelmente seguem o deus deste século e fazem a vontade do seu pai, o diabo.

Consequentemente, os homens têm se desligado do Senhor dos céus e têm perdido todos os direitos de Seu amor e favor. Teria sido perfeitamente justo para Deus ter deixado todos os homens em seus pecados e miséria e não ter demonstrado misericórdia a quem quer que seja. É neste contexto que a Bíblia apresenta a doutrina da eleição. A doutrina da eleição declara que Deus, antes da fundação do mundo, escolheu certos indivíduos dentre todos os membros decaídos da raça de Adão para ser o objeto de Seu imerecido amor. Esses, e somente esses, Ele propôs salvar.

Deus poderia ter escolhido salvar todos os homens (pois Ele tinha o poder e a autoridade para fazer isso), ou Ele poderia ter escolhido não salvar ninguém (pois Ele não tem a obrigação de mostrar misericórdia a quem quer que seja), porém não fez nem uma coisa nem outra. Ao invés disso, Ele escolheu salvar alguns e excluir (preterir) outros. Sua eterna escolha de determinados pecadores para a salvação não foi baseada em qualquer ato ou resposta prevista da parte daqueles escolhidos, mas foi baseada tão somente no Seu beneplácito e na Sua soberana vontade. Desta forma, a eleição não foi condicionada nem determinada por qualquer coisa que os homens iriam fazer, mas resultou inteiramente do propósito determinado pelo próprio Deus. Os que não foram escolhidos foram preteridos e deixados às suas próprias inclinações e escolhas más.

Não cabe à criatura questionar a justiça do Criador por não escolher todos para a salvação. É suficiente saber que o Juiz de toda a terra tem agido bem e justamente. Deve-se, contudo, ter em mente que se Deus não tivesse graciosamente escolhido um povo para Si mesmo, e soberanamente determinado prover-lhe e aplicar-lhe a salvação, ninguém seria salvo. O fato de Ele ter feito isto para alguns, à exclusão dos outros, não é de forma alguma injusto para os excluídos, a menos que se mantenha que Deus estava na obrigação de prover salvação a todos os pecadores – o que a Bíblia rejeita cabalmente.

A doutrina da eleição deve ser vista não apenas contra o pano de fundo da depravação e culpa do homem, mas também deve ser estudada em conexão com o Eterno Pacto ou acordo feito entre os membros da Tri-Unidade. Pois foi na execução deste pacto que o Pai escolheu desse mundo de pecadores perdidos um número definido de indivíduos e deu-os ao Filho para serem o Seu povo.

O Filho, nos termos desse pacto, concordou em fazer tudo quanto era necessário para salvar esse povo escolhido e que lhe foi concedido pelo Pai. A parte do Espírito na execução desse pacto foi e é a de aplicar aos eleitos a salvação adquirida para eles pelo Filho. A eleição, portanto, é apenas um aspecto (embora muito importante) do propósito salvador do Deus Triuno, e dessa forma não deve ser vista como salvação. O ato da eleição em si mesmo não salvou ninguém. O que ele fez foi destacar (marcar) alguns indivíduos para a salvação.

Desta forma, a doutrina da eleição não deve ser divorciada das doutrinas da culpa do homem, da redenção e da regeneração, pois de outra forma ela será distorcida e deturpada. Em outras palavras, se quisermos manter em sua perspectiva bíblica, e corretamente entendido, o ato da eleição do Pai deve ser relacionado com a obra redentora do Filho, que Se deu a Si mesmo para salvar os eleitos e com a obra renovadora do Espírito, que traz o eleito à fé em Cristo.

1. Declarações gerais mostrando que Deus tem um povo eleito, que Ele predestinou esse povo para a salvação e, desta forma, para a vida eterna. (Dt 10.14-15; Sl 33:12; Ag. 2:23; Mt 11:27; 22:14 )
2. Antes da fundação do mundo, Deus escolheu determinados indivíduos para a salvação. Sua escolha não foi baseada em qualquer resposta ou ato previsto, a ser cumprido pelos escolhidos. A fé e as boas obras são o resultado e não a causa da escolha divina.
a) Deus fez a escolha (1Ts 1:4; 2:13);

b) A escolha divina foi feita antes da fundação do mundo (Ef 1:4; 2Ts 2:13; 2Tm 1:9 Ap 13:8; 17:8);

c) Deus escolheu determinados indivíduos para a salvação – seus nomes foram escritos no livro da vida antes da fundação do mundo (Ap 13:8;17:8);

d) A escolha divina não foi baseada em qualquer mérito previsto naqueles a quem Ele escolheu, nem foi baseada em quaisquer obras previstas, realizadas por eles: (Rm 9.11- 16; 10:20);

e) As boas obras são o resultado e não a base da predestinação: Ef 1.12; 2:10; Jo 15:16);

f) A escolha divina não foi baseada na fé prevista. A fé é o resultado e, portanto, a evidência da eleição divina, não a causa ou base de Sua escolha (At 13.48; 18:27 Fp 1:2; 2:12; 2:13; 1Ts 1:4-5; 2Ts 2:13-14);

g) É através da fé e das boas obras que alguém confirma sua chamada e eleição: (2Pe 1.5-11).

3. A eleição não é a salvação, mas é para a salvação. Assim como o presidente eleito não se torna o presidente de fato até o dia da sua posse (instalação), assim aqueles que são eleitos para a salvação não são salvos até que sejam regenerados pelo Espírito e justificados pela fé em Cristo (Em Efésios 1:4 Paulo mostra que os homens foram eleitos “em Cristo” antes que o mundo existisse. Em Rm 16:7 ele mostra que os homens não estão realmente “em Cristo” até que se convertam) [Rm 11.7; 2Ts 2:10; At 13:48; 1Ts 2:13-14]
4. A eleição foi baseada na misericórdia soberana e especial de Deus. Não foi a vontade do homem, mas a vontade de Deus que determinou que pecadores iriam ser alvos da misericórdia e ser salvos (Êx 33.19; Dt 7:6-7; Rm 9:11-24; 11:4-36 )
5. A doutrina da eleição é apenas uma parte da doutrina bíblica mais ampla da soberania de Deus. As Escrituras não apenas ensinam que Deus predestinou certos indivíduos para a vida eterna, mas que todos os eventos, grandes ou pequenos, acontecem como o resultado do eterno decreto de Deus. O Senhor Deus reina sobre os céus e a terra com absoluto controle. Nada acontece fora do Seu eterno propósito (1Cr 29.10-12; Jó 42:1-2; Sl 115:3; 135:6; Is 14:24-27; 46:9-11; 55:11; Jr 32:17; Dn 4:35; Mt 19:26)

Para mais textos bíblicos sobre o tema, veja (Dt 4:37; 7:7-8; Pv 16:4; Mt 11:25; 20:15-16; 22:14; Mc 4:11-12; Jo 6:37,65; 12:39-40; 15:16; At 5:31; 13:48; 22:14-15; Rm 2:4; 8:29-30; 9:11-12, 22-23; 11:5,8-10; Ef 1:4-5; 2:9-10; 1 Ts 1:4; 5:9; 2 Ts 2:11-12; 3:2; 2 Tm 2:10,19; Tt 1:1; 1 Pe 2:8; 2 Pe 2:12; 1 Jo 4:19; Jd 1:3-4; Ap 13:8; 17:17; 20:11-21:8).

 – EXPIAÇÃO LIMITADA

Como já foi observado, a eleição em si não salva ninguém; apenas destaca alguns pecadores para a salvação. Os que foram escolhidos pelo Pai e dados ao Filho precisam ser redimidos para serem salvos.

Para assegurar sua redenção, Jesus Cristo veio ao mundo e tomou sobre Si a natureza humana para que pudesse identificar-Se com o Seu povo e agir como seu representante ou substituto. Cristo, agindo em lugar do Seu povo, guardou perfeitamente a lei de Deus e dessa forma produziu uma justiça perfeita a qual é imputada ao Seu povo ou creditada a ele no momento em que cada um é trazido à fé nEle.

Através do que Ele fez, esse povo é constituído justo diante de Deus. Os que constituem esse povo são libertos da culpa e condenação como resultado do que Cristo sofreu por eles. Através do Seu sacrifício substitucionário Ele sofreu a penalidade dos seus pecados e assim removeu sua culpa para sempre. Por conseguinte, quando Seu povo é unido a Ele pela fé, lhe é creditada perfeita justiça pela qual fica livre da culpa e condenação do pecado. São salvos não pelo que fizeram ou irão fazer, mas tão somente na base da obra redentora de Cristo.

O Calvinismo histórico tem mantido de modo consistente a convicção de que a obra redentora de Cristo foi definida em desígnio e realização; isto é, foi intencionada para render completa satisfação em favor de certos pecadores específicos e que, de fato, assegurou a salvação a esses indivíduos e a ninguém mais. A salvação que Cristo adquiriu para o Seu povo inclui tudo que está envolvido no processo de trazê-lo a um correto relacionamento com Deus, incluindo os dons da fé e do arrependimento. Cristo não morreu simplesmente para tornar possível a Deus perdoar pecadores. Nem deixa Deus aos pecadores a decisão se a obra de Cristo será ou não efetiva. Pelo contrário, todos aqueles por quem Cristo morreu serão infalivelmente salvos. A redenção, portanto, foi designada para cumprir o propósito divino da eleição.

Todos os calvinistas concordam que a obediência e o sofrimento de Cristo são de valor infinito, e que, se fosse o propósito de Deus, a satisfação rendida por Cristo teria salvado todos os membros da raça humana. Não seria requerido de Cristo mais obediência nem sofrimento maior para assegurar a salvação de todos os homens do que foi requerido para a salvação apenas dos eleitos. Mas Ele veio ao mundo para representar e salvar apenas aqueles que Lhe foram dados pelo Pai. Desta forma, a obra salvadora de Cristo foi limitada no sentido em que foi designada para salvar uns e não outros, mas não foi limitada em valor, pois seu valor é infinito. Ela teria assegurado a salvação de todos, se essa tivesse sido a intenção de Deus.

Os arminianos também estabelecem uma limitação na obra expiatória de Cristo, mas de natureza inteiramente diferente. Eles acreditam que a obra salvadora de Cristo foi designada para tornar possível a salvação de todos os homens, desde que eles creiam, e de que a morte de Cristo, em si mesma, não assegura ou garante a salvação para ninguém. Desde que todos os homens serão salvos como resultado da obra redentora de Cristo, deve-se admitir que há uma limitação.

Essa limitação consiste num desses dois pontos: ou a expiação foi designada para assegurar a salvação para certos pecadores e não para outros, ou ela foi limitada no sentido em que não foi intencionada para assegurar a salvação de ninguém, mas apenas para tornar possível a Deus perdoar os pecadores na condição da fé. Em outras palavras, a limitação deve ser colocada, em desígnio, na sua extensão, (não foi intencionada para todos), ou na sua eficácia (ela não assegura a salvação para ninguém). Como Boettner adequadamente observa, “para o calvinista a expiação é como uma ponte estreita que atravessa todo o rio; para o arminiano, é como uma grande e larga ponte que vai apenas até a metade do caminho” (The Reformed Doctrine of Predestination, p. 153). Desta forma, são os arminianos que impõem uma limitação maior à obra de Cristo.

