A Graça Comum:
I. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA
A. Introdução e definição
Quando Adão e Eva pecaram, tornaram-se réus da punição eterna e da separação de Deus (Gênesis 2:17). Do mesmo modo, hoje, quando os seres humanos pecam, eles se tornam sujeito à ira de Deus e à punição eterna: “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). Isso significa que, uma vez que as pessoas pecam, a justiça de Deus requer somente uma coisa — que elas sejam eternamente separadas de Deus, alienadas da possibilidade de experimentar qualquer bem da parte dEle, e que elas existam para sempre no inferno, recebendo eternamente apenas a Sua ira. De fato, isso foi o que aconteceu aos anjos que pecaram e poderia ter acontecido exatamente conosco também: “Pois Deus não poupou aos anjos que pecaram, mas os lançou no inferno, prendendo-os em abismos tenebrosos a fim de serem reservados para o juízo” (2 Pedro 2:4).
Mas, de fato, Adão e Eva não morreram imediatamente (embora a sentença de morte começasse a ser aplicada na vida deles no dia em que pecaram). A execução plena da sentença de morte foi retardada por muitos anos. Além disso, milhões de seus descendentes até o dia de hoje não morrem nem vão para o inferno tão logo pecam, mas continuam a viver por muitos anos, desfrutando bênçãos incontáveis nesta vida. Como pode ser isso? Como Deus pode continuar a conferir bênçãos a pecadores que merecem somente a morte — não somente aos que finalmente serão salvos, mas também a milhões que nunca serão salvos, cujos pecados nunca serão perdoados?
A respostas a essas perguntas é que Deus concede-lhes graça comum. Podemos definir graça comum da seguinte maneira: Graça comum é a graça de Deus pela qual Ele dá às pessoas bênçãos inumeráveis que não são parte da salvação. A palavra comum aqui significa algo que é dado a todos os homens e não é restrito aos crentes ou aos eleitos somente.
Diferentemente da graça comum, a graça de Deus que leva pessoas à salvação é muitas vezes chamada “graça salvadora”. Naturalmente, quando falamos a respeito da “graça comum” e da “graça salvadora”, não estamos sugerindo que há duas diferentes espécies de graça no próprio Deus, mas apenas estamos dizendo que a graça de Deus se manifesta no mundo de duas maneiras diferentes. A graça comum é diferente da graça salvadora quanto aos resultados (ela não traz salvação), seus destinatários (é dada aos crentes e descrentes igualmente) e sua fonte (ela não flui diretamente da obra expiatória de Cristo, visto que a morte dEle não obtém nenhuma medida de perdão para os descrentes e, portanto, nem os crentes nem os descrentes fazem jus às suas bênçãos). Contudo, sobre o último ponto, deve ser dito que a graça comum flui indiretamente da obra redentora de Cristo, porque o fato de Deus não julgar o mundo assim que o pecado entrou nele talvez seja apenas porque Ele planejou finalmente salvar alguns pecadores por meio da morte de Seu Filho.
B. Exemplos de graça comum
Se olhamos para o mundo ao nosso redor e o contrastamos com o fogo do inferno que ele merece, podemos ver imediatamente a abundante evidência da graça comum de Deus em milhares de exemplos na vida diária. Podemos distinguir diversas categorias específicas nas quais essa graça comum pode ser vista.
1. A esfera física. Os descrentes continuam a viver neste mundo somente por causa da graça comum de Deus — cada vez que as pessoas respiram é pela graça, pois o salário do pecado é a morte, não a vida. Além disso, a terra não produz somente espinhos e ervas daninhas (Gênesis 3:18), nem permanece um deserto ressequido, mas a graça comum de Deus provê comida e material para roupa e abrigo, muitas vezes em grande abundância e diversidade. Jesus disse: “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque Ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” (Mateus 5:44,45). Aqui Jesus apela para a abundante graça comum de Deus como encorajamento aos seus discípulos, para que eles também concedam amor e orem para que os descrentes sejam abençoados (cf. Lucas 6:35,36). Semelhantemente, Paulo disse ao povo de Listra: “No passado [Deus] permitiu que todas as nações seguissem os seus próprios caminhos. Contudo. Deus não ficou sem testemunho: mostrou sua bondade, dando-lhes chuva do céu e colheitas no tempo certo, concedendo-lhes sustento com fartura e um coração cheio de alegria” (Atos 14:16,17).
O Antigo Testamento também fala da graça comum de Deus que vem aos descrentes tanto quanto aos crentes. Um exemplo específico é o de Potifar, o capitão da guarda do Egito que comprou José como escravo: “o Senhor abençoou a casa do egípcio por causa de José. A bênção do Senhor estava sobre tudo o que Potifar possuía, tanto em casa como no campo” (Gênesis 39:5). Davi fala de modo muito mais geral a respeito das criaturas que o Senhor fez:
“O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas. [...] Os olhos de todos estão voltados para ti, e tu lhes dás o alimento no devido tempo. Abres a tua mão e satisfazes os desejos de todos os seres vivos” (Salmos 145:9,15,16).
Estes versículos são outro lembrete de que a bondade que é encontrada em toda a criação não acontece automaticamente — ela se deve à bondade de Deus e Sua compaixão.
2. A esfera intelectual. Satanás é “mentiroso e pai da mentira” e “não há verdade nele” (João 8:44), porque lhe foi dado ter domínio sobre o mal e sobre a irracionalidade e comprometimento com a falsidade que acompanha o mal radical. Mas os seres humanos no mundo de hoje, mesmo os descrentes, não estão totalmente entregues à mentira, irracionalidade e ignorância. Todas as pessoas são capazes de ter um pouco de compreensão da verdade; de fato, algumas possuem grande inteligência e entendimento. Isso também deve ser visto como resultado da graça comum de Deus. João fala de Jesus como “a verdadeira luz, que ilumina todos os homens” (João 1:9), pois, em seu papel como criador e sustentador do universo (não particularmente em seu papel como redentor), o Filho de Deus concede iluminação e entendimento que vêm a todas as pessoas no mundo.
A graça comum de Deus na esfera intelectual é vista no fato de que todas as pessoas têm certo conhecimento de Deus: “porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças” (Romanos 1:21). Isso significa que há um senso da existência de Deus e muitas vezes a fome de conhecer Deus que Ele permite que permaneça no coração das pessoas, embora isso resulte muitas vezes em muitos religiões diferentes criadas pelos homens. Portanto, mesmo quando falando a pessoas que sustentavam religiões falsas, Paulo pôde encontrar um ponto de contato com respeito ao conhecimento da existência de Deus, exatamente como fez quando falou aos filósofos atenienses: “Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos [...] o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio” (Atos 17:22,23).
A graça comum de Deus na esfera intelectual também resulta na capacidade de captar a verdade e distingui-la do erro e de experimentar crescimento em conhecimento que pode ser usado na investigação do universo e na tarefa de dominar a terra. Isso significa que toda ciência e tecnologia desenvolvida pelos não-cristãos é resultado da graça comum, permitindo-lhes fazer descobertas e invenções incríveis, para desenvolver os recursos do planeta na criação de muitos bens materiais, para produção e distribuição desses recursos e para alcançar habilidades na obra produtiva. Em sentido prático, isso significa que, cada vez que entramos em uma mercearia, andamos em um automóvel ou entramos em uma casa, devemos lembrar que estamos experimentando os resultados da abundante graça comum de Deus derramada tão ricamente sobre toda a raça.
3. A esfera moral. Pela graça comum Deus também refreia as pessoas de serem tão más quanto poderiam. Novamente o reino demoníaco, totalmente dedicado ao mal e à destruição, proporciona um contraste claro com a sociedade humana, na qual o mal é claramente refreado. Se as pessoas persistem dura e repetidamente em seguir o pecado durante o curso de sua vida, Deus finalmente as entregará ao maior de todos os pecados (cf. Salmos 81:12; Romanos 1:24,26,28), mas no caso da maioria dos seres humanos eles não caem nas profundezas às quais seus pecados normalmente os levariam, porque Deus intervém e coloca freio na sua conduta. Um refreamento muito eficaz é a força da consciência. Paulo diz: “De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os” (Romanos 1:32). E em muitos outros casos, essa sensação interior da consciência leva os indivíduos a estabelecer leis e costumes na sociedade que são, em termos da conduta exterior que eles aprovam ou proíbem, totalmente iguais às leis morais da Escritura. As pessoas muitas vezes estabelecem leis ou têm costumes que respeitam a santidade do casamento e da família, protegem a vida humana e proíbem o roubo e a falsidade no falar. Por causa disso, elas muitas vezes seguem caminhos moralmente retos e exteriormente andam conforme os padrões morais encontrados na Escritura. Embora a conduta moral delas não possa ganhar méritos com Deus, visto que a Escritura claramente diz que “diante de Deus ninguém é justificado pela Lei” (Gálatas 3:11) e “Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Romanos 3:12), contudo, em algum sentido menor que ganhar a aprovação ou o mérito eterno de Deus, os descrentes realmente fazem “o bem”. Jesus sugere isso quando diz: “E que mérito terão, se fizerem o bem àqueles que são bons para com vocês? Até os 'pecadores' agem assim” (Lucas 6:33).
4. A esfera da criatividade. Deus distribuiu medidas significativas de capacidade em áreas artísticas e musicais, assim como em outras esferas nas quais a criatividade e a habilidade podem expressar-se, como praticar esportes, cozinhar, escrever, e assim por diante. Além disso, Deus nos dá a capacidade de apreciar a beleza em muitas áreas da vida. E nessa área, assim como na esfera física e intelectual, as bênçãos da graça comum são às vezes derramadas sobre os descrentes até mais abundantemente que sobre os crentes. Todavia, em todos os casos, ela é resultado da graça de Deus.
5. A esfera da sociedade. A graça de Deus também é evidente na existência de várias organizações e estruturas na raça humana. Vemos isso primeiramente na família humana, ressaltado pelo fato de que Adão e Eva permaneceram marido e mulher após a queda e então tiveram filhos, homens e mulheres (Gênesis 5:4). Os filhos de Adão e Eva casaram-se e formaram famílias para si mesmos (Gênesis 4:17,19,26). A família humana permanece ainda hoje, não simplesmente como instituição para os crentes, mas para todas as pessoas.
O governo humano é também resultado da graça comum. Ele foi instituído no princípio por Deus após o dilúvio (ver Gênesis 9:6) e, segundo Romanos 13 claramente afirma, foi estabelecido por Deus: “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas”. Está claro que o governo é dom de Deus para a raça em geral, pois Paulo diz que a autoridade “é serva de Deus para o seu bem” e que ela é “serva de Deus, agente de justiça para punir quem pratica o mal” (Romanos 13:4). Um dos principais meios que Deus usa para refrear o mal no mundo é o governo humano. As leis humanas, as forças policiais e os sistemas judiciais proporcionam poderosa repressão às más ações, e esses são freios necessários, pois há muito mal no mundo que é irracional e pode ser restringido somente pela força, já que ele não será impedido pela razão ou pela educação. Obviamente a pecaminosidade das pessoas pode também afetar os governos em si mesmos, de forma que o governo humano, igual a todas as outras bênçãos da graça comum que Deus dá, pode ser usado tanto para o propósito do bem como do mal.
6. A esfera religiosa. Mesmo na esfera da religião humana, a graça comum de Deus traz algumas bênçãos para as pessoas incrédulas. Jesus nos diz: “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” (Mateus 5:44), e desde que não há qualquer restrição no contexto para que se ore simplesmente pela salvação deles e como a ordem de orar pelos que nos perseguem é combinada com a ordem de amá-los, parece razoável concluir que Deus pretende responder a nossas orações pelos que nos perseguem em muitas áreas de suas vidas. De fato, Paulo especificamente ordena que oremos “pelos reis e por todos os que exercem autoridade” (1 Timóteo 2:2). Quando procuramos o bem dos descrentes, isso é coerente com a própria prática divina de conceder sol e chuva a “maus e bons” (Mateus 5:45) e também está de acordo com a prática de Jesus durante o Seu ministério terreno, quando Ele curou cada pessoa que lhe era trazida (Lucas 4:40). Não há indicação alguma de que ele tenha exigido que todos cressem nele ou concordassem que ele era o Messias antes de lhes conceder cura física.
Deus responde às orações dos descrentes? Embora Deus não tenha prometido responder às orações dos descrentes como prometeu responder às orações dos que vêm a Ele em nome de Jesus, e embora Ele não tenha obrigação de responder às orações dos descrentes, mesmo assim Deus pode por Sua graça comum ouvir e responder positivamente às orações deles, demonstrando dessa forma Sua misericórdia e bondade de outro modo ainda (cf. Salmos 145:9,15; Mateus 7:22; Lucas 6:35,36). Esse é provavelmente o sentido de 1 Timóteo 4:10, que diz que Deus é o “Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem”. Aqui “Salvador” não significa restritamente “quem perdoa pecados e dá vida eterna”, porque tais coisas não são dadas aos que não crêem. “Salvador” deve ter aqui um sentido mais geral — a saber, “quem resgata da miséria, quem liberta”. Em caso de pobreza e miséria, Deus muitas vezes ouve as orações dos descrentes e os livra graciosamente de seus problemas. Além disso, mesmo os descrentes muitas vezes possuem um senso de gratidão para com Deus pela bondade da criação, pela libertação em meio ao perigo e pelas bênçãos da família, do lar, das amizades e do país.
7. A graça comum não salva pessoas. A despeito de tudo isso, devemos perceber que a graça comum é diferente da graça salvadora. A graça comum não muda o coração humano nem traz pessoas ao genuíno arrependimento ou à fé — ela não pode salvar e não salva pessoas (embora na esfera intelectual e moral ela possa preparar as pessoas para torná-las mais dispostas a aceitar o evangelho). A graça comum refreia o pecado, mas não muda a disposição fundamental de pecar nem purifica a natureza humana decaída.
Devemos também reconhecer que as ações que os descrentes realizam por causa da graça comum não merecem a aprovação ou o favor de Deus. Essas ações não procedem da fé (“tudo o que não provém da fé é pecado”, Romanos 14:23) nem são motivadas pelo amor a Deus (Mateus 22:37), e sim pelo amor ao ego sob uma ou outra forma. Portanto, embora possamos prontamente dizer que as obras dos descrentes que se conformam externamente às leis de Deus são “boas” em algum sentido, contudo elas não são boas em termos de merecer a aprovação de Deus nem de tornar Deus endividado para com o pecador em sentido algum.
Finalmente, devemos reconhecer que os descrentes muitas vezes recebem mais graça comum que os crentes — eles podem ser mais habilidosos, trabalhar com mais esforço, ser mais inteligentes, mais criativos ou ter mais dos benefícios materiais desta vida para desfrutar. Isso não indica de forma alguma que eles são mais favorecidos por Deus no sentido absoluto ou que eles vão ganhar qualquer coisa relativa à salvação eterna, mas significa somente que Deus distribui as bênçãos da graça comum de vários modos, muitas vezes concedendo bênçãos bastante significativas a descrentes. Em tudo isso, obviamente, eles devem tomar consciência da bondade de Deus (Ateus 14:17) e reconhecer que a vontade revelada de Deus é que essa “bondade de Deus” finalmente os conduza “ao arrependimento” (Romanos 2:4).
C. Razões para a graça comum
Por que Deus concede graça comum a pessoas imerecedoras que nunca virão à salvação? Podemos sugerir ao menos quatro razões.
1. Para redimir os que serão salvos. Pedro diz que o dia do juízo e da execução final de punição está sendo retardado porque há ainda mais pessoas que serão salvas. “O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Ao contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento.” (2 Pedro 3:9,10). De fato, essa razão foi verdadeira desde o princípio da história humana, pois, se Deus quisesse salvar qualquer pessoa entre todos que compõem a humanidade pecaminosa, Ele não poderia destruir todos os pecadores imediatamente (nesse caso não sobraria ninguém da raça humana). Ao contrário, Ele resolveu permitir que seres humanos pecaminosos vivessem algum tempo de modo a ter uma oportunidade de arrependimento e também para que pudessem gerar filhos, capacitando gerações subseqüentes a viver, a ouvir o evangelho e se arrepender.
2. Para demonstrar a bondade e a misericórdia de Deus. A bondade e a misericórdia de Deus não são vistas somente na salvação dos crentes, mas também nas bênçãos que Deus dá aos pecadores que não as merecem. Quando Deus “é bondoso para com os ingratos e maus” (Lucas 6:35), essa bondade é revelada no universo, para a Sua glória. Davi diz: “O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas” (Salmos 145:9). Na história de Jesus conversando com o moço rico, lemos: “Jesus olhou para ele e o amou” (Marcos 10:21), embora o homem fosse um descrente que no mesmo instante afastou-se de Jesus porque possuía muitas riquezas. Berkhof diz que Deus “derrama incontáveis bênçãos sobre todos os homens e também indica claramente que elas são expressões de uma disposição favorável de Deus que, contudo, fica muito aquém da volição positiva exercida para lhes perdoar, suspender a sentença a eles imposta e assegurar-lhes a salvação”.
Não é injusto Deus retratar a execução da punição do pecado e dar temporariamente bênçãos aos seres humanos, porque a punição não é esquecida, mas apenas retardada. Retardando a punição, Deus mostra claramente que não tem prazer em executar o juízo final, mas, ao contrário, Ele se deleita na salvação de homens e mulheres. “Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o SENHOR, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem dos seus caminhos e vivam” (Ezequiel 33:11). Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4). Em tudo isso o tempo de espera da punição dá uma evidência clara da misericórdia, bondade e amor de Deus.
3. Para demonstrar a justiça de Deus. Quando repetidamente Deus convida os pecadores a virem à fé e repetidamente eles recusam os Seus convites, a justiça de Deus em condená-los é vista muito mais claramente. Paulo adverte que quem persiste na incredulidade está simplesmente acumulando a ira para si mesmo: “Contudo, por causa da teimosia e do seu coração obstinado, você está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento” (Romanos 2:5). No dia do juízo todas as bocas serão silenciadas (Romanos 3:19), e ninguém será capaz de contrapor que Deus foi injusto.
4. Para demonstrar a glória de Deus. Finalmente, a glória de Deus é mostrada de muitas formas pelas atividades dos seres humanos em todas as áreas nas quais a graça comum está em operação. No desenvolvimento e no exercício do domínio sobre a terra, homens e mulheres demonstram e refletem a sabedoria do seu Criador, comprovam as qualidades dadas por Deus, as virtudes morais e a autoridade sobre o universo, e coisas semelhantes. Embora todas essas atividades sejam contaminadas por motivos pecaminosos, elas apesar disso refletem a excelência de nosso Criador e, portanto, trazem a glória a Ele, não de forma plena e perfeita, mas ainda assim significativa.
C. Nossa resposta à doutrina da graça comum
Pensando sobre as várias espécies de bondades vistas na vida dos descrentes por causa da graça comum que Deus dá abundantemente, devemos ter em mente três pontos.
1. Graça comum não significa que quem a recebe será salvo. Mesmo uma porção excepcional de graça comum não significa que quem a recebe será salvo. Até as pessoas mais habilidosas, mas inteligentes, mais ricas e poderosas no mundo ainda carecem do evangelho de Jesus Cristo ou serão condenadas eternamente! Os nossos vizinhos mais bondosos e de moral mais elevada ainda carecem do evangelho de Jesus Cristo ou serão condenados eternamente! Exteriormente pode parecer que eles não têm necessidade algumas, mas a Escritura ainda diz que os descrentes são “inimigos de Deus” (Romanos 5:10; cf. Colossenses. 1:21; Tiago 4:4) e são “contra” Cristo (Mateus 12:30). Eles são “inimigos da cruz de Cristo” e “só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3:18,19), sendo “por natureza merecedores da ira” (Efésios 2:3).
2. Devemos ser cuidados em não rejeitar as coisas boas que os descrentes fazem, considerando-as totalmente más. Pela graça comum os descrentes fazem algumas coisas boas, e devemos ver a mão de Deus nelas, sendo agradecidos por elas, como por exemplo nas amizades, em cada ato de bondade, no que elas trazem de bênçãos para outras pessoas. Tudo isso — embora o descrente não o saiba — procede em última análise de Deus, e Deus merece a glória por tudo.
