terça-feira, 24 de julho de 2018

Quando Deus quer castigar uma nação, lhes dá governantes ímpios-

Quando Deus quer castigar uma nação, lhes dá  governantes ímpios-

O capítulo 6 de Amós trata da luxúria e da impiedade dos israelitas e do castigo que lhes sobreviria, “passando daqueles que tinham religião sem Deus àqueles que tinham riquezas sem Deus”. A religião de Israel tinha se desviado nos dois pontos centrais: teologia e ética. Eles haviam mudado a doutrina e corrompido a ética. Tornaram-se apóstatas, bandeando para o sincretismo e, conseqüentemente, perdendo os valores morais absolutos. Em vez de buscar agradar a Deus, o povo buscava agradar a si mesmo. Em vez de amar a justiça, o povo entregou-se à violência. Agora, Deus anuncia seu justo juízo à nação.

Em Amós 5.27 o exílio é anunciado. Agora, Amós amplia essa ideia (6.7,14). O Dia do Senhor que eles irrefletidamente esperavam (5.18-20) seria o dia mau para a nação de Israel (6.3). À guisa de introdução, destacamos três pontos importantes:

1. O pecado é o opróbrio das nações

Um povo rendido ao pecado nunca é realmente forte. O pecado traz consigo o DNA da morte. Uma nação que se corrompe internamente torna-se fraca externamente. Uma nação antes de cair diante dos inimigos, cai primeiro diante de si mesma pela degradação espiritual e corrupção de seus valores morais.

2. O pecado na vida do povo de Deus é ainda mais escandaloso

Quando o povo que deveria ser luz para as nações mergulha-se em densas trevas e deliberadamente se afasta de Deus e se insurge contra sua santa Palavra, seu pecado torna-se mais grave, mais hipócrita e mais danoso que o pecado dos pagãos. Mais grave, porque peca contra um maior conhecimento. Mais hipócrita, porque ele exige santidade dos outros, enquanto vive na prática da iniqüidade. E mais danoso, porque quando o povo de Deus cai provoca um maior escândalo.

3. O pecado jamais fica sem julgamento

O juízo começa pela Casa de Deus (1Pe 4.17). A salvação é um chamado para a santidade e não para a complacência no pecado. Deus nos salva do pecado e não no pecado. Quanto maior o privilégio, maior a responsabilidade. Quanto mais luz nós temos, mais se exigirá de nós.

Crabtree diz que os pecados de Israel, citados por Amós, são característicos da civilização contemporânea: a opressão dos pobres pelos ricos, o suborno da justiça, o engano dos inocentes, a impureza moral e a hipocrisia religiosa.

I. UMA LIDERANÇA ACOMODADA NO PECADO (6.1-3a)

1.Eles estavam confiantes em seus privilégios espirituais (6.1)

Amós denuncia os que viviam à vontade em Sião, estribados numa falsa segurança, pensando que por serem o povo da aliança nenhum mal lhes alcançaria. Transferiram sua confiança em Deus para o templo; de uma pessoa para um rito. Confiaram na religião e não num relacionamento certo com Deus.

Charles Feinberg diz que os israelitas estavam descansando numa falsa segurança gerada por um ritual vazio e um culto sem sinceridade que, na sua cegueira, criam satisfazer a Deus. Eles viviam de uma maneira imprudente e descuidada. Eles usaram seus privilégios espirituais para justificarem seus pecados em vez de resplendecerem como luzeiros no mundo. James Wolfendale diz que se nós negligenciarmos ou desprezarmos nossa eminente posição, agravaremos nossa culpa a aumentaremos a grandeza da nossa queda.

2.Eles estavam confiantes em sua inexpugnável posição geográfica (6.1)

A cidade de Jerusalém e a cidade de Samaria foram edificadas sobre montes. Samaria estava fincada no alto de uma montanha, cercada de muros e adornada de muitos castelos. Samaria era uma cidade rica, opulenta, e inexpugnável aos olhos humanos. Russell Norman Champlin afirma que a cidade era tão exaltada aos olhos dos israelitas que, em seu orgulho estúpido, eles a chamavam de “a maior cidade da terra”. A confiança deles estava em sua posição geográfica e em seu poderio econômico e militar. A natureza havia dotado a cidade de Samaria com fortificações de tal caráter que, com efeito, o rei da Assíria não pôde tomá-la antes de três anos de cerco (2Rs 17.5,6). Porém, a segurança do povo de Deus não está no lugar em que vive nem na glória da sua eminente posição. Não devemos colocar nossa confiança nos homens eminentes nem nos altos montes, mas em Deus (Sl 121.1).

3.Eles estavam confiantes em seu status social (6.1)

Os governantes e a classe aristocrática de Samaria eram compostas de homens notáveis, nobres, ricos, encastelados em seus palácios, vivendo no luxo extremo, banqueteando-se gostosamente ao som de suas liras. Viviam rodeados de riquezas mal adquiridas, refestelando-se em suas festas cheias de bebedeira, desfrutando as benesses de sua elevada posição social. Viviam imperturbavelmente, gostosamente, sem nenhum constrangimento ou temor.

Warren Wiersbe diz que os homens ilustres do governo de Israel eram da opinião de que a nação estava segura e protegida, e o povo acreditava neles, assim como hoje em dia as pessoas acreditam nos “especialistas” políticos e nas pesquisas de opinião. A falsa confiança que se baseia no conselho de especialistas, em estatísticas e em recursos materiais e que ignora a dimensão espiritual da vida certamente conduz a derrota vergonhosa.

4.Eles estavam confiantes de seus pretensos predicados morais (6.2)

Amós os convida a ir a Calné, cidade edificada à margem oriental do rio Tigre e Hamate, a principal cidade da Síria e observar. Esses povos viviam sem a luz da verdade revelada. Eles não tinham profetas nem sacerdotes que pudesse ensiná-los a lei de Deus. Eles viviam mergulhados em densas trevas espirituais. Por que Amós destaca essas cidades? Sabemos que eram cidades de corrupção espiritual que foram subjugadas pelos inimigos. Calné perdeu cedo a independência e foi anexada ao império assírio. Hamate foi subjugada por Jeroboão II (2Rs 14.25) e depois pela Assíria (2Rs 18.34). Se elas não poderiam rechaçar o inimigo, então como vocês esperam fazê-lo? Se elas sofreram o juízo de Deus por seus caminhos pagãos, como podem Judá e Israel, que são culpadas, escapar a semelhante castigo do Senhor? Em tudo o que havia ao seu redor, o povo de Deus podia ver sinais de advertência no destino das demais nações ímpias (Na 3.8).

Assim, os líderes de Israel se julgavam melhores que seus vizinhos. Eles tinham um alto conceito de si mesmos. Eles aplaudiam a si mesmos e cantavam: “Quão grande és tu”, diante do espelho. Warren Wiersbe diz que a presunção é um pecado traiçoeiro, pois se baseia em mentiras, é motivada pelo orgulho e leva a confiar em alguma outra coisa além de Deus (Sf 1.12). Assim como o povo da igreja de Laodicéia, o presunçoso considera-se “rico e abastado” (Ap 3.17) e pensa que não precisa de nada.