1.  As Escrituras descrevem o fim intencionado e realizado pela obra de Cristo como a salvação completa do Seu povo (reconciliação, justificação e santificação).

a) As Escrituras declaram que Cristo veio, não para capacitar os homens a se salvarem a si mesmos, mas para salvar pecadores (Mt 1.21; Lc 19:10; Gl 1:3-4; Tt 2:14; 1Pe 3:18);

b) As Escrituras declaram que, como resultado do que Cristo fez e sofreu. Seu povo é reconciliado com Deus, justificado, e recebe o Espírito Santo que o regenera e santifica. Todas essas bênçãos foram asseguradas por Cristo mesmo, ao Seu povo.

c) Cristo, pela Sua obra redentora, assegurou a reconciliação ao Seu povo. (Rm 5:10- 11; 2Co 5:18-19; Ef 2:15-16; Cl 1:21-22)

2. Cristo assegurou a justiça e o perdão que Seu povo necessita para a sua justificação. (Rm 3:24-25; 5:8-9; 1Co 1:30; Gl 3:13; Cl 1:13-14; Hb 9:12; 1Pe 2:24)

3. Cristo assegurou o dom do Espírito, o qual inclui regeneração e santificação e tudo que está incluído nessas graças. (Ef 1:3-4; Fp 1:29; At 5:31 Tt 2:14; 3:5-6 Ef 5:26; 1Co 1:30; Hb 9:14; 13:12 1Jo 1:7)

a) Passagens que apresentam o Senhor Jesus Cristo, em tudo que Ele fez e sofreu pelo Seu povo, como cumprindo os termos de um pacto ou concerto gracioso no qual entrou com Seu Pai celestial antes da fundação do mundo:

b) Jesus foi enviado ao mundo pelo Pai para salvar o povo que o Pai Lhe deu. Os que o Pai Lhe deu vêm a Ele e nenhum deles se perderá. (Jo. 6:35-40)

c) Jesus, como o bom Pastor, dá a Sua vida pelas Suas ovelhas. Todos os que são Suas ovelhas são trazidos por Ele ao aprisco, levadas a ouvir a Sua voz e a seguí-lo. Notemos que o Pai tem dado as ovelhas a Cristo! (Jo. 10:11-29)

d) Jesus, em Sua oração sacerdotal, roga não pelo mundo, mas por aqueles que o Pai lhe dera. Em cumprimento à tarefa dada pelo Pai, Jesus realizou a Sua obra. Essa obra era tornar Deus conhecido do Seu povo e dar-lhe a vida eterna. (Jo. 17.1-26)

e) Paulo declara que todas as “bênçãos espirituais” que os santos herdam, tais como filiação, redenção, perdão de pecados, etc., resultam do fato de estarem “em Cristo”, e liga essas bênçãos à sua fonte última – o eterno conselho de Deus – onde repousa a grande bênção de terem sido escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo para serem filhos de Deus, por meio dEle. (Ef. 1:3-12)

f) O paralelo que Paulo estabelece entre a obra condenatória de Adão e a obra salvadora de Jesus Cristo, o “segundo Adão”, pode ser melhor explicado na base do princípio de que ambos figuravam numa relação pactual com o “seu povo”. Adão figurava como o cabeça federal da raça e Cristo como o cabeça federal dos eleitos. Assim como Adão envolveu o seu povo na morte e condenação pelo seu pecado, assim também Cristo trouxe justiça e vida ao Seu povo através de Sua justiça (retidão). Rm 5.12-19)

g) Algumas passagens falam de Cristo morrendo por “todos” os homens e de Sua morte como salvando “o mundo”; todavia, outras falam de Sua morte como sendo definida em desígnio, isto é, para assegurar a salvação de um povo específico.

h) Há duas classes de textos que falam da obra salvadora de Cristo em termos gerais:

4. As que contém a palavra “mundo”. (Jo 1:9, 29;3:16,17; 4:42; 2Co 5:19; 1Jo 2:1,2; 4:14)

5. As que contêm a palavra “todos”. (Rm 5:18; 2Co 5:14,15; 1Tm 2:4-6; Hb 2:9; 2Pe 3.9; Jo 1:9; 29; 3:19; 3:16-17; 4:42; 2Co 5:19; 1Jo 2:1-2; 1Jo 4:14; Rm 5:18; 2Co 5:14-15; 1Tt 2:4-6; Hb 2:9; 2Pe. 3:9)

Uma das razões para o uso dessas expressões era corrigir a noção falsa de que a salvação era apenas para os judeus. Frases como “o mundo”, “todos os homens”, “todas as nações”, “toda criatura”, eram usadas para corrigir esse erro. Essas expressões eram usadas para mostrar que Cristo morreu para todos os homens sem distinção (i.e., Ele morreu tanto para judeus como para gentios), mas elas não pretendem indicar que Cristo morreu por todos os homens, sem exceção (i.e., Ele não morreu com o propósito de salvar todo e qualquer pecador perdido).

Há outras passagens que falam de Sua obra salvadora em termos definidos e mostram que ela foi intencionada para salvar infalivelmente um determinado povo, a saber, aqueles que Lhe foram dados pelo Pai. (Mt. 1:21; 26:28; Jo. 10:11; Jo. 11:50-53; At. 20:28; Ef. 5:25-27; Rom. 8:32-34; Heb. 2:17; 3:1; 9:15, 18; Ap. 5:9)

Para mais textos bíblicos sobre tema, veja:

 (1 Sm 3:14; Is 53:11-12; Mt 1:21; 20:28; 26:28; Jo 10:14-15; 11:50-53; 15:13; 17:6,9-10; At 20:28; Rm 5:15; Ef 5:25; Tt 3:5; Hb 9:28; Ap 5:9)

 – GRAÇA IRRESSISTÍVEL

Cada membro da Tri-Unidade – Pai, Filho e Espírito Santo – participa e contribui para a salvação de pecadores. Como já foi mostrado, o Pai, antes da fundação do mundo, escolheu aqueles que iriam ser salvos e deu-os ao Filho para serem o Seu povo.

Na época oportuna, o Filho veio ao mundo e assegurou a redenção desse povo. Mas esses dois grandes atos – a eleição e a redenção – não completam a obra da salvação, pois está incluída no plano divino para a recuperação do pecador perdido a obra renovadora do Espírito Santo, pela qual os benefícios da obediência e da morte de Cristo são aplicados ao eleito.

A doutrina da Graça Irresistível ou Eficaz está relacionada com essa fase da Salvação. Declarada de modo simples, esta doutrina afirma que o Espírito Santo nunca falha em trazer à salvação aqueles pecadores que Ele pessoalmente chama a Cristo. Ele aplica inevitavelmente a salvação a todo pecador que Ele tencionou salvar, e é Sua intenção salvar todos os eleitos. O apelo do evangelho estende uma chamada à salvação a todo que ouve a mensagem. Ele convida a todos os homens, sem distinção, a beber da água da vida e viver. Ele promete salvação a todo que se arrepender e crer.

Mas essa chamada geral externa, estendida igualmente ao eleito e ao não eleito, não trará pecadores a Cristo. Por que? Porque os homens estão, por natureza, mortos em pecado e debaixo de seu poder. Eles são, por si mesmos, incapazes de abandonar os seus maus caminhos e se voltarem a Cristo, para receber misericórdia. Nem podem e nem querem fazer isso. Consequentemente, o não regenerado não vai responder à chamada do evangelho para arrepender-se e crer. Nenhuma quantidade de ameaças ou promessas externas fará um pecador cego, surdo, morto e rebelde se curvar perante Cristo como Senhor e olhar somente para Ele para a salvação.

Tal ato de fé e submissão é contrário à natureza do homem perdido. Por isso, o Espírito Santo, para trazer o eleito de Deus à salvação, estende-lhe uma chamada especial interna em adição à chamada externa contida na mensagem do evangelho. Através dessa chamada especial, o Espírito Santo realiza uma obra de graça no pecador que, inevitavelmente, o traz à fé em Cristo.

A mudança interna operada no pecador eleito o capacita a entender e crer na verdade espiritual. No campo espiritual, são lhe dados olhos para ver e ouvidos para ouvir. O Espírito cria nele um novo coração e uma nova natureza. Isto é realizado através da regeneração (novo nascimento), pela qual o pecador é feito filho de Deus e recebe a vida espiritual. Sua vontade é renovada através desse processo, de forma que o pecador vem espontaneamente a Cristo por sua própria e livre escolha. Pelo fato de receber uma nova natureza que o habilita a amar a retidão, e porque sua mente é iluminada de forma a habilitá-lo a entender e crer no evangelho, o pecador renovado (regenerado) volta-se para Cristo, livre e voluntariamente, como seu Senhor e Salvador. Assim, o pecador que antes estava morto, é atraído a Cristo pela chamada interna e sobrenatural do Espírito, a qual, através da regeneração, o vivifica e cria nele a fé e o arrependimento.

Embora a chamada externa do evangelho possa ser, e frequentemente é, rejeitada, a chamada interna e especial do Espírito nunca deixa de produzir a conversão daqueles a quem ela é feita.

Essa chamada especial não é feita a todos os pecadores, mas é estendida somente aos eleitos. O Espírito não depende em nenhuma maneira da ajuda ou cooperação do pecador para ter sucesso em Sua obra de trazê-lo a Cristo. É por essa razão que os calvinistas falam da chamada do Espírito e da graça de Deus em salvar pecadores como sendo “eficaz”, “invencível” ou “irresistível”. A graça que o Espírito Santo estende ao eleito não pode ser obstada, nem recusada; ela nunca falha em trazê-lo à verdadeira fé em Cristo.

A doutrina da Graça Irresistível ou da Vocação Eficaz é apresentada em termos bem claros no capítulo X da Confissão de Fé de Westminster.

1. Declarações gerais mostrando que a salvação é tanto obra do Espírito, como é do Pai e do Filho. (Rm 8.14; 1Co 2:10-14; 6:11; 12:3; 2Co 3:6, 17-18; 1Pe 1:2;)

2. Através da regeneração ou novo nascimento, os pecadores recebem a vida espiritual e são feitos filhos de Deus. A Bíblia descreve esse processo como uma ressurreição espiritual, uma criação, o recebimento de um novo coração, etc. A mudança interna, que é operada através do Espírito Santo, é fruto do poder e da graça de Deus e de forma nenhuma depende da ajuda do homem para a operação do Espírito ser bem-sucedida.

a) Os pecadores, através da regeneração, são trazidos para o Reino de Deus e feitos Seus filhos. O autor desse “segundo” nascimento é o Espírito Santo: o instrumento que Ele usa é a Palavra de Deus. (Jo 1:12-13; Jo 3:3-8; Tt 3:5; 1Pe 1:3; 1Jo 5:4)

3) Através da obra do Espírito o pecador morto recebe um novo coração (uma nova natureza) e é levado a andar na lei de Deus. Em Cristo ele torna-se uma nova criação. (Dt 30.6; Ez 36:26-27; Gl 6:15; Ef 2:10; 2Co 5:17-18)

a) O Espírito Santo ergue o pecador de seu estado de morte espiritual e o vivifica. (Jo 5.21; Ef 2:1, 5; Cl 2:13)

4. Deus torna conhecidos aos Seus escolhidos os segredos do Reino através da revelação interna e pessoal dada pelo Espírito. (Mt 11:25-27; c. 10:21; Mt 16:15-17; Jo 6:37, 44-45, 64-65 1Co 2:14; Ef 1:17;)

5. A Fé e o Arrependimento são dons divinos, os quais são operados na alma através da obra regeneradora do Espírito Santo. (At 5.31; 11:18; 13:48; 16:14; 18:27; Ef 2:8-9; Fp 1:29; 2Tm 2:25-26)

6.  O apelo do evangelho estende uma chamada geral externa à salvação a todos que ouvem a mensagem. Em adição a essa chamada externa, o Espírito estende uma chamada especial interna aos eleitos e só a esses. A chamada geral do evangelho pode ser, e geralmente é, rejeitada, mas a chamada especial do Espírito não pode ser rejeitada. Ela sempre resulta na conversão daqueles a quem é feita. (Rm 1:6-7; 8:30; :23-24; 1Co. 1:1- 2, 9, 23-31; Gl 1:15-16; Ef 4:4; 2Tm 1:9; Hb 9:15; Jd 1:1; 1Pe 1:15; 2:9; 5:10; 2Pe 1:3; Ap 17:14)

7.  A aplicação da salvação é toda pela graça e só é realizada através do infinito poder de Deus. (Is 55.11; Jo 3:27; 17:2; Rm 9:16; 1Co 3:6-7; 4:7; Fp 2:12-13; Tg 1:18; 1Jo 5:20)

Para mais textos bíblicos sobre tema, veja:

 (Jr 24:7; 31:3; Ez 11:19-20; 36:26-27; Mt 16:17; Jo 1:12-13; 5:21; 6:37,44-45; At 16:14; 18:27; Rm 8:30; 1 Co 4:7; 2 Co 5:17; Gl 1:15; Ef 1:19-20; Cl 2:13; 2 Tm 1:9; Hb 9:15; 1 Pe 2:9; 5:10).

 – PERSEVERANÇA DOS SANTOS

Os eleitos não são apenas redimidos por Cristo e regenerados pelo Espírito; eles são mantidos na fé pelo infinito poder de Deus.

Todos os que são unidos espiritualmente a Cristo, através da regeneração, estão eternamente seguros nEle. Nada os pode separar do eterno e imutável amor de Deus. Foram predestinados para a glória eterna e estão, portanto, assegurados para o céu.