3. A doutrina da graça comum deveria estimular nosso coração à gratidão muito maior a Deus. Quando descemos uma rua e vemos casas, jardins e famílias vivendo em segurança, ou quando negociamos no mercado e vemos os resultados abundantes do progresso tecnológico, ou quando andamos pelos bosques e vemos a beleza da natureza, ou quando somos protegidos pelas autoridades, ou quando somos educados no vasto conhecimento humano, devemos perceber não somente que Deus, em Sua soberania, é o responsável último por todas essas bênçãos, mas também que Deus as tem concedido aos descrentes, embora eles não tenham absolutamente nenhum mérito com relação a elas! Essas bênçãos no mundo não são apenas evidências do poder e sabedoria de Deus, mas a manifestação contínua da Sua graça abundante. A percepção deste fato deveria fazer nosso coração se encher de gratidão a Deus em cada atividade de nossa vida.
Fonte: Teologia Sistemática, Wayne Grudem.
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
O Dom de Línguas Hoje
Dada a IGNORÂNCIA BÍBLICA ATUAL, segue Mais uma vez o assunto já tão discorrido:
O DOM DE LÍNGUAS HOJE-
O grande número de igrejas e doutrinas diferentes que caracterizam nosso tempo tem trazido as mais diversas dúvidas aos membros das igrejas históricas. Um desses dilemas é o “dom de línguas”. É muito divulgada, no meio evangélico, a ideia de que o crente espiritual deve falar em línguas para que cresça em comunhão com Deus, ou como resultado natural de um profundo conhecimento e experiência com ele.Dom de Linguas
O resultado é que crentes sinceros passam a se preocupar com sua saúde espiritual e com a comunhão da sua denominação com Deus ao verem outras denominações repletas de prodígios, revelações e línguas. As próprias denominações históricas ficam, na mente de muitos, relegadas a um plano de superficialidade espiritual, rotuladas de “igrejas frias”.
Nossa intenção é averiguar o que e Bíblia realmente ensina sobre o dom de línguas e comparar com as práticas e ensinos modernos a fim de nos posicionarmos diante desse dilema e seguirmos o ensino de Deus por intermédio dos apóstolos e profetas.
O que é o dom de línguas?
A Bíblia expõe o dom de línguas como uma capacitação sobrenatural que permitia que algumas pessoas falassem das grandezas de Deus em outro idioma sem que nunca o tivessem aprendido. O dom de línguas descrito na Bíblia não era fruto de exercícios ou de aprendizado, mas um “dom”, algo dado por Deus. Outra característica marcante desse dom é que ele não estava ao alcance de todos. Todo cristão recebia, e ainda recebe, algum dom do Espírito Santo. Porém, o dom não era escolhido pelas pessoas, mas dado pela vontade de Deus para a edificação do corpo de Cristo (1Co 12.28-30; 1Pe 4.10,11).
Além de cada crente possuir um dom distinto, em todas as relações de dons espirituais da Bíblia, o dom de línguas sempre aparece nos últimos lugares, a não ser em 1Coríntios 13, onde Paulo discorre sobre a inutilidade dos dons sem a presença do amor. O fato é que o dom de línguas ocupava uma posição secundária no plano de edificar a igreja. Tinha como principal objetivo ser um sinal aos incrédulos e não aos crentes. Apontava para o juízo de Deus que recairia sobre Israel por ter rejeitado o Senhor Jesus (1Co 14:21-22 cf. Dt 28:45-46,49).
As línguas pronunciadas por aqueles que possuíam o referido dom eram de natureza terrena. No Novo testamento, duas palavras são usadas para se referir a línguas: Glossa e Dialéktos. A primeira significa “idiomas”, ou língua (órgão anatômico). A segunda significa “idioma” ou “dialeto”. Esses sentidos apontam para línguas terrenas, idiomas utilizados ao redor do mundo.
Apesar da clareza dos termos, parte da confusão sobre o dom de línguas no Brasil se deve à tradução da versão “Almeida Revista e Corrigida”. Ela traduz a palavra glóssais (línguas) em 1Co 14.5,6,23, com a expressão “línguas estranhas”. Isso deu margem ao entendimento equivocado de que as línguas fossem estranhas à raça humana, justificando a produção de sons e sílabas sem qualquer sentido ou a crença de se tratar de um idioma exclusivo dos anjos. Essa certamente não era a intenção dos tradutores da versão Almeida, pois resolveram este mal-entendido na versão “Almeida Revista e Atualizada”, com a expressão “outras línguas”.
A afirmação de que as línguas faladas pelos discípulos eram “línguas de anjos” não é verdadeira. Paulo combate os desvios e maus usos do dom de línguas em 1Coríntios 14 normatizando sua utilização, cortando os excessos cometidos na igreja e proibindo algumas pessoas de exercê-lo no culto público. A preparação para esse tratamento começa no capítulo anterior: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1 Co 13.1). Paulo comparou as pessoas que falavam em outras línguas, mas que não amavam seus irmãos, a sinos ou gongos metálicos cuja única função era fazer barulho quando golpeados. Eram homens e mulheres que não desenvolviam sua habilidade sobrenatural para o bem dos outros, nem para o crescimento do corpo de Cristo, mas para exibição pessoal e para serem admirados e invejados.
O apóstolo estava tão preocupado com a situação que, ao mostrar a necessidade do amor, utilizou uma figura de linguagem chamada hipérbole. A hipérbole consiste no exagero de uma expressão a fim de realçar uma idéia ou demonstrar a forte intensidade de um sentimento. Os três primeiros versículos do capítulo 13 são expostos sob esse prisma. No v. 1 Paulo diz que falar “muitas” línguas sem amor é algo inútil e sem propósito. Ele estende o raciocínio e afirma que o mesmo se daria se alguém falasse até mesmo a linguagem dos anjos. Devemos notar que não há relatos na Bíblia de uma língua específica de anjos, pois em todas as vezes que os anjos falaram com os homens, o fizeram em idiomas humanos. Paulo falou sobre “língua dos anjos” em 1Co 13.1 para ressaltar, por meio de uma hipérbole, que não importava o quanto os irmãos de Corinto se impressionavam com esse dom – o amor era maior e necessário.
Portanto, quando a Bíblia fala sobre o dom de línguas ela se refere a uma “capacitação exterior ao homem que o habilita a falar da glória de Deus em outro idioma humano não conhecido para aquele que fala.”
O dom de línguas é sinal de espiritualidade?
Dois livros bíblicos que tratam sobre o dom de línguas são Atos e 1Coríntios. Atos não é um livro fundamentalmente normativo ou doutrinário. É uma obra histórica que narra corretamente os primeiros anos da Igreja cristã. Por sua vez, 1Coríntios é um livro doutrinário que traça normas claras de conduta visando ao desenvolvimento da igreja. Apesar da diferença de enfoque, ambos os livros apontam para a mesma realidade a respeito das línguas.
É possível notar no livro de Atos que o dom de línguas não era sinal de maturidade espiritual. Apesar de sua primeira aparição ter-se dado em 120 “discípulos de Cristo” (At 2), em outras ocasiões se deu em recém-convertidos (At 10.44-46; 19.6,7). Em resumo, o livro de Atos olha para o dom de línguas de uma maneira positiva. Ele é a demonstração da vinda do Espírito Santo sobre a Igreja como Jesus prometeu (At 1.8 cf. Jo 14.16; 15.26; 16.7) e da habitação do Espírito Santo em cada crente a partir da sua conversão (At 2.38 cf. Ef 1.13,14).
Em 1Coríntios, o apóstolo Paulo trata do dom utilizado por crentes que, tendo condições de serem espirituais, comportavam-se ainda como carnais e mundanos (1Co 3.1,2). A igreja de Corinto, apesar de ser rica em dons, não era uma igreja espiritual.
Mais uma característica do ensino de 1Coríntios é que em parte alguma Paulo ensina que “todos” os crentes deviam falar em línguas. Em lugar disso ele afirma que cada crente recebe um dom dado segundo a vontade de Deus (1Co 12.11) para a edificação da igreja. O fato de Paulo associar a falta de amor ao dom de línguas dentro da igreja de Corinto (1Co 13.1; 14.1) demonstra que alguns tinham dons desejados pela maioria – como falar em línguas – e outros não, sendo esse o motivo da soberba dos que falavam e dos ciúmes dos que não falavam (1Co 13.4 – “... o amor arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece.”). Além disso, Paulo afirma expressamente que nem todos possuíam o dom de línguas (1Co 12.28-30).
Devido à inutilidade do dom de línguas sem que houvesse interpretação (1Co 14.9,16-19) e dos danos que podia causar ao Evangelho entre os visitantes (1Co 14.23-25), Paulo também deu normas e proibições para o uso do dom de línguas no culto público. Assim, não poderiam falar no culto todas as pessoas que tinham o dom de línguas, mas apenas duas ou, “no máximo”, três, no momento adequado e não ao mesmo tempo. Se ao falar não houvesse ninguém na igreja que pudesse entender o idioma e traduzir para o restante da igreja, quem estava falando deveria se calar. Paulo diz que se não houvesse interpretação ninguém seria edificado (1Co 14.27,28).
Quando o dom de línguas era exercido segundo essas regras, ele não podia ser proibido (1Co 14.39,40). Paulo também afirma que a espiritualidade dos crentes que falavam em outras línguas poderia ser avaliada não pelo fato de falarem, mas pelo fato de se submeterem a tais orientações (1Co 14.37,38).
Há diferenças entre as línguas de hoje em relação às dos do ‘Novo Testamento’?
Atualmente, o que se conhece por dom de línguas guarda diferenças marcantes entre o dom descrito e normatizado nas páginas no Novo Testamento. Quando olhamos para o fenômeno das línguas na igreja moderna, percebemos que ele difere diametralmente do dom na igreja primitiva. Algumas características das línguas da atualidade são:
Elas são consideradas sinal de espiritualidade e demonstração de que o Espírito Santo age de uma maneira mais profunda naqueles que as falam.
Todos os crentes são encorajados a falar em línguas para progredirem espiritualmente.
Há momentos no culto público em que todos, ou grande parte das pessoas, falam em línguas simultaneamente.
Não se trata de idiomas, mas de sílabas unidas ao acaso e sem significado ou repetições de palavras e fonemas.
São ensinados métodos para que pessoas que não falam em línguas possam aprender a falar por meio de relaxamento ou de treino.
As línguas não são traduzidas a fim de haver edificação da igreja e evangelização dos visitantes incrédulos.
Há grande resistência quanto à aceitação e aplicação das normas que Paulo deu para o uso do dom de línguas.
De onde vieram os conceitos atuais sobre o dom de línguas?
Uma análise histórica entre os séculos I2 e 19 mostra que os teólogos de maior expressão, tanto da antiguidade como da reforma protestante, não exerciam nem ensinaram a prática do dom de línguas. Durante todo esse tempo, a maioria dos casos em que esporadicamente se ouve falar sobre o dom de línguas é entre grupos como montanistas, jansenistas (católicos pietistas), quacres, shakers e mórmons.
Entretanto, o início marcante do dom de línguas da atualidade veio por intermédio do movimento conhecido como “Avivamento da Rua Azusa”, fundado em 1906 por William J. Seymour. Ele se inspirou em Charles Fox Parham, pioneiro da idéia de que o sinal específico do batismo do Espírito Santo é “falar em línguas”.
A análise bíblica e histórica do dom de línguas e a presença de inúmeras contradições e diferenças entre o uso atual das línguas e o uso na igreja primitiva levam-nos à conclusão de que o dom de línguas atual não é, de modo algum, a mesma experiência que a igreja apresentou no primeiro século. As normas paulinas são o divisor de águas entre as línguas do passado e as de hoje.
Qual foi o propósito do dom no ‘Novo Testamento’?
A constatação da descontinuidade do dom de línguas descrito no Novo Testamento em relação à experiência atual levanta algumas perguntas. Uma delas é: “Se o dom de línguas da igreja primitiva não servia aos propósitos difundidos na atualidade, qual era sua real função?”.
Em 1Coríntios 14, Paulo não apenas proibiu o uso indevido do dom de línguas e o graduou como secundário na edificação da igreja. Paulo também revelou o propósito “principal” das línguas: servir como um “sinal” de Deus para os incrédulos (1Co 14.22).
Deuteronômio 28 contém dois tipos de promessa de Deus aos judeus. O primeiro é a promessa de bênçãos pela obediência dos judeus ao Senhor (Dt 28.1-14). O segundo é a promessa de castigo pela desobediência (Dt 28.15-68). Em meio à lista de castigos prometidos ao povo judeu caso “não dessem ouvidos à voz do Senhor”, um deles fica em destaque: “O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra virá, como o vôo impetuoso da águia, nação cuja língua não entenderás; nação feroz de rosto, que não respeitará ao velho, nem se apiedará do moço. Ela comerá o fruto dos teus animais e o fruto da tua terra, até que sejas destruído; e não te deixará cereal, mosto, nem azeite, nem as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas, até que te haja consumido. Sitiar-te-á em todas as tuas cidades, até que venham a cair, em toda a tua terra, os altos e fortes muros em que confiavas; e te sitiará em todas as tuas cidades, em toda a terra que o SENHOR, teu Deus, te deu. Comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas, que te der o SENHOR, teu Deus, na angústia e no aperto com que os teus inimigos te apertarão” (Dt 28.49-53).
Essa é a promessa de um grande castigo de Deus pela desobediência de Israel usando como instrumento de castigo uma nação poderosa. Essa nação seria estrangeira, pois falaria uma língua não seria entendida pelos israelitas. Esse povo, por fim, traria grande destruição e mortandade a Israel. Pouco antes de decretar tal punição, o Senhor revelou que esses eventos seriam um “sinal” para os israelitas de que eles estavam sob a mão punitiva de Deus (Dt 28.46,47). Essa promessa se cumpriu algumas vezes de maneira clara e arrebatadora. Três datas notáveis desse cumprimento foram 722 a.C., 587 a.C. e 70 A.D.
Em 722 a.C., quando Israel estava divido em dois reinos – o reino do norte (Israel) com suas dez tribos, e o reino do sul (Judá) formado pelas tribos de Judá e Benjamim – o reino do norte foi devastado pelos assírios e o povo foi levado cativo para a Assíria, onde foi miscigenado com outros povos (2Re 17.5,6,22,23). Em 587 a.C., o mesmo aconteceu ao reino do sul (Judá). Jerusalém, capital de Judá, foi destruída junto com o Templo que Salomão havia construído para o culto a Deus. Os habitantes foram exilados na Babilônia até o ano 539 a.C. (2Re 25.8,9).
Prevendo esse tipo de punição, o Senhor enviou profetas para alertar o povo dos seus pecados, conclamá-los ao arrependimento e anunciar o juízo caso não mudassem seu modo de agir. Entre esses alertas dois deles chamam a atenção para si:
a) Isaías pregou arrependimento ao povo garantindo que Deus os perdoaria e purificaria. Contudo, alertou que a obstinação deles os tornaria alvo de “espada” (Is 1.16-20). Infelizmente, o povo não deu ouvidos à voz do Senhor. Isaías, então, profetizou a punição de Deus e disse que nem mesmo o castigo e o sinal de uma “língua estranha” seriam capazes de produzir arrependimento na nação de Israel (Is 28.11,12 cf. v.1).
b) Deus falou à nação de Judá, por meio de Jeremias, convidando-a ao arrependimento e à purificação (Jr 3.14,15). A exemplo de Israel, Judá também não deu ouvidos à voz do Senhor. Portanto, Deus usou a Babilônia, sob o comando de Nabucodonosor, para castigar Judá. Nesse caso, o “sinal” do juízo de Deus também foi dado por meio de um povo destruidor, cuja língua eles não entendiam (Jr 5.12-17).
Nos dias no Novo Testamento também houve uma grande destruição em Jerusalém (70 A.D.) e em todo o país. Os acontecimentos da guerra entre os judeus e os romanos (66–70 A.D.) não foram narrados nas Escrituras, mas a História não os deixou passar em branco. O historiador Flávio Josefo conta que Vespasiano derrotou e devastou toda a Galiléia, Peréia e Iduméia e partiu em direção a Jerusalém. Nessa época, a cidade estava tomada e dividida por três partidos de judeus que se destruíam mutuamente. Crimes, roubos e assassinatos aconteciam à luz do dia. Qualquer um que tentasse fugir de Jerusalém era morto. Essa guerra civil custou o próprio mantimento de trigo que serviria para sustentar anos de cerco. A fome e o roubo de mantimentos pelos rebeldes em Jerusalém chegaram a níveis insuportáveis.
Quando Vespasiano foi feito imperador, seu filho Tito assumiu o comando do exército romano e sitiou Jerusalém. Em quinze dias tomou o primeiro muro e em mais nove, o segundo. Restando apenas a terceira muralha e o muro do Templo, Tito ofereceu, em vão, a paz aos judeus. Como não houve rendição, depois de quatro meses de cerco o Templo foi invadido e, mesmo contra as ordens de Tito, foi queimado e destruído. Quinze dias depois Jerusalém estava completamente destruída e quem passasse por ali teria dificuldades em acreditar que ali fora um centro populoso. Os números da guerra, não levando em conta o quase meio milhão de judeus mortos em todo o território palestino e egípcio, foram: 97 mil prisioneiros e 1,1 milhão mortos em Jerusalém por crimes, fome, peste e guerra.
O motivo de tamanha destruição foi o mesmo de 722 a.C. e 587 a.C: desobediência às ordens de Deus. Quatro décadas antes Jesus pregou entre os judeus e se apresentou como Deus e Salvador. Ele transmitiu à nação as palavras e promessas de Deus a respeito da redenção mediante o arrependimento e a fé no Filho (Jo 10.24-26,30; 14.6). O livro de Hebreus diz que Jesus falou aos homens do seu tempo assim como Deus falou com os antigos por meio dos profetas (Hb 1.1,2).
Infelizmente, a reação dos judeus a tais palavras não foi fé e obediência, mas rejeição e morte a Jesus (Jo 19.15,16). Novamente o povo deixou de obedecer e “não deu ouvidos à voz do Senhor”. Desse modo, Judá seria punida mais uma vez. O vislumbre do castigo que traria destruição a Jerusalém e ao Templo fez com que Jesus anunciasse e lamentasse a terrível tragédia (Mt 24.1,2; Lc 19.41-44; 21.20-24).
Como das outras vezes, Deus levantou uma nação poderosa para trazer castigo pela incredulidade e desobediência dos judeus. A diferença é que, dessa vez, o instrumento usado por Deus (o povo romano) dominava sobre os israelitas havia mais de cem anos. Como Deus prometeu que os castigos descritos em Deuteronômio 28 seriam “um sinal aos judeus para sempre” (Dt 28.46,47), ele possivelmente decidiu sinalizar o castigo por meio da Igreja. Para esse fim a Igreja passou a sinalizar tal juízo por intermédio de línguas estrangeiras que não eram entendidas pelo povo judeu. Por esse motivo Paulo diz que as línguas não eram para crentes, mas para incrédulos (1Co 14.21,22). O povo que rejeitou e matou o Deus Filho estava sendo alertado sobre a dura punição que recairia sobre eles e sendo convidado ao arrependimento.
A primeira vez que o dom de línguas ocorreu na História foi cinquenta dias após a morte de Jesus. Os 120 discípulos de Cristo que receberam o Espírito Santo começaram a falar em outros idiomas na presença de grande multidão de judeus incrédulos de todas as partes do mundo. Ao ficarem espantados por verem galileus iletrados falando correta e claramente em idiomas de terras distantes, esses judeus incrédulos foram repreendidos por Pedro a respeito do que fizeram com Jesus (At 2.22-24). Em vista disso, muitos deles se arrependeram e buscaram um meio de fugir da condenação por tão grande crime. Para eles Pedro ordenou que se arrependessem e se convertessem do caminho dos perversos (At 2.37-40). Diante da pregação e do anúncio da culpa 3 mil judeus foram convertidos somente nesse dia (At 2.41).
Desse modo, encontramos o propósito da concessão do dom de línguas à Igreja. Ele foi o sinal que Deus enviou aos incrédulos que apontava para o juízo que recairia sobre eles. E o fato de uma pequena porcentagem ter crido em tais promessas demonstra que o propósito do dom de línguas não era primariamente evangelizar os incrédulos, mas trazer sobre eles o juízo de Deus.
O dom de línguas ainda existe hoje?
O juízo que o dom de línguas sinalizava aconteceu no ano 70 A.D. Estando Jerusalém destruída por sua rejeição a Jesus e às palavras de Deus, o dom “atingiu seu propósito”. Não havia, a partir de então, o que ser sinalizado diante dos judeus e, assim, o sinal “deixou de ser necessário”. Por isso, o dom de línguas cessou após a destruição de Jerusalém no ano 70 A.D.