5.Eles estavam confiantes de suas conquistas políticas (6.2)

As nações vizinhas não tinham nenhuma vantagem política em relação a Israel. Eles estavam vivendo o seu tempo áureo. Sob a liderança de Jeroboão II, Israel havia alcançado seu apogeu político e econômico. Os limites de seu território tinham chegado ao mesmo nível das gloriosas conquistas de Davi e Salomão. Os israelitas estavam orgulhosos disso e assaz confiantes. Mas a vanglória dos propagandistas era oca, diz Motyer. Crabtree diz que o argumento de Amós é que Israel está desprezando a sua posição de honra entre as nações pelo repúdio da responsabilidade perante o Senhor de quem tinha recebido as suas bênçãos.

6.Eles estavam confiantes em seu auto-engano (6.3)

Eles estavam tão ocupados em ver suas glórias que não podiam perceber a chegada de uma grande tempestade. J. A. Motyer diz que eles estavam deliberadamente cegos para a calamidade vindoura (o dia mau) e permissivos à degeneração do estado num reino de terror. Nos dez anos posteriores à morte de Jeroboão II (746 a.C.) houve dez reis, três deles tomando o poder através de golpes políticos. Houve verdadeiras atrocidades políticas naquele tempo (2Rs 15.16).

Eles, porém, não podiam crer numa mensagem alarmista exatamente no tempo em que desfrutavam de maior prosperidade econômica e expansão política. Todos os ventos pareciam soprar a favor. Não tinham nenhuma evidência de problema surgindo no horizonte. Pensavam que o dia mau jamais poderia alcançá-los. “É impossível isso acontecer aqui” era o lema dos líderes presunçosos. “Se há um dia de juízo a caminho, então certamente ainda vai demorar a vir” (9.10). Eles afastavam de si os julgamentos de Deus a fim de exercerem a violência sobre suas criaturas. O povo não queria acreditar que estava pecando contra Deus, nem que o dia da retribuição estava chegando. James Wolfendale diz que Israel não apenas tentou afastar o dia da retribuição divina, mas multiplicou as causas que o produziram. A violência interna traria a violência externa. Quando nós empurramos Deus para a lateral da vida estamos convidando a destruição.

II. UMA SOCIEDADE CORROMPIDA PELA DEGRADAÇÃO MORAL (6.3b-7)

O pecado é o opróbrio das nações. O que derruba um povo, uma nação e um reino não são as forças externas, mas a corrupção interna. Os bárbaros só tomaram o Império Romano porque este já estava podre por dentro. Nos versículos 4 a 6 Amós descreve o namoro deles com os prazeres da vida. Quais eram os pecados de Israel?

1.A violência desumana (6.3b)

Os nobres israelitas não acreditavam no dia mau, mas apressavam sua chegada pela prática cruel da violência contra os pobres. Eles praticavam a violência comprando juízes corruptos, subornando tribunais injustos, oprimindo economicamente os pobres e sufocando a voz dos fracos. Os tribunais eram instrumentos de violência e não de justiça. Longe de darem provas de arrependimento diante das insistentes advertências divinas, eles se apressavam ainda mais para cometer seus graves pecados aos olhos de Deus.

2.O luxo excessivo (6.4a)

Os ricos gostavam de ostentar a suntuosidade do seu modo de viver como prova de sua superioridade, confirmada pelas bênçãos e favores recebidos do Senhor. Amós descreveu seu modo de vida hedonista, sem espaço para as disciplinas da vida espiritual. Viviam em função do prazer e não para a glória de Deus. Os ricos dormiam em camas de marfim, enquanto o povo dormia em esteiras e passava fome. George Robinson diz que prevaleceu em Israel o amor ao luxo como antes da queda de Roma e o princípio da Revolução Francesa. A religião perdeu toda sua vitalidade, e se menosprezava completamente a moral.

O problema é que essa riqueza ostensiva não tinha sido adquirida com trabalho honesto, mas pela exploração criminosa dos pobres. Os ricos entesouravam em seus castelos bens mal adquiridos. Eles acumulavam riquezas às custas dos pobres. Viver nababescamente, extraindo o pão da boca do pobre é insulto a Deus.

3.A preguiça extravagante (6.4b)

Os ricos não precisavam mais trabalhar, eles queriam apenas usufruir o dinheiro que haviam tomado injustamente dos pobres. Eles se espreguiçavam em seus leitos em vez de labutar para o desenvolvimento da nação. Eles despendiam suas riquezas em mesas fartas, regadas a muito vinho, usando caros perfumes, ao som de muita música, sempre buscando satisfazer seus desejos egoístas. Não havia no coração deles nenhum patriotismo nem mesmo qualquer sentimento de filantropia. Eles não estavam dispostos a trabalhar nem a produzir; apenas usufruir. O trabalho dignifica o homem seja qual for sua posição social, porém a preguiça desfibra sua honra.

4.A glutonaria imprevidente (6.4c)

Eles comiam os cordeiros do rebanho e os bezerros do cevadouro. A dieta deles era riquíssima. Eles tinham boa variedade de carnes. Eles comiam vitelo enquanto o povo amargava uma pobreza extrema a ponto de passarem fome. Eles faziam do ventre o seu deus (Fp 3.19). A glutonaria, obra da carne (Gl 5.21), era o centro de suas atenções (4.1; 6.4). Banquetear-se às custas da miséria do pobre ou de forma indiferente à necessidade do pobre é colocar os pés na estrada que leva à perdição eterna (Lc 16.19-31).

5.A diversão frívola (6.5)

Esses nobres, encastelados em suas grandes e belas casas, dormindo em camas de marfim, viviam para o deleite carnal, em diversões frívolas. Eles entoavam músicas e fabricavam instrumentos não para adorar a Deus como Davi, mas para se divertirem. Davi honrava a Deus com a sua música, porém eles desonravam tanto a Deus quanto ao homem.

C. F. Keil explica o sentido do versículo da seguinte maneira: “Como Davi inventou instrumentos de cordas para honrar o Deus do céu, assim estes príncipes inventaram o método de cantar, com a música instrumental, para o deus deles, a barriga”. Música degradante é sinal seguro de incipiente declínio nacional, diz Charles Feinberg. Jalmar Bowden diz que a expressão “cantais à toa” literalmente significa gargantear ou cantar inutilmente. Assim, as melhores coisas da vida podem ser deturpadas, servindo para prejudicar em vez de melhorar o indivíduo. Em todos os tempos os maus pervertem o canto. Lord Cathan chegou a dizer: “Dê os compositores das músicas e baladas da nação e não me importarei com quem faz as leis”.

O profeta Amós denuncia o fútil estilo de vida desses ricos que se esbaldavam em festas elegantes, comendo carneiro e vitela, bebendo vinho em abundância, ouvindo música e usando perfumes caros. Esses luxos não eram coisas inocentes ou inofensivas; ao contrário, eles desviavam a atenção das pessoas dos problemas reais de sua nação.