A doutrina da perseverança dos santos não mantém que todos que professam a fé cristã estão garantidos para o céu. São os santos – os que são separados pelo Espírito – os que perseveram até o fim. São os crentes – aqueles que recebem a verdadeira e viva fé em Cristo – os que estão seguros e salvos nEle.

Muitos que professam a fé cristã caem, mas eles não caem da graça pois nunca estiveram na graça. Os crentes verdadeiros caem em tentações e cometem graves pecados, às vezes, mas esses pecados não os levam a perder a salvação ou a separá-los de Cristo.

A Confissão de Fé de Westminster diz o seguinte a respeito dessa doutrina:

“Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que ele chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair no estado da graça, nem total, nem finalmente; mas, com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim e serão eternamente salvos” (XVII, 1).

Boettner certamente está correto em afirmar que “essa doutrina não se manifesta isoladamente, mas é uma parte necessária do sistema calvinista de teologia. As doutrinas da Eleição e da Graça Eficaz implicam logicamente na salvação certa daqueles que recebem essas bênçãos. Se Deus escolheu homens de modo absoluto e incondicional para a vida eterna, e se o Seu Espírito efetivamente aplica-lhes os benefícios da redenção, a conclusão inevitável é que essas pessoas serão salvas” (op. cit., p.182).

Os seguintes versículos mostram que o povo de Deus recebe a vida eterna no momento em que crê. Estes são guardados pelo poder de Deus mediante a fé e nada os pode separar do Seu amor. Foram selados com o Espírito Santo que lhes foi dado como garantia de sua salvação e, desta forma, estão assegurados para uma herança eterna. (Is 43.1-3; 54:10; Jr 32:40; Mt 18:12-14; Jo 3:16, 36: 5:24; 6:35-40, 47; 10:27-30; 17:11-12, 15; Rm 5:8-10; Rm 8:1, 29-30, 35-39; 1Co. 1:7-9; 10:13; 2Co 4:14, 17; Ef 1:5, 13-14; 4:30; Cl 3:3-4; 1Ts 5:23-24; 2Tt 4:18; Hb 9:12, 15; 10:14; 12:28; 1Pe 1:3-5; 1Jo 2:19, 25; 5:4, 11-13, 20; Jd 1:24-25)

terça-feira, 24 de julho de 2018

Quando Deus quer castigar uma nação, lhes dá governantes ímpios-

Quando Deus quer castigar uma nação, lhes dá  governantes ímpios-

O capítulo 6 de Amós trata da luxúria e da impiedade dos israelitas e do castigo que lhes sobreviria, “passando daqueles que tinham religião sem Deus àqueles que tinham riquezas sem Deus”. A religião de Israel tinha se desviado nos dois pontos centrais: teologia e ética. Eles haviam mudado a doutrina e corrompido a ética. Tornaram-se apóstatas, bandeando para o sincretismo e, conseqüentemente, perdendo os valores morais absolutos. Em vez de buscar agradar a Deus, o povo buscava agradar a si mesmo. Em vez de amar a justiça, o povo entregou-se à violência. Agora, Deus anuncia seu justo juízo à nação.

Em Amós 5.27 o exílio é anunciado. Agora, Amós amplia essa ideia (6.7,14). O Dia do Senhor que eles irrefletidamente esperavam (5.18-20) seria o dia mau para a nação de Israel (6.3). À guisa de introdução, destacamos três pontos importantes:

1. O pecado é o opróbrio das nações

Um povo rendido ao pecado nunca é realmente forte. O pecado traz consigo o DNA da morte. Uma nação que se corrompe internamente torna-se fraca externamente. Uma nação antes de cair diante dos inimigos, cai primeiro diante de si mesma pela degradação espiritual e corrupção de seus valores morais.

2. O pecado na vida do povo de Deus é ainda mais escandaloso

Quando o povo que deveria ser luz para as nações mergulha-se em densas trevas e deliberadamente se afasta de Deus e se insurge contra sua santa Palavra, seu pecado torna-se mais grave, mais hipócrita e mais danoso que o pecado dos pagãos. Mais grave, porque peca contra um maior conhecimento. Mais hipócrita, porque ele exige santidade dos outros, enquanto vive na prática da iniqüidade. E mais danoso, porque quando o povo de Deus cai provoca um maior escândalo.

3. O pecado jamais fica sem julgamento

O juízo começa pela Casa de Deus (1Pe 4.17). A salvação é um chamado para a santidade e não para a complacência no pecado. Deus nos salva do pecado e não no pecado. Quanto maior o privilégio, maior a responsabilidade. Quanto mais luz nós temos, mais se exigirá de nós.

Crabtree diz que os pecados de Israel, citados por Amós, são característicos da civilização contemporânea: a opressão dos pobres pelos ricos, o suborno da justiça, o engano dos inocentes, a impureza moral e a hipocrisia religiosa.

I. UMA LIDERANÇA ACOMODADA NO PECADO (6.1-3a)

1.Eles estavam confiantes em seus privilégios espirituais (6.1)

Amós denuncia os que viviam à vontade em Sião, estribados numa falsa segurança, pensando que por serem o povo da aliança nenhum mal lhes alcançaria. Transferiram sua confiança em Deus para o templo; de uma pessoa para um rito. Confiaram na religião e não num relacionamento certo com Deus.

Charles Feinberg diz que os israelitas estavam descansando numa falsa segurança gerada por um ritual vazio e um culto sem sinceridade que, na sua cegueira, criam satisfazer a Deus. Eles viviam de uma maneira imprudente e descuidada. Eles usaram seus privilégios espirituais para justificarem seus pecados em vez de resplendecerem como luzeiros no mundo. James Wolfendale diz que se nós negligenciarmos ou desprezarmos nossa eminente posição, agravaremos nossa culpa a aumentaremos a grandeza da nossa queda.

2.Eles estavam confiantes em sua inexpugnável posição geográfica (6.1)

A cidade de Jerusalém e a cidade de Samaria foram edificadas sobre montes. Samaria estava fincada no alto de uma montanha, cercada de muros e adornada de muitos castelos. Samaria era uma cidade rica, opulenta, e inexpugnável aos olhos humanos. Russell Norman Champlin afirma que a cidade era tão exaltada aos olhos dos israelitas que, em seu orgulho estúpido, eles a chamavam de “a maior cidade da terra”. A confiança deles estava em sua posição geográfica e em seu poderio econômico e militar. A natureza havia dotado a cidade de Samaria com fortificações de tal caráter que, com efeito, o rei da Assíria não pôde tomá-la antes de três anos de cerco (2Rs 17.5,6). Porém, a segurança do povo de Deus não está no lugar em que vive nem na glória da sua eminente posição. Não devemos colocar nossa confiança nos homens eminentes nem nos altos montes, mas em Deus (Sl 121.1).

3.Eles estavam confiantes em seu status social (6.1)

Os governantes e a classe aristocrática de Samaria eram compostas de homens notáveis, nobres, ricos, encastelados em seus palácios, vivendo no luxo extremo, banqueteando-se gostosamente ao som de suas liras. Viviam rodeados de riquezas mal adquiridas, refestelando-se em suas festas cheias de bebedeira, desfrutando as benesses de sua elevada posição social. Viviam imperturbavelmente, gostosamente, sem nenhum constrangimento ou temor.

Warren Wiersbe diz que os homens ilustres do governo de Israel eram da opinião de que a nação estava segura e protegida, e o povo acreditava neles, assim como hoje em dia as pessoas acreditam nos “especialistas” políticos e nas pesquisas de opinião. A falsa confiança que se baseia no conselho de especialistas, em estatísticas e em recursos materiais e que ignora a dimensão espiritual da vida certamente conduz a derrota vergonhosa.

4.Eles estavam confiantes de seus pretensos predicados morais (6.2)

Amós os convida a ir a Calné, cidade edificada à margem oriental do rio Tigre e Hamate, a principal cidade da Síria e observar. Esses povos viviam sem a luz da verdade revelada. Eles não tinham profetas nem sacerdotes que pudesse ensiná-los a lei de Deus. Eles viviam mergulhados em densas trevas espirituais. Por que Amós destaca essas cidades? Sabemos que eram cidades de corrupção espiritual que foram subjugadas pelos inimigos. Calné perdeu cedo a independência e foi anexada ao império assírio. Hamate foi subjugada por Jeroboão II (2Rs 14.25) e depois pela Assíria (2Rs 18.34). Se elas não poderiam rechaçar o inimigo, então como vocês esperam fazê-lo? Se elas sofreram o juízo de Deus por seus caminhos pagãos, como podem Judá e Israel, que são culpadas, escapar a semelhante castigo do Senhor? Em tudo o que havia ao seu redor, o povo de Deus podia ver sinais de advertência no destino das demais nações ímpias (Na 3.8).

Assim, os líderes de Israel se julgavam melhores que seus vizinhos. Eles tinham um alto conceito de si mesmos. Eles aplaudiam a si mesmos e cantavam: “Quão grande és tu”, diante do espelho. Warren Wiersbe diz que a presunção é um pecado traiçoeiro, pois se baseia em mentiras, é motivada pelo orgulho e leva a confiar em alguma outra coisa além de Deus (Sf 1.12). Assim como o povo da igreja de Laodicéia, o presunçoso considera-se “rico e abastado” (Ap 3.17) e pensa que não precisa de nada.

5.Eles estavam confiantes de suas conquistas políticas (6.2)

As nações vizinhas não tinham nenhuma vantagem política em relação a Israel. Eles estavam vivendo o seu tempo áureo. Sob a liderança de Jeroboão II, Israel havia alcançado seu apogeu político e econômico. Os limites de seu território tinham chegado ao mesmo nível das gloriosas conquistas de Davi e Salomão. Os israelitas estavam orgulhosos disso e assaz confiantes. Mas a vanglória dos propagandistas era oca, diz Motyer. Crabtree diz que o argumento de Amós é que Israel está desprezando a sua posição de honra entre as nações pelo repúdio da responsabilidade perante o Senhor de quem tinha recebido as suas bênçãos.

6.Eles estavam confiantes em seu auto-engano (6.3)

Eles estavam tão ocupados em ver suas glórias que não podiam perceber a chegada de uma grande tempestade. J. A. Motyer diz que eles estavam deliberadamente cegos para a calamidade vindoura (o dia mau) e permissivos à degeneração do estado num reino de terror. Nos dez anos posteriores à morte de Jeroboão II (746 a.C.) houve dez reis, três deles tomando o poder através de golpes políticos. Houve verdadeiras atrocidades políticas naquele tempo (2Rs 15.16).

Eles, porém, não podiam crer numa mensagem alarmista exatamente no tempo em que desfrutavam de maior prosperidade econômica e expansão política. Todos os ventos pareciam soprar a favor. Não tinham nenhuma evidência de problema surgindo no horizonte. Pensavam que o dia mau jamais poderia alcançá-los. “É impossível isso acontecer aqui” era o lema dos líderes presunçosos. “Se há um dia de juízo a caminho, então certamente ainda vai demorar a vir” (9.10). Eles afastavam de si os julgamentos de Deus a fim de exercerem a violência sobre suas criaturas. O povo não queria acreditar que estava pecando contra Deus, nem que o dia da retribuição estava chegando. James Wolfendale diz que Israel não apenas tentou afastar o dia da retribuição divina, mas multiplicou as causas que o produziram. A violência interna traria a violência externa. Quando nós empurramos Deus para a lateral da vida estamos convidando a destruição.

II. UMA SOCIEDADE CORROMPIDA PELA DEGRADAÇÃO MORAL (6.3b-7)

O pecado é o opróbrio das nações. O que derruba um povo, uma nação e um reino não são as forças externas, mas a corrupção interna. Os bárbaros só tomaram o Império Romano porque este já estava podre por dentro. Nos versículos 4 a 6 Amós descreve o namoro deles com os prazeres da vida. Quais eram os pecados de Israel?

1.A violência desumana (6.3b)

Os nobres israelitas não acreditavam no dia mau, mas apressavam sua chegada pela prática cruel da violência contra os pobres. Eles praticavam a violência comprando juízes corruptos, subornando tribunais injustos, oprimindo economicamente os pobres e sufocando a voz dos fracos. Os tribunais eram instrumentos de violência e não de justiça. Longe de darem provas de arrependimento diante das insistentes advertências divinas, eles se apressavam ainda mais para cometer seus graves pecados aos olhos de Deus.