Na verdade, esse não é o único exemplo na Bíblia que mostra que Deus usa um sinal somente até que o fato sinalizado aconteça. Encontramos um bom exemplo em Colossenses 2.16,17. Paulo ensina aos colossenses que eles não deviam seguir os aspectos cerimoniais da Lei judaica por serem “sombras das coisas que haveriam de vir”. Em outras palavras, eram sinais e símbolos de aspectos da obra redentora de Cristo que seriam cumpridos com sua vinda. Depois que Cristo consumou sua obra, esses sinais perderam a utilidade. Por isso não fazemos mais sacrifícios, nem guardamos o sábado, nem nos abstemos de alimentos que eram considerados impuros. De forma semelhante, o dom de línguas deixou de existir assim que Jerusalém foi destruída.
Conclusão
Portanto, o dom de línguas não mais existe desde a destruição de Jerusalém pelos romanos na segunda metade do século 1, em meio à incrível mortandade de israelitas.
Se as línguas de hoje são tão confusas e diferentes do que a Bíblia relata e ensina, é por serem uma tentativa de fazer artificialmente o que o Espírito Santo fez no passado com um propósito definido que não existe mais. É por isso que, em vez de buscar falar em línguas, os cristãos de hoje devem “dar ouvidos à voz do Senhor” e priorizar o serviço e o amor a Deus e aos homens com um coração fiel, submisso e transformado.
- Pr. Thomas Tronco
O DOM DE LÍNGUAS HOJE-
O grande número de igrejas e doutrinas diferentes que caracterizam nosso tempo tem trazido as mais diversas dúvidas aos membros das igrejas históricas. Um desses dilemas é o “dom de línguas”. É muito divulgada, no meio evangélico, a ideia de que o crente espiritual deve falar em línguas para que cresça em comunhão com Deus, ou como resultado natural de um profundo conhecimento e experiência com ele.Dom de Linguas
O resultado é que crentes sinceros passam a se preocupar com sua saúde espiritual e com a comunhão da sua denominação com Deus ao verem outras denominações repletas de prodígios, revelações e línguas. As próprias denominações históricas ficam, na mente de muitos, relegadas a um plano de superficialidade espiritual, rotuladas de “igrejas frias”.
Nossa intenção é averiguar o que e Bíblia realmente ensina sobre o dom de línguas e comparar com as práticas e ensinos modernos a fim de nos posicionarmos diante desse dilema e seguirmos o ensino de Deus por intermédio dos apóstolos e profetas.
O que é o dom de línguas?
A Bíblia expõe o dom de línguas como uma capacitação sobrenatural que permitia que algumas pessoas falassem das grandezas de Deus em outro idioma sem que nunca o tivessem aprendido. O dom de línguas descrito na Bíblia não era fruto de exercícios ou de aprendizado, mas um “dom”, algo dado por Deus. Outra característica marcante desse dom é que ele não estava ao alcance de todos. Todo cristão recebia, e ainda recebe, algum dom do Espírito Santo. Porém, o dom não era escolhido pelas pessoas, mas dado pela vontade de Deus para a edificação do corpo de Cristo (1Co 12.28-30; 1Pe 4.10,11).
Além de cada crente possuir um dom distinto, em todas as relações de dons espirituais da Bíblia, o dom de línguas sempre aparece nos últimos lugares, a não ser em 1Coríntios 13, onde Paulo discorre sobre a inutilidade dos dons sem a presença do amor. O fato é que o dom de línguas ocupava uma posição secundária no plano de edificar a igreja. Tinha como principal objetivo ser um sinal aos incrédulos e não aos crentes. Apontava para o juízo de Deus que recairia sobre Israel por ter rejeitado o Senhor Jesus (1Co 14:21-22 cf. Dt 28:45-46,49).
As línguas pronunciadas por aqueles que possuíam o referido dom eram de natureza terrena. No Novo testamento, duas palavras são usadas para se referir a línguas: Glossa e Dialéktos. A primeira significa “idiomas”, ou língua (órgão anatômico). A segunda significa “idioma” ou “dialeto”. Esses sentidos apontam para línguas terrenas, idiomas utilizados ao redor do mundo.
Apesar da clareza dos termos, parte da confusão sobre o dom de línguas no Brasil se deve à tradução da versão “Almeida Revista e Corrigida”. Ela traduz a palavra glóssais (línguas) em 1Co 14.5,6,23, com a expressão “línguas estranhas”. Isso deu margem ao entendimento equivocado de que as línguas fossem estranhas à raça humana, justificando a produção de sons e sílabas sem qualquer sentido ou a crença de se tratar de um idioma exclusivo dos anjos. Essa certamente não era a intenção dos tradutores da versão Almeida, pois resolveram este mal-entendido na versão “Almeida Revista e Atualizada”, com a expressão “outras línguas”.
A afirmação de que as línguas faladas pelos discípulos eram “línguas de anjos” não é verdadeira. Paulo combate os desvios e maus usos do dom de línguas em 1Coríntios 14 normatizando sua utilização, cortando os excessos cometidos na igreja e proibindo algumas pessoas de exercê-lo no culto público. A preparação para esse tratamento começa no capítulo anterior: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1 Co 13.1). Paulo comparou as pessoas que falavam em outras línguas, mas que não amavam seus irmãos, a sinos ou gongos metálicos cuja única função era fazer barulho quando golpeados. Eram homens e mulheres que não desenvolviam sua habilidade sobrenatural para o bem dos outros, nem para o crescimento do corpo de Cristo, mas para exibição pessoal e para serem admirados e invejados.
O apóstolo estava tão preocupado com a situação que, ao mostrar a necessidade do amor, utilizou uma figura de linguagem chamada hipérbole. A hipérbole consiste no exagero de uma expressão a fim de realçar uma idéia ou demonstrar a forte intensidade de um sentimento. Os três primeiros versículos do capítulo 13 são expostos sob esse prisma. No v. 1 Paulo diz que falar “muitas” línguas sem amor é algo inútil e sem propósito. Ele estende o raciocínio e afirma que o mesmo se daria se alguém falasse até mesmo a linguagem dos anjos. Devemos notar que não há relatos na Bíblia de uma língua específica de anjos, pois em todas as vezes que os anjos falaram com os homens, o fizeram em idiomas humanos. Paulo falou sobre “língua dos anjos” em 1Co 13.1 para ressaltar, por meio de uma hipérbole, que não importava o quanto os irmãos de Corinto se impressionavam com esse dom – o amor era maior e necessário.
Portanto, quando a Bíblia fala sobre o dom de línguas ela se refere a uma “capacitação exterior ao homem que o habilita a falar da glória de Deus em outro idioma humano não conhecido para aquele que fala.”
O dom de línguas é sinal de espiritualidade?
Dois livros bíblicos que tratam sobre o dom de línguas são Atos e 1Coríntios. Atos não é um livro fundamentalmente normativo ou doutrinário. É uma obra histórica que narra corretamente os primeiros anos da Igreja cristã. Por sua vez, 1Coríntios é um livro doutrinário que traça normas claras de conduta visando ao desenvolvimento da igreja. Apesar da diferença de enfoque, ambos os livros apontam para a mesma realidade a respeito das línguas.
É possível notar no livro de Atos que o dom de línguas não era sinal de maturidade espiritual. Apesar de sua primeira aparição ter-se dado em 120 “discípulos de Cristo” (At 2), em outras ocasiões se deu em recém-convertidos (At 10.44-46; 19.6,7). Em resumo, o livro de Atos olha para o dom de línguas de uma maneira positiva. Ele é a demonstração da vinda do Espírito Santo sobre a Igreja como Jesus prometeu (At 1.8 cf. Jo 14.16; 15.26; 16.7) e da habitação do Espírito Santo em cada crente a partir da sua conversão (At 2.38 cf. Ef 1.13,14).
Em 1Coríntios, o apóstolo Paulo trata do dom utilizado por crentes que, tendo condições de serem espirituais, comportavam-se ainda como carnais e mundanos (1Co 3.1,2). A igreja de Corinto, apesar de ser rica em dons, não era uma igreja espiritual.
Mais uma característica do ensino de 1Coríntios é que em parte alguma Paulo ensina que “todos” os crentes deviam falar em línguas. Em lugar disso ele afirma que cada crente recebe um dom dado segundo a vontade de Deus (1Co 12.11) para a edificação da igreja. O fato de Paulo associar a falta de amor ao dom de línguas dentro da igreja de Corinto (1Co 13.1; 14.1) demonstra que alguns tinham dons desejados pela maioria – como falar em línguas – e outros não, sendo esse o motivo da soberba dos que falavam e dos ciúmes dos que não falavam (1Co 13.4 – “... o amor arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece.”). Além disso, Paulo afirma expressamente que nem todos possuíam o dom de línguas (1Co 12.28-30).
Devido à inutilidade do dom de línguas sem que houvesse interpretação (1Co 14.9,16-19) e dos danos que podia causar ao Evangelho entre os visitantes (1Co 14.23-25), Paulo também deu normas e proibições para o uso do dom de línguas no culto público. Assim, não poderiam falar no culto todas as pessoas que tinham o dom de línguas, mas apenas duas ou, “no máximo”, três, no momento adequado e não ao mesmo tempo. Se ao falar não houvesse ninguém na igreja que pudesse entender o idioma e traduzir para o restante da igreja, quem estava falando deveria se calar. Paulo diz que se não houvesse interpretação ninguém seria edificado (1Co 14.27,28).
Quando o dom de línguas era exercido segundo essas regras, ele não podia ser proibido (1Co 14.39,40). Paulo também afirma que a espiritualidade dos crentes que falavam em outras línguas poderia ser avaliada não pelo fato de falarem, mas pelo fato de se submeterem a tais orientações (1Co 14.37,38).
Há diferenças entre as línguas de hoje em relação às dos do ‘Novo Testamento’?
Atualmente, o que se conhece por dom de línguas guarda diferenças marcantes entre o dom descrito e normatizado nas páginas no Novo Testamento. Quando olhamos para o fenômeno das línguas na igreja moderna, percebemos que ele difere diametralmente do dom na igreja primitiva. Algumas características das línguas da atualidade são:
Elas são consideradas sinal de espiritualidade e demonstração de que o Espírito Santo age de uma maneira mais profunda naqueles que as falam.
Todos os crentes são encorajados a falar em línguas para progredirem espiritualmente.
Há momentos no culto público em que todos, ou grande parte das pessoas, falam em línguas simultaneamente.
Não se trata de idiomas, mas de sílabas unidas ao acaso e sem significado ou repetições de palavras e fonemas.
São ensinados métodos para que pessoas que não falam em línguas possam aprender a falar por meio de relaxamento ou de treino.
As línguas não são traduzidas a fim de haver edificação da igreja e evangelização dos visitantes incrédulos.
Há grande resistência quanto à aceitação e aplicação das normas que Paulo deu para o uso do dom de línguas.
De onde vieram os conceitos atuais sobre o dom de línguas?
Uma análise histórica entre os séculos I2 e 19 mostra que os teólogos de maior expressão, tanto da antiguidade como da reforma protestante, não exerciam nem ensinaram a prática do dom de línguas. Durante todo esse tempo, a maioria dos casos em que esporadicamente se ouve falar sobre o dom de línguas é entre grupos como montanistas, jansenistas (católicos pietistas), quacres, shakers e mórmons.
Entretanto, o início marcante do dom de línguas da atualidade veio por intermédio do movimento conhecido como “Avivamento da Rua Azusa”, fundado em 1906 por William J. Seymour. Ele se inspirou em Charles Fox Parham, pioneiro da idéia de que o sinal específico do batismo do Espírito Santo é “falar em línguas”.
A análise bíblica e histórica do dom de línguas e a presença de inúmeras contradições e diferenças entre o uso atual das línguas e o uso na igreja primitiva levam-nos à conclusão de que o dom de línguas atual não é, de modo algum, a mesma experiência que a igreja apresentou no primeiro século. As normas paulinas são o divisor de águas entre as línguas do passado e as de hoje.
Qual foi o propósito do dom no ‘Novo Testamento’?
A constatação da descontinuidade do dom de línguas descrito no Novo Testamento em relação à experiência atual levanta algumas perguntas. Uma delas é: “Se o dom de línguas da igreja primitiva não servia aos propósitos difundidos na atualidade, qual era sua real função?”.
Em 1Coríntios 14, Paulo não apenas proibiu o uso indevido do dom de línguas e o graduou como secundário na edificação da igreja. Paulo também revelou o propósito “principal” das línguas: servir como um “sinal” de Deus para os incrédulos (1Co 14.22).
Deuteronômio 28 contém dois tipos de promessa de Deus aos judeus. O primeiro é a promessa de bênçãos pela obediência dos judeus ao Senhor (Dt 28.1-14). O segundo é a promessa de castigo pela desobediência (Dt 28.15-68). Em meio à lista de castigos prometidos ao povo judeu caso “não dessem ouvidos à voz do Senhor”, um deles fica em destaque: “O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra virá, como o vôo impetuoso da águia, nação cuja língua não entenderás; nação feroz de rosto, que não respeitará ao velho, nem se apiedará do moço. Ela comerá o fruto dos teus animais e o fruto da tua terra, até que sejas destruído; e não te deixará cereal, mosto, nem azeite, nem as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas, até que te haja consumido. Sitiar-te-á em todas as tuas cidades, até que venham a cair, em toda a tua terra, os altos e fortes muros em que confiavas; e te sitiará em todas as tuas cidades, em toda a terra que o SENHOR, teu Deus, te deu. Comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas, que te der o SENHOR, teu Deus, na angústia e no aperto com que os teus inimigos te apertarão” (Dt 28.49-53).
Essa é a promessa de um grande castigo de Deus pela desobediência de Israel usando como instrumento de castigo uma nação poderosa. Essa nação seria estrangeira, pois falaria uma língua não seria entendida pelos israelitas. Esse povo, por fim, traria grande destruição e mortandade a Israel. Pouco antes de decretar tal punição, o Senhor revelou que esses eventos seriam um “sinal” para os israelitas de que eles estavam sob a mão punitiva de Deus (Dt 28.46,47). Essa promessa se cumpriu algumas vezes de maneira clara e arrebatadora. Três datas notáveis desse cumprimento foram 722 a.C., 587 a.C. e 70 A.D.
Em 722 a.C., quando Israel estava divido em dois reinos – o reino do norte (Israel) com suas dez tribos, e o reino do sul (Judá) formado pelas tribos de Judá e Benjamim – o reino do norte foi devastado pelos assírios e o povo foi levado cativo para a Assíria, onde foi miscigenado com outros povos (2Re 17.5,6,22,23). Em 587 a.C., o mesmo aconteceu ao reino do sul (Judá). Jerusalém, capital de Judá, foi destruída junto com o Templo que Salomão havia construído para o culto a Deus. Os habitantes foram exilados na Babilônia até o ano 539 a.C. (2Re 25.8,9).
Prevendo esse tipo de punição, o Senhor enviou profetas para alertar o povo dos seus pecados, conclamá-los ao arrependimento e anunciar o juízo caso não mudassem seu modo de agir. Entre esses alertas dois deles chamam a atenção para si:
a) Isaías pregou arrependimento ao povo garantindo que Deus os perdoaria e purificaria. Contudo, alertou que a obstinação deles os tornaria alvo de “espada” (Is 1.16-20). Infelizmente, o povo não deu ouvidos à voz do Senhor. Isaías, então, profetizou a punição de Deus e disse que nem mesmo o castigo e o sinal de uma “língua estranha” seriam capazes de produzir arrependimento na nação de Israel (Is 28.11,12 cf. v.1).
b) Deus falou à nação de Judá, por meio de Jeremias, convidando-a ao arrependimento e à purificação (Jr 3.14,15). A exemplo de Israel, Judá também não deu ouvidos à voz do Senhor. Portanto, Deus usou a Babilônia, sob o comando de Nabucodonosor, para castigar Judá. Nesse caso, o “sinal” do juízo de Deus também foi dado por meio de um povo destruidor, cuja língua eles não entendiam (Jr 5.12-17).
Nos dias no Novo Testamento também houve uma grande destruição em Jerusalém (70 A.D.) e em todo o país. Os acontecimentos da guerra entre os judeus e os romanos (66–70 A.D.) não foram narrados nas Escrituras, mas a História não os deixou passar em branco. O historiador Flávio Josefo conta que Vespasiano derrotou e devastou toda a Galiléia, Peréia e Iduméia e partiu em direção a Jerusalém. Nessa época, a cidade estava tomada e dividida por três partidos de judeus que se destruíam mutuamente. Crimes, roubos e assassinatos aconteciam à luz do dia. Qualquer um que tentasse fugir de Jerusalém era morto. Essa guerra civil custou o próprio mantimento de trigo que serviria para sustentar anos de cerco. A fome e o roubo de mantimentos pelos rebeldes em Jerusalém chegaram a níveis insuportáveis.
Quando Vespasiano foi feito imperador, seu filho Tito assumiu o comando do exército romano e sitiou Jerusalém. Em quinze dias tomou o primeiro muro e em mais nove, o segundo. Restando apenas a terceira muralha e o muro do Templo, Tito ofereceu, em vão, a paz aos judeus. Como não houve rendição, depois de quatro meses de cerco o Templo foi invadido e, mesmo contra as ordens de Tito, foi queimado e destruído. Quinze dias depois Jerusalém estava completamente destruída e quem passasse por ali teria dificuldades em acreditar que ali fora um centro populoso. Os números da guerra, não levando em conta o quase meio milhão de judeus mortos em todo o território palestino e egípcio, foram: 97 mil prisioneiros e 1,1 milhão mortos em Jerusalém por crimes, fome, peste e guerra.
O motivo de tamanha destruição foi o mesmo de 722 a.C. e 587 a.C: desobediência às ordens de Deus. Quatro décadas antes Jesus pregou entre os judeus e se apresentou como Deus e Salvador. Ele transmitiu à nação as palavras e promessas de Deus a respeito da redenção mediante o arrependimento e a fé no Filho (Jo 10.24-26,30; 14.6). O livro de Hebreus diz que Jesus falou aos homens do seu tempo assim como Deus falou com os antigos por meio dos profetas (Hb 1.1,2).
Infelizmente, a reação dos judeus a tais palavras não foi fé e obediência, mas rejeição e morte a Jesus (Jo 19.15,16). Novamente o povo deixou de obedecer e “não deu ouvidos à voz do Senhor”. Desse modo, Judá seria punida mais uma vez. O vislumbre do castigo que traria destruição a Jerusalém e ao Templo fez com que Jesus anunciasse e lamentasse a terrível tragédia (Mt 24.1,2; Lc 19.41-44; 21.20-24).
Como das outras vezes, Deus levantou uma nação poderosa para trazer castigo pela incredulidade e desobediência dos judeus. A diferença é que, dessa vez, o instrumento usado por Deus (o povo romano) dominava sobre os israelitas havia mais de cem anos. Como Deus prometeu que os castigos descritos em Deuteronômio 28 seriam “um sinal aos judeus para sempre” (Dt 28.46,47), ele possivelmente decidiu sinalizar o castigo por meio da Igreja. Para esse fim a Igreja passou a sinalizar tal juízo por intermédio de línguas estrangeiras que não eram entendidas pelo povo judeu. Por esse motivo Paulo diz que as línguas não eram para crentes, mas para incrédulos (1Co 14.21,22). O povo que rejeitou e matou o Deus Filho estava sendo alertado sobre a dura punição que recairia sobre eles e sendo convidado ao arrependimento.
A primeira vez que o dom de línguas ocorreu na História foi cinquenta dias após a morte de Jesus. Os 120 discípulos de Cristo que receberam o Espírito Santo começaram a falar em outros idiomas na presença de grande multidão de judeus incrédulos de todas as partes do mundo. Ao ficarem espantados por verem galileus iletrados falando correta e claramente em idiomas de terras distantes, esses judeus incrédulos foram repreendidos por Pedro a respeito do que fizeram com Jesus (At 2.22-24). Em vista disso, muitos deles se arrependeram e buscaram um meio de fugir da condenação por tão grande crime. Para eles Pedro ordenou que se arrependessem e se convertessem do caminho dos perversos (At 2.37-40). Diante da pregação e do anúncio da culpa 3 mil judeus foram convertidos somente nesse dia (At 2.41).
Desse modo, encontramos o propósito da concessão do dom de línguas à Igreja. Ele foi o sinal que Deus enviou aos incrédulos que apontava para o juízo que recairia sobre eles. E o fato de uma pequena porcentagem ter crido em tais promessas demonstra que o propósito do dom de línguas não era primariamente evangelizar os incrédulos, mas trazer sobre eles o juízo de Deus.
O dom de línguas ainda existe hoje?