6.A embriaguez profana (6.6)

Os israelitas faziam uso livre e imoderado do vinho, diz Champlin. Eles não apenas tomavam vinho em taças, mas o tomavam em bacias usadas nos rituais religiosos. A palavra hebraica traduzida aqui por taças é a mesma usada para bacias. Isso significa que eles bebiam em excesso e ainda profanavam o nome de Deus, ridicularizando, assim os rituais religiosos. As taças regulares eram insuficientes para seus insaciáveis apetites, por isso bebiam vinho em tigelas, ou bacias usadas para fins sacrificiais, nas quais recolhia-se o sangue para depois aspergi-lo (Nm 7.13). Bebida e dinheiro ocupam ainda o topo da lista dos pecados que corrompem a nação. Baco e Mamom têm seus templos em cada cidade e oferendas em cada rua, diz James Wolfendale. Esses israelitas gastavam suas riquezas em prazeres e dissoluções, bebendo vinho para silenciar a consciência, banir a reflexão e, endurecer o coração.

O culto deles não era para Deus, mas para eles mesmos. Eles faziam seus rituais porque disto gostavam. O culto deles era antropocêntrico. Eles misturavam religião com diversão, pois tudo girava em torno deles mesmos.

Quando as nações dedicam-se exclusivamente a buscar o prazer é um sinal de que o fim está próximo. Belsazar e seus líderes estavam no meio de um banquete suntuoso, quando a cidade da Babilônia foi tomada pelos medos e persas. Os cidadãos de Roma regalavam-se com o “pão e circo” gratuitos, enquanto o império se deteriorava moral e politicamente até que, por fim, caiu nas mãos dos inimigos. Um dos sinais do fim dos tempos é o fato de muitos se tornarem “mais amigos dos prazeres que amigos de Deus” (2Tm 3.4). O Senhor Jesus foi categórico em sua advertência: “Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado com as conseqüências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo, e para que aquele dia não venha sobre vós repentinamente, como um laço” (Lc 21.34).

7.A indiferença criminosa (6.6b)

Ao invés de estarem cobertos de pano de saco e de cinzas por causa da aflição do povo, eles se ungiam com os óleos mais finos, símbolo da alegria. Eles não se afligiam com a ruína de José, ou seja, com a ruína de seus irmãos que viviam na penúria. Conquanto que seus desejos desenfreados fossem satisfeitos, os outros podiam gemer. Eles agiram como os irmãos de José que comiam e bebiam sem nenhum constrangimento, enquanto José clamava a eles com amargura de alma no fundo de uma fossa.

O rei Davi tinha a capacidade de se indignar pelo fato dos pecadores abandonarem a lei de Deus (Sl 119.53). Ele também tinha a capacidade de chorar ao ver a indisposição dos homens para obedecerem à lei de Deus (Sl 119.136). Muitos estão rindo quando deveriam estar chorando (Tg 4.8-10) e outros estão tolerando o pecado quando deveriam estar se opondo a ele (1Co 5.2).

8.O juízo inevitável (6.7)

O povo de Israel vangloriava-se de sua inquestionável supremacia. Três vezes aparece a palavra “primeiro” ou “principal”: principal das nações (6.1), o mais excelente (primeiro) óleo (6.6), primeiro no cativeiro (6.7). Eles eram orgulhosos o tempo todo, e o orgulho seria sua ruína.

O pecado atrai o juízo como o imã ao metal. Embora, nem sempre o juízo é imediato, mas é inevitável. O cálice da ira de Deus encheu-se. Israel havia sido pesado na balança e achado em falta. Deus havia colocado o prumo no seu povo e constatado sua tortuosidade. Era hora do acerto de contas.

Os líderes do povo, aqueles que mais se entregaram ao pecado, agora, serão os primeiros a sofreram o juízo. Os primeiros em preeminência e pecado serão os primeiros contemplados com castigo e cativeiro. Eles semearam ventos e agora vão colher tempestade. Eles foram os primeiros na prática de excessos morais, agora serão os primeiros a serem castigados.

A pândega dos espreguiçadores, ou seja, os ruídos e gritos discordantes dos beberrões ou a galhofa dos que banqueteiam, passarão. Toda a alegria cessará. Toda os instrumentos se emudecerão. Todas as taças de vinho secarão. O prazer vai cessar; é hora de curtir a dor do cativeiro!

III. UM POVO SOB O JULGAMENTO DE DEUS (6.8-11)

1.O juramento de Deus (6.8a)

Não tendo nada nem ninguém maior do que ele mesmo para jurar, Deus jura por si mesmo que repudia o comportamento do seu povo. Em Amós 4.2 o Senhor jurou pela sua santidade. O sentido das duas declarações é essencialmente o mesmo. A própria natureza de Deus, em todos os seus característicos e atributos está contra todas as formas de injustiça. Adonai-Iavé (O Senhor soberano) expediu seu decreto de condenação, prestando juramento por si mesmo, tornando absolutamente certo e inexorável seu decreto. Ele é capaz de cumprir seu decreto em todos os seus detalhes. O que é que tanto irrita e antagoniza o Senhor? O orgulho humano! E quando o orgulho é atacado, os seus castelos e a cidade que constituem a sua personificação, também caem, diz Motyer. Deus não tem prazer no mal. Ele não aprova nem faz vistas grossas ao pecado. O sistema corrompido do mundo, com todo o seu glamour entrará em colapso total (Ap 17 e 18).

2.O ódio de Deus (6.8b)

Deus abomina o que os homens exaltam. Ele rejeita o que os homens amam. Amós destaca duas coisas importantes aqui:

Em primeiro lugar, Deus abomina a soberba. Deus resiste ao soberbo. Ele faz guerra contra aqueles que se exaltam. Ele derruba os poderosos do seu trono como desbancou o querubim da guarda e o precipitou no inferno.

Em segundo lugar, Deus odeia os lugares de violência. Deus odeia os castelos, símbolo da prepotência, da riqueza mal adquirida, da injustiça social, da opressão do pobre. Deus odeia toda ostentação criminosa.

3.O abandono de Deus (6.8c)

O maior e mais perigoso inimigo não é o diabo, nem o mundo, nem mesmo a carne, mas Deus. Quando ele está conosco ninguém pode nos resistir (Rm 8.31), porém, se ele nos abandonar estaremos entregues à mais completa devastação. Quando Deus abandonou Samaria, ela caiu nas mãos da Assíria e foi devastada. Quando Deus entregou Jerusalém, Nabucodonosor tomou os vasos do templo e levou cativo o povo para a Babilônia.

4.A mortandade enviada por Deus (8.9,10)

Deus fala de um massacre, de uma chacina, de um holocausto. A mortandade será completa e total (8.10). Serão tantos mortos que não haverá tempo nem mesmo para o sepultamento. Os mortos serão cremados. Este é um quadro vívido do povo de Samaria destruído pela fome ou peste durante o sítio de três anos da cidade.

5.A destruição ordenada por Deus (8.11)

Os palácios e grandes casas, motivo de orgulho e segurança dos israelitas tornar-se-ão montões de escombros e cinzas. Nem mesmo as casas pequenas escaparão. A devastação será geral, atingindo a casa grande e também a pequena. A mão que derribará essas casas é a dos soldados assírios, mas o agente que ordena esse colapso é o Senhor. A Assíria será apenas a vara da ira de Deus para castigar o seu povo.