2.O luxo excessivo (6.4a)

Os ricos gostavam de ostentar a suntuosidade do seu modo de viver como prova de sua superioridade, confirmada pelas bênçãos e favores recebidos do Senhor. Amós descreveu seu modo de vida hedonista, sem espaço para as disciplinas da vida espiritual. Viviam em função do prazer e não para a glória de Deus. Os ricos dormiam em camas de marfim, enquanto o povo dormia em esteiras e passava fome. George Robinson diz que prevaleceu em Israel o amor ao luxo como antes da queda de Roma e o princípio da Revolução Francesa. A religião perdeu toda sua vitalidade, e se menosprezava completamente a moral.

O problema é que essa riqueza ostensiva não tinha sido adquirida com trabalho honesto, mas pela exploração criminosa dos pobres. Os ricos entesouravam em seus castelos bens mal adquiridos. Eles acumulavam riquezas às custas dos pobres. Viver nababescamente, extraindo o pão da boca do pobre é insulto a Deus.

3.A preguiça extravagante (6.4b)

Os ricos não precisavam mais trabalhar, eles queriam apenas usufruir o dinheiro que haviam tomado injustamente dos pobres. Eles se espreguiçavam em seus leitos em vez de labutar para o desenvolvimento da nação. Eles despendiam suas riquezas em mesas fartas, regadas a muito vinho, usando caros perfumes, ao som de muita música, sempre buscando satisfazer seus desejos egoístas. Não havia no coração deles nenhum patriotismo nem mesmo qualquer sentimento de filantropia. Eles não estavam dispostos a trabalhar nem a produzir; apenas usufruir. O trabalho dignifica o homem seja qual for sua posição social, porém a preguiça desfibra sua honra.

4.A glutonaria imprevidente (6.4c)

Eles comiam os cordeiros do rebanho e os bezerros do cevadouro. A dieta deles era riquíssima. Eles tinham boa variedade de carnes. Eles comiam vitelo enquanto o povo amargava uma pobreza extrema a ponto de passarem fome. Eles faziam do ventre o seu deus (Fp 3.19). A glutonaria, obra da carne (Gl 5.21), era o centro de suas atenções (4.1; 6.4). Banquetear-se às custas da miséria do pobre ou de forma indiferente à necessidade do pobre é colocar os pés na estrada que leva à perdição eterna (Lc 16.19-31).

5.A diversão frívola (6.5)

Esses nobres, encastelados em suas grandes e belas casas, dormindo em camas de marfim, viviam para o deleite carnal, em diversões frívolas. Eles entoavam músicas e fabricavam instrumentos não para adorar a Deus como Davi, mas para se divertirem. Davi honrava a Deus com a sua música, porém eles desonravam tanto a Deus quanto ao homem.

C. F. Keil explica o sentido do versículo da seguinte maneira: “Como Davi inventou instrumentos de cordas para honrar o Deus do céu, assim estes príncipes inventaram o método de cantar, com a música instrumental, para o deus deles, a barriga”. Música degradante é sinal seguro de incipiente declínio nacional, diz Charles Feinberg. Jalmar Bowden diz que a expressão “cantais à toa” literalmente significa gargantear ou cantar inutilmente. Assim, as melhores coisas da vida podem ser deturpadas, servindo para prejudicar em vez de melhorar o indivíduo. Em todos os tempos os maus pervertem o canto. Lord Cathan chegou a dizer: “Dê os compositores das músicas e baladas da nação e não me importarei com quem faz as leis”.

O profeta Amós denuncia o fútil estilo de vida desses ricos que se esbaldavam em festas elegantes, comendo carneiro e vitela, bebendo vinho em abundância, ouvindo música e usando perfumes caros. Esses luxos não eram coisas inocentes ou inofensivas; ao contrário, eles desviavam a atenção das pessoas dos problemas reais de sua nação.

6.A embriaguez profana (6.6)

Os israelitas faziam uso livre e imoderado do vinho, diz Champlin. Eles não apenas tomavam vinho em taças, mas o tomavam em bacias usadas nos rituais religiosos. A palavra hebraica traduzida aqui por taças é a mesma usada para bacias. Isso significa que eles bebiam em excesso e ainda profanavam o nome de Deus, ridicularizando, assim os rituais religiosos. As taças regulares eram insuficientes para seus insaciáveis apetites, por isso bebiam vinho em tigelas, ou bacias usadas para fins sacrificiais, nas quais recolhia-se o sangue para depois aspergi-lo (Nm 7.13). Bebida e dinheiro ocupam ainda o topo da lista dos pecados que corrompem a nação. Baco e Mamom têm seus templos em cada cidade e oferendas em cada rua, diz James Wolfendale. Esses israelitas gastavam suas riquezas em prazeres e dissoluções, bebendo vinho para silenciar a consciência, banir a reflexão e, endurecer o coração.

O culto deles não era para Deus, mas para eles mesmos. Eles faziam seus rituais porque disto gostavam. O culto deles era antropocêntrico. Eles misturavam religião com diversão, pois tudo girava em torno deles mesmos.

Quando as nações dedicam-se exclusivamente a buscar o prazer é um sinal de que o fim está próximo. Belsazar e seus líderes estavam no meio de um banquete suntuoso, quando a cidade da Babilônia foi tomada pelos medos e persas. Os cidadãos de Roma regalavam-se com o “pão e circo” gratuitos, enquanto o império se deteriorava moral e politicamente até que, por fim, caiu nas mãos dos inimigos. Um dos sinais do fim dos tempos é o fato de muitos se tornarem “mais amigos dos prazeres que amigos de Deus” (2Tm 3.4). O Senhor Jesus foi categórico em sua advertência: “Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado com as conseqüências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo, e para que aquele dia não venha sobre vós repentinamente, como um laço” (Lc 21.34).

7.A indiferença criminosa (6.6b)

Ao invés de estarem cobertos de pano de saco e de cinzas por causa da aflição do povo, eles se ungiam com os óleos mais finos, símbolo da alegria. Eles não se afligiam com a ruína de José, ou seja, com a ruína de seus irmãos que viviam na penúria. Conquanto que seus desejos desenfreados fossem satisfeitos, os outros podiam gemer. Eles agiram como os irmãos de José que comiam e bebiam sem nenhum constrangimento, enquanto José clamava a eles com amargura de alma no fundo de uma fossa.

O rei Davi tinha a capacidade de se indignar pelo fato dos pecadores abandonarem a lei de Deus (Sl 119.53). Ele também tinha a capacidade de chorar ao ver a indisposição dos homens para obedecerem à lei de Deus (Sl 119.136). Muitos estão rindo quando deveriam estar chorando (Tg 4.8-10) e outros estão tolerando o pecado quando deveriam estar se opondo a ele (1Co 5.2).

8.O juízo inevitável (6.7)

O povo de Israel vangloriava-se de sua inquestionável supremacia. Três vezes aparece a palavra “primeiro” ou “principal”: principal das nações (6.1), o mais excelente (primeiro) óleo (6.6), primeiro no cativeiro (6.7). Eles eram orgulhosos o tempo todo, e o orgulho seria sua ruína.

O pecado atrai o juízo como o imã ao metal. Embora, nem sempre o juízo é imediato, mas é inevitável. O cálice da ira de Deus encheu-se. Israel havia sido pesado na balança e achado em falta. Deus havia colocado o prumo no seu povo e constatado sua tortuosidade. Era hora do acerto de contas.

Os líderes do povo, aqueles que mais se entregaram ao pecado, agora, serão os primeiros a sofreram o juízo. Os primeiros em preeminência e pecado serão os primeiros contemplados com castigo e cativeiro. Eles semearam ventos e agora vão colher tempestade. Eles foram os primeiros na prática de excessos morais, agora serão os primeiros a serem castigados.

A pândega dos espreguiçadores, ou seja, os ruídos e gritos discordantes dos beberrões ou a galhofa dos que banqueteiam, passarão. Toda a alegria cessará. Toda os instrumentos se emudecerão. Todas as taças de vinho secarão. O prazer vai cessar; é hora de curtir a dor do cativeiro!

III. UM POVO SOB O JULGAMENTO DE DEUS (6.8-11)

1.O juramento de Deus (6.8a)

Não tendo nada nem ninguém maior do que ele mesmo para jurar, Deus jura por si mesmo que repudia o comportamento do seu povo. Em Amós 4.2 o Senhor jurou pela sua santidade. O sentido das duas declarações é essencialmente o mesmo. A própria natureza de Deus, em todos os seus característicos e atributos está contra todas as formas de injustiça. Adonai-Iavé (O Senhor soberano) expediu seu decreto de condenação, prestando juramento por si mesmo, tornando absolutamente certo e inexorável seu decreto. Ele é capaz de cumprir seu decreto em todos os seus detalhes. O que é que tanto irrita e antagoniza o Senhor? O orgulho humano! E quando o orgulho é atacado, os seus castelos e a cidade que constituem a sua personificação, também caem, diz Motyer. Deus não tem prazer no mal. Ele não aprova nem faz vistas grossas ao pecado. O sistema corrompido do mundo, com todo o seu glamour entrará em colapso total (Ap 17 e 18).

2.O ódio de Deus (6.8b)

Deus abomina o que os homens exaltam. Ele rejeita o que os homens amam. Amós destaca duas coisas importantes aqui:

Em primeiro lugar, Deus abomina a soberba. Deus resiste ao soberbo. Ele faz guerra contra aqueles que se exaltam. Ele derruba os poderosos do seu trono como desbancou o querubim da guarda e o precipitou no inferno.

Em segundo lugar, Deus odeia os lugares de violência. Deus odeia os castelos, símbolo da prepotência, da riqueza mal adquirida, da injustiça social, da opressão do pobre. Deus odeia toda ostentação criminosa.

3.O abandono de Deus (6.8c)

O maior e mais perigoso inimigo não é o diabo, nem o mundo, nem mesmo a carne, mas Deus. Quando ele está conosco ninguém pode nos resistir (Rm 8.31), porém, se ele nos abandonar estaremos entregues à mais completa devastação. Quando Deus abandonou Samaria, ela caiu nas mãos da Assíria e foi devastada. Quando Deus entregou Jerusalém, Nabucodonosor tomou os vasos do templo e levou cativo o povo para a Babilônia.

4.A mortandade enviada por Deus (8.9,10)

Deus fala de um massacre, de uma chacina, de um holocausto. A mortandade será completa e total (8.10). Serão tantos mortos que não haverá tempo nem mesmo para o sepultamento. Os mortos serão cremados. Este é um quadro vívido do povo de Samaria destruído pela fome ou peste durante o sítio de três anos da cidade.

5.A destruição ordenada por Deus (8.11)

Os palácios e grandes casas, motivo de orgulho e segurança dos israelitas tornar-se-ão montões de escombros e cinzas. Nem mesmo as casas pequenas escaparão. A devastação será geral, atingindo a casa grande e também a pequena. A mão que derribará essas casas é a dos soldados assírios, mas o agente que ordena esse colapso é o Senhor. A Assíria será apenas a vara da ira de Deus para castigar o seu povo.

IV. UMA NAÇÃO SEM DISCERNIMENTO ACERCA DA SUA PERIGOSA CONDIÇÃO (6.12-14)

1.Uma impossibilidade absoluta (6.12a)

Amós usa duas figuras acerca de coisas absolutamente impossíveis: um cavalo correr na rocha ou uma junta de bois lavrar a rocha (no hebraico a melhor tradução seria o mar). Isso é totalmente impossível. Impossível é também o pecado ficar sem julgamento. Impossível é também violar a lei moral de Deus e ficar sem punição.

Charles Feinberg diz que há tanta possibilidade de que um cavalo corra na rocha ou uma junta de bois lavre o mar quanto a de que seus atos maus resultem em bênçãos. Como eles podem esperar o favor do Senhor ao mesmo tempo em que cometem atos desagradáveis a Deus? Isso é tão absurdo como tentar correr os cavalos sobre rochas.

A. R. Crabtree diz que os escritores do Velho Testamento não fazem distinção entre as leis físicas e as leis morais do mundo. A corrupção da justiça é tão perigosa, e traz desastres tão grandes, como o esforço de fazer cavalos correr no precipício, ou o de fazer lavrar o mar com bois, como se fosse a superfície da terra. Jalmar Bowden diz: “Seria tão razoável pensar em cavalos correndo pelo Pão de Açúcar ou em lavrar a Baía da Guanabara com bois, como tornar julgamento em injustiça ou justiça em veneno”.