O juízo que o dom de línguas sinalizava aconteceu no ano 70 A.D. Estando Jerusalém destruída por sua rejeição a Jesus e às palavras de Deus, o dom “atingiu seu propósito”. Não havia, a partir de então, o que ser sinalizado diante dos judeus e, assim, o sinal “deixou de ser necessário”. Por isso, o dom de línguas cessou após a destruição de Jerusalém no ano 70 A.D.
Na verdade, esse não é o único exemplo na Bíblia que mostra que Deus usa um sinal somente até que o fato sinalizado aconteça. Encontramos um bom exemplo em Colossenses 2.16,17. Paulo ensina aos colossenses que eles não deviam seguir os aspectos cerimoniais da Lei judaica por serem “sombras das coisas que haveriam de vir”. Em outras palavras, eram sinais e símbolos de aspectos da obra redentora de Cristo que seriam cumpridos com sua vinda. Depois que Cristo consumou sua obra, esses sinais perderam a utilidade. Por isso não fazemos mais sacrifícios, nem guardamos o sábado, nem nos abstemos de alimentos que eram considerados impuros. De forma semelhante, o dom de línguas deixou de existir assim que Jerusalém foi destruída.
Conclusão
Portanto, o dom de línguas não mais existe desde a destruição de Jerusalém pelos romanos na segunda metade do século 1, em meio à incrível mortandade de israelitas.
Se as línguas de hoje são tão confusas e diferentes do que a Bíblia relata e ensina, é por serem uma tentativa de fazer artificialmente o que o Espírito Santo fez no passado com um propósito definido que não existe mais. É por isso que, em vez de buscar falar em línguas, os cristãos de hoje devem “dar ouvidos à voz do Senhor” e priorizar o serviço e o amor a Deus e aos homens com um coração fiel, submisso e transformado.
- Pr. Thomas Tronco
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
A Divina Eleição e Reprovação!
A DIVINA ELEIÇÃO E REPROVAÇÃO -
Todos os homens pecaram em Adão, estão debaixo da maldição de Deus e são condenados à morte eterna. Por isso Deus não teria feito injustiça a ninguém se Ele tivesse resolvido deixar toda a raça humana no pecado e sob a maldição e condená-la por causa do seu pecado, de acordo com estas palavras do apóstolo: "... para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus... pois todos pecaram e carecem da glória de Deus...", e:"...o salário do pecado é a morte..." (Rom. 3:19,23; 6:23).
Mas "Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo...", "...para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (I Jo 4:9; Jo 3:16).
Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem muito alegre a quem e quando Ele quer. Pelo ministério deles, os homens são chamados ao arrependimento e à fé no Cristo crucificado. Porque "...como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?..." (Rom. 10:14, 15).
A ira de Deus permanece sobre aqueles que não crêem neste Evangelho. Mas aqueles que o aceitam e abraçam Jesus, o Salvador, com uma fé verdadeira e viva, são redimidos por Ele da ira de Deus e da perdição, e presenteados com a vida eterna (Jo 3:36; Mc 16:16).
Em Deus não está, de forma alguma, a causa ou culpa desta incredulidade. O homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados. Mas a fé em Jesus Cristo e também a salvação por meio dEle são dons gratuitos de Deus, como está escrito: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus..." (Ef 2:8). Semelhantemente, "Porque vos foi concedida a graça de..." crer em Cristo (Fp 1:29).
Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros. Isto procede do eterno decreto de Deus. Porque as Escrituras dizem que Ele "...faz estas cousas conhecidas desde séculos." e que Ele "faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade..." (Atos 15:18; Ef 1:11). De acordo com este decreto, Ele graciosamente quebranta os corações dos eleitos, por duros que sejam, e os inclina a crer. Pelo mesmo decreto, entretanto, segundo seu justo juízo, Ele deixa os não-eleitos em sua própria maldade e dureza. E aqui especialmente nos é manifesta a profunda, misericordiosa e ao mesmo tempo justa distinção entre os homens que estão na mesma condição de perdição. Este é o decreto da eleição e reprovação revelado na Palavra de Deus. Ainda que os homens perversos, impuros e instáveis o deturpem, para sua própria perdição, ele dá um inexprimível conforto para as pessoas santas e tementes a Deus.
Esta eleição é o imutável propósito de Deus, pelo qual Ele, antes da fundação do mundo, escolheu um número grande e definido de pessoas para a salvação, por graça pura. Estas são escolhidas de acordo com o soberano bom propósito de sua vontade, dentre todo o gênero humano, decaído pela sua própria culpa de sua integridade original para o pecado e a perdição. Os eleitos não são melhores ou mais dignos que os outros, porém envolvidos na mesma miséria dos demais. São escolhidos em Cristo, quem Deus constituiu, desde a eternidade, como Mediador e Cabeça de todos os eleitos e fundamento da salvação. E, para salvá-los por Cristo, Deus decidiu dá-los a Ele e efetivamente chamá-los e atraí-los à sua comunhão por meio da sua Palavra e seu Espírito. Em outras palavras, Ele decidiu dar-lhes verdadeira fé em Cristo, justificá-los, santificá-los, e depois, tendo-os guardado poderosamente na comunhão de seu Filho, glorificá-los finalmente. Deus fez isto para a demonstração de sua misericórdia e para o louvor da riqueza de sua gloriosa graça. Como está escrito: "... assim como nos escolheu nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito [bom propósito] de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado...". E em outro lugar: "E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou" (Ef 1:4-6; Rom 8:30).
Esta eleição náo é múltipla, mas ela é uma e a mesma de todos os que são salvos tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento. Pois a Escritura nos prega o único bom propósito e conselho da vontade de Deus, pelo qual Ele nos escolheu desde a eternidade, tanto para a graça como para a glória, assim também para a salvação e para o caminho da salvação, o qual preparou para que andássemos nEle (Ef 1:4,5; 2:10).
Esta eleição não é baseada em fé prevista, em obediência de fé, santidade ou qualquer boa qualidade ou disposição, que seria uma causa ou condição previamente requerida ao homem para ser escolhido. Mas a eleição é para fé, obediência de fé, santidade, etc. Eleição, portanto, é a fonte de todos os bens da salvação, de onde procedem a fé, a santidade e os outros dons da salvação, e finalmente a própria vida eterna como seus frutos. É conforme o testemunho do apóstolo: Ele "...nos escolheu..." (não por sermos mas) "...para sermos santos e irrepreensíveis perante ele..." (Ef 1:4).
A causa desta eleição graciosa é somente o bom propósito de Deus. Este bom propósito não consiste no fato de que, dentre todas as condições possíveis Deus tenha escolhido certas qualidades ou ações dos homens como condição para salvação. Mas este bom propósito consiste no fato de que Deus adotou certas pessoas dentre da multidão inteira de pecadores para ser a sua propriedade. Como está escrito: "E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal...já lhe fora dito a ela (Rebeca): O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito, "Amei a Jacó, porém me aborreci de Esaú." E, "...creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna." (Rom 9:11-13; At 13:48).
Como Deus é supremamente sábio, imutável, onisciente, e Todo-Poderoso, assim sua eleição não pode ser cancelada e depois renovada, nem alterada, revogada ou anulada; nem mesmo podem os eleitos ser rejeitados, ou o número deles ser diminuído.
Os eleitos recebem, no devido tempo, a certeza da sua eterna e imutável eleição para salvação, ainda que em vários graus e em medidas desiguais. Eles não a recebem quando curiosamente investigam os mistérios e profundezas de Deus. Mas eles a recebem, quando observam em si mesmos, com alegria espiritual e gozo santo, os infalíveis frutos de eleição indicados na Palavra de Deus - tais como uma fé verdadeira em Cristo, um temor filial para com Deus, tristeza com seus pecados segundo a vontade de Deus, e fome e sede de justiça.
A consciência e a certeza desta eleição fornecem diariamente aos filhos de Deus maior motivo para se humilhar perante Deus, para adorar a profundidade de sua misericórdia, para se purificar, e para amar ardentemente Aquele que primeiro tanto os amou. Contudo absolutamente não é verdade que esta doutrina da eleição e a reflexão na mesma os façam relaxar na observação dos mandamentos de Deus ou rendam segurança falsa. No justo julgamento de Deus isto ocorre freqüentemente àqueles que se vangloriam levianamente da graça da eleição, ou facilmente falam acerca disto, mas recusam andar nos caminhos dos eleitos.
A doutrina da divina eleição, segundo o mui sábio conselho de Deus, foi pregada pelos profetas, por Cristo mesmo, e pelos apóstolos, tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, e depois escrita e nos entregue nas Escrituras Sagradas. Por isso, também hoje esta doutrina deve ser ensinada no seu devido tempo e lugar na Igreja de Deus, para qual ela foi particularmente destinada. Ela deve ser ensinada com espírito de discrição, de modo reverente e santo, sem curiosa investigação dos caminhos do Altíssimo, para a glória do santo nome de Deus e consolação vivificante do seu povo.
A Escritura Sagrada mostra e recomenda a nós esta graça eterna e imerecida sobre nossa eleição, especialmente quando, além disso, testifica que nem todos os homens são eleitos, mas que alguns não o são, ou seja, são passados na eleição eterna de Deus. De acordo com seu soberano, justo, irrepreensível e imutável bom propósito, Deus decidiu deixá-los na miséria comum em que se lançaram por sua própria culpa, nao lhes concedendo a fé salvadora e a graça de conversão. Para mostrar sua justiça, decidiu deixá-los em seus próprios caminhos e debaixo do seu justo julgamento, e finalmente condená-los e puni-los eternamente, não apenas por causa de sua incredulidade, mas também por todos os seus pecados, para mostrar sua justiça. Este é o decreto da reprovação qual não torna Deus o autor do pecado (tal pensamento é blasfêmia!), mas O declara o temível, irrepreensível e justo Juiz e Vingador do pecado.
Há pessoas que não sentem fortemente a fé viva em Cristo, nem confiança firme no coração, nem boa consciência, nem zelo pela obediência filial e pela glorificação de Deus por meio de Cristo. Apesar disso elas usam os meios pelos quais Deus prometeu operar tais coisas em nós. Elas não devem se desanimar quando a reprovação for mencionada nem contar a si mesmos entre os reprovados. Pelo contrário, devem continuar diligentemente no uso destes meios, desejando ferventemente dias de graça mais abundante e esperando-os com reverência e humildade. Não devem se assustar de maneira nenhuma com a doutrina da reprovação os que desejam seriamente se converter a Deus, agradar só a Ele e serem libertos do corpo de morte, mas ainda não podem chegar no ponto que gostariam no caminho da piedade e da fé. O Deus misericordioso prometeu não apagar a torcida que fumega, nem esmagar a cana quebrada. Mas esta doutrina é certamente assustadora para os que não contam com Deus e o Salvador Jesus Cristo e se entregaram completamente às preocupações do mundo e aos desejos da carne, enquanto não se converterem seria mente a Deus.
Devemos julgar a respeito da vontade de Deus com base na sua Palavra. Ela testifica que os filhos de crentes são santos, não por natureza mas em virtude da aliança da graça, na qual estão incluídos com seus pais. Por isso os pais que temem a Deus não devem ter dúvida da eleição e salvação de seus filhos, que Deus chama desta vida ainda na infância.
Aqueles que reclamam contra esta graça de eleição imerecida e a severidade da justa reprovação, nós replicamos com esta sentença do apóstolo: "Quem és tu, ó homem para discutires com Deus?!" (Rom 9:20). E com esta palavra do Salvador: "Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu?" (Mt 20:15). Nós entretanto, adorando reverentemente estes mistérios, exclamamos com o apóstolo: "O profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem, pois conheceu a mente do Senhor? ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele e por meio dele e para ele são todas as cousas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém." (Rom 11:33-36).
REJEIÇÃO DE ERROS :
Havendo explicado a doutrina ortodoxa de eleição e reprovação, o Sínodo rejeita os seguintes erros:
Erro 1 - A vontade de Deus para salvar aqueles que crerem e perseverarem na fé e na obediência da fé é o decreto inteiro e total da eleição para salvação. Nada mais sobre este decreto foi revelado na Palavra de Deus.
Refutação - Este erro engana aos simples e claramente contradiz a Escritura. Ela testifica não apenas que Deus salvará aqueles que crêem mas também que escolheu específicas pessoas desde a eternidade. Nesta vida Ele dará a estes eleitos a fé em Cristo e perseverança, que Ele não dá a outros; como está escrito: "Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo." (Jo 17:6). "...e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna." (At 13:48). "...como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele..." (Ef 1:4).
Erro 2 - Há vários tipos de eleição divina para a vida eterna. Um é geral e indefinido, e outro é particular e definido. Esta última eleição ou é incompleta, revogável, não-decisiva e condicional, ou é completa, irrevogável, decisiva e absoluta. Do mesmo modo, há uma eleição para fé e outra para salvação. Portanto eleição pode ser para a fé justificante, sem ser decisiva para a salvação.
Refutação - Isto é uma invenção da mente humana, sem nenhuma base na Escritura. Essa invenção corrompe a doutrina da eleição e quebra a corrente de ouro da nossa salvação. "E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou." (Rom 8:30).
Erro 3 - O bom propósito de Deus do qual a Escritura fala na doutrina da eleição não significa que Ele escolheu certas pessoas e não outras, mas que Ele, dentre todas as condições possíveis (inclusive as obras da lei) ou seja, dentre todas as possibilidades, escolheu como condição de salvação, o ato de fé, que é sem méritos de si mesmo, e a obediência imperfeita da fé. Na sua graça Ele a considera como obediência perfeita e digna da recompensa da vida eterna.
Refutação - Este erro perigoso invalida o bom propósito de Deus e o mérito de Cristo, e desvia as pessoas, por questões inúteis, da verdade da justificação graciosa e da simplicidade da Escritura. Ele acusa de falsidade esta declaração do apóstolo: " ...que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos." (II Tim 1:9).
Erro 4 - Eleição para fé depende das seguintes condições prévias: o homem deve fazer uso adequado da luz da natureza, e deve ser piedoso, humilde, submisso e qualificado para a vida eterna.
Refutação - Assim parece que a eleição depende destas coisas. Isto tem o sabor do ensino de Pelágio e está em conflito com o ensino do apóstolo em Efésios 2:3-9: "...entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo -- pela graça sois salvos, e juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie."
Erro 5 - A eleição incompleta e não-definitiva de certas pessoas para a salvação se baseou nisto: Deus previu que elas começariam a crer, se converter, viver em santidade e piedade, e até continuariam nisto por algum tempo. Eleição completa e definitiva de pessoas, porém, ocorreu porque Deus previu que elas perseverariam em fé, conversão, santidade e piedade até ao fim. Isto é a dignidade graciosa e evangélica por causa da qual a pessoa que é escolhida é mais digna que outra que não é escolhida. Consequentemente a fé, a obediência de fé, a piedade e a perseverança não são frutos da imutável eleição para glória. São condições e causas previamente requeridas e previstas como cumpridas naqueles que serão eleitos completamente. Só com base nestas condições ocorre a eleição imutável para a glória.
Refutação - Este erro está em conflito com toda a Escritura que repete constantemente para nossos ouvidos e corações, estas e semelhantes afirmações: eleição "não [é] por obras mas por aquele que chama..." (Rom 9:11), "...e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna." (At 13:48); "...nos escolheu nele antes da fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis perante ele..." (Ef 1:4); "Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros..." (Jo 15:16); "...se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça." (Rom 11:6). "Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou, e enviou o seu Filho..." (I Jo 4:10).
Erro 6 - Nem toda eleição para salvação é imutável. Alguns dos eleitos podem perder-se e de fato se perdem eternamente, não obstante qualquer decreto de Deus.
Refutação - Este erro grosseiro faz Deus mutável, destrói o conforto dos crentes quanto à constância de sua eleição, e contradiz a Escritura: os eleitos não podem ser enganados (Mt 24:24); "E a vontade de quem me enviou é esta: Que nenhum se perca de todos os que me deu..." (Jo 6:39); "E aos que predestinou a esses também chamou; e aos que chamou a esses também justificou; e aos que justificou a esses também glorificou." (Rom 8:30).
Erro 7 - Nesta vida não há fruto, consciência ou certeza da eleição imutável para glória, exceto a certeza que depende de uma condição mutável e incerta.
Refutação - Falar acerca de uma certeza incerta é não apenas absurdo mas também contrário à experiência dos santos. Sentindo sua eleição, eles se regozijam junto com o apóstolo e glorificam este benefício de Deus (Cf Ef 1:12). Conforme o mandamento de Cristo Eles se regozijam junto com os discípulos por seus nomes estarem escritos nos céus (Lc 10:20). Eles colocam a consciência de sua eleição contra os dardos inflamados das tentações do diabo, quando perguntam: "Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?" (Rom 8:33).
Erro 8 - Deus não decidiu, simplesmente com base em sua justa vontade, deixar ninguém na queda de Adão e no estado comum de pecado e condenação. Nem decidiu passar ninguém quando deu a graça, necessária para fé e conversão.
Refutação - Pois isto é certo: "Logo, tem ele misericórdia de quem quer, e também endurece a quem lhe apraz." (Rom 9:18). E também isto: "...Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido." (Mt 13:11). Igualmente: "...Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas cousas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi de teu agrado." (Mt 11:25,26).
Erro 9 - Deus envia o Evangelho a um povo mais que a um outro, não meramente e somente por causa do bom propósito de sua vontade, mas por ser este melhor e mais digno que o outro, ao qual o Evangelho não é comunicado.
Refutação - Moisés nega isto quando se dirige ao povo de Israel dizendo: "Eis que os céus e os céus dos céus são do SENHOR teu Deus, a terra e tudo o que nela há. Tão-somente o SENHOR se afeiçoou a teus pais para os amar: a vós outros, descendentes deles escolheu de todos os povos, como hoje se vê." (Dt 10:14, 15). E Cristo diz: "Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido, com pano de saco e cinza." (Mt 11:21).
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Apegue-Se ao que é bom -
APEGUE-SE AO QUE É BOM
O julgar a verdade que Paulo ordena não é apenas um exercício acadêmico. Demanda uma resposta ativa e dupla. Primeiro, há uma resposta positiva para o que é bom: “Retende o que é bom” (1 Ts 5.21). Isto ecoa Romanos 12.9: “Detestai o mal, apegando-vos ao bem”. A expressão “apegando-vos” fala de proteger vigilantemente a verdade. Paulo está demandando a mesma vigilância cautelosa que exigiu de Timóteo em todas as cartas que lhe escreveu: “Tu, ó Timóteo, guarda o que te foi confiado” (1 Tm 6.20); “Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste… Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (2 Tm 1.13-14). Em outras palavras, a verdade é deixada sob nossa custódia, e temos a incumbência de protegê-la de toda ameaça possível.
Isso descreve uma postura militante, defensiva e protetora contra qualquer coisa que mine a verdade ou que, de algum modo, lhe cause danos. Precisamos manter a verdade segura, defendê-la zelosamente, preservá-la de todas as ameaças. Aplacar os inimigos da verdade ou baixar a nossa guarda é uma violação deste mandamento.
“Retende” também possui a ideia de aceitar alguma coisa. Vai além da mera anuência ao que é “bom” e fala de amar a verdade com todo o coração. Aqueles que são verdadeiramente capazes de discernir são comprometidos com a sã doutrina, a verdade e tudo aquilo que é inspirado por Deus.
Todo cristão verdadeiro tem esta qualidade em algum nível. Paulo define a salvação como “amor da verdade” (2 Ts 2.10) e disse aos coríntios que eles provariam sua salvação, se retivessem a palavra que ele pregara (1 Co 15.2). Aqueles que falham por completo em reter a mensagem salvífica são os que têm “crido em vão”; isto significa, antes de tudo, que sua fé é vazia. O apóstolo João disse algo parecido: “Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1 Jo 2.19). Todos os verdadeiros crentes retêm o evangelho.
Paulo estava insistindo em que os crentes de Tessalônica cultivassem e fortalecessem seu amor pela verdade, permitindo que ela governasse seu pensamento. Paulo desejava que eles nutrissem uma dedicação consciente a toda a verdade, uma fidelidade à sã doutrina e um exemplo de reter tudo o que era bom.
A atitude que isso exige é incompatível com o pensamento de que devemos deixar a doutrina de lado por amor à unidade. Tal atitude não pode ser conciliada com a opinião de que as verdades severas devem ser amenizadas, a fim de tornar a Palavra de Deus mais agradável aos incrédulos. É contrária à ideia de que a experiência pessoal tem primazia sobre a verdade objetiva. Deus nos deu sua verdade objetivamente em sua Palavra. Ela é um tesouro que devemos proteger a todo custo.