IV. UMA NAÇÃO SEM DISCERNIMENTO ACERCA DA SUA PERIGOSA CONDIÇÃO (6.12-14)

1.Uma impossibilidade absoluta (6.12a)

Amós usa duas figuras acerca de coisas absolutamente impossíveis: um cavalo correr na rocha ou uma junta de bois lavrar a rocha (no hebraico a melhor tradução seria o mar). Isso é totalmente impossível. Impossível é também o pecado ficar sem julgamento. Impossível é também violar a lei moral de Deus e ficar sem punição.

Charles Feinberg diz que há tanta possibilidade de que um cavalo corra na rocha ou uma junta de bois lavre o mar quanto a de que seus atos maus resultem em bênçãos. Como eles podem esperar o favor do Senhor ao mesmo tempo em que cometem atos desagradáveis a Deus? Isso é tão absurdo como tentar correr os cavalos sobre rochas.

A. R. Crabtree diz que os escritores do Velho Testamento não fazem distinção entre as leis físicas e as leis morais do mundo. A corrupção da justiça é tão perigosa, e traz desastres tão grandes, como o esforço de fazer cavalos correr no precipício, ou o de fazer lavrar o mar com bois, como se fosse a superfície da terra. Jalmar Bowden diz: “Seria tão razoável pensar em cavalos correndo pelo Pão de Açúcar ou em lavrar a Baía da Guanabara com bois, como tornar julgamento em injustiça ou justiça em veneno”.

2.Uma inversão criminosa (6.12b)

Israel violou a lei moral de Deus e mesmo assim pensou que podia escapar das conseqüências. Eles fizeram duas criminosas inversões:

Em primeiro lugar, transformaram o juízo em veneno. O juízo deve ser fruto de vida, mas porque eles corromperam os tribunais e subornaram os juízes, as sentenças eram veneno e não fruto de vida.

Em segundo lugar, transformaram o fruto da justiça em coisa amarga. Alosna era uma planta muito amarga e também venenosa. Os ricos oprimiam de tal forma os pobres que a vida se tornava para eles um absinto, um fel de amargura, uma coisa insuportável.

3.Uma soberba inconseqüente (6.13)

Os israelitas estavam orgulhosos de suas conquistas militares. Eles estavam cheios de soberba e pensavam que seus poderes econômicos e militares os tornariam invencíveis. Mas, a soberba é a ante-sala do fracasso. A soberba precede a ruína. A. R. Crabtree diz que aparentemente Amós escolheu estas duas aldeias, entre os muitos lugares conquistados, para fazer um trocadilho dos nomes, “coisa de nada”, e “poder imaginário”. Os chefes se ufanavam de nada e se gabavam do seu poder imaginário, mas não eram capazes de oferecer qualquer resistência contra o seu destino, já determinado pelas eternas leis da justiça.

4.Um desterro inevitável (6.14)

Samaria não caiu nas mãos da Assíria; foi Deus quem entregou Samaria nas mãos de Assíria. A cidade foi cercada três anos. Dentro dos muros reinou a fome e o pavor. A opressão do inimigo foi dolorosa e total, de norte ao sul do país. Hamate fica na região Norte de Israel e o ribeiro de Arabá na região Sul. Assim, “de Hamate até o ribeiro de Arabá” significa que a Assíria destruiria a terra toda, de Norte a Sul. Quando Amós proferiu essas palavras, a Assíria era nação relativamente fraca. Jeroboão II conseguiu mantê-la afastada, bem como o Egito e a Síria. Porém, a Assíria se fortaleceu e tornou-se um império mundial, um inimigo expansionista, truculento e ameaçador.

CONCLUSÃO

Podemos sintetizar o capítulo 6 em quatro princípios importantes:

Em primeiro lugar, privilégios implicam em responsabilidades (6.1-3). O povo vivia em cidades importantes e seguras como Jerusalém e Samaria. Israel tinha grande reputação comparada com outros povos menos afortunados. Mas, esses privilégios engendraram neles convencimento e soberba em vez de humildade e testemunho.

Em segundo lugar, altruísmo deve sempre ter a primazia sobre a autocomplacência (6.4-7). Em vez de buscarem a glória de Deus e o bem do próximo, buscaram apenas o prazer. A questão se resume no interesse pelo corpo: cama e alimento (6.4), bebida e perfume (6.6) e descobrir novas maneiras de encher o tempo (6.5). Embriagados pelo prazer nem se davam conta que a nação estava marchando celeremente para a ruína (6.6b). Enquanto a nação estava à beira da tragédia, a liderança estava na cama, na mesa bem servida ou compondo algumas canções para sua própria diversão. Enquanto o povo chorava, a liderança se divertia.

Em terceiro lugar, a soberba sempre desemboca em tragédia (6.8-10). Amós é contundente ao afirmar que Deus se opõe aos soberbos e ninguém pode lutar contra ele e prevalecer. Deus resiste aos soberbos, enquanto dá graças aos humildes (Tg 4.6). Sempre que alguém, em qualquer tempo ou em qualquer lugar semear a soberba, colherá a tragédia.

Em quarto lugar, a violação dos princípios morais jamais ficará sem justa retribuição (6.11-14). Assim como não se pode quebrar as leis da natureza sem sofrer as conseqüências, também não se pode violar as leis morais sem sofrer a justa retribuição. A segurança de Israel não estava no seu poder econômico nem mesmo em suas conquistas políticas, mas em andar retamente com Deus. Um povo sem Deus será sempre vulnerável, pois o pecado é o opróbrio das nações, mas a nação cujo Deus é o Senhor, essa é feliz.

J. A. Motyer com lucidez conclui este capítulo, assim:

Quando o povo viu Samaria em ruínas em 722 a.C., quando as mães foram despojadas de seus filhos, e os maridos das esposas, quando aumentou o número de órfãos, dos mendigos, dos desabrigados, eles perguntaram: Por que? Os assírios o fizeram, diziam alguns, estavam certos (6.14). Deus o fez, diziam outros, e também tinham razão (6.8,11). Nossos líderes o fizeram, era a opinião de outros ainda, e eles também estavam certos (6.1-7). A soberba o fez, disse Amós (6.8), e esta foi a avaliação mais realista do inimigo do povo.

Ao estudar  o capítulo 6 de Amós, vejo de forma semelhante a situação da nação brasileira.

Que Deus tenha misericórdia do Brasil!!!

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Os Decretos de Deus

  Antes de estudarmos a doutrina da predestinação (que breve chegará), é indispen­sável considerarmos a doutrina dos decretos de Deus, desde que a predestinação, como já foi dito na introdução, é um ramo dessa importante doutrina. A relação entre elas é tão íntima que al­guns teólogos têm usado a palavra "predestinação" “como equi­valente à palavra genérica "decreto", incluindo todos os eternos propósitos de Deus”.

 Significado do termo "DECRETO":

“O termo decreto divino é uma tentativa para reunir em uma designação aquilo que a Bíblia apresenta com várias pala­vras e expressões: “o propósito divino”, (Ef.1:11), “determi­nado conselho”, (At.2:23), “presciência” (1Pe.1:2; comparar com 1:20), “eleição”, (1Ts.1:4), “predestinação”, (Rm.8:30), “a vontade divina”, (Ef.1:11), e “beneplácito” (Ef.1:9).”