2.Uma inversão criminosa (6.12b)

Israel violou a lei moral de Deus e mesmo assim pensou que podia escapar das conseqüências. Eles fizeram duas criminosas inversões:

Em primeiro lugar, transformaram o juízo em veneno. O juízo deve ser fruto de vida, mas porque eles corromperam os tribunais e subornaram os juízes, as sentenças eram veneno e não fruto de vida.

Em segundo lugar, transformaram o fruto da justiça em coisa amarga. Alosna era uma planta muito amarga e também venenosa. Os ricos oprimiam de tal forma os pobres que a vida se tornava para eles um absinto, um fel de amargura, uma coisa insuportável.

3.Uma soberba inconseqüente (6.13)

Os israelitas estavam orgulhosos de suas conquistas militares. Eles estavam cheios de soberba e pensavam que seus poderes econômicos e militares os tornariam invencíveis. Mas, a soberba é a ante-sala do fracasso. A soberba precede a ruína. A. R. Crabtree diz que aparentemente Amós escolheu estas duas aldeias, entre os muitos lugares conquistados, para fazer um trocadilho dos nomes, “coisa de nada”, e “poder imaginário”. Os chefes se ufanavam de nada e se gabavam do seu poder imaginário, mas não eram capazes de oferecer qualquer resistência contra o seu destino, já determinado pelas eternas leis da justiça.

4.Um desterro inevitável (6.14)

Samaria não caiu nas mãos da Assíria; foi Deus quem entregou Samaria nas mãos de Assíria. A cidade foi cercada três anos. Dentro dos muros reinou a fome e o pavor. A opressão do inimigo foi dolorosa e total, de norte ao sul do país. Hamate fica na região Norte de Israel e o ribeiro de Arabá na região Sul. Assim, “de Hamate até o ribeiro de Arabá” significa que a Assíria destruiria a terra toda, de Norte a Sul. Quando Amós proferiu essas palavras, a Assíria era nação relativamente fraca. Jeroboão II conseguiu mantê-la afastada, bem como o Egito e a Síria. Porém, a Assíria se fortaleceu e tornou-se um império mundial, um inimigo expansionista, truculento e ameaçador.

CONCLUSÃO

Podemos sintetizar o capítulo 6 em quatro princípios importantes:

Em primeiro lugar, privilégios implicam em responsabilidades (6.1-3). O povo vivia em cidades importantes e seguras como Jerusalém e Samaria. Israel tinha grande reputação comparada com outros povos menos afortunados. Mas, esses privilégios engendraram neles convencimento e soberba em vez de humildade e testemunho.

Em segundo lugar, altruísmo deve sempre ter a primazia sobre a autocomplacência (6.4-7). Em vez de buscarem a glória de Deus e o bem do próximo, buscaram apenas o prazer. A questão se resume no interesse pelo corpo: cama e alimento (6.4), bebida e perfume (6.6) e descobrir novas maneiras de encher o tempo (6.5). Embriagados pelo prazer nem se davam conta que a nação estava marchando celeremente para a ruína (6.6b). Enquanto a nação estava à beira da tragédia, a liderança estava na cama, na mesa bem servida ou compondo algumas canções para sua própria diversão. Enquanto o povo chorava, a liderança se divertia.

Em terceiro lugar, a soberba sempre desemboca em tragédia (6.8-10). Amós é contundente ao afirmar que Deus se opõe aos soberbos e ninguém pode lutar contra ele e prevalecer. Deus resiste aos soberbos, enquanto dá graças aos humildes (Tg 4.6). Sempre que alguém, em qualquer tempo ou em qualquer lugar semear a soberba, colherá a tragédia.

Em quarto lugar, a violação dos princípios morais jamais ficará sem justa retribuição (6.11-14). Assim como não se pode quebrar as leis da natureza sem sofrer as conseqüências, também não se pode violar as leis morais sem sofrer a justa retribuição. A segurança de Israel não estava no seu poder econômico nem mesmo em suas conquistas políticas, mas em andar retamente com Deus. Um povo sem Deus será sempre vulnerável, pois o pecado é o opróbrio das nações, mas a nação cujo Deus é o Senhor, essa é feliz.

J. A. Motyer com lucidez conclui este capítulo, assim:

Quando o povo viu Samaria em ruínas em 722 a.C., quando as mães foram despojadas de seus filhos, e os maridos das esposas, quando aumentou o número de órfãos, dos mendigos, dos desabrigados, eles perguntaram: Por que? Os assírios o fizeram, diziam alguns, estavam certos (6.14). Deus o fez, diziam outros, e também tinham razão (6.8,11). Nossos líderes o fizeram, era a opinião de outros ainda, e eles também estavam certos (6.1-7). A soberba o fez, disse Amós (6.8), e esta foi a avaliação mais realista do inimigo do povo.

Ao estudar  o capítulo 6 de Amós, vejo de forma semelhante a situação da nação brasileira.

Que Deus tenha misericórdia do Brasil!!!

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Os Decretos de Deus

  Antes de estudarmos a doutrina da predestinação (que breve chegará), é indispen­sável considerarmos a doutrina dos decretos de Deus, desde que a predestinação, como já foi dito na introdução, é um ramo dessa importante doutrina. A relação entre elas é tão íntima que al­guns teólogos têm usado a palavra "predestinação" “como equi­valente à palavra genérica "decreto", incluindo todos os eternos propósitos de Deus”.

 Significado do termo "DECRETO":

“O termo decreto divino é uma tentativa para reunir em uma designação aquilo que a Bíblia apresenta com várias pala­vras e expressões: “o propósito divino”, (Ef.1:11), “determi­nado conselho”, (At.2:23), “presciência” (1Pe.1:2; comparar com 1:20), “eleição”, (1Ts.1:4), “predestinação”, (Rm.8:30), “a vontade divina”, (Ef.1:11), e “beneplácito” (Ef.1:9).”

Decreto divino é o termo geral, e refere-se ao plano de Deus em toda a criação; predestinação é um aspecto particular ou divisão do decreto de Deus, e, refere-se a seres morais, tanto anjos como homens, e está dividida em dois aspectos: a eleição dos salvos, e a reprovação ou preterição dos condenados.

 Declaração da doutrina dos decretos de Deus:

 A mais concisa e compreensiva declaração da doutrina dos decretos divinos está no Breve Catecismo de Westminster, na resposta a pergunta 7:

 “Os decretos de Deus são o seu eterno propósito de acordo com o conselho da sua vontade, pelo qual, para sua própria glória, Ele predestinou tudo que acontece”. Essa definição é formada pelas próprias palavras das Escrituras, que são à base da doutrina.

     A mesma doutrina é definida no Catecismo Maior de Westminster  com as seguintes palavras (resposta à pergunta 12):

“Os decretos de Deus são os atos sábios, livres e santos do conselho da sua vontade, pelos quais, desde toda a eternidade, Ele, para sua própria glória, imutavelmente, predestinou tudo que acontece, especialmente com referência aos anjos e aos homens”.

Na confissão de fé de Westminster a doutrina é apresentada nestes termos:

“Desde toda a eternidade. Deus, pelo muito sábio e santo con­selho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém, de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tira­da a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas”.

O Dr. A. A. Hodge define esta doutrina com as seguintes palavras:

“O decreto de Deus é o seu eterno, imutável, santo, sábio e soberano propósito que compreende ao mesmo tempo todas as coisas que foram e que hão de ser em suas causas, condições, sucessões e relações, e que determinam o seu futuro. Os vários conteúdos do eter­no propósito são denominados decretos, por causa da limitação das nossas faculdades que os concebem em seus aspectos parciais e em suas relações lógicas”.

Isto é suficiente para a declaração da doutrina.

 Considere­mos agora os argumentos que provam sua veracidade.

Argumentos que provam a Doutrina.

1. Argumento da Bíblia.

    Para aqueles que crêem na Bíblia como a revelação de Deus para a humanidade, a prova suprema, o argumento por excelência em favor de qualquer doutrina é aquele que é deri­vado das Escrituras. Assim começaremos com esta espécie de prova.

    Há muitas passagens na Bíblia que ensinam a doutrina dos decretos de Deus. Esta doutrina constitui na realidade uma das tônicas gerais dos ensinos bíblicos. O Dr. Benjamin Warfield fez a seguinte declaração acerca desse fato:
“Não é dizer demais que ela (a doutrina da predesti­nação, e por conseguinte, os decretos de Deus) é fun­damental para a consciência religiosa de todos os es­critores da Bíblia; e assim, envolve todas as suas con­cepções religiosas, que, se fossem erradicadas, toda a apresentação bíblica seria transformada. Isto é ver­dade tanto com respeito ao Velho como ao Novo Tes­tamento, como poderá ser suficientemente manifesto se prestarmos atenção à natureza e às implicações dos elementos formativos do sistema do Velho Testamento, bem como as suas doutrinas de. Deus, da providência, da fé e do reino de Deus”.

 O que se segue é uma série de passagens bíblicas que ensi­nam essa doutrina:

“O conselho do Senhor dura para sempre, os desígnios do seu coração por todas as gerações”. (Sl.33:11).

 “Este é o desígnio que se formou concernente a toda a terra; e esta é a mão que está estendida sobre todas as nações. Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem, pois, o invalidará? A tua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?” (Is.14:26-27).

“Lembrai-vos das coisas passadas da antigüida­de; que sou Deus e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer, e desde a antigüidade as coisas que ainda não suce­deram; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”. (Is.46:9-10).

“... e eu bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: que fazes?” (Dn.4:34-35)

 “Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados.” (Mat.10:29-80).

“Porque o Filho do homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído”. (Lc.22:22).

“... sendo este entregue pelo determinado de­sígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mão de iníquos”. (At.2:23)

 “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e povos de Israel para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeter­minaram”. (At.4:27-28).

“... de um só fez toda a raça hu­mana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habi­tação.” (At.17:26).

 “Diz o Senhor que faz estas coisas conhe­cidas desde séculos”. (At. 4:18)

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem confor­mes a imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.” (Rm.8:28-30).

“Mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para nossa glória”. (1Co.2:7)

 “... nele, digo, no qual fomos também feitos he­rança, predestinados segundo o propósito daquele que faz to­das as coisas, conforme o conselho da sua vontade”. (Ef.1:11).

“Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”. (Ef.2:10)

 “... segundo o poder de Deus, que nos sal­vou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos”. (2Tm.1:8-9)

 “... sabendo que não foi mediante coisas corruptí­veis, como prata ou ouro que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifesto no fim dos tempos, por amor de vós”. (1Pe.1:18-20), etc, etc.

Estas passagens e muitas outras que poderiam ser facil­mente acrescentadas, mostram que o Deus todo poderoso tem um plano ou propósito para este universo que é dele. Este pla­no ou propósito foi concebido na eternidade e está sendo exe­cutado no tempo. É um plano SÁBIO porque está de acordo com o conselho de Deus. É um plano BOM porque é para a glória de Deus. É um plano ETERNO porque foi concebido “antes da fundação do mundo”. É um plano PODEROSO porque ninguém pode anular. É um “plano suficientemente grande para abar­car todo o universo, suficientemente minucioso para se inte­ressar com os mínimos detalhes, e atualizando-se com inevi­tável certeza em cada acontecimento que sucede”. (Dr. Warfield).

2. Argumento da sabedoria divina.

    Se Deus é um ser racional e superior, deve ser sábio. Sen­do infinito, deve ser infinitamente sábio. Nenhum ser sábio faria alguma coisa sem um plano bem pensado e bem prepara­do antecipadamente. Um arquiteto, por exemplo, não iniciaria a construção de um edifício sem preparar primeiro a planta do edifício cuidadosamente com todos os seus detalhes. Um gene­ral não daria ordens para o seu exército lutar contra o inimigo, sem antes preparar, com seu estado maior a estratégia para a batalha. Jesus mesmo indicou a sabedoria e a necessidade de fazer plano com antecedência, quando disse: “Pois, qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para concluir. Ou, qual é o rei que, indo para combater outro rei, não se as­senta primeiro para calcular se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil?” (Lc.14:28,31).
“Nenhuma dedução a respeito de Deus pode ser mais desonrosa e enganosa do que a suposição de que Ele, não é soberano sobre as suas obras, ou que Ele não está agindo de acordo com um plano que articula a ordem de sua inteligência infinita. A mente humana poderia imaginar uma situação em que nada tivesse ainda sido criado, quando Deus tinha diante dele uma infinita variedade de planos possíveis para escolher; e que finalmente escolheria o melhor plano divisado pela in­finita sabedoria, consumado pelo infinito poder, e, que seria a suprema satisfação para seu infinito amor.”