Isto é o oposto da fé sem discernimento. Nestas palavras de Paulo, não há lugar para a tradição, nem para a fé irracional e cega que se recusa a considerar a autenticidade de seu objeto e aceita sem questionamento tudo que alega ser verdade. Paulo descarta esse tipo de “fé”, norteada pelas emoções, sentimentos e imaginação humana. Em vez disso, temos de identificar “o que é bom” por meio do exame cuidadoso, objetivo e racional de todas as coisas – usando as Escrituras como nosso padrão.
Nenhum mestre humano, nenhuma experiência pessoal, nenhum sentimento forte está isento deste teste objetivo. Jay Adams escreveu: “Se as profecias inspiradas da era apostólica tinham de ser submetidas a testes… então, os ensinos dos homens de nossos dias devem ser provados”.1 De fato, se as palavras dos profetas dos tempos apostólicos precisavam ser examinadas e avaliadas, certamente devemos sujeitar as palavras daqueles que hoje se declaram “profetas” e pregadores a um escrutínio ainda mais intenso, à luz de todo o Novo Testamento. Isso também deve ser feito com qualquer emoção ou experiência subjetiva. Experiência e sentimentos – não importa quão fortes sejam – não determinam o que é a verdade. Em vez disso, elas mesmas devem ser submetidas aos testes.
“O que é bom” é a verdade que se harmoniza com a Palavra de Deus. A palavra “bom” é kalos, que significa algo inerentemente bom. Não é apenas uma coisa de boa aparência, bonita ou amável. Esta palavra fala de algo bom em si mesmo – genuíno, verdadeiro, nobre, correto e bom. Em outras palavras, “o que é bom” não se refere a entretenimento. Não se refere àquilo que recebe elogios do mundo. Não se refere àquilo que satisfaz à carne. Refere-se ao que é bom, verdadeiro, correto, autêntico, fidedigno – aquilo que se harmoniza com a infalível Palavra de Deus.
Quando você encontrar tal verdade, receba-a e guarde-a como um verdadeiro tesouro.
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John MacArthur
O julgar a verdade que Paulo ordena não é apenas um exercício acadêmico. Demanda uma resposta ativa e dupla. Primeiro, há uma resposta positiva para o que é bom: “Retende o que é bom” (1 Ts 5.21). Isto ecoa Romanos 12.9: “Detestai o mal, apegando-vos ao bem”. A expressão “apegando-vos” fala de proteger vigilantemente a verdade. Paulo está demandando a mesma vigilância cautelosa que exigiu de Timóteo em todas as cartas que lhe escreveu: “Tu, ó Timóteo, guarda o que te foi confiado” (1 Tm 6.20); “Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste… Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (2 Tm 1.13-14). Em outras palavras, a verdade é deixada sob nossa custódia, e temos a incumbência de protegê-la de toda ameaça possível.
Isso descreve uma postura militante, defensiva e protetora contra qualquer coisa que mine a verdade ou que, de algum modo, lhe cause danos. Precisamos manter a verdade segura, defendê-la zelosamente, preservá-la de todas as ameaças. Aplacar os inimigos da verdade ou baixar a nossa guarda é uma violação deste mandamento.
“Retende” também possui a ideia de aceitar alguma coisa. Vai além da mera anuência ao que é “bom” e fala de amar a verdade com todo o coração. Aqueles que são verdadeiramente capazes de discernir são comprometidos com a sã doutrina, a verdade e tudo aquilo que é inspirado por Deus.
Todo cristão verdadeiro tem esta qualidade em algum nível. Paulo define a salvação como “amor da verdade” (2 Ts 2.10) e disse aos coríntios que eles provariam sua salvação, se retivessem a palavra que ele pregara (1 Co 15.2). Aqueles que falham por completo em reter a mensagem salvífica são os que têm “crido em vão”; isto significa, antes de tudo, que sua fé é vazia. O apóstolo João disse algo parecido: “Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1 Jo 2.19). Todos os verdadeiros crentes retêm o evangelho.
Paulo estava insistindo em que os crentes de Tessalônica cultivassem e fortalecessem seu amor pela verdade, permitindo que ela governasse seu pensamento. Paulo desejava que eles nutrissem uma dedicação consciente a toda a verdade, uma fidelidade à sã doutrina e um exemplo de reter tudo o que era bom.
A atitude que isso exige é incompatível com o pensamento de que devemos deixar a doutrina de lado por amor à unidade. Tal atitude não pode ser conciliada com a opinião de que as verdades severas devem ser amenizadas, a fim de tornar a Palavra de Deus mais agradável aos incrédulos. É contrária à ideia de que a experiência pessoal tem primazia sobre a verdade objetiva. Deus nos deu sua verdade objetivamente em sua Palavra. Ela é um tesouro que devemos proteger a todo custo.
Isto é o oposto da fé sem discernimento. Nestas palavras de Paulo, não há lugar para a tradição, nem para a fé irracional e cega que se recusa a considerar a autenticidade de seu objeto e aceita sem questionamento tudo que alega ser verdade. Paulo descarta esse tipo de “fé”, norteada pelas emoções, sentimentos e imaginação humana. Em vez disso, temos de identificar “o que é bom” por meio do exame cuidadoso, objetivo e racional de todas as coisas – usando as Escrituras como nosso padrão.
Nenhum mestre humano, nenhuma experiência pessoal, nenhum sentimento forte está isento deste teste objetivo. Jay Adams escreveu: “Se as profecias inspiradas da era apostólica tinham de ser submetidas a testes… então, os ensinos dos homens de nossos dias devem ser provados”.1 De fato, se as palavras dos profetas dos tempos apostólicos precisavam ser examinadas e avaliadas, certamente devemos sujeitar as palavras daqueles que hoje se declaram “profetas” e pregadores a um escrutínio ainda mais intenso, à luz de todo o Novo Testamento. Isso também deve ser feito com qualquer emoção ou experiência subjetiva. Experiência e sentimentos – não importa quão fortes sejam – não determinam o que é a verdade. Em vez disso, elas mesmas devem ser submetidas aos testes.
“O que é bom” é a verdade que se harmoniza com a Palavra de Deus. A palavra “bom” é kalos, que significa algo inerentemente bom. Não é apenas uma coisa de boa aparência, bonita ou amável. Esta palavra fala de algo bom em si mesmo – genuíno, verdadeiro, nobre, correto e bom. Em outras palavras, “o que é bom” não se refere a entretenimento. Não se refere àquilo que recebe elogios do mundo. Não se refere àquilo que satisfaz à carne. Refere-se ao que é bom, verdadeiro, correto, autêntico, fidedigno – aquilo que se harmoniza com a infalível Palavra de Deus.
Quando você encontrar tal verdade, receba-a e guarde-a como um verdadeiro tesouro.
____________________________________
John MacArthur
Os Moravianos
— A História dos Jovens Missionários Moravianos
Os Moravianos foram os primeiros protestantes a colocar em prática a idéia de que a evangelizacão dos perdidos é dever de toda a igreja, e não somente de uma sociedade ou de alguns indivíduos.
Paul Pierson, missiólogo, escreveu: “Os Moravianos se envolveram com o mundo das missões como uma igreja, isto é, toda a igreja se tornou uma sociedade missionária”. Devido ao seu profundo envolvimento, esse pequeno grupo ofereceu mais da metade dos missionários Protestantes que deixaram a Europa em todo o século XVIII.
Devido os Moravianos terem sido pessoas sofredoras, podiam facilmente se identificar com aqueles que sofriam. Eles iam àqueles que eram rejeitados por outros. Dificilmente qualquer missionário seria mandado para a costa leste de Honduras ou Nicarágua. Essas partes da América Central eram inóspitas. Lá, contudo, estavam os Moravianos. Isso era característico da vocação missionária deles; eles se dirigiam a pessoas receptivas. Devido ao fato de os Moravianos crerem ser o Espírito Santo o “Missionário” primário, aconselhavam seus missionários a “procurarem as primícias, procurarem aquelas pessoas que o Espírito Santo já havia preparado, e trazer-lhes as boas novas”. Eles colocavam o crescimento do reino de Cristo acima de uma expansão denominacional. A obra missionária Moraviana era regada de oração. No ano de 1727, em Herrnhut na Alemanha , ocorreu um grande avivamento espiritual, os Moravianos começaram uma vigília de virada de relógio, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Nesse período o livro devocional conhecido como Lemas Diários, que ainda tem sido publicado pela Igreja Moraviana, era o devocional mais amplamente usado entre os cristãos europeus. O ministério Moraviano era fortemente regado por oração.
Os Dois Jovens Moravianos
Durante esse período dois jovens Moravianos, de 20 anos ouviram sobre uma ilha no Leste da Índia cujo dono era um britânico agricultor e ateu, este tinha tomado das florestas da África mais de 2000 pessoas e feito delas seus escravos, essas pessoas iriam viver e morrer sem nunca ouvirem falar de Cristo.
Esses jovens fizeram contato com o dono da ilha e perguntaram se poderiam ir para lá como missionários, a resposta do dono foi imediata: “Nenhum pregador e nenhum clérigo chegaria a esta ilha para falar sobre esta coisa sem sentido". Então eles voltaram a orar e fizeram uma nova proposta: "E se fossemos a sua ilha como seus escravos para sempre?", o homem disse que aceitaria, mas não pagaria nem mesmo o transporte deles. Então os jovens usaram o valor de sua própria venda pelo custo de sua viagem.
No dia que estavam no porto se despedindo do grupo de oração e de suas famílias o choro de todos era intenso, pois sabiam que nunca mais veriam aqueles irmãos tão queridos, quando o navio tomou certa distância eles dois se abraçaram e gritaram, e suas últimas palavras ouvidas foram: "QUE O CORDEIRO QUE FOI IMOLADO RECEBA A RECOMPENSA DO SEU SOFRIMENTO". Desde então, nunca mais foram vistos, ou ouviram sobre eles.
Os Moravianos foram os primeiros protestantes a colocar em prática a idéia de que a evangelizacão dos perdidos é dever de toda a igreja, e não somente de uma sociedade ou de alguns indivíduos.
Paul Pierson, missiólogo, escreveu: “Os Moravianos se envolveram com o mundo das missões como uma igreja, isto é, toda a igreja se tornou uma sociedade missionária”. Devido ao seu profundo envolvimento, esse pequeno grupo ofereceu mais da metade dos missionários Protestantes que deixaram a Europa em todo o século XVIII.
Devido os Moravianos terem sido pessoas sofredoras, podiam facilmente se identificar com aqueles que sofriam. Eles iam àqueles que eram rejeitados por outros. Dificilmente qualquer missionário seria mandado para a costa leste de Honduras ou Nicarágua. Essas partes da América Central eram inóspitas. Lá, contudo, estavam os Moravianos. Isso era característico da vocação missionária deles; eles se dirigiam a pessoas receptivas. Devido ao fato de os Moravianos crerem ser o Espírito Santo o “Missionário” primário, aconselhavam seus missionários a “procurarem as primícias, procurarem aquelas pessoas que o Espírito Santo já havia preparado, e trazer-lhes as boas novas”. Eles colocavam o crescimento do reino de Cristo acima de uma expansão denominacional. A obra missionária Moraviana era regada de oração. No ano de 1727, em Herrnhut na Alemanha , ocorreu um grande avivamento espiritual, os Moravianos começaram uma vigília de virada de relógio, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Nesse período o livro devocional conhecido como Lemas Diários, que ainda tem sido publicado pela Igreja Moraviana, era o devocional mais amplamente usado entre os cristãos europeus. O ministério Moraviano era fortemente regado por oração.
Os Dois Jovens Moravianos
Durante esse período dois jovens Moravianos, de 20 anos ouviram sobre uma ilha no Leste da Índia cujo dono era um britânico agricultor e ateu, este tinha tomado das florestas da África mais de 2000 pessoas e feito delas seus escravos, essas pessoas iriam viver e morrer sem nunca ouvirem falar de Cristo.
Esses jovens fizeram contato com o dono da ilha e perguntaram se poderiam ir para lá como missionários, a resposta do dono foi imediata: “Nenhum pregador e nenhum clérigo chegaria a esta ilha para falar sobre esta coisa sem sentido". Então eles voltaram a orar e fizeram uma nova proposta: "E se fossemos a sua ilha como seus escravos para sempre?", o homem disse que aceitaria, mas não pagaria nem mesmo o transporte deles. Então os jovens usaram o valor de sua própria venda pelo custo de sua viagem.
No dia que estavam no porto se despedindo do grupo de oração e de suas famílias o choro de todos era intenso, pois sabiam que nunca mais veriam aqueles irmãos tão queridos, quando o navio tomou certa distância eles dois se abraçaram e gritaram, e suas últimas palavras ouvidas foram: "QUE O CORDEIRO QUE FOI IMOLADO RECEBA A RECOMPENSA DO SEU SOFRIMENTO". Desde então, nunca mais foram vistos, ou ouviram sobre eles.
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
LÍNGUAS ESTRANHAS???
LÍNGUAS ESTRANHAS??? - Talvez você assim como eu, foi enganado por doutrinas falsas que esfarelam-se quando colocada à luz de uma verdadeira, correta e sincera interpretação (hermenêutica). Vejamos:
Minha intenção com esse post é refutar as “línguas estranhas” que os "pentecostais" de hoje insistem em defender. Já adianto que não pretendo com isso por um fim a essa controvérsia, pois sei que por mais que se prove que um balão é vermelho, quem quiser acreditar que a cor na verdade é verde, continuará a ver o balão vermelho como se fosse verde. Também não tenho nenhuma pretensão em afirmar que detenho a verdade, pois, isso seria blasfêmia. Mas garanto que qualquer pessoa sensata chegará à mesma conclusão que a minha! Minha única pretensão com este artigo é auxiliar àqueles que buscam uma compreensão melhor sobre o que é o verdadeiro dom de línguas. Assim como eu já fui beneficiado com estudos similares, almejo com esse post alcançar a quem o ler com sinceridade de alma e também beneficiar àquele que apenas busca entendimento!
É mais que notório que as línguas que os pentecostais defendem nos dias de hoje não é o mesmo “dom de línguas” bíblico. Pois, está mais que evidente que o dom de línguas que aconteceu em Atos capítulo 2 eram dialetos. Para defender e fundamentar minha posição, farei uma análise dos textos em grego e... antes que venha alguém aqui me criticar e objetar pelo simples fato de que eu não tenho um profundo conhecimento de grego - o que é verdade, pois não sou doutor, muito menos professor - adianto que: importa apenas a dedicação e o esmero em identificar as palavras, procurar o uso, o histórico e o significado dos termos... saber quantas vezes e de que forma foram usados nas Escrituras Sagradas também é de suma importância. Para isso, não é necessário um diploma em grego... basta tempo e dedicação!
Portanto, farei essa análise abordando apenas os textos com maior proeminência. Dividirei este estudo em duas partes, nesta primeira parte examinarei sobre as línguas idiomáticas em Atos 2 e 1Coríntios 12. Na segunda parte, que será em outra postagem, abordarei 1Coríntios 14.
Atos 2.4
“[...] e passaram a falar em outras línguas [...]” - ARA
“[...] ηρξαντο λαλειν ετεραις γλωσσαις [...]” - TR
“[...] et coeperunt loqui aliis linguis [...]” - Vulgata
“[...] and began to speak with other tongues [...]” - KJV
“[...] y comenzaron á hablar en otras lenguas [...]” - RV
“[...] e começaram a falar noutras línguas [...]” - NVI
Podemos notar que a palavra “heterais” (ετεραις), plural de “hetero”, é traduzido de forma correta para “outras” seja em latim, inglês, espanhol ou português. A princípio, não há nenhum problema aqui, pois, claramente lê-se que Lucas escreveu que os discípulos passaram a falar em “heterais glossais” (outras línguas/ετεραις γλωσσαις) e, é claro que - pelo próprio contexto de Atos 2 - infere-se que Lucas não escreveu sobre “línguas de anjos” ou mesmo de “línguas não-idiomáticas”. Isso pode-se ser observado ao se usar, pelo menos, 2 princípios hermenêuticos: contexto e coesão textual.
a) Contexto: Enxergar At 2.4 pelo prisma de At 2.6
Lucas escreve em At 2.6 que “[...] cada um os ouvia falar na sua própria língua” onde “língua” é “διαλεκτω” (dialekto)... termo muitíssimo conhecido cujo sinônimo é: idiomas.
b) Coesão Textual:
Se sabemos que os apóstolos falaram em “heterais glossais” e que seus ouvintes receberam em seus próprios “dialektos”, concluímos que da boca dos apóstolos saíram sons desconexos e sílabas sem sentido como: “cantalabaxúria decovas nébias sherebecanto, manto devassas rúbidas nébias”. Essa afirmação é absolutamente ilógica não acham? Pois então, isso é coesão textual, não posso imputar ao texto um sentido que o contexto não permite! Se os ouvintes receberam o evangelho em seus próprios dialetos, ou em suas línguas maternas, então significa que os apóstolos falaram em línguas idiomáticas!
“E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?”
Atos 2.8 - ARA
Quanto a essa conclusão, creio que qualquer cristão sincero e qualquer pentecostal sincero, concorde e confirme na mesma harmonia que os reformados: as línguas de Atos são línguas idiomáticas!
Agora que “chovi no molhado”, vamos a 1Coríntios12, e examinar a ocorrência de “línguas” nesta carta, usando o mesmo critério e o mesmo cânon usado aqui em Atos 2.
1Coríntios 12.10
“[...] a um, variedade de línguas [...]” - ARA
“[...] ετερω δε γενη γλωσσων [...]” - TR
“[...] alii genera linguarum [...]” - Vulgata
“[...] to another divers kinds of tongues [...]” - KJV
“[...] y á otro, géneros de lenguas [...]” - RV
“[...] a outro, variedade de línguas [...]” - NVI
Essa é a primeira vez que o termo “línguas” é escrito por Paulo em sua primeira carta aos Coríntios. Se observarmos o contexto, notaremos que Paulo está falando sobre dons espirituais [1Co 12.1] e quanto a isso não haverá dúvidas, muito menos divergências.
Agora, o que faz alguém dizer que o dom espiritual de 1Co 12.1-12 é diferente do que foi manifestado em Atos 2 apenas no que se refere às línguas? A resposta é simples: pós-verdade! E contra isso não há remédios a não ser o próprio Espírito Santo!
Ao analisar as palavras usadas para construir a sentença, pode-se aferir que para o vocábulo “variedades” Paulo usou “γενη” (gene). Tanto a Vulgata como a Reina Valera (RV) faz a tradução de “gene” de forma impecável, pois, “γενη” é “genera” na Vulgata e “géneros” na Reina Valera. Isso é algo assaz valioso, pois, sabe-se que “gene” pode ser traduzido para: família, tipo, prole, raça, tribo, nação... Não parece uma “cambalhota” exegética afirmar que Paulo esteja se referindo a “línguas não-idiomáticas”? Será que haveria outra oportunidade de Paulo escrever “γλωσσαις αγγελων” (línguas de anjos) ou “πνευματικοις γλωσσαις” (línguas espirituais) ou até mesmo “αγνοειν γλωσσαις” (línguas desconhecidas)?
Contudo, Paulo escreveu: “γενη γλωσσων”. O que os Coríntios, os verdadeiros destinatários desta carta, deveriam entender por “gene glosson”? Acaso eles pensaram: “Paulo está nos dizendo que o Espírito Santo outorgou a nós, homens mortais, o linguajar dos anjos que é incompreensível aos homens”? Isso seria um grande vacilo exegético! É impossível que Paulo esteja falando de “línguas incompreensíveis” a menos que o meu “ego” queira interpretar dessa forma, e aí está a pós-verdade!