Decreto divino é o termo geral, e refere-se ao plano de Deus em toda a criação; predestinação é um aspecto particular ou divisão do decreto de Deus, e, refere-se a seres morais, tanto anjos como homens, e está dividida em dois aspectos: a eleição dos salvos, e a reprovação ou preterição dos condenados.

 Declaração da doutrina dos decretos de Deus:

 A mais concisa e compreensiva declaração da doutrina dos decretos divinos está no Breve Catecismo de Westminster, na resposta a pergunta 7:

 “Os decretos de Deus são o seu eterno propósito de acordo com o conselho da sua vontade, pelo qual, para sua própria glória, Ele predestinou tudo que acontece”. Essa definição é formada pelas próprias palavras das Escrituras, que são à base da doutrina.

     A mesma doutrina é definida no Catecismo Maior de Westminster  com as seguintes palavras (resposta à pergunta 12):

“Os decretos de Deus são os atos sábios, livres e santos do conselho da sua vontade, pelos quais, desde toda a eternidade, Ele, para sua própria glória, imutavelmente, predestinou tudo que acontece, especialmente com referência aos anjos e aos homens”.

Na confissão de fé de Westminster a doutrina é apresentada nestes termos:

“Desde toda a eternidade. Deus, pelo muito sábio e santo con­selho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém, de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tira­da a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas”.

O Dr. A. A. Hodge define esta doutrina com as seguintes palavras:

“O decreto de Deus é o seu eterno, imutável, santo, sábio e soberano propósito que compreende ao mesmo tempo todas as coisas que foram e que hão de ser em suas causas, condições, sucessões e relações, e que determinam o seu futuro. Os vários conteúdos do eter­no propósito são denominados decretos, por causa da limitação das nossas faculdades que os concebem em seus aspectos parciais e em suas relações lógicas”.

Isto é suficiente para a declaração da doutrina.

 Considere­mos agora os argumentos que provam sua veracidade.

Argumentos que provam a Doutrina.

1. Argumento da Bíblia.

    Para aqueles que crêem na Bíblia como a revelação de Deus para a humanidade, a prova suprema, o argumento por excelência em favor de qualquer doutrina é aquele que é deri­vado das Escrituras. Assim começaremos com esta espécie de prova.

    Há muitas passagens na Bíblia que ensinam a doutrina dos decretos de Deus. Esta doutrina constitui na realidade uma das tônicas gerais dos ensinos bíblicos. O Dr. Benjamin Warfield fez a seguinte declaração acerca desse fato:
“Não é dizer demais que ela (a doutrina da predesti­nação, e por conseguinte, os decretos de Deus) é fun­damental para a consciência religiosa de todos os es­critores da Bíblia; e assim, envolve todas as suas con­cepções religiosas, que, se fossem erradicadas, toda a apresentação bíblica seria transformada. Isto é ver­dade tanto com respeito ao Velho como ao Novo Tes­tamento, como poderá ser suficientemente manifesto se prestarmos atenção à natureza e às implicações dos elementos formativos do sistema do Velho Testamento, bem como as suas doutrinas de. Deus, da providência, da fé e do reino de Deus”.

 O que se segue é uma série de passagens bíblicas que ensi­nam essa doutrina:

“O conselho do Senhor dura para sempre, os desígnios do seu coração por todas as gerações”. (Sl.33:11).

 “Este é o desígnio que se formou concernente a toda a terra; e esta é a mão que está estendida sobre todas as nações. Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem, pois, o invalidará? A tua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?” (Is.14:26-27).

“Lembrai-vos das coisas passadas da antigüida­de; que sou Deus e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer, e desde a antigüidade as coisas que ainda não suce­deram; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”. (Is.46:9-10).

“... e eu bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: que fazes?” (Dn.4:34-35)

 “Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados.” (Mat.10:29-80).

“Porque o Filho do homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído”. (Lc.22:22).

“... sendo este entregue pelo determinado de­sígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mão de iníquos”. (At.2:23)

 “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e povos de Israel para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeter­minaram”. (At.4:27-28).

“... de um só fez toda a raça hu­mana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habi­tação.” (At.17:26).

 “Diz o Senhor que faz estas coisas conhe­cidas desde séculos”. (At. 4:18)

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem confor­mes a imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.” (Rm.8:28-30).

“Mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para nossa glória”. (1Co.2:7)

 “... nele, digo, no qual fomos também feitos he­rança, predestinados segundo o propósito daquele que faz to­das as coisas, conforme o conselho da sua vontade”. (Ef.1:11).

“Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”. (Ef.2:10)

 “... segundo o poder de Deus, que nos sal­vou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos”. (2Tm.1:8-9)

 “... sabendo que não foi mediante coisas corruptí­veis, como prata ou ouro que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifesto no fim dos tempos, por amor de vós”. (1Pe.1:18-20), etc, etc.

Estas passagens e muitas outras que poderiam ser facil­mente acrescentadas, mostram que o Deus todo poderoso tem um plano ou propósito para este universo que é dele. Este pla­no ou propósito foi concebido na eternidade e está sendo exe­cutado no tempo. É um plano SÁBIO porque está de acordo com o conselho de Deus. É um plano BOM porque é para a glória de Deus. É um plano ETERNO porque foi concebido “antes da fundação do mundo”. É um plano PODEROSO porque ninguém pode anular. É um “plano suficientemente grande para abar­car todo o universo, suficientemente minucioso para se inte­ressar com os mínimos detalhes, e atualizando-se com inevi­tável certeza em cada acontecimento que sucede”. (Dr. Warfield).

2. Argumento da sabedoria divina.

    Se Deus é um ser racional e superior, deve ser sábio. Sen­do infinito, deve ser infinitamente sábio. Nenhum ser sábio faria alguma coisa sem um plano bem pensado e bem prepara­do antecipadamente. Um arquiteto, por exemplo, não iniciaria a construção de um edifício sem preparar primeiro a planta do edifício cuidadosamente com todos os seus detalhes. Um gene­ral não daria ordens para o seu exército lutar contra o inimigo, sem antes preparar, com seu estado maior a estratégia para a batalha. Jesus mesmo indicou a sabedoria e a necessidade de fazer plano com antecedência, quando disse: “Pois, qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para concluir. Ou, qual é o rei que, indo para combater outro rei, não se as­senta primeiro para calcular se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil?” (Lc.14:28,31).
“Nenhuma dedução a respeito de Deus pode ser mais desonrosa e enganosa do que a suposição de que Ele, não é soberano sobre as suas obras, ou que Ele não está agindo de acordo com um plano que articula a ordem de sua inteligência infinita. A mente humana poderia imaginar uma situação em que nada tivesse ainda sido criado, quando Deus tinha diante dele uma infinita variedade de planos possíveis para escolher; e que finalmente escolheria o melhor plano divisado pela in­finita sabedoria, consumado pelo infinito poder, e, que seria a suprema satisfação para seu infinito amor.”