“Um Deus existente por si próprio, independente, perfeito, imutável, existindo sozinho desde toda a eter­nidade, começou a criar o universo físico e moral no vácuo absoluto; impulsionado a fazer isso, partindo de certos motivos para atingir determinados fins, e de acordo com idéias e planos totalmente emanados de seu interior e de sua iniciativa. Se Deus governa o universo, Ele deve também, como um ser inteligente, governá-lo de acordo com um plano; e, este deve ser perfeito em EXTENSÃO, ALCANCE e DETALHES. Se Ele tem um plano agora, deve ter tido o mesmo plano imutá­vel desde o princípio. Decreto de Deus, por conse­guinte, é o ato de uma pessoa infinita, absoluta, eter­na, imutável e soberana, compreendendo um plano que abrange todas as suas obras, de todas as espécies, grandes e pequenas, desde o começo da criação até a infindável eternidade. Por esta razão ele deve ser incompreensível e não pode ser condicionado por algo exterior a Deus, pois já estava acabado antes que exis­tisse qualquer coisa exterior a Ele, e, por isso, abrange e determina todas essas supostas coisas exteriores e to­das as condições delas para sempre.”

“Um universo sem decreto seria tão IRRACIONAL e ESPANTOSO como um trem viajando na escuridão da noi­te, sem farol e sem maquinista, e sem nenhuma cer­teza de que a qualquer momento poderia precipitar-se no abismo”.

“Apesar de algumas pessoas se oporem teoricamente à predestinação, todos nós, em nossa vida diária seguimos praticamente à predestinação. O nosso maior e mais importante empreendimento teve um plano fei­to por nós, de outro modo, nossa obra terminaria em fracasso. Uma pessoa seria considerada mentalmente perturbada se resolvesse construir um navio, ou uma estrada de ferro, ou governar uma nação, sem um plano. Foi-nos contado que antes de Napoleão come­çar a invasão da Rússia, tinha feito um plano bem ela­borado em seus detalhes, mostrando que linha de marcha cada divisão de seu exército devia seguir, onde devia estar em determinado tempo, que equipamento e provisão devia ter, etc. Tudo o que faltou no plano foi devido às limitações da sabedoria e do poder do homem. Se Tivesse Napoleão uma previsão perfeita e um controle absoluto dos acontecimentos, seu plano, ou como nós poderíamos dizer, sua predestinação te­ria se estendido a cada soldado que executou aquela marcha.”

É Deus menos sábio que Napoleão?

     O homem foi feito à imagem de Deus. Isso significa que o homem é uma espécie de miniatura de Deus. O que o homem é e tem em uma escala limitada, Deus é e tem em uma escala absoluta e infinita (exceto o pecado, que é alguma coisa que o homem adquiriu depois de ser criado por Deus).

 A inteligên­cia é um dos atributos do homem. Por conseguinte, Deus deve ser infinitamente inteligente e sábio. Como nós temos visto, uma das expressões da inteligência e da sabedoria do homem é que ele, em tudo que faz, prepara um plano e o segue. A conclusão lógica, portanto, é que Deus, sendo infinitamente in­teligente e sábio, deve ter um plano perfeito e compreensivo para toda a sua criação. É este plano que nós chamamos decre­tos de Deus. Por conseguinte, a sabedoria de Deus provê os decretos divinos.

3. Argumento da Soberania de Deus:

   O dicionário define a palavra soberano como um que “possui suprema autoridade”; que exerce ou possui “suprema ou original jurisdição de poderes”; que não está sujeito a nada. A palavra vem do latim super — acima, e significa literalmente um que está acima dos outros. Deus está acima de cada coisa e de cada criatura. Ele é soberano. Uma boa definição de soberania de Deus é a seguinte: “Soberania de Deus é seu poder e direito de domínio sobre todas as suas criaturas para dispô-las e deter­miná-las, como lhe parece melhor. Este atributo é evidentemen­te demonstrado no sistema da criação, providência e graça; pode ser considerado como absoluto, universal e eterno.”

Soberano é sinônimo de rei, monarca, potentado e impera­dor. Reconhecer a soberania de Deus é, por conseguinte, reconhecer sua realeza. A mais alta concepção que o homem pode ter de autoridade está incorporada na pessoa de um rei. Esta é a concepção bíblica de Deus. “Tua, Senhor, é a grandeza, o poder, a honra, a vitória e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu, Senhor, é o reino, e tu te exaltaste por chefe sobre todos. Riquezas e glória vem de ti, tu dominas sobre tudo, na tua mão há força e poder; contigo está o engran­decer e a tudo dar força.” (1Cr.29:11,12).

“Reina o Senhor. Revestiu-se de majestade; de poder se revestiu o Senhor, e se cingiu. Firmou o mundo, que não vacila. Desde a antigüidade está firme o teu trono: tu és desde a eternidade”. (Sl.93:1,2).

 “Porque o Senhor é o Deus supremo, e o grande rei acima de todos os deuses... Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemo-nos diante do Senhor que nos criou” (Sl.95:3,6).

“Com efeito, eu sei que o Senhor é grande, e que o nosso Deus está acima de todos os deuses. Tudo quanto aprouve ao Senhor, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl.135:5,6).

 “Então ouvi uma voz como voz de numerosa multidão, como de muitas águas, e como de fortes trovões, di­zendo: Aleluia! pois reina o Senhor nosso Deus, o Todo-Poderoso” (Ap. 19:6).

     Há muitas outras passagens que falam a respeito de Deus como rei e governador, sobre todas as coisas e sobre cada ser que ele criou nos céus e na terra. São tão numerosas porém essas passagens que é impossível citar todas. Elas apresentam Deus reinando com todo poder, bondade e sabedoria. Elas falam dele assentado sobre um alto e sublime trono, como o rei dos reis, Cada criatura no universo tem que se curvar diante dele. Até satanás e os demônios têm que reconhecer sua sobe­rania. Satanás não podia fazer qualquer coisa contra Jó sem sua permissão (Jó.1:9-12; 2:4-6). Reconhecendo Cristo como Deus, os demônios admitiam a possibilidade de serem atormen­tados por ele “antes do tempo”, e de serem por ele mandados imediatamente para o abismo. E eles não podiam entrar nos porcos sem a permissão dele (Mt.8:28,33; Mc.5:1-13; Lc.8:26-33).
“Criação implica soberania. Qualquer que acredita em Deus como criador não pode negar sua soberania sobre tudo que Ele fez. Isto é observado na vida diá­ria. Ninguém jamais teve oportunidade de dizer que ia existir antes de existir. A existência lhe foi dada sem que fosse pedido o seu consentimento. Uma mão soberana o introduziu na existência, colocou-o dentro de um torvelinho de experiências, sem possibilidade para interrupção e descanso; e fez isso sem pergun­tar se ele queria ou não. Nenhum homem jamais es­colheu a data e o lugar do seu nascimento, ou sua na­cionalidade; se nasceria na época ante-diluviana ou no século XX, se nasceria na China ou na América, se seria esquimó ou americano. Nada é mais evidente para o homem racional do que o fato de existir uma soberania dirigindo sua vida”.

“Na grande expansão da eternidade que se estende antes de Gn. 1:1, o universo não tinha nascido e a criação existia somente na mente do Criador. Em sua soberana majestade Deus existia sozinho. Nós nos re­ferimos àquele longínquo período antes que os céus e a terra fossem criados. Não havia anjos para entoar hinos de louvor a Deus, nem criatura para ocupar sua atenção, nem rebeldes para serem trazidos em sujei­ção. O grande Deus era a totalidade única no meio do espantoso silêncio de seu próprio vasto universo. Mas, ainda naquele tempo, se é que pode ser chamado tempo, Deus era soberano. Ele podia criar ou não criar, de acordo com o seu beneplácito. Podia criar desta ou daquela maneira; podia criar um mundo ou milhões de mundos; e quem existia para se opor à sua vontade? Ele podia chamar à existência um milhão de criaturas diferentes e colocá-las em igualdade abso­luta, dotando-as com as mesmas faculdades, pondo-as no mesmo ambiente; ou Ele podia criar milhões de criaturas, cada uma diferente da outra, não possuindo nada em comum, exceto a sua condição de criatura, e quem haveria para se opor a esse direito? Se Ele assim desejasse poderia chamar á existência um mundo tão imenso que suas dimensões estariam além da esti­mativa finita. E, se estivesse disposto, poderia criar um organismo tão pequeno que nada, exceto o mais poderoso microscópio poderia revelar sua existência aos olhos humanos. Era seu soberano direito criar, por um lado, o exaltado serafim para queimar ao re­dor do seu trono, e, por outro lado, criar um inseto tão frágil que morre na mesma hora que nasce. Se o po­deroso Deus escolhesse ter uma vasta gradação em seu universo, desde o mais sublime serafim até o réptil que se arrasta, desde os mundos em revolução aos átomos flutuantes, do macrocosmo ao microcosmo, em vez de fazer cada coisa uniforme, quem poderia ques­tionar sua vontade soberana?”. (Ver Jó 38:1-2).

Dr. Warfield prova em seu artigo (“Predestinação” Biblical Doctrines, p. 7) que a concepção do Velho Testamento sobre Deus é a de uma pessoa moral, toda poderosa que dirige todo o universo.
“Não podemos pensar em Deus senão como um ser que determina tudo o que acontece no mundo, deste mundo que é produto de seu ato criador. A doutrina da providência, que está espalhada em todas as pá­ginas do Velho Testamento sustenta totalmente esta crença. O Todo Poderoso construtor é apresentado também como o irresistível governador de tudo quanto Ele tem feito. Todas as coisas sem exceção estão dispostas por Ele, e sua vontade é a última palavra para tudo o que acontece. Os céus e a terra e tudo o que neles há são instrumentos pelos quais Ele executa seus planos. A natureza, as nações e o destino do indivíduo são, igualmente, em todas as suas mutações, cópia de seu propósito. Os ventos são seus mensageiros, a chama de fogo sua serva, cada ocorrência é seu ato; a prosperidade é seu dom, e, se a calamidade cai sobre o homem é o Senhor que tem feito (Am.3:5,6; Lm. 3:33-38; Is.45:7; Ec.7:14; Is.44:16). É Ele que dirige os passos dos homens, quer eles saibam ou não, quem ergue e derriba; abre e endurece o coração; e, cria os pensamentos e intentos verdadeiros do coração.”

“Em uma palavra, a soberania da vontade divina, como princípio de tudo que acontece, é um postulado primário da vida religiosa, como também da visão do mundo como apresentada no Velho Testamento. Ela está implicada na verdadeira idéia de Deus, está den­tro da concepção da relação de Deus com o universo e com tudo que acontece na natureza, na História e no destino dos indivíduos. Ela está também dentro do esquema da religião, seja nacional ou pessoal. Está colocada na base de todas as emoções religiosas e é o fundamento de todo o caráter religioso construído em Israel".

Como o Dr. Charles Hodge mostra, a soberania de Deus é exercida:

 1) Estabelecendo as leis físicas e morais que governam suas criaturas;

 2) Determinando a natureza e os poderes das diferentes ordens dos seres criados e designando cada um em sua esfera apropriada;

3) Apontando para cada indivíduo sua posição e seu destino;

4) E, também, nas distribuições de seus fa­vores. "porventura não me é lícito fazer o que eu quero do que é meu?” Mt.20:15.