Finalizarei esta parte usando o mesmo critério usado em Atos 2, pelo menos duas ferramentas hermenêuticas para corroborar essa posição - de que Paulo também está se referindo a línguas idiomáticas. As ferramentas serão: a) interpretar a Bíblia com a Bíblia, ou seja, usar uma passagem mais simples para extrair o significado de uma mais complexa. b) coesão textual.
a) Bíblia interpreta a Bíblia:
Ora, se alguns “mestres” afirmam que Paulo falava de línguas estranhas em 1Co12, então o ônus da prova é destes que fazem tal asseveração, pois, antes de 1Co12 temos Atos2, e sabemos que Atos2 se refere ao dom de “línguas idiomáticas”, ou simplesmente dialetos. Quando uso a porção de Atos2 como um óculos para enxergar melhor 1Co12 compreendo, então, perfeitamente o que Paulo está dizendo. Paulo está se referindo a “gêneros idiomáticos” e não a “labaxúrias”. Pois, se ele estivesse se referindo a línguas “incompreensíveis”, necessariamente deveria ensinar de forma mais profunda, usando substantivos e adjetivos adequados, para que os próprios coríntios, e nós hoje, pudéssemos compreender este texto sem nenhuma dúvida. Logo, o problema não está no que Paulo escreveu, e muito menos na hermenêutica de quem defende as línguas “idiomáticas”... O problema mora no “ego” e nas “experiências individuais” de quem defende o contrário... resumindo: Atos2 + 1Co12 = línguas idiomáticas.
b) Coesão Textual:
Não seria inconcebível e absolutamente incoerente eu afirmar que “γενη γλωσσων” (gene glosson) significa, aqui em 1Co12.10, línguas “incompreensíveis”? Se assim fosse... o texto não faria sentido... porquanto, Paulo não usa qualquer adjetivo para qualificar ou modificar “γλωσσων”, nem aqui e nem em qualquer outro lugar da carta de 1Coríntios. Vale lembrar que Lucas foi um fiel companheiro de Paulo em suas viagens... Será que Paulo realmente registrou um dom de línguas extraordinário e “estático”, fazendo uso da palavra “gene” para se referir a essa “língua desconhecida”? A coesão textual não permite esse tipo de interpretação. Desconsiderando a coesão textual eu poderei fazer do texto o meu pretexto!
Uma vez que foi examinado o dom de línguas em Atos2 e em 1Coríntios12, faz-se necessário focalizar todos os esforços para compreender de forma plena e adequada 1Coríntios14, visto que 1Coríntios14 é a “hipóstase” para aqueles que defendem as línguas “estáticas”. Devido ao texto ser tão longo, esse post, será apenas sobre 1Co14.2... Ainda não citei 1Co13 por se tratar de um “salmo”, uma poesia, uma “licença poética”... um exímio hino sobre o amor... logo, possui uma construção diferente do capítulo 12 e do capítulo 14 da primeira carta aos Coríntios. Isto não significa que o valor do capítulo 13 seja menor, ao invés… o capítulo 13 é o capítulo mais importante dessa carta, junto ao capítulo 15!
O maior problema que recaí sobre 1Coríntios14 está na pré-concepção de ideias. Muitos de nós, cristãos, passaram suas vidas inteiras ouvindo “sons incompreensíveis e sílabas desconexas” e isto faz com que esses cristãos creiam na existência do dom de línguas “estáticas”. A experiência pessoal realmente é uma determinante muito significativa. Mas, qual a real necessidade da existência de línguas “incompreensíveis”? Que implicações lógicas e teológicas há quando se adota essa posição?
É certo que através de uma leitura superficial, 1Co14 parece ensinar um dom de línguas distinto do que está escrito em Atos2 e 1Coríntios12, entretanto, se adotarmos a leitura superficial como guia mestra de nossa hermenêutica, então teremos sérios problemas como: afirmar que Jesus Cristo foi crucificado em uma quarta-feira… dizer que foi Samuel quem apareceu a Saul em En-Dor [1Sm28]… alegar que os anjos, ou demônios, coabitaram com mulheres em Gênesis 6.2… e, o pior, dizer que Deus se arrepende do que fez ou determinou [Gn6.6]! Portanto, afirmar que as línguas de 1Co14 são diferentes das línguas de Atos2 e 1Co12, apenas porque o texto parece indicar isso - é sinal de que algo está errado. Muitos creem assim. Eu não creio, e muitos outros cristãos também não adotam essa posição... pois, não se contentam apenas com a aparência do texto e muito menos com as experiências pessoais. Estes se preocupam apenas em compreender e extrair o máximo possível de cada LETRA que Deus soprou!
Sustentar que 1Co14 se refere a línguas “misteriosas”, apenas pela aparência do texto, consiste no mesmo erro lógico que asseverar que ricos não vão ao céu [Mt19.24] ou que Deus se arrepende [Gn6.6], ou pior, que Deus é o autor do mal [Is45.7]! Ora, se sabemos que Deus não é homem para que se arrependa [Nm 23.19], se ricos podem herdar o reino de Deus, e se Deus não é o autor do mal, então podemos deduzir que “nem tudo o que reluz é ouro” e “nem tudo o que parece é” e, ainda, “as aparências enganam”. Do contrário, aqueles que sustentam que Hebreus6 se refere aos cristãos regenerados estariam corretos em sua hermenêutica... pois, a leitura superficial é a causa; o entendimento errôneo e a compreensão equivocada, é o efeito!
Textos complexos como Gn6; 1Sm28; Is14; Ez28 entre outros... devem ser vistos e analisados à luz de outros textos que permeiam e contém harmonia com assunto, em outras palavras, se o texto de 1Co14 parece me indicar determinado tipo de dom, então, devo considerar que o único lugar em toda a Bíblia que descreve esse dom em evidência é Atos… e que Paulo escreve sobre “famílias”, ou, “gêneros” idiomáticos ao usar a palavra “gene” em 1Co12.10. Resta a pergunta… por que Paulo usou “gene” em 1Co12.10 para a partir de 1Co13 começar a falar sobre outro tipo de dom de língua? Se sabemos que o que está escrito em 1Co12 se relaciona perfeitamente com o que está em Atos2, devemos concluir que o apóstolo Paulo não rompeu sua coesão textual, sua perfeita coesão textual!
O dever de uma excelente hermenêutica é: extrair o máximo possível e o mais próximo possível das intenções do autor e daquilo que ele pensava ao escrever determinada “oração”, “concepção”, “ideia”, “conceito”, “doutrina”... Sabemos que o dom citado em 1Co12 é o mesmo citado em Atos2, porquanto sob o crivo da hermenêutica é exatamente isso o que se observa, devido às palavras usadas pelo próprio apóstolo Paulo, devido ao conhecimento histórico sobre o assunto e devido a harmonização e o encaixe perfeito entre 1Co12-Atos2… A partir daí, também devemos concluir que o que “parece” em 1Co14 não o “é” de fato.
Sem mais delongas, aqui estou eu... em uma singela tentativa de analisar 1Co14. Contudo, como supracitado, essa abordagem será restrita ao versículo 2. E, assim que possível, continuarei a escrever mais sobre 1Co14, pois, há muitas coisas a serem esquadrinhadas neste capítulo... essa minha tentativa é apenas uma pequena ponta de um grande iceberg.
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1Coríntios 14.2
“Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” - ARA
“ο γαρ λαλων γλωσση ουκ ανθρωποις λαλει αλλα τω θεω ουδεις γαρ ακουει πνευματι δε λαλει μυστηρια” - TR
“ho gar lalon glosse ouk anthropois lalei alla to Theo oudeis gar akouei pneumati de lalei mysteries” - *Transliteração Livre
“qui enim loquitur lingua non hominibus loquitur sed Deo nemo enim audit Spiritu autem loquitur mysteria” - VULGATA
“For he that speaketh in an unknown tongue speaketh not unto men, but unto God: for no man understandeth him; howbeit in the spirit he speaketh mysteries” - KJV
“Porque el que habla en lenguas, no habla á los hombres, sino á Dios; porque nadie le entiende, aunque en espíritu hable misterios” - RV
“Pois quem fala em língua não fala aos homens, mas a Deus. De fato, ninguém o entende; em espírito fala mistérios” - NVI
Devido a complexidade do versículo, dividirei as ponderações em duas partes, a saber:
a) “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus [...]”
b) “[...] visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios”
a)Paulo escreveu que qualquer homem que possua o dom de línguas - o contexto é a sequência do que foi referido em 1Co12 - “não fala a homens, senão a Deus”. Mas o que significa isso: “não fala a homens”. Considerando a premissa estabelecida em Atos 2 e em 1Co12, vou propor uma ilustração: considere que estamos em um culto, em uma congregação brasileira qualquer, considere também que um alemão venha nos visitar... em determinado momento, este alemão levanta-se e passa a pregar um sermão em alemão... nós, que o ouvimos, seremos edificados pela mensagem? É óbvio que não; porquanto o alemão “não fala a homens”! Então, para quem o alemão está falando? Supõe-se que ele esteja “falando a Deus”, visto que “não fala aos homens”.
Paulo, em 1Co14.2, quer ensinar aos coríntios que o dom das línguas idiomáticas não possui utilidade alguma se não houver interpretação - confira:
“É assim que instrumentos inanimados, como a flauta ou a cítara, quando emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá o que se toca na flauta ou cítara? Pois também se a trombeta der som incerto, quem se preparará para a batalha? Assim, vós, se, com a língua, não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis ao ar. Há, sem dúvida, muitos tipos de vozes no mundo; nenhum deles, contudo, sem sentido. Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim” - 1Coríntios 14.7-11 ARA
Perceba que Paulo ilustra, demonstra e corrobora aquilo que ele disse em 1Co14.2: “não fala a homens” desenvolvendo essa sentença nos versículos subsequentes. O ponto final do discurso de Paulo é: “Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim”... onde o apóstolo está advertindo os coríntios a que não falem e, muito menos, esbocem quaisquer sons que sejam sem sentido ou incompreensíveis ao ouvinte. Considerado o contexto, vemos que Paulo não está exortando os coríntios a que busquem os sons e sílabas desconexas, ao invés, Paulo enfatizou a inutilidade de falar qualquer “meia palavra” que seja incompreensível - qualquer palavra que seja falada em qualquer idioma estrangeiro cujo o ouvinte não conheça, essa palavra será incompreensível ao ouvinte.
Contudo, aqueles que defendem as línguas estáticas, insistem que aqui Paulo está se referindo as línguas “espirituais”. Por isso precisamos examinar os textos complexos à luz das Escrituras e também à luz do contexto. Que sentido haveria para o apóstolo defender as línguas “angelicais” aqui e refutá-las logo a seguir? Onde está a coesão textual? O que fazer com o contexto? Não é boa a “jactância” de quem segue por esse caminho... porque o “não fala a homens” é uma advertência e não um “novo ensino” ou uma “nova doutrina”. Portanto, os primeiros versículos de 1Co14, não são versículos de um professor ensinando a seus alunos, mas, trata-se de um pai repreendendo seus filhos rebeldes. Mais do que preceitos, ou doutrina, Paulo está ensinando uma conduta de vida... Paulo está ensinando uma decência, está exortando ao zelo, está lapidando e podando a seus filhos. Basta fazer uma leitura com muita calma... e veremos nesta porção um pai a lapidar seus filhos.
A sentença do versículo2 - não apenas ratifica o que foi escrito na primeira, como também aumenta o seu significado... Paulo utiliza um recurso chamado “figura de linguagem” para enfatizar e para realçar a sua advertência.
b)Para que ficasse claríssima a mensagem, Paulo repete o mesmo conceito em outras palavras. Perceba que a sentença: “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus” é semelhante, para não dizer igual, a sentença: “visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios”. Ou seja, quem fala em dialetos incompreensíveis aos ouvintes, “não fala a homens” porque “ninguém o entende”. Por isso se diz que este indivíduo está “falando a Deus”, porquanto em “espírito fala mistérios”. Este versículo, portanto, trata-se de uma hipérbole - “em espírito fala mistérios” é uma ênfase expressiva, um exagero, para exemplificar e reforçar o que foi escrito na sentença anterior. Paulo não está implementando uma nova doutrina, Paulo não está ensinando que as línguas são “estáticas” em 1Co14.2. Paulo está usando uma hipérbole, uma figura de linguagem... pois, o falar em sons incompreensíveis aos ouvintes está condenado na porção de 1Coríntios 14.7-11 que pertence ao mesmo contexto. Isto é, Paulo usa uma figura de linguagem na segunda parte do versículo 2 para facilitar a compreensão do que ele afirma na primeira sentença. Essa repetição de ideias, seja com figuras de linguagens ou não, é uma característica muito marcante na literatura de Paulo.
Ao compreender o uso das figuras de linguagens na Bíblia muitos textos que são complexos, a primeira vista, podem ser “facilmente” resolvidos. E muitos textos que parecem ensinar tais doutrinas, na verdade se opõe a elas... É claro que há ainda muito mais a se comentar sobre 1Coríntios 14... Mas, isso é tudo nessa postagem.
Resumindo, é impossível que Paulo tenha escrito em 1Co14.2 sobre dons de línguas “angelicais” para depois condenar o uso deste dom em 1Co14.7-11. Pois, se ele estivesse ensinando uma nova doutrina sobre o dom de línguas, não diria: “Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós. Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua” [1Coríntios 14.18-19]. O miolo, o cerne, o âmago de 1Co14 é: “fale o que é compreensível ou fique calado”. Paulo repudiou e condenou qualquer evidência de sons incompreensíveis. Por isso a necessidade de interpretação!
Paulo falava o hebraico, o grego, o latim... e o aramaico. Paulo era um verdadeiro poliglota... reconhecia que isto era um dom de Deus. Entretanto, Paulo condenou o uso excessivo e demasiado desse dom... a ponto de dizer aos coríntios: “fiquem calados se não houver intérpretes e se houver, que seja no máximo 3 pessoas que falem”. Paulo sempre zelou pela ordem e decência no culto... e a igreja de coríntios sofreu dos mesmos males que assola 90% dos pentecostais hoje... um culto desorganizado e repleto de balbúrdias. A diferença entre a maioria pentecostal hoje e os coríntios são duas:
1) Os coríntios falavam línguas idiomáticas... a maioria pentecostal fala em línguas estáticas, que são estranhas às Escrituras Sagradas.
2) Os coríntios se arrependeram da desordem e indecência... a maioria pentecostal busca essa desordem e balbúrdia.
Aquele que quiser fazer de 1Co14.2 sua “hipóstase” para defender as línguas “angelicais” está livre para isso. Aquele que quiser acreditar naquilo que seus sentimentos e suas experiências pessoais evidenciam, também está livre para isso... Eu, o autor deste post, não farei de 1Co14.2 uma “nova doutrina”. Ainda pretendo falar sobre o outros trechos de 1Coríntios 14... Mais uma vez repito: eu não detenho a verdade! Minha exposição foi feita... e é óbvio que há falhas, em qualquer exposição feita pelo homem haverá falhas. Mas saibam, amados irmãos... Apesar de minhas falhas, há excelentes teólogos e também o testemunho da igreja histórica defendendo a mesma posição que eu defendo.
Pense um pouco sobre o que ocorre hoje na maioria das igrejas pentecostais... reflita consigo mesmo sobre o que chamam “dom de línguas”... Faça seus questionamentos aqui nesta postagem, estarei disposto a responder qualquer pergunta sincera... e a ajudar a qualquer cristão que queira se alimentar do #SolaScriptura.
E se alguém não entendeu o que é hipérbole, verifique essa equação:
“Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus” ⥶ “visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios”.
Onde a primeira sentença é inferior a segunda sentença. A primeira sentença serve como um “aio” para a segunda sentença. A segunda sentença serve como um “óculos” para a primeira sentença. No caso desta hipérbole, a segunda sentença exemplifica e explica de forma enfática o que está escrito na primeira sentença.
Parte 3-
“Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera.”
1Coríntios14.14 ARA
Chegamos a outro versículo de 1Co14, verdadeiro “#pilar” para aqueles que defendem o dom de línguas “#desconexas” como sendo um dom de línguas bíblico. Daqui, os pentecostais inferem que a frase “se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato” se refere a um tipo de linguagem “#ininteligível”. Ainda asseveram que o versículo 15 corrobora essa posição: pelo fato de que Paulo trata da dualidade alma-espírito, que apesar de serem imateriais, são “hipóstases” distintas - de acordo com a doutrina pentecostal!
Aparentemente, o texto indica haver uma distinção entre “#espírito” e “#mente” quando aponta que aquele que orar #unicamente “no espírito” ficará com sua mente infrutífera. Os pentecostais fazem deste trecho um verdadeiro #axioma, pois dizem: “orar no espírito é tão somente os ‘gemidos inexprimíveis’ [Rm 8.26] que homem nenhum é capaz de entender - a não ser o espírito do homem que fala ao Espírito de Deus”. Portanto, a conclusão dos pentecostais é: veem em 1Co14.14 a “#evidência” de que não se trata de dialetos, ou idiomas... mas, trata-se de línguas ‘espirituais’ ininteligíveis e incompreensíveis ao homem, conforme 1Co14.2”. Entretanto, não é assim! Como já foi tratado em postagens anteriores (parte1 e parte2), 1Co14 é a continuação do que foi escrito em 1Co12.10, onde Paulo escreve sobre “gene glosson” (γένη γλωσσῶν), ou seja, “gêneros de línguas” ou “famílias de línguas”.
Através de uma #hermenêutica coerente, não é possível afirmar que Paulo, repentinamente, passou a tratar de línguas “#espirituais” tão somente porque 1Co14.2 e 1Co13.1 “indicam” alguma distinção em uma leitura #descuidada; assim como uma criança olhando as nuvens do céu vê apenas aquilo que quer ver... as sílabas “#desconexas” só existem para aqueles que insistem em defender as línguas “estáticas” como sendo um dom de línguas bíblico. Quando nos aprofundamos na arte de interpretar, e fazemos uso correto das ferramentas que a hermenêutica nos oferece, compreendemos que 1Co13.1 e 1Co14.2 são “figuras de linguagem” que Paulo usa… e aquilo que é superficial se desfaz como uma névoa na brisa do amanhecer.
O texto dessa parte3 - 1Coríntios 14.14 - não é uma figura de linguagem, por isso é necessário se fazer uma análise cuidadosa e minuciosa do texto, para que não nos apeguemos unicamente a #superficialidade e a #aparência do mesmo! Por motivos de “tamanho” essa #terceira postagem da série de estudo será exclusiva sobre o versículo 14 e um quarto texto será produzido para a análise do v.15.
1Coríntios 14:14
“Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera.”
ARA
“εαν γαρ προσευχωμαι γλωσση το πνευμα μου προσευχεται ο δε νους μου ακαρπος εστιν”
TR
“ean gar proseuchomai glosse to pneuma mou proseuchetai ho de nous mou akarpos estin”
*Tranliteração
“Nam si orem lingua, spiritus meus orat, mens autem mea sine fructu est.”
VULGATA
“For if I pray in an unknown tongue, my spirit prayeth, but my understanding is unfruitful.”
KJV
“Porque si yo orare en lengua desconocida, mi espíritu ora; mas mi entendimiento es sin fruto.”
RV
“Pois, se oro em uma língua, meu espírito ora, mas a minha mente fica infrutífera.”
NVI
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I - “[...] o meu espírito ora de fato [...]”
A primeira frase a se levar em consideração nesse versículo é: “το πνευμα μου προσευχεται” (to pneuma mo proseuchetai). Esta conclusão do apóstolo Paulo é muito significativa; porquanto ele assevera que “προσευχωμαι γλωσση” (proseuchetai glosse) é equivalente a “orar em espírito”, em outras palavras: #se alguém “orar em língua” (προσευχωμαι γλωσση) também “ora em espírito” (προσευχεται πνευμα). Como o versículo14 está subordinado ao v.13 - porquanto este é um desenvolvimento lógico daquele - fica evidente duas situações:
a) é possível orar em um idioma desconhecido por quem ora
b) não somente os ouvintes, mas também os “locutores” #necessitam da interpretação daquilo que se fala
A afirmação que Paulo faz aqui em 1Co14.14 é muito semelhante a afirmação que ele fez em 1Co14.2. Todavia, é aqui que Paulo desenvolve sua ideia. Isto é: quem ora em línguas #estrangeiras, em um culto público, sem que haja interpretação [1Co14.11,13], ora somente para si próprio; daí se diz que este “não fala a homens”, porquanto este homem “ora a Deus” porque ninguém o “compreende” [v.2]! Ambos os versículos, v.2 e v.14, estão conectados; logo, conclui-se que “em espírito fala mistérios” (πνευματι δε λαλει μυστηρια) em 1Co14.2 é uma hipérbole diretamente relacionada com a sentença: “o meu espírito ora de fato, mas minha mente fica infrutífera” (το πνευμα μου προσευχεται ο δε νους μου ακαρπος εστιν) escrita em 1Co14.14. Essa #ênfase e repetição de ideias é uma ferramenta didática característica de Paulo... e ele sempre faz isso com maestria. Na parte2 foi explicado a hipérbole de 1Co14.2 e também que o v.2 se trata de uma severa advertência, e não um incentivo! O v.14, este que tratamos agora, também se trata de uma severa advertência, no entanto, sem o uso de hipérbole!
II - “εαν γαρ προσευχωμαι γλωσση [...]”
Neste tópico, abordarei a sentença antecedente àquela analisada no item anterior; esta frase é: “se eu orar em outra língua [...]”