“Um Deus existente por si próprio, independente, perfeito, imutável, existindo sozinho desde toda a eter­nidade, começou a criar o universo físico e moral no vácuo absoluto; impulsionado a fazer isso, partindo de certos motivos para atingir determinados fins, e de acordo com idéias e planos totalmente emanados de seu interior e de sua iniciativa. Se Deus governa o universo, Ele deve também, como um ser inteligente, governá-lo de acordo com um plano; e, este deve ser perfeito em EXTENSÃO, ALCANCE e DETALHES. Se Ele tem um plano agora, deve ter tido o mesmo plano imutá­vel desde o princípio. Decreto de Deus, por conse­guinte, é o ato de uma pessoa infinita, absoluta, eter­na, imutável e soberana, compreendendo um plano que abrange todas as suas obras, de todas as espécies, grandes e pequenas, desde o começo da criação até a infindável eternidade. Por esta razão ele deve ser incompreensível e não pode ser condicionado por algo exterior a Deus, pois já estava acabado antes que exis­tisse qualquer coisa exterior a Ele, e, por isso, abrange e determina todas essas supostas coisas exteriores e to­das as condições delas para sempre.”

“Um universo sem decreto seria tão IRRACIONAL e ESPANTOSO como um trem viajando na escuridão da noi­te, sem farol e sem maquinista, e sem nenhuma cer­teza de que a qualquer momento poderia precipitar-se no abismo”.

“Apesar de algumas pessoas se oporem teoricamente à predestinação, todos nós, em nossa vida diária seguimos praticamente à predestinação. O nosso maior e mais importante empreendimento teve um plano fei­to por nós, de outro modo, nossa obra terminaria em fracasso. Uma pessoa seria considerada mentalmente perturbada se resolvesse construir um navio, ou uma estrada de ferro, ou governar uma nação, sem um plano. Foi-nos contado que antes de Napoleão come­çar a invasão da Rússia, tinha feito um plano bem ela­borado em seus detalhes, mostrando que linha de marcha cada divisão de seu exército devia seguir, onde devia estar em determinado tempo, que equipamento e provisão devia ter, etc. Tudo o que faltou no plano foi devido às limitações da sabedoria e do poder do homem. Se Tivesse Napoleão uma previsão perfeita e um controle absoluto dos acontecimentos, seu plano, ou como nós poderíamos dizer, sua predestinação te­ria se estendido a cada soldado que executou aquela marcha.”

É Deus menos sábio que Napoleão?

     O homem foi feito à imagem de Deus. Isso significa que o homem é uma espécie de miniatura de Deus. O que o homem é e tem em uma escala limitada, Deus é e tem em uma escala absoluta e infinita (exceto o pecado, que é alguma coisa que o homem adquiriu depois de ser criado por Deus).

 A inteligên­cia é um dos atributos do homem. Por conseguinte, Deus deve ser infinitamente inteligente e sábio. Como nós temos visto, uma das expressões da inteligência e da sabedoria do homem é que ele, em tudo que faz, prepara um plano e o segue. A conclusão lógica, portanto, é que Deus, sendo infinitamente in­teligente e sábio, deve ter um plano perfeito e compreensivo para toda a sua criação. É este plano que nós chamamos decre­tos de Deus. Por conseguinte, a sabedoria de Deus provê os decretos divinos.

3. Argumento da Soberania de Deus:

   O dicionário define a palavra soberano como um que “possui suprema autoridade”; que exerce ou possui “suprema ou original jurisdição de poderes”; que não está sujeito a nada. A palavra vem do latim super — acima, e significa literalmente um que está acima dos outros. Deus está acima de cada coisa e de cada criatura. Ele é soberano. Uma boa definição de soberania de Deus é a seguinte: “Soberania de Deus é seu poder e direito de domínio sobre todas as suas criaturas para dispô-las e deter­miná-las, como lhe parece melhor. Este atributo é evidentemen­te demonstrado no sistema da criação, providência e graça; pode ser considerado como absoluto, universal e eterno.”

Soberano é sinônimo de rei, monarca, potentado e impera­dor. Reconhecer a soberania de Deus é, por conseguinte, reconhecer sua realeza. A mais alta concepção que o homem pode ter de autoridade está incorporada na pessoa de um rei. Esta é a concepção bíblica de Deus. “Tua, Senhor, é a grandeza, o poder, a honra, a vitória e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu, Senhor, é o reino, e tu te exaltaste por chefe sobre todos. Riquezas e glória vem de ti, tu dominas sobre tudo, na tua mão há força e poder; contigo está o engran­decer e a tudo dar força.” (1Cr.29:11,12).

“Reina o Senhor. Revestiu-se de majestade; de poder se revestiu o Senhor, e se cingiu. Firmou o mundo, que não vacila. Desde a antigüidade está firme o teu trono: tu és desde a eternidade”. (Sl.93:1,2).

 “Porque o Senhor é o Deus supremo, e o grande rei acima de todos os deuses... Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemo-nos diante do Senhor que nos criou” (Sl.95:3,6).

“Com efeito, eu sei que o Senhor é grande, e que o nosso Deus está acima de todos os deuses. Tudo quanto aprouve ao Senhor, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl.135:5,6).

 “Então ouvi uma voz como voz de numerosa multidão, como de muitas águas, e como de fortes trovões, di­zendo: Aleluia! pois reina o Senhor nosso Deus, o Todo-Poderoso” (Ap. 19:6).

     Há muitas outras passagens que falam a respeito de Deus como rei e governador, sobre todas as coisas e sobre cada ser que ele criou nos céus e na terra. São tão numerosas porém essas passagens que é impossível citar todas. Elas apresentam Deus reinando com todo poder, bondade e sabedoria. Elas falam dele assentado sobre um alto e sublime trono, como o rei dos reis, Cada criatura no universo tem que se curvar diante dele. Até satanás e os demônios têm que reconhecer sua sobe­rania. Satanás não podia fazer qualquer coisa contra Jó sem sua permissão (Jó.1:9-12; 2:4-6). Reconhecendo Cristo como Deus, os demônios admitiam a possibilidade de serem atormen­tados por ele “antes do tempo”, e de serem por ele mandados imediatamente para o abismo. E eles não podiam entrar nos porcos sem a permissão dele (Mt.8:28,33; Mc.5:1-13; Lc.8:26-33).
“Criação implica soberania. Qualquer que acredita em Deus como criador não pode negar sua soberania sobre tudo que Ele fez. Isto é observado na vida diá­ria. Ninguém jamais teve oportunidade de dizer que ia existir antes de existir. A existência lhe foi dada sem que fosse pedido o seu consentimento. Uma mão soberana o introduziu na existência, colocou-o dentro de um torvelinho de experiências, sem possibilidade para interrupção e descanso; e fez isso sem pergun­tar se ele queria ou não. Nenhum homem jamais es­colheu a data e o lugar do seu nascimento, ou sua na­cionalidade; se nasceria na época ante-diluviana ou no século XX, se nasceria na China ou na América, se seria esquimó ou americano. Nada é mais evidente para o homem racional do que o fato de existir uma soberania dirigindo sua vida”.