  Em resumo, reconhecer Deus como o supremo soberano do universo, como governador moral do mundo, é admitir sua divindade e seu direito de dispor o que ele criou de acordo com sua vontade e seu plano, é dizer que Ele é na realidade um Deus e não um títere sujeito às circunstâncias que Ele não criou e não pode controlar; não um fantoche que acomoda seus planos às circunstâncias que não dependem dele, mas da vontade livre e dos atos de suas próprias criaturas. A concepção que nós te­mos de Deus, especialmente de acordo com o que aprendemos na Bíblia, obriga-nos a crer que, sendo soberano Ele decretou tudo o que acontece para sua glória e para o bem daqueles que o amam, “daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. (Rm.8:28). Ele nunca é derrotado. Ainda quando tudo parece es­tar contra o que Ele planejou, como quando Cristo era rejeitado pelas cidades onde operou a maioria de seus milagres e onde pre­gou a maioria de seus sermões; ainda assim, devemos fazer como Cristo fez naquela ocasião, isto é, deu graças a Deus porque tudo aconteceu de acordo com o seu plano. “Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido: Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo. Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado”. (Mt.11:20-26). A morte de Cristo parecia ser uma grande derrota, no entanto, lemos na Bíblia, em re­ferência a essa aparente frustração o seguinte: “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos”. (At.2:22,23). Ainda quando tudo está tão escuro como num dia de tempestade, nós sabemos que além e acima das nuvens escuras de nossa aflição e perplexidade, o sol da miseri­córdia e do poder de Deus brilha e que, no fim, tudo acontecerá como Ele planejou e determinou para sua glória e nossa felicidade. É claro, portanto, que a soberania de Deus, pressupõe os seus decretos.
Gostaria de concluir este estudo com as seguintes observações do Dr. Charles Hodge:

“Não obstante essa soberania ser universal e absoluta, é soberania de sabedoria, santidade e amor. A auto­ridade de Deus não é limitada por nada fora dele mes­mo, mas é controlada em todas as suas manifestações, por suas perfeições infinitas. Esta soberania é a base da paz e da confiança de todo o seu povo. Eles se re­gozijam porque o Senhor Deus Onipotente reina, por­que nem a necessidade, nem o acaso, nem a loucura dos homens, nem a malícia de satanás controla a seqüên­cia dos acontecimentos e os seus resultados finais. Sa­bedoria infinita, amor e poder pertencem ao nosso grande Deus e Salvador, em cujas mãos estão confiados todos os poderes nos céus e na terra”.

4. Argumento da Presciência de Deus:

     Deus sendo eterno, não há uma seqüência de tempo em suas atividades.

Por conseguinte, sua presciência e seus decretos são de fato simultâneos. Existe, no entanto, uma relação lógica nas atividades, de Deus, embora não haja uma relação cronológica. Sendo assim, podemos perguntar: A presciência divina precede ou sucede aos decretos de Deus? Precisamos fazer aqui uma distinção muito importante para responder essa pergunta. Há de fato em Deus duas espécies de conhecimento, uma que logicamente precede, e outra que logicamente sucede aos seus decretos. A primeira é o conhecimento que Ele tem das possibilidades; e a segunda é o seu conhecimento ou antes, sua presciência da certeza dos fatos possíveis. Antes de decretar ou preordenar, Deus deve ter conhecido uma multidão de planos possíveis. Porém de nenhum desses planos possíveis podia haver certeza enquanto ele não decidisse neste sentido.
E com referência a este fato que a “Confissão de Fé” declara:

“Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições.”

Na “Confissão” citam-se duas passagens bíblicas que ilustram o conhecimento que Deus teve de possibilidades que nunca chegaram a ser realidades. Em 1Sm.23:11,12, Davi perguntou a Deus, “Entregar-me-ão os homens de Queila nas mãos dele? Descerá Saul, como o teu servo ouviu? Ah! Senhor, Deus de Israel, faze-o saber ao teu servo. E disse o Senhor: Descerá. Perguntou-lhe Davi: Entregar-me-ão os homens de Queila, a mim e aos meus servos, nas mãos de Saul? Respondeu o Senhor: Entregarão.” Deus sabia o que aconteceria se Davi ali ficasse. Mas como não estava decretado que tal acontecesse, Davi foi avi­sado e retirou-se, pelo que aquilo jamais se realizou. Em Mat.11:21,23 Cristo disse que se tivesse feito em Tiro, Sidom e Sodoma os prodígios que fizera em Corazim, Betsaida e Cafarnaum, aquelas cidades pagãs ter-se-iam arrependido. Isso é conheci­mento de uma possibilidade que não chegou nunca a se tornar realidade, porque não fora incluída nos decretos de Deus. Este não criou as circunstâncias que teriam resultado no arrependi­mento daquelas cidades pagãs, e assim é claro que Ele não preordenou a conversão delas. Todos os eventos, porém, que Deus conheceu antes ou previu como certos, esses Ele incluiu nos seus decretos, e os previu pela simples razão de havê-los decretado. Reconhecer, pois, que Deus prevê ou conhece de antemão tudo o que acontece é reconhecer que Ele tudo decretou.
“Decretar a criação implica em decretar-lhe os resulta­dos previstos... Na eternidade não podia haver ne­nhuma causa da futura existência do universo fora do próprio Deus, visto como nenhum ser existia além dele. Na eternidade Deus previu que a criação do mun­do e o estabelecimento das leis que o regem fariam cer­ta sua história atual, até mesmo nos mais insignifican­tes detalhes. Mas Deus decretou criar e estabelecer es­sas leis. Assim decretando, decretou necessariamente tudo quanto haveria de acontecer. Por fim, Ele previu os acontecimentos futuros, do universo, como certos, porque decretou criar; porém tal determinação de criar envolveu também a determinação de todos os resultados atuais dessa criação ou, em outros termos, Deus decretou esses resultados”.

“O conhecimento de um plano como ideal ou possível pode preceder ao decreto; mas o conhecimento de um plano como real ou decidido deve seguir-se ao decre­to... Deus portanto prevê a criação, as causas, as leis, os acontecimentos, as conseqüências porque decretou a criação, as causas, as leis, os acontecimentos, as con­seqüências; isto é, porque Ele incluiu tudo isso em seu plano. A negação dos decretos envolve logicamente a negação da presciência que Deus tem das livres ações humanas; a isto são levados de fato os socinianos e al­guns arminianos... Deus conheceu as livres ações hu­manas como possíveis, antes de decretá-las; conheceu-as como futuras, haveriam de acontecer, porque as de­cretou... Quando digo, “Sei o que vou fazer”, é evi­dente que antes já tomei uma resolução; esse meu sa­ber não precede a resolução, mas vem depois dela e nela se baseia... Existem pois duas espécies de conhe­cimento divino:

1. conhecimento do que pode acontecer — do possível (scientia simplicis intelligentiae);

 2.conhecimento do que há e do que vai acontecer, porque Deus o decretou (scientia vísionis). Entre essas duas, o jesuíta espanhol Molina concebeu erroneamente uma outra, a saber, um conhecimento intermediário do que haveria de acontecer, embora Deus não o decretasse (scientia media). Seria este naturalmente um conheci­mento que Deus fizesse derivar não de si mesmo, mas de suas criaturas! Mas decretar criar, quando Ele prevê que certos atos livres dos homens virão depois, é de­cretar tais atos livres no único sentido em que empre­gamos a palavra decreto, a saber, tornar certo, ou abranger em seu plano. Nenhum arminiano, que creia na presciência que Deus tem das livres ações humanas, tem boa razão para negar os decretos de Deus, expli­cados assim".

Mas, como harmonizar a presciência de Deus neste sentido, isto é, como resultado de seus decretos, com a responsabilidade do homem? Por causa desta dificuldade, os socinianos não admitem que Deus conheça de antemão as ações livres e contingentes dos homens, e assim negam de fato a onisciência divina. Os arminianos, no entanto, reconhecem que Deus prevê como certas as livres ações do homem, sem decretá-las, embora as inclua no seu plano. Mas se Deus viu antes que certa pessoa, criada em determinado tempo e lugar e colocada em certas circunstâncias, agiria de certo modo, e apesar disso a criou exatamente em tais circunstâncias, não é que Ele decretou que essa pessoa agisse desse modo? Entretanto, Deus não será responsável pelos atos dessa pessoa, porque esta age livremente, espontaneamente, de acordo com sua própria natureza e suas inclinações. Deus não a compele a fazer coisa alguma — a pessoa age por si mesma. Por que o povo de Queila não cometeu o crime de entregar Davi a Saul? Porque Deus avisou a Davi, de modo a desaparecerem as circunstâncias que a eles teriam sido favoráveis para a perpetração do delito. Suponha-se que Deus não tivesse avisado a Davi, que teria acontecido? Tê-lo-iam entregue a Saul. Isto provaria que Deus decretara que eles agissem dessa maneira, criando as cir­cunstâncias que iam resultar naquele ato. Podemos dizer que Deus seria responsável pelo que fizessem com Davi? Não abso­lutamente. Eles é que seriam responsáveis pelo que fizessem, apesar de estar isso incluído nos decretos de Deus. O mesmo po­demos dizer dos irmãos de José, e também de Judas e de todos quantos contribuíram para a crucificação de Cristo. Cometeram um crime, agiram livremente nisso, foram acusados por sua pró­pria consciência. Nada obstante, seus atos pecaminosos foram incluídos nos decretos de Deus e, por isso, foram conhecidos de antemão.

“Disse José a seus irmãos: Agora, chegai-vos a mim... Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos, por me haverdes vendido para aqui; porque para con­servação da vida, Deus me enviou adiante de vós... Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra, e para vos preservar a vida por um grande livramento. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá e, sim, Deus.”(Gen.45: 4-8).

 “O Filho do homem vai, como está escrito a seu res­peito, mas, ai daquele por intermédio de quem o Filho do ho­mem está sendo traído!” (Mat.26:24; cf. Jó.17:12).

“Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e povos de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram”.(At.4:27,28).

“Os arminianos mostram muita reverência pelas perfeições de Deus a ponto de limitarem o conhecimento dele quanto às ações de agentes livres. Mas esforçam-se por fugir à conclusão inevitável do decreto e por salvar sua doutrina favorita dos propósitos condicio­nais, limitando o interesse divino pelos atos, e espe­cialmente pelos pecados, de agentes livres, a simples conhecimento prévio, permissão e intenção de fazer do ato permitido uma condição de alguma parte do decreto.

 Sustento que aqueles que concedem tanto não podem consistentemente parar aí. Se o ato peca­minoso (para fazer o mínimo possível de concessão aos calvinistas) do agente livre foi previsto com certeza por Deus desde a eternidade, então sua ocorrência deve ser certa. Contudo neste universo nada acontece sem uma causa; deve pois haver algum fundamento para a certeza dessa ocorrência. E é nesse fundamento que assenta a presciência de Deus.

 Perguntais que funda­mento é esse?

 Respondo com uma pergunta: Como pode o conhecimento que Deus tem do possível passar para o seu conhecimento do real? Somente pela sua determinação de assegurar a ocorrência deste último. Conceba-se Deus a criar um agente livre, de acordo com o seu plano, e a lançá-lo aí em liberdade. Se Deus conhece de antemão tudo o que esse agente livre vai resolver fazer, se for criado, acaso não pro­põe a realização desses atos, quando cria esse agente? Negá-lo é uma contradição. Podemos não ser capa­zes de ver perfeitamente como é que Deus consegue com certeza a prática desses atos por agentes livres, e ainda deixando-os agir unicamente pela própria vontade deles (espontaneamente), mas o que não po­demos é negar que Ele o faz. Do contrário teríamos a subversão de sua soberania e presciência. Com re­lação ao homem tais acontecimentos podem ser de todo contingentes, duvidosos, eventuais; mas quanto a Deus, nenhum deles pode ser contingente; de outro modo, todas as partes do seu decreto' ligadas, como efeitos, com tais eventos como causas, seriam contin­gentes no mesmo grau”.

“Os arminianos admitem que todos estes atos interme­diários dos homens foram previstos eternamente por Deus, e assim foram incluídos no seu plano como con­dições: mas não foram preordenados. Replicamos: se foram previstos com certeza, sua ocorrência era cer­ta; se esta era certa, então alguma coisa devia haver que determinasse tal certeza. Essa alguma coisa ou era a sábia preordenação de Deus, ou um fado, desti­no, cego e físico. Os arminianos que escolham”.


   Em conclusão, sendo onisciente. Deus sabe tudo o que pode acontecer, inclusive os atos de agentes livres. E sendo onipo­tente, só aquilo que Ele faz ou permite que se faça pode ocor­rer. Por conseqüência, tudo quanto Deus previu foi por Ele decretado. Concluímos, assim, que a presciência de Deus pro­va os seus decretos.

Os Elos da SALVAÇÃO BÍBLICA!

O PROCESSO DA SALVAÇÃO: COMO ACONTECE?

Eleição, predestinação, regeneração (fé salvífica, arrependimento), justificação (adoção, redenção, propiciação, remissão, reconciliação, perdão), santificação e glorificação.

ELEIÇÃO: É o ato soberano e livre exercido por Deus, em escolher os que serão salvos. (Jo 15:16; Rm 8:29; Ef 1:4; 2 Ts 2:13; 2 Tm 1:9).

PREDESTINAÇÃO: São os meios determinados por Deus para trazer os eleitos até Ele. (Jo 6:37, 44; Rm 8:29; Ef 1:5; 2:10; 2 Ts 2:14).