Para que haja uma interpretação adequada de 1Co14, primeiramente é necessário aferir se Paulo escreveu sobre o mesmo dom de línguas aludido em 1Co12.10 que são, tão somente. línguas idiomáticas. O capítulo 14 não deixa margens para uma “#mudança” do significado semântico de “γλωσση” como alega a maioria pentecostal. Ou seja, não há coerência em se afirmar que Paulo faz referência a “#labaxúrias” em 1Co14 se em 1Co12.10 o dom em evidência é #dialektos. Unicamente por meio de uma #eisegese poderíamos concluir que 1Co14 faz alusão à línguas “#angelicais”! Mas, seguirei o caminho da boa hermenêutica, que se preocupa com a #exegese do texto! Porquanto as frases: “não fala a homens, senão a Deus”; “ninguém o entende”; “em espírito fala mistérios”; “ora em espírito” - são sentenças relacionadas exclusivamente ao falar em línguas estrangeiras sem que haja interpretação, ou seja, são afirmativas subordinadas ao significado de “falar sem interpretar”.
Pela coesão textual - ferramenta hermenêutica que procura manter e preservar a coerência, a solidez e a integridade de um determinado texto - conclui-se não ser possível qualquer outro significado para “γλωσση” (glosse) que não seja “línguas idiomáticas” (dialektos), pois, não há qualquer adjetivo que qualifique a palavra “γλωσση” para o sentido de “estranheza”, “ininteligibilidade” e “incompreensibilidade”. Ratifica-se que, além de não haver qualquer adjetivo que possa modificar o significado primário de “γλωσση”, o apóstolo Paulo escreve de forma clara e inequívoca em 1Co12.10 a qual dom de línguas se refere - o dom “γενη γλωσσων” (gene glosson), exatamente o mesmo dom registrado em Atos2.
Uma vez que a exegese está feita, e que se leve em consideração o contexto, a coesão textual, as evidências bíblicas - como a de Atos2, o testemunho da igreja histórica - como documentos biográficos e documentos que registram fatos históricos e épocas... Não poderá haver qualquer outra conclusão que não seja esta: Paulo escreve acerca de dons de línguas idiomáticos. Qualquer conclusão inversa, oposta ou distinta desta; significa que houve equívoco na hermenêutica e, ao invés de uma exegese, fez-se uma eisegese.
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III - “[...] a minha mente fica infrutífera”
O terceiro item a se considerar no v.14 - para que seja interpretado adequadamente - é regido pela sentença: “o meu espírito ora” (το πνευμα μου προσευχεται) que é o cerne e o âmago do versículo 14.
A pergunta natural que qualquer leitor faria com relação a essa afirmativa é: se quem não entende a oração de línguas estrangeira é o ouvinte, - considerando que não houve interpretação - então, por qual motivo a minha mente de quem fala é que fica infrutífera? A pergunta é natural, pois, a primeira vista, são os ouvintes que deveriam ficar com a “mente infrutífera” pelo fato de não ter havido interpretação, porquanto são estes que não foram edificados - conforme o v.17. Parece-me que Paulo imputa a “não edificação” da mente não somente ao ouvinte, mas, também àquele que fala em idiomas desconhecidos a si mesmo.
De fato, o “mistério” aqui é que tanto o falante quanto o ouvinte não são edificados quando o dom de línguas é manifestado sem que haja interpretação. É evidente que na igreja de Corinto houve um terrível exagero e confusão… o dom de línguas se tornou um “medalhão” e muitos buscaram este dom para se tornarem “importantes” ou para ganharem respeito e honra. Devemos considerar que Paulo escreveu a carta de 1Coríntios a fim de responder algumas questões que os coríntios tinham com relação a diversos assuntos. O apóstolo aproveita essa oportunidade para também exortá-los, repreendê-los, e ensiná-los na sã doutrina de nosso Deus. Pelo contexto, percebemos que o dom de línguas saiu do controle e houve um exagero da parte dos coríntios. Provavelmente muitos estavam falando em idiomas que nem mesmo eles conheciam, assim como Pedro falou em Atos2 em dialetos que também não conhecia… mas a busca por esse linguajar sofisticado era tal que esqueceram da necessidade da interpretação, tanto para o ouvinte como também para o falante, caso viesse a falar em idioma desconhecido até por ele próprio. Bom, minha capacidade intelectual ainda é miserável para que eu possa conjecturar de forma satisfatória sobre essa sentença de Paulo. Entretanto, os pentecostais veem neste ponto um “sustento” para seus argumentos... pois, dizem: quem fala línguas “estranhas” não sabe o que diz... logo, sua mente ficará infrutífera. Todavia, isso não é um bônus somente para o pentecostalismo, porquanto há a possibilidade de alguém falar em um dialeto que nem mesmo ele conheça… logo, sua mente ficará infrutífera. Devemos, daqui, considerar que Paulo abominava sons “incertos”, línguas “estáticas”, palavras “sem sentido”, sílabas “desconexas”, orações “inteligíveis”.
Enfim, será produzido mais artigos para esta séries de estudo e o próximo será sobre 1Coríntios 14.15.
Que fique límpido como a água que não tenho pretensão alguma de por um "ponto final" sobre este assunto. Eis o motivo que não há nesses artigos citações de obras consagradas concernentes ao assunto. Visto que tenho total ciência que um artigo produzido por um "leigo" jamais convencerá de forma absoluta e satisfatória. Apesar disso, meu objetivo é auxiliar àqueles que buscam fugir dos erros, engôdos, desacertos, imprecisões, ilusões e fábulas.
Aos #haters aviso que o Brasil carece de seres pensantes e não de papagaios. Sejam sagazes e elegantes em suas colocações, busque, reflita, esquadrinhe, destrinche, esmiúce, estude, interprete escreva... façam conteúdos! O Brasil é um país atrasado posto que os brasileiros possuem um "déficit" intelectual... vivem de "Ctrl C" e "Ctrl V" mas não conseguem pensar por si mesmos.
Hoje em dia, tão raro quanto encontrar um bom político é encontrar conteúdo #original concernente a teologia. Por isso insisto em minha tese e gostaria de um dia ver nessa internet sem dono seres pensantes e debatedores elegantes... cujas divergências sejam consumadas em obras literárias. Assim como Agostinho produziu uma obra prima ao refutar Pelágio, não duvido que nós - os mortais na internet - temos capacidade de fazer deste lugar um lugar melhor.
O conteúdo é livre para ser lido, refutado, aprovado, aceito... homologado. Este conteúdo agora pertence a você, caro leitor, faça dele o que quiser... jogue no lixo ou considere-o. Mas a verdade continuará absoluta: #labaxurias não são línguas bíblicas; os #idiomas é que são!
#SoliDeoGloria
Minha intenção com esse post é refutar as “línguas estranhas” que os "pentecostais" de hoje insistem em defender. Já adianto que não pretendo com isso por um fim a essa controvérsia, pois sei que por mais que se prove que um balão é vermelho, quem quiser acreditar que a cor na verdade é verde, continuará a ver o balão vermelho como se fosse verde. Também não tenho nenhuma pretensão em afirmar que detenho a verdade, pois, isso seria blasfêmia. Mas garanto que qualquer pessoa sensata chegará à mesma conclusão que a minha! Minha única pretensão com este artigo é auxiliar àqueles que buscam uma compreensão melhor sobre o que é o verdadeiro dom de línguas. Assim como eu já fui beneficiado com estudos similares, almejo com esse post alcançar a quem o ler com sinceridade de alma e também beneficiar àquele que apenas busca entendimento!
É mais que notório que as línguas que os pentecostais defendem nos dias de hoje não é o mesmo “dom de línguas” bíblico. Pois, está mais que evidente que o dom de línguas que aconteceu em Atos capítulo 2 eram dialetos. Para defender e fundamentar minha posição, farei uma análise dos textos em grego e... antes que venha alguém aqui me criticar e objetar pelo simples fato de que eu não tenho um profundo conhecimento de grego - o que é verdade, pois não sou doutor, muito menos professor - adianto que: importa apenas a dedicação e o esmero em identificar as palavras, procurar o uso, o histórico e o significado dos termos... saber quantas vezes e de que forma foram usados nas Escrituras Sagradas também é de suma importância. Para isso, não é necessário um diploma em grego... basta tempo e dedicação!
Portanto, farei essa análise abordando apenas os textos com maior proeminência. Dividirei este estudo em duas partes, nesta primeira parte examinarei sobre as línguas idiomáticas em Atos 2 e 1Coríntios 12. Na segunda parte, que será em outra postagem, abordarei 1Coríntios 14.
Atos 2.4
“[...] e passaram a falar em outras línguas [...]” - ARA
“[...] ηρξαντο λαλειν ετεραις γλωσσαις [...]” - TR
“[...] et coeperunt loqui aliis linguis [...]” - Vulgata
“[...] and began to speak with other tongues [...]” - KJV
“[...] y comenzaron á hablar en otras lenguas [...]” - RV
“[...] e começaram a falar noutras línguas [...]” - NVI
Podemos notar que a palavra “heterais” (ετεραις), plural de “hetero”, é traduzido de forma correta para “outras” seja em latim, inglês, espanhol ou português. A princípio, não há nenhum problema aqui, pois, claramente lê-se que Lucas escreveu que os discípulos passaram a falar em “heterais glossais” (outras línguas/ετεραις γλωσσαις) e, é claro que - pelo próprio contexto de Atos 2 - infere-se que Lucas não escreveu sobre “línguas de anjos” ou mesmo de “línguas não-idiomáticas”. Isso pode-se ser observado ao se usar, pelo menos, 2 princípios hermenêuticos: contexto e coesão textual.
a) Contexto: Enxergar At 2.4 pelo prisma de At 2.6
Lucas escreve em At 2.6 que “[...] cada um os ouvia falar na sua própria língua” onde “língua” é “διαλεκτω” (dialekto)... termo muitíssimo conhecido cujo sinônimo é: idiomas.
b) Coesão Textual:
Se sabemos que os apóstolos falaram em “heterais glossais” e que seus ouvintes receberam em seus próprios “dialektos”, concluímos que da boca dos apóstolos saíram sons desconexos e sílabas sem sentido como: “cantalabaxúria decovas nébias sherebecanto, manto devassas rúbidas nébias”. Essa afirmação é absolutamente ilógica não acham? Pois então, isso é coesão textual, não posso imputar ao texto um sentido que o contexto não permite! Se os ouvintes receberam o evangelho em seus próprios dialetos, ou em suas línguas maternas, então significa que os apóstolos falaram em línguas idiomáticas!
“E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?”
Atos 2.8 - ARA
Quanto a essa conclusão, creio que qualquer cristão sincero e qualquer pentecostal sincero, concorde e confirme na mesma harmonia que os reformados: as línguas de Atos são línguas idiomáticas!
Agora que “chovi no molhado”, vamos a 1Coríntios12, e examinar a ocorrência de “línguas” nesta carta, usando o mesmo critério e o mesmo cânon usado aqui em Atos 2.
1Coríntios 12.10
“[...] a um, variedade de línguas [...]” - ARA
“[...] ετερω δε γενη γλωσσων [...]” - TR
“[...] alii genera linguarum [...]” - Vulgata
“[...] to another divers kinds of tongues [...]” - KJV
“[...] y á otro, géneros de lenguas [...]” - RV
“[...] a outro, variedade de línguas [...]” - NVI
Essa é a primeira vez que o termo “línguas” é escrito por Paulo em sua primeira carta aos Coríntios. Se observarmos o contexto, notaremos que Paulo está falando sobre dons espirituais [1Co 12.1] e quanto a isso não haverá dúvidas, muito menos divergências.
Agora, o que faz alguém dizer que o dom espiritual de 1Co 12.1-12 é diferente do que foi manifestado em Atos 2 apenas no que se refere às línguas? A resposta é simples: pós-verdade! E contra isso não há remédios a não ser o próprio Espírito Santo!
Ao analisar as palavras usadas para construir a sentença, pode-se aferir que para o vocábulo “variedades” Paulo usou “γενη” (gene). Tanto a Vulgata como a Reina Valera (RV) faz a tradução de “gene” de forma impecável, pois, “γενη” é “genera” na Vulgata e “géneros” na Reina Valera. Isso é algo assaz valioso, pois, sabe-se que “gene” pode ser traduzido para: família, tipo, prole, raça, tribo, nação... Não parece uma “cambalhota” exegética afirmar que Paulo esteja se referindo a “línguas não-idiomáticas”? Será que haveria outra oportunidade de Paulo escrever “γλωσσαις αγγελων” (línguas de anjos) ou “πνευματικοις γλωσσαις” (línguas espirituais) ou até mesmo “αγνοειν γλωσσαις” (línguas desconhecidas)?
Contudo, Paulo escreveu: “γενη γλωσσων”. O que os Coríntios, os verdadeiros destinatários desta carta, deveriam entender por “gene glosson”? Acaso eles pensaram: “Paulo está nos dizendo que o Espírito Santo outorgou a nós, homens mortais, o linguajar dos anjos que é incompreensível aos homens”? Isso seria um grande vacilo exegético! É impossível que Paulo esteja falando de “línguas incompreensíveis” a menos que o meu “ego” queira interpretar dessa forma, e aí está a pós-verdade!
Finalizarei esta parte usando o mesmo critério usado em Atos 2, pelo menos duas ferramentas hermenêuticas para corroborar essa posição - de que Paulo também está se referindo a línguas idiomáticas. As ferramentas serão: a) interpretar a Bíblia com a Bíblia, ou seja, usar uma passagem mais simples para extrair o significado de uma mais complexa. b) coesão textual.
a) Bíblia interpreta a Bíblia:
Ora, se alguns “mestres” afirmam que Paulo falava de línguas estranhas em 1Co12, então o ônus da prova é destes que fazem tal asseveração, pois, antes de 1Co12 temos Atos2, e sabemos que Atos2 se refere ao dom de “línguas idiomáticas”, ou simplesmente dialetos. Quando uso a porção de Atos2 como um óculos para enxergar melhor 1Co12 compreendo, então, perfeitamente o que Paulo está dizendo. Paulo está se referindo a “gêneros idiomáticos” e não a “labaxúrias”. Pois, se ele estivesse se referindo a línguas “incompreensíveis”, necessariamente deveria ensinar de forma mais profunda, usando substantivos e adjetivos adequados, para que os próprios coríntios, e nós hoje, pudéssemos compreender este texto sem nenhuma dúvida. Logo, o problema não está no que Paulo escreveu, e muito menos na hermenêutica de quem defende as línguas “idiomáticas”... O problema mora no “ego” e nas “experiências individuais” de quem defende o contrário... resumindo: Atos2 + 1Co12 = línguas idiomáticas.
b) Coesão Textual:
Não seria inconcebível e absolutamente incoerente eu afirmar que “γενη γλωσσων” (gene glosson) significa, aqui em 1Co12.10, línguas “incompreensíveis”? Se assim fosse... o texto não faria sentido... porquanto, Paulo não usa qualquer adjetivo para qualificar ou modificar “γλωσσων”, nem aqui e nem em qualquer outro lugar da carta de 1Coríntios. Vale lembrar que Lucas foi um fiel companheiro de Paulo em suas viagens... Será que Paulo realmente registrou um dom de línguas extraordinário e “estático”, fazendo uso da palavra “gene” para se referir a essa “língua desconhecida”? A coesão textual não permite esse tipo de interpretação. Desconsiderando a coesão textual eu poderei fazer do texto o meu pretexto!
Uma vez que foi examinado o dom de línguas em Atos2 e em 1Coríntios12, faz-se necessário focalizar todos os esforços para compreender de forma plena e adequada 1Coríntios14, visto que 1Coríntios14 é a “hipóstase” para aqueles que defendem as línguas “estáticas”. Devido ao texto ser tão longo, esse post, será apenas sobre 1Co14.2... Ainda não citei 1Co13 por se tratar de um “salmo”, uma poesia, uma “licença poética”... um exímio hino sobre o amor... logo, possui uma construção diferente do capítulo 12 e do capítulo 14 da primeira carta aos Coríntios. Isto não significa que o valor do capítulo 13 seja menor, ao invés… o capítulo 13 é o capítulo mais importante dessa carta, junto ao capítulo 15!
O maior problema que recaí sobre 1Coríntios14 está na pré-concepção de ideias. Muitos de nós, cristãos, passaram suas vidas inteiras ouvindo “sons incompreensíveis e sílabas desconexas” e isto faz com que esses cristãos creiam na existência do dom de línguas “estáticas”. A experiência pessoal realmente é uma determinante muito significativa. Mas, qual a real necessidade da existência de línguas “incompreensíveis”? Que implicações lógicas e teológicas há quando se adota essa posição?
É certo que através de uma leitura superficial, 1Co14 parece ensinar um dom de línguas distinto do que está escrito em Atos2 e 1Coríntios12, entretanto, se adotarmos a leitura superficial como guia mestra de nossa hermenêutica, então teremos sérios problemas como: afirmar que Jesus Cristo foi crucificado em uma quarta-feira… dizer que foi Samuel quem apareceu a Saul em En-Dor [1Sm28]… alegar que os anjos, ou demônios, coabitaram com mulheres em Gênesis 6.2… e, o pior, dizer que Deus se arrepende do que fez ou determinou [Gn6.6]! Portanto, afirmar que as línguas de 1Co14 são diferentes das línguas de Atos2 e 1Co12, apenas porque o texto parece indicar isso - é sinal de que algo está errado. Muitos creem assim. Eu não creio, e muitos outros cristãos também não adotam essa posição... pois, não se contentam apenas com a aparência do texto e muito menos com as experiências pessoais. Estes se preocupam apenas em compreender e extrair o máximo possível de cada LETRA que Deus soprou!
Sustentar que 1Co14 se refere a línguas “misteriosas”, apenas pela aparência do texto, consiste no mesmo erro lógico que asseverar que ricos não vão ao céu [Mt19.24] ou que Deus se arrepende [Gn6.6], ou pior, que Deus é o autor do mal [Is45.7]! Ora, se sabemos que Deus não é homem para que se arrependa [Nm 23.19], se ricos podem herdar o reino de Deus, e se Deus não é o autor do mal, então podemos deduzir que “nem tudo o que reluz é ouro” e “nem tudo o que parece é” e, ainda, “as aparências enganam”. Do contrário, aqueles que sustentam que Hebreus6 se refere aos cristãos regenerados estariam corretos em sua hermenêutica... pois, a leitura superficial é a causa; o entendimento errôneo e a compreensão equivocada, é o efeito!
Textos complexos como Gn6; 1Sm28; Is14; Ez28 entre outros... devem ser vistos e analisados à luz de outros textos que permeiam e contém harmonia com assunto, em outras palavras, se o texto de 1Co14 parece me indicar determinado tipo de dom, então, devo considerar que o único lugar em toda a Bíblia que descreve esse dom em evidência é Atos… e que Paulo escreve sobre “famílias”, ou, “gêneros” idiomáticos ao usar a palavra “gene” em 1Co12.10. Resta a pergunta… por que Paulo usou “gene” em 1Co12.10 para a partir de 1Co13 começar a falar sobre outro tipo de dom de língua? Se sabemos que o que está escrito em 1Co12 se relaciona perfeitamente com o que está em Atos2, devemos concluir que o apóstolo Paulo não rompeu sua coesão textual, sua perfeita coesão textual!
O dever de uma excelente hermenêutica é: extrair o máximo possível e o mais próximo possível das intenções do autor e daquilo que ele pensava ao escrever determinada “oração”, “concepção”, “ideia”, “conceito”, “doutrina”... Sabemos que o dom citado em 1Co12 é o mesmo citado em Atos2, porquanto sob o crivo da hermenêutica é exatamente isso o que se observa, devido às palavras usadas pelo próprio apóstolo Paulo, devido ao conhecimento histórico sobre o assunto e devido a harmonização e o encaixe perfeito entre 1Co12-Atos2… A partir daí, também devemos concluir que o que “parece” em 1Co14 não o “é” de fato.
Sem mais delongas, aqui estou eu... em uma singela tentativa de analisar 1Co14. Contudo, como supracitado, essa abordagem será restrita ao versículo 2. E, assim que possível, continuarei a escrever mais sobre 1Co14, pois, há muitas coisas a serem esquadrinhadas neste capítulo... essa minha tentativa é apenas uma pequena ponta de um grande iceberg.