“Na grande expansão da eternidade que se estende antes de Gn. 1:1, o universo não tinha nascido e a criação existia somente na mente do Criador. Em sua soberana majestade Deus existia sozinho. Nós nos re­ferimos àquele longínquo período antes que os céus e a terra fossem criados. Não havia anjos para entoar hinos de louvor a Deus, nem criatura para ocupar sua atenção, nem rebeldes para serem trazidos em sujei­ção. O grande Deus era a totalidade única no meio do espantoso silêncio de seu próprio vasto universo. Mas, ainda naquele tempo, se é que pode ser chamado tempo, Deus era soberano. Ele podia criar ou não criar, de acordo com o seu beneplácito. Podia criar desta ou daquela maneira; podia criar um mundo ou milhões de mundos; e quem existia para se opor à sua vontade? Ele podia chamar à existência um milhão de criaturas diferentes e colocá-las em igualdade abso­luta, dotando-as com as mesmas faculdades, pondo-as no mesmo ambiente; ou Ele podia criar milhões de criaturas, cada uma diferente da outra, não possuindo nada em comum, exceto a sua condição de criatura, e quem haveria para se opor a esse direito? Se Ele assim desejasse poderia chamar á existência um mundo tão imenso que suas dimensões estariam além da esti­mativa finita. E, se estivesse disposto, poderia criar um organismo tão pequeno que nada, exceto o mais poderoso microscópio poderia revelar sua existência aos olhos humanos. Era seu soberano direito criar, por um lado, o exaltado serafim para queimar ao re­dor do seu trono, e, por outro lado, criar um inseto tão frágil que morre na mesma hora que nasce. Se o po­deroso Deus escolhesse ter uma vasta gradação em seu universo, desde o mais sublime serafim até o réptil que se arrasta, desde os mundos em revolução aos átomos flutuantes, do macrocosmo ao microcosmo, em vez de fazer cada coisa uniforme, quem poderia ques­tionar sua vontade soberana?”. (Ver Jó 38:1-2).

Dr. Warfield prova em seu artigo (“Predestinação” Biblical Doctrines, p. 7) que a concepção do Velho Testamento sobre Deus é a de uma pessoa moral, toda poderosa que dirige todo o universo.
“Não podemos pensar em Deus senão como um ser que determina tudo o que acontece no mundo, deste mundo que é produto de seu ato criador. A doutrina da providência, que está espalhada em todas as pá­ginas do Velho Testamento sustenta totalmente esta crença. O Todo Poderoso construtor é apresentado também como o irresistível governador de tudo quanto Ele tem feito. Todas as coisas sem exceção estão dispostas por Ele, e sua vontade é a última palavra para tudo o que acontece. Os céus e a terra e tudo o que neles há são instrumentos pelos quais Ele executa seus planos. A natureza, as nações e o destino do indivíduo são, igualmente, em todas as suas mutações, cópia de seu propósito. Os ventos são seus mensageiros, a chama de fogo sua serva, cada ocorrência é seu ato; a prosperidade é seu dom, e, se a calamidade cai sobre o homem é o Senhor que tem feito (Am.3:5,6; Lm. 3:33-38; Is.45:7; Ec.7:14; Is.44:16). É Ele que dirige os passos dos homens, quer eles saibam ou não, quem ergue e derriba; abre e endurece o coração; e, cria os pensamentos e intentos verdadeiros do coração.”

“Em uma palavra, a soberania da vontade divina, como princípio de tudo que acontece, é um postulado primário da vida religiosa, como também da visão do mundo como apresentada no Velho Testamento. Ela está implicada na verdadeira idéia de Deus, está den­tro da concepção da relação de Deus com o universo e com tudo que acontece na natureza, na História e no destino dos indivíduos. Ela está também dentro do esquema da religião, seja nacional ou pessoal. Está colocada na base de todas as emoções religiosas e é o fundamento de todo o caráter religioso construído em Israel".

Como o Dr. Charles Hodge mostra, a soberania de Deus é exercida:

 1) Estabelecendo as leis físicas e morais que governam suas criaturas;

 2) Determinando a natureza e os poderes das diferentes ordens dos seres criados e designando cada um em sua esfera apropriada;

3) Apontando para cada indivíduo sua posição e seu destino;

4) E, também, nas distribuições de seus fa­vores. "porventura não me é lícito fazer o que eu quero do que é meu?” Mt.20:15.

  Em resumo, reconhecer Deus como o supremo soberano do universo, como governador moral do mundo, é admitir sua divindade e seu direito de dispor o que ele criou de acordo com sua vontade e seu plano, é dizer que Ele é na realidade um Deus e não um títere sujeito às circunstâncias que Ele não criou e não pode controlar; não um fantoche que acomoda seus planos às circunstâncias que não dependem dele, mas da vontade livre e dos atos de suas próprias criaturas. A concepção que nós te­mos de Deus, especialmente de acordo com o que aprendemos na Bíblia, obriga-nos a crer que, sendo soberano Ele decretou tudo o que acontece para sua glória e para o bem daqueles que o amam, “daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. (Rm.8:28). Ele nunca é derrotado. Ainda quando tudo parece es­tar contra o que Ele planejou, como quando Cristo era rejeitado pelas cidades onde operou a maioria de seus milagres e onde pre­gou a maioria de seus sermões; ainda assim, devemos fazer como Cristo fez naquela ocasião, isto é, deu graças a Deus porque tudo aconteceu de acordo com o seu plano. “Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido: Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo. Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado”. (Mt.11:20-26). A morte de Cristo parecia ser uma grande derrota, no entanto, lemos na Bíblia, em re­ferência a essa aparente frustração o seguinte: “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos”. (At.2:22,23). Ainda quando tudo está tão escuro como num dia de tempestade, nós sabemos que além e acima das nuvens escuras de nossa aflição e perplexidade, o sol da miseri­córdia e do poder de Deus brilha e que, no fim, tudo acontecerá como Ele planejou e determinou para sua glória e nossa felicidade. É claro, portanto, que a soberania de Deus, pressupõe os seus decretos.
Gostaria de concluir este estudo com as seguintes observações do Dr. Charles Hodge:

“Não obstante essa soberania ser universal e absoluta, é soberania de sabedoria, santidade e amor. A auto­ridade de Deus não é limitada por nada fora dele mes­mo, mas é controlada em todas as suas manifestações, por suas perfeições infinitas. Esta soberania é a base da paz e da confiança de todo o seu povo. Eles se re­gozijam porque o Senhor Deus Onipotente reina, por­que nem a necessidade, nem o acaso, nem a loucura dos homens, nem a malícia de satanás controla a seqüên­cia dos acontecimentos e os seus resultados finais. Sa­bedoria infinita, amor e poder pertencem ao nosso grande Deus e Salvador, em cujas mãos estão confiados todos os poderes nos céus e na terra”.

4. Argumento da Presciência de Deus:

     Deus sendo eterno, não há uma seqüência de tempo em suas atividades.

Por conseguinte, sua presciência e seus decretos são de fato simultâneos. Existe, no entanto, uma relação lógica nas atividades, de Deus, embora não haja uma relação cronológica. Sendo assim, podemos perguntar: A presciência divina precede ou sucede aos decretos de Deus? Precisamos fazer aqui uma distinção muito importante para responder essa pergunta. Há de fato em Deus duas espécies de conhecimento, uma que logicamente precede, e outra que logicamente sucede aos seus decretos. A primeira é o conhecimento que Ele tem das possibilidades; e a segunda é o seu conhecimento ou antes, sua presciência da certeza dos fatos possíveis. Antes de decretar ou preordenar, Deus deve ter conhecido uma multidão de planos possíveis. Porém de nenhum desses planos possíveis podia haver certeza enquanto ele não decidisse neste sentido.
E com referência a este fato que a “Confissão de Fé” declara:

“Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições.”