REGENERAÇÃO: É a transição do estado de morte para o estado de vida. (Jo 5:24; Cl 2:13; Ef 2:1, 5, Tt 3:4-7).

JUSTIFICAÇÃO: É a remoção da culpa e da punição do pecado. (Rm 3:24-25; 5:1-2).

SANTIFICAÇÃO: É a libertação do poder do pecado e o processo pelo qual o cristão passa a se parecer com Jesus Cristo, se separando e se consagrando a Deus. (Jo 15:16; Rm 6:18-23; Ef 2:10; 1 Ts 4:7; 1 Pe 2:9).

GLORIFICAÇÃO: É a remoção da presença do pecado. (1 Co 15:43-58; Fp 3:21; 1 Jo 3:2).

BIBLICAMENTE FALANDO, ESTE É O PROCESSO DA SALVAÇÃO.

Sola Scriptura!
Sola Gratia!
Sola Fide!
Solus Christus!
Soli Deo Glória!

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Aborto - O massacre dos inocentes contra os poderosos

“Ouvindo esta a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; então, Isabel ficou possuída do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre!” (Lucas 1:41-42)
Muitos cristãos, evangélicos e católicos, até mesmo não-cristãos pró-vida, vêm denunciando o ponto mais frágil do argumento em favor da descriminalização ou legalização do aborto: a falta de um conceito claro do que significa ser humano (antropologia)[1] que dê garantias de que não se está matando ou interrompendo uma vida humana quando se aborta.
A discussão toda vai na direção do conceito de “pessoa”. Basicamente este é o argumento: um embrião ou um aglomerado celular, sem consciência, não pode ser considerado uma “pessoa”, logo, nesta fase o aborto seria eticamente viável. Para alguns ou algumas militantes pela legalização ou descriminalização do aborto, por “pessoa” entende-se aquele indivíduo biologicamente humano que desenvolveu consciência ou autonomia.
As consequências lógicas e éticas do argumento acima chegam a lugares antes inimagináveis. Hoje há filósofos envolvidos em reflexões sobre ética médica que defendem a seguinte hipótese: se até aproximadamente os 3 anos não há “pessoalidade” plenamente desenvolvida, não seria antiético matar uma criança até aproximadamente essa idade[2]. Parece “lógico”: se a fronteira entre aborto ético e antiético é a pessoalidade relacionada à consciência ou inconsciência, se argumentos plausíveis apontarem na direção de que uma criança não tem sua consciência plenamente desenvolvida até 3 ou 4 anos, logo, ela poderia ser morta, ou seja, um infanticídio eticamente justificável. As conclusões parecem absurdas, mas são perfeitamente compatíveis com o principal argumento que justifica a interrupção da vida intrauterina.
Com um pouco de discernimento filosófico, mesmo para não filósofos como eu, o que se percebe é que quem dá o tom ao argumento em favor do aborto é uma antropologia (definição de ser humano) radicalmente dualista. O conceito de ser humano que orienta a maioria dos que argumentam a favor da legalização do aborto se baseia em uma diferenciação radical e artificial entre a dimensão biológica e psicológica. Obviamente, neste caso, o que há é uma clara fragmentação ou fatiamento do que significa ser humano.
A ironia é que cristãos, sem necessariamente usar argumentos religiosos, insistem que seres humanos são mais do que meramente uma massa biológica, mas também, são mais do que mera consciência racional. Não admitem nenhum tipo de redução da condição humana a nenhum de seus aspectos constitutivos. E, de fato, nenhum deles pode ser contraposto ao outro sem que com isso sua integridade seja comprometida.
A biologia ou a neurociência não podem dizer quando a pessoalidade começa ou termina em termos seguros. Podem descrever a formação do sistema nervoso ou níveis de complexificação celular, mas produzir uma definição antropológica segura a partir dos dados que fornece, seria dar um salto metafísico estranho às ciências da natureza.
Mesmo sem uma clara definição, a antropologia que justifica o aborto se fundamenta em um dualismo radical. Ou seja, uma separação brusca entre “consciência” e “corpo”. Não há integralidade, mas sim uma dependência da antropologia moderna que reduz o ser humano apenas à esfera da “consciência”, o velho dualismo cartesiano, só que agora cheio de penduricalhos pós-estruturalistas. Em contrapartida, cristãos ortodoxos insistem: seres humanos são integrais e irredutíveis. E, isto, repito, tem relação com uma percepção elevada de dignidade humana.
Cristãos não acreditam em “neutralidade confessional” na orientação de políticas públicas.  Toda política pública se orienta ética e antropologicamente a partir de determinadas “confissões” ou “percepções” de mundo, ou seja, dependem de crenças ideológicas ou filosóficas, não necessariamente racionais. Cristãos liberais que flertam com agendas seculares pecam, por ingenuidade ou por devoção ideológica, quando usam o termo “estado laico” ao associarem o conceito a uma espécie de “não participação ou aplicação de uma cosmovisão cristã na esfera pública”. O discurso é claramente percebido quando se lê algo como o que a militante e defensora da legalização do aborto, Thamyra Thâmara, escreveu recentemente:
“a gente não pode querer que a nossa forma de pensar ou a nossa forma de se relacionar com a fé seja regra para a sociedade. Não podemos querer que religião seja lei, o estado é laico.”[3]
Se a preocupação é que não haja uma imposição de regras eclesiásticas na esfera pública, neste ponto, concordamos. Lutero, Calvino e Kuyper concordariam também. A distinção entre a esfera da igreja e a esfera jurídico-política deve ser mantida e com regras derivadas de suas respectivas estruturas. Mas isso não significa que cristãos, inspirados em seus pressupostos, não podem defender a plausibilidade pública de sua antropologia ante outras antropologias, como a utilizada pelos que defendem a legalização do aborto. Indivíduos pró-escolha (pró-aborto ou pró-legalização do aborto) fundamentam sua opinião ética a partir de conclusões metafísicas e não necessariamente científicas. A metafísica é um campo de reflexão filosófica que lida com a noção de origem e propósito das coisas. Neste sentido, cristãos falam sem pudor que possuem uma metafísica e antropologia melhores do que aquelas que territorializam o corpo, que separam a constituição psicológica da biológica, e que brincam de definir fronteiras entre pessoalidade e não-pessoalidade humanas.
Thamyra, talvez sem perceber, parte de uma antropologia com data e hora de nascimento, argumenta:
“Você sabia que lá no Uruguai o aborto pode ser feito por qualquer motivo até a 12ª semana de gestação, ou seja, antes da formação do sistema nervoso. O feto não iria sofrer.”
Observe que para ela, o limite moral para legalizar o aborto é o “sofrimento” ou “não sofrimento” do feto. Não há nenhuma menção sobre o potencial vital e os fascinantes e providenciais dispositivos biológicos antiabortivos (lembra da progesterona?) disparados no corpo de uma mulher para que aquela vida humana (e não de um cachorro, gato ou golfinho) logre êxito rumo ao nascimento. Não há nenhum receio por parte da autora a respeito das fronteiras difíceis de serem definidas pela ciência, filosofia, psicologia ou teologia. Falta reverência pela vida intrauterina, enquanto há uma forte consideração por uma ética fundada em pura subjetividade e em uma ideologia secular.
A autora desconsidera o fato de que mães que querem o sucesso de sua gravidez não tratam aquele que está em seu útero como “feto” ou “embrião”, mas como “filho”. A preocupação legítima com o sofrimento de mulheres com uma gravidez indesejada, porém associada a uma distinção entre “vida embrionária” e “vida humana”, tem um apelo emocionalista e um efeito retórico colateral que é um verdadeiro “tapa na cara” de outras milhares de mulheres que lidam com esta vida intrauterina em termos de “Eu-Tu” e não “Eu-Isso”[4]. Nenhuma mulher que conheço diz: “- Meu feto querido!” ou “- Meu embrião amado e tão esperado!”. Desde o início, seu corpo, afetos e expectativas projetam-se para um ser humano até seu nascimento, independente do lapso temporal. Para militantes da legalização do aborto essas mães são bobinhas e ingênuas.
A antropologia que orienta as conclusões éticas de muita gente que apoia a legalização do aborto tem fronteiras tão fluídas e arbitrárias que não seria nenhum exagero alegar que:
“o conceito de pessoalidade desconectado da biologia, se torna subjetivo e arbitrário — abrindo a porta para a desumanidade e opressão. Qualquer um em qualquer estágio da vida poderia ser rotulado ao status de ‘não-pessoa’ lhe sendo negado o direito a viver.”[5]
Baseado em tudo que fora discutido até agora, postula-se que:
  1. Qualquer defesa da legalização ou da não-legalização do aborto deve se basear em conclusões metafísicas e definições antropológicas precisas e claras, sem apelo sentimentalista;
  1. Depois de definida a antropologia, deve-se defender a plausibilidade e qual antropologia aprecia adequadamente a dignidade humana;
  1. A antropologia por trás do principal discurso pró-aborto é dualista, não-integral, com um fundo racionalista, sentimentalista e subjetivista;
  1. A defesa cristã de uma antropologia elevada, irredutível e integral não permite o apoio a nenhuma política pública de legalização do aborto sem que isso fira a consciência do cristão;
  1. A antropologia cristã está no cerne da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Vale uma consulta ao livro “Justice: rights and wrongs” de Nicholas Wolterstorff. Qualquer relativização deste princípio levará a humanidade a uma ética arbitrária. Basta lembrar de Richard Rorty, filósofo pragmatista americano, que defendeu no II Fórum de Filosofia da UNESCO (Paris, 1996), que a superação da noção de “direitos universais” é uma questão urgente, afinal, tal conceito têm raízes judaico-cristãs. Em seu lugar, seria necessária uma nova antropologia fundada em superioridade econômica, e um explícito escalonamento entre “humanos” e “sub-humanos”. Honesto, se partirmos da noção secular de que a antropologia judaico-cristã é obsoleta e não tem relevância pública, como indiretamente defendem secularistas travestidos de laicistas, inclusive cristãos.
  1. Seria irresponsável desprezar a noção de dignidade humana universal como um grande e incalculável legado da antropologia judaico-cristã ao ocidente. Sua importância não é de agora, está no coração de qualquer debate sobre direitos humanos. Uma discussão seriamente plural sobre a legalização do aborto deveria considerar interlocutores que se apoiam nesta sabedoria, sem o mito de neutralidade secular que se esconde em memes de laicização.
  1. Se entendemos que seres humanos, desde a concepção até a velhice, estão em permanente, integral e complexo desenvolvimento, garantir a proteção à vida desde a concepção, é garantir o desenvolvimento humano em todas as suas etapas. Não considerando nenhuma delas “não-humana” “menos humana” ou “sub-humana” em relação às outras. O problema é que a antropologia dualista ou naturalista tende a seccionar o desenvolvimento humano em etapas temporais estanques, em que cada fase se tem entidades diferentes. Este seccionamento ontogenético produz uma distorção metafísica que pode levar a conclusões como que se existissem fases do desenvolvimento da vida humana em que na verdade não podem ser consideradas intrinsecamente humanas[6]. Neste caso, bastaria argumentar, ainda que de maneira arbitrária ou subjetiva, que em uma determinada fase ainda não se tem um “ser humano” para justificar um aborto “ético”. Em outras palavras: acredita que o desenvolvimento humano é um direito? Então, garanta-o desde sua concepção.
Baseado nos postulados acima, concluímos que a resistência à legalização do aborto inspira-se em pelos menos três princípios: 1. Uma concepção de ser humano (antropologia) integral e elevada; 2. No direito que o ser humano tem à vida e a seu pleno desenvolvimento desde sua concepção até a velhice; 3. Na irredutibilidade de sua condição humana, ou seja, seres humanos não podem ser reduzidos nem à consciência/racionalidade, nem à esfera biológica e tampouco a nenhum de seus outros aspectos constitutivos.
Enfim, esses parecem ser princípios plausíveis e razoáveis para se tratar com cuidado posições éticas em relação a um tema tão sensível. A legalização do aborto e a defesa de sua prática de modo irrestrito, dependerão sempre de uma concepção reduzida da dignidade humana. E, conceber o ser humano menor do que ele é ou deveria ser é sempre uma violação dos direitos humanos, ou seja, violência.
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[1] O termo antropologia é usado neste texto em seu sentido filosófico, ou seja, como sendo o campo ou disciplina filosófica responsável pela definição ou que lida com a natureza humana. A antropologia filosófica trata do problema: O que é o ser humano?