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1Coríntios 14.2
“Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” - ARA
“ο γαρ λαλων γλωσση ουκ ανθρωποις λαλει αλλα τω θεω ουδεις γαρ ακουει πνευματι δε λαλει μυστηρια” - TR
“ho gar lalon glosse ouk anthropois lalei alla to Theo oudeis gar akouei pneumati de lalei mysteries” - *Transliteração Livre
“qui enim loquitur lingua non hominibus loquitur sed Deo nemo enim audit Spiritu autem loquitur mysteria” - VULGATA
“For he that speaketh in an unknown tongue speaketh not unto men, but unto God: for no man understandeth him; howbeit in the spirit he speaketh mysteries” - KJV
“Porque el que habla en lenguas, no habla á los hombres, sino á Dios; porque nadie le entiende, aunque en espíritu hable misterios” - RV
“Pois quem fala em língua não fala aos homens, mas a Deus. De fato, ninguém o entende; em espírito fala mistérios” - NVI
Devido a complexidade do versículo, dividirei as ponderações em duas partes, a saber:
a) “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus [...]”
b) “[...] visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios”
a)Paulo escreveu que qualquer homem que possua o dom de línguas - o contexto é a sequência do que foi referido em 1Co12 - “não fala a homens, senão a Deus”. Mas o que significa isso: “não fala a homens”. Considerando a premissa estabelecida em Atos 2 e em 1Co12, vou propor uma ilustração: considere que estamos em um culto, em uma congregação brasileira qualquer, considere também que um alemão venha nos visitar... em determinado momento, este alemão levanta-se e passa a pregar um sermão em alemão... nós, que o ouvimos, seremos edificados pela mensagem? É óbvio que não; porquanto o alemão “não fala a homens”! Então, para quem o alemão está falando? Supõe-se que ele esteja “falando a Deus”, visto que “não fala aos homens”.
Paulo, em 1Co14.2, quer ensinar aos coríntios que o dom das línguas idiomáticas não possui utilidade alguma se não houver interpretação - confira:
“É assim que instrumentos inanimados, como a flauta ou a cítara, quando emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá o que se toca na flauta ou cítara? Pois também se a trombeta der som incerto, quem se preparará para a batalha? Assim, vós, se, com a língua, não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis ao ar. Há, sem dúvida, muitos tipos de vozes no mundo; nenhum deles, contudo, sem sentido. Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim” - 1Coríntios 14.7-11 ARA
Perceba que Paulo ilustra, demonstra e corrobora aquilo que ele disse em 1Co14.2: “não fala a homens” desenvolvendo essa sentença nos versículos subsequentes. O ponto final do discurso de Paulo é: “Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim”... onde o apóstolo está advertindo os coríntios a que não falem e, muito menos, esbocem quaisquer sons que sejam sem sentido ou incompreensíveis ao ouvinte. Considerado o contexto, vemos que Paulo não está exortando os coríntios a que busquem os sons e sílabas desconexas, ao invés, Paulo enfatizou a inutilidade de falar qualquer “meia palavra” que seja incompreensível - qualquer palavra que seja falada em qualquer idioma estrangeiro cujo o ouvinte não conheça, essa palavra será incompreensível ao ouvinte.
Contudo, aqueles que defendem as línguas estáticas, insistem que aqui Paulo está se referindo as línguas “espirituais”. Por isso precisamos examinar os textos complexos à luz das Escrituras e também à luz do contexto. Que sentido haveria para o apóstolo defender as línguas “angelicais” aqui e refutá-las logo a seguir? Onde está a coesão textual? O que fazer com o contexto? Não é boa a “jactância” de quem segue por esse caminho... porque o “não fala a homens” é uma advertência e não um “novo ensino” ou uma “nova doutrina”. Portanto, os primeiros versículos de 1Co14, não são versículos de um professor ensinando a seus alunos, mas, trata-se de um pai repreendendo seus filhos rebeldes. Mais do que preceitos, ou doutrina, Paulo está ensinando uma conduta de vida... Paulo está ensinando uma decência, está exortando ao zelo, está lapidando e podando a seus filhos. Basta fazer uma leitura com muita calma... e veremos nesta porção um pai a lapidar seus filhos.
A sentença do versículo2 - não apenas ratifica o que foi escrito na primeira, como também aumenta o seu significado... Paulo utiliza um recurso chamado “figura de linguagem” para enfatizar e para realçar a sua advertência.
b)Para que ficasse claríssima a mensagem, Paulo repete o mesmo conceito em outras palavras. Perceba que a sentença: “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus” é semelhante, para não dizer igual, a sentença: “visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios”. Ou seja, quem fala em dialetos incompreensíveis aos ouvintes, “não fala a homens” porque “ninguém o entende”. Por isso se diz que este indivíduo está “falando a Deus”, porquanto em “espírito fala mistérios”. Este versículo, portanto, trata-se de uma hipérbole - “em espírito fala mistérios” é uma ênfase expressiva, um exagero, para exemplificar e reforçar o que foi escrito na sentença anterior. Paulo não está implementando uma nova doutrina, Paulo não está ensinando que as línguas são “estáticas” em 1Co14.2. Paulo está usando uma hipérbole, uma figura de linguagem... pois, o falar em sons incompreensíveis aos ouvintes está condenado na porção de 1Coríntios 14.7-11 que pertence ao mesmo contexto. Isto é, Paulo usa uma figura de linguagem na segunda parte do versículo 2 para facilitar a compreensão do que ele afirma na primeira sentença. Essa repetição de ideias, seja com figuras de linguagens ou não, é uma característica muito marcante na literatura de Paulo.
Ao compreender o uso das figuras de linguagens na Bíblia muitos textos que são complexos, a primeira vista, podem ser “facilmente” resolvidos. E muitos textos que parecem ensinar tais doutrinas, na verdade se opõe a elas... É claro que há ainda muito mais a se comentar sobre 1Coríntios 14... Mas, isso é tudo nessa postagem.
Resumindo, é impossível que Paulo tenha escrito em 1Co14.2 sobre dons de línguas “angelicais” para depois condenar o uso deste dom em 1Co14.7-11. Pois, se ele estivesse ensinando uma nova doutrina sobre o dom de línguas, não diria: “Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós. Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua” [1Coríntios 14.18-19]. O miolo, o cerne, o âmago de 1Co14 é: “fale o que é compreensível ou fique calado”. Paulo repudiou e condenou qualquer evidência de sons incompreensíveis. Por isso a necessidade de interpretação!
Paulo falava o hebraico, o grego, o latim... e o aramaico. Paulo era um verdadeiro poliglota... reconhecia que isto era um dom de Deus. Entretanto, Paulo condenou o uso excessivo e demasiado desse dom... a ponto de dizer aos coríntios: “fiquem calados se não houver intérpretes e se houver, que seja no máximo 3 pessoas que falem”. Paulo sempre zelou pela ordem e decência no culto... e a igreja de coríntios sofreu dos mesmos males que assola 90% dos pentecostais hoje... um culto desorganizado e repleto de balbúrdias. A diferença entre a maioria pentecostal hoje e os coríntios são duas:
1) Os coríntios falavam línguas idiomáticas... a maioria pentecostal fala em línguas estáticas, que são estranhas às Escrituras Sagradas.
2) Os coríntios se arrependeram da desordem e indecência... a maioria pentecostal busca essa desordem e balbúrdia.
Aquele que quiser fazer de 1Co14.2 sua “hipóstase” para defender as línguas “angelicais” está livre para isso. Aquele que quiser acreditar naquilo que seus sentimentos e suas experiências pessoais evidenciam, também está livre para isso... Eu, o autor deste post, não farei de 1Co14.2 uma “nova doutrina”. Ainda pretendo falar sobre o outros trechos de 1Coríntios 14... Mais uma vez repito: eu não detenho a verdade! Minha exposição foi feita... e é óbvio que há falhas, em qualquer exposição feita pelo homem haverá falhas. Mas saibam, amados irmãos... Apesar de minhas falhas, há excelentes teólogos e também o testemunho da igreja histórica defendendo a mesma posição que eu defendo.
Pense um pouco sobre o que ocorre hoje na maioria das igrejas pentecostais... reflita consigo mesmo sobre o que chamam “dom de línguas”... Faça seus questionamentos aqui nesta postagem, estarei disposto a responder qualquer pergunta sincera... e a ajudar a qualquer cristão que queira se alimentar do #SolaScriptura.
E se alguém não entendeu o que é hipérbole, verifique essa equação:
“Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus” ⥶ “visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios”.
Onde a primeira sentença é inferior a segunda sentença. A primeira sentença serve como um “aio” para a segunda sentença. A segunda sentença serve como um “óculos” para a primeira sentença. No caso desta hipérbole, a segunda sentença exemplifica e explica de forma enfática o que está escrito na primeira sentença.
Parte 3-
“Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera.”
1Coríntios14.14 ARA
Chegamos a outro versículo de 1Co14, verdadeiro “#pilar” para aqueles que defendem o dom de línguas “#desconexas” como sendo um dom de línguas bíblico. Daqui, os pentecostais inferem que a frase “se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato” se refere a um tipo de linguagem “#ininteligível”. Ainda asseveram que o versículo 15 corrobora essa posição: pelo fato de que Paulo trata da dualidade alma-espírito, que apesar de serem imateriais, são “hipóstases” distintas - de acordo com a doutrina pentecostal!
Aparentemente, o texto indica haver uma distinção entre “#espírito” e “#mente” quando aponta que aquele que orar #unicamente “no espírito” ficará com sua mente infrutífera. Os pentecostais fazem deste trecho um verdadeiro #axioma, pois dizem: “orar no espírito é tão somente os ‘gemidos inexprimíveis’ [Rm 8.26] que homem nenhum é capaz de entender - a não ser o espírito do homem que fala ao Espírito de Deus”. Portanto, a conclusão dos pentecostais é: veem em 1Co14.14 a “#evidência” de que não se trata de dialetos, ou idiomas... mas, trata-se de línguas ‘espirituais’ ininteligíveis e incompreensíveis ao homem, conforme 1Co14.2”. Entretanto, não é assim! Como já foi tratado em postagens anteriores (parte1 e parte2), 1Co14 é a continuação do que foi escrito em 1Co12.10, onde Paulo escreve sobre “gene glosson” (γένη γλωσσῶν), ou seja, “gêneros de línguas” ou “famílias de línguas”.
Através de uma #hermenêutica coerente, não é possível afirmar que Paulo, repentinamente, passou a tratar de línguas “#espirituais” tão somente porque 1Co14.2 e 1Co13.1 “indicam” alguma distinção em uma leitura #descuidada; assim como uma criança olhando as nuvens do céu vê apenas aquilo que quer ver... as sílabas “#desconexas” só existem para aqueles que insistem em defender as línguas “estáticas” como sendo um dom de línguas bíblico. Quando nos aprofundamos na arte de interpretar, e fazemos uso correto das ferramentas que a hermenêutica nos oferece, compreendemos que 1Co13.1 e 1Co14.2 são “figuras de linguagem” que Paulo usa… e aquilo que é superficial se desfaz como uma névoa na brisa do amanhecer.
O texto dessa parte3 - 1Coríntios 14.14 - não é uma figura de linguagem, por isso é necessário se fazer uma análise cuidadosa e minuciosa do texto, para que não nos apeguemos unicamente a #superficialidade e a #aparência do mesmo! Por motivos de “tamanho” essa #terceira postagem da série de estudo será exclusiva sobre o versículo 14 e um quarto texto será produzido para a análise do v.15.
1Coríntios 14:14
“Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera.”
ARA
“εαν γαρ προσευχωμαι γλωσση το πνευμα μου προσευχεται ο δε νους μου ακαρπος εστιν”
TR
“ean gar proseuchomai glosse to pneuma mou proseuchetai ho de nous mou akarpos estin”
*Tranliteração
“Nam si orem lingua, spiritus meus orat, mens autem mea sine fructu est.”
VULGATA
“For if I pray in an unknown tongue, my spirit prayeth, but my understanding is unfruitful.”
KJV
“Porque si yo orare en lengua desconocida, mi espíritu ora; mas mi entendimiento es sin fruto.”
RV
“Pois, se oro em uma língua, meu espírito ora, mas a minha mente fica infrutífera.”
NVI
.
I - “[...] o meu espírito ora de fato [...]”
A primeira frase a se levar em consideração nesse versículo é: “το πνευμα μου προσευχεται” (to pneuma mo proseuchetai). Esta conclusão do apóstolo Paulo é muito significativa; porquanto ele assevera que “προσευχωμαι γλωσση” (proseuchetai glosse) é equivalente a “orar em espírito”, em outras palavras: #se alguém “orar em língua” (προσευχωμαι γλωσση) também “ora em espírito” (προσευχεται πνευμα). Como o versículo14 está subordinado ao v.13 - porquanto este é um desenvolvimento lógico daquele - fica evidente duas situações:
a) é possível orar em um idioma desconhecido por quem ora
b) não somente os ouvintes, mas também os “locutores” #necessitam da interpretação daquilo que se fala
A afirmação que Paulo faz aqui em 1Co14.14 é muito semelhante a afirmação que ele fez em 1Co14.2. Todavia, é aqui que Paulo desenvolve sua ideia. Isto é: quem ora em línguas #estrangeiras, em um culto público, sem que haja interpretação [1Co14.11,13], ora somente para si próprio; daí se diz que este “não fala a homens”, porquanto este homem “ora a Deus” porque ninguém o “compreende” [v.2]! Ambos os versículos, v.2 e v.14, estão conectados; logo, conclui-se que “em espírito fala mistérios” (πνευματι δε λαλει μυστηρια) em 1Co14.2 é uma hipérbole diretamente relacionada com a sentença: “o meu espírito ora de fato, mas minha mente fica infrutífera” (το πνευμα μου προσευχεται ο δε νους μου ακαρπος εστιν) escrita em 1Co14.14. Essa #ênfase e repetição de ideias é uma ferramenta didática característica de Paulo... e ele sempre faz isso com maestria. Na parte2 foi explicado a hipérbole de 1Co14.2 e também que o v.2 se trata de uma severa advertência, e não um incentivo! O v.14, este que tratamos agora, também se trata de uma severa advertência, no entanto, sem o uso de hipérbole!
II - “εαν γαρ προσευχωμαι γλωσση [...]”
Neste tópico, abordarei a sentença antecedente àquela analisada no item anterior; esta frase é: “se eu orar em outra língua [...]”
Para que haja uma interpretação adequada de 1Co14, primeiramente é necessário aferir se Paulo escreveu sobre o mesmo dom de línguas aludido em 1Co12.10 que são, tão somente. línguas idiomáticas. O capítulo 14 não deixa margens para uma “#mudança” do significado semântico de “γλωσση” como alega a maioria pentecostal. Ou seja, não há coerência em se afirmar que Paulo faz referência a “#labaxúrias” em 1Co14 se em 1Co12.10 o dom em evidência é #dialektos. Unicamente por meio de uma #eisegese poderíamos concluir que 1Co14 faz alusão à línguas “#angelicais”! Mas, seguirei o caminho da boa hermenêutica, que se preocupa com a #exegese do texto! Porquanto as frases: “não fala a homens, senão a Deus”; “ninguém o entende”; “em espírito fala mistérios”; “ora em espírito” - são sentenças relacionadas exclusivamente ao falar em línguas estrangeiras sem que haja interpretação, ou seja, são afirmativas subordinadas ao significado de “falar sem interpretar”.
Pela coesão textual - ferramenta hermenêutica que procura manter e preservar a coerência, a solidez e a integridade de um determinado texto - conclui-se não ser possível qualquer outro significado para “γλωσση” (glosse) que não seja “línguas idiomáticas” (dialektos), pois, não há qualquer adjetivo que qualifique a palavra “γλωσση” para o sentido de “estranheza”, “ininteligibilidade” e “incompreensibilidade”. Ratifica-se que, além de não haver qualquer adjetivo que possa modificar o significado primário de “γλωσση”, o apóstolo Paulo escreve de forma clara e inequívoca em 1Co12.10 a qual dom de línguas se refere - o dom “γενη γλωσσων” (gene glosson), exatamente o mesmo dom registrado em Atos2.
Uma vez que a exegese está feita, e que se leve em consideração o contexto, a coesão textual, as evidências bíblicas - como a de Atos2, o testemunho da igreja histórica - como documentos biográficos e documentos que registram fatos históricos e épocas... Não poderá haver qualquer outra conclusão que não seja esta: Paulo escreve acerca de dons de línguas idiomáticos. Qualquer conclusão inversa, oposta ou distinta desta; significa que houve equívoco na hermenêutica e, ao invés de uma exegese, fez-se uma eisegese.
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III - “[...] a minha mente fica infrutífera”
O terceiro item a se considerar no v.14 - para que seja interpretado adequadamente - é regido pela sentença: “o meu espírito ora” (το πνευμα μου προσευχεται) que é o cerne e o âmago do versículo 14.
A pergunta natural que qualquer leitor faria com relação a essa afirmativa é: se quem não entende a oração de línguas estrangeira é o ouvinte, - considerando que não houve interpretação - então, por qual motivo a minha mente de quem fala é que fica infrutífera? A pergunta é natural, pois, a primeira vista, são os ouvintes que deveriam ficar com a “mente infrutífera” pelo fato de não ter havido interpretação, porquanto são estes que não foram edificados - conforme o v.17. Parece-me que Paulo imputa a “não edificação” da mente não somente ao ouvinte, mas, também àquele que fala em idiomas desconhecidos a si mesmo.
De fato, o “mistério” aqui é que tanto o falante quanto o ouvinte não são edificados quando o dom de línguas é manifestado sem que haja interpretação. É evidente que na igreja de Corinto houve um terrível exagero e confusão… o dom de línguas se tornou um “medalhão” e muitos buscaram este dom para se tornarem “importantes” ou para ganharem respeito e honra. Devemos considerar que Paulo escreveu a carta de 1Coríntios a fim de responder algumas questões que os coríntios tinham com relação a diversos assuntos. O apóstolo aproveita essa oportunidade para também exortá-los, repreendê-los, e ensiná-los na sã doutrina de nosso Deus. Pelo contexto, percebemos que o dom de línguas saiu do controle e houve um exagero da parte dos coríntios. Provavelmente muitos estavam falando em idiomas que nem mesmo eles conheciam, assim como Pedro falou em Atos2 em dialetos que também não conhecia… mas a busca por esse linguajar sofisticado era tal que esqueceram da necessidade da interpretação, tanto para o ouvinte como também para o falante, caso viesse a falar em idioma desconhecido até por ele próprio. Bom, minha capacidade intelectual ainda é miserável para que eu possa conjecturar de forma satisfatória sobre essa sentença de Paulo. Entretanto, os pentecostais veem neste ponto um “sustento” para seus argumentos... pois, dizem: quem fala línguas “estranhas” não sabe o que diz... logo, sua mente ficará infrutífera. Todavia, isso não é um bônus somente para o pentecostalismo, porquanto há a possibilidade de alguém falar em um dialeto que nem mesmo ele conheça… logo, sua mente ficará infrutífera. Devemos, daqui, considerar que Paulo abominava sons “incertos”, línguas “estáticas”, palavras “sem sentido”, sílabas “desconexas”, orações “inteligíveis”.
Enfim, será produzido mais artigos para esta séries de estudo e o próximo será sobre 1Coríntios 14.15.
Que fique límpido como a água que não tenho pretensão alguma de por um "ponto final" sobre este assunto. Eis o motivo que não há nesses artigos citações de obras consagradas concernentes ao assunto. Visto que tenho total ciência que um artigo produzido por um "leigo" jamais convencerá de forma absoluta e satisfatória. Apesar disso, meu objetivo é auxiliar àqueles que buscam fugir dos erros, engôdos, desacertos, imprecisões, ilusões e fábulas.
Aos #haters aviso que o Brasil carece de seres pensantes e não de papagaios. Sejam sagazes e elegantes em suas colocações, busque, reflita, esquadrinhe, destrinche, esmiúce, estude, interprete escreva... façam conteúdos! O Brasil é um país atrasado posto que os brasileiros possuem um "déficit" intelectual... vivem de "Ctrl C" e "Ctrl V" mas não conseguem pensar por si mesmos.
Hoje em dia, tão raro quanto encontrar um bom político é encontrar conteúdo #original concernente a teologia. Por isso insisto em minha tese e gostaria de um dia ver nessa internet sem dono seres pensantes e debatedores elegantes... cujas divergências sejam consumadas em obras literárias. Assim como Agostinho produziu uma obra prima ao refutar Pelágio, não duvido que nós - os mortais na internet - temos capacidade de fazer deste lugar um lugar melhor.
O conteúdo é livre para ser lido, refutado, aprovado, aceito... homologado. Este conteúdo agora pertence a você, caro leitor, faça dele o que quiser... jogue no lixo ou considere-o. Mas a verdade continuará absoluta: #labaxurias não são línguas bíblicas; os #idiomas é que são!
#SoliDeoGloria
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