Na “Confissão” citam-se duas passagens bíblicas que ilustram o conhecimento que Deus teve de possibilidades que nunca chegaram a ser realidades. Em 1Sm.23:11,12, Davi perguntou a Deus, “Entregar-me-ão os homens de Queila nas mãos dele? Descerá Saul, como o teu servo ouviu? Ah! Senhor, Deus de Israel, faze-o saber ao teu servo. E disse o Senhor: Descerá. Perguntou-lhe Davi: Entregar-me-ão os homens de Queila, a mim e aos meus servos, nas mãos de Saul? Respondeu o Senhor: Entregarão.” Deus sabia o que aconteceria se Davi ali ficasse. Mas como não estava decretado que tal acontecesse, Davi foi avi­sado e retirou-se, pelo que aquilo jamais se realizou. Em Mat.11:21,23 Cristo disse que se tivesse feito em Tiro, Sidom e Sodoma os prodígios que fizera em Corazim, Betsaida e Cafarnaum, aquelas cidades pagãs ter-se-iam arrependido. Isso é conheci­mento de uma possibilidade que não chegou nunca a se tornar realidade, porque não fora incluída nos decretos de Deus. Este não criou as circunstâncias que teriam resultado no arrependi­mento daquelas cidades pagãs, e assim é claro que Ele não preordenou a conversão delas. Todos os eventos, porém, que Deus conheceu antes ou previu como certos, esses Ele incluiu nos seus decretos, e os previu pela simples razão de havê-los decretado. Reconhecer, pois, que Deus prevê ou conhece de antemão tudo o que acontece é reconhecer que Ele tudo decretou.
“Decretar a criação implica em decretar-lhe os resulta­dos previstos... Na eternidade não podia haver ne­nhuma causa da futura existência do universo fora do próprio Deus, visto como nenhum ser existia além dele. Na eternidade Deus previu que a criação do mun­do e o estabelecimento das leis que o regem fariam cer­ta sua história atual, até mesmo nos mais insignifican­tes detalhes. Mas Deus decretou criar e estabelecer es­sas leis. Assim decretando, decretou necessariamente tudo quanto haveria de acontecer. Por fim, Ele previu os acontecimentos futuros, do universo, como certos, porque decretou criar; porém tal determinação de criar envolveu também a determinação de todos os resultados atuais dessa criação ou, em outros termos, Deus decretou esses resultados”.

“O conhecimento de um plano como ideal ou possível pode preceder ao decreto; mas o conhecimento de um plano como real ou decidido deve seguir-se ao decre­to... Deus portanto prevê a criação, as causas, as leis, os acontecimentos, as conseqüências porque decretou a criação, as causas, as leis, os acontecimentos, as con­seqüências; isto é, porque Ele incluiu tudo isso em seu plano. A negação dos decretos envolve logicamente a negação da presciência que Deus tem das livres ações humanas; a isto são levados de fato os socinianos e al­guns arminianos... Deus conheceu as livres ações hu­manas como possíveis, antes de decretá-las; conheceu-as como futuras, haveriam de acontecer, porque as de­cretou... Quando digo, “Sei o que vou fazer”, é evi­dente que antes já tomei uma resolução; esse meu sa­ber não precede a resolução, mas vem depois dela e nela se baseia... Existem pois duas espécies de conhe­cimento divino:

1. conhecimento do que pode acontecer — do possível (scientia simplicis intelligentiae);

 2.conhecimento do que há e do que vai acontecer, porque Deus o decretou (scientia vísionis). Entre essas duas, o jesuíta espanhol Molina concebeu erroneamente uma outra, a saber, um conhecimento intermediário do que haveria de acontecer, embora Deus não o decretasse (scientia media). Seria este naturalmente um conheci­mento que Deus fizesse derivar não de si mesmo, mas de suas criaturas! Mas decretar criar, quando Ele prevê que certos atos livres dos homens virão depois, é de­cretar tais atos livres no único sentido em que empre­gamos a palavra decreto, a saber, tornar certo, ou abranger em seu plano. Nenhum arminiano, que creia na presciência que Deus tem das livres ações humanas, tem boa razão para negar os decretos de Deus, expli­cados assim".

Mas, como harmonizar a presciência de Deus neste sentido, isto é, como resultado de seus decretos, com a responsabilidade do homem? Por causa desta dificuldade, os socinianos não admitem que Deus conheça de antemão as ações livres e contingentes dos homens, e assim negam de fato a onisciência divina. Os arminianos, no entanto, reconhecem que Deus prevê como certas as livres ações do homem, sem decretá-las, embora as inclua no seu plano. Mas se Deus viu antes que certa pessoa, criada em determinado tempo e lugar e colocada em certas circunstâncias, agiria de certo modo, e apesar disso a criou exatamente em tais circunstâncias, não é que Ele decretou que essa pessoa agisse desse modo? Entretanto, Deus não será responsável pelos atos dessa pessoa, porque esta age livremente, espontaneamente, de acordo com sua própria natureza e suas inclinações. Deus não a compele a fazer coisa alguma — a pessoa age por si mesma. Por que o povo de Queila não cometeu o crime de entregar Davi a Saul? Porque Deus avisou a Davi, de modo a desaparecerem as circunstâncias que a eles teriam sido favoráveis para a perpetração do delito. Suponha-se que Deus não tivesse avisado a Davi, que teria acontecido? Tê-lo-iam entregue a Saul. Isto provaria que Deus decretara que eles agissem dessa maneira, criando as cir­cunstâncias que iam resultar naquele ato. Podemos dizer que Deus seria responsável pelo que fizessem com Davi? Não abso­lutamente. Eles é que seriam responsáveis pelo que fizessem, apesar de estar isso incluído nos decretos de Deus. O mesmo po­demos dizer dos irmãos de José, e também de Judas e de todos quantos contribuíram para a crucificação de Cristo. Cometeram um crime, agiram livremente nisso, foram acusados por sua pró­pria consciência. Nada obstante, seus atos pecaminosos foram incluídos nos decretos de Deus e, por isso, foram conhecidos de antemão.

“Disse José a seus irmãos: Agora, chegai-vos a mim... Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos, por me haverdes vendido para aqui; porque para con­servação da vida, Deus me enviou adiante de vós... Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra, e para vos preservar a vida por um grande livramento. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá e, sim, Deus.”(Gen.45: 4-8).

 “O Filho do homem vai, como está escrito a seu res­peito, mas, ai daquele por intermédio de quem o Filho do ho­mem está sendo traído!” (Mat.26:24; cf. Jó.17:12).

“Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e povos de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram”.(At.4:27,28).

“Os arminianos mostram muita reverência pelas perfeições de Deus a ponto de limitarem o conhecimento dele quanto às ações de agentes livres. Mas esforçam-se por fugir à conclusão inevitável do decreto e por salvar sua doutrina favorita dos propósitos condicio­nais, limitando o interesse divino pelos atos, e espe­cialmente pelos pecados, de agentes livres, a simples conhecimento prévio, permissão e intenção de fazer do ato permitido uma condição de alguma parte do decreto.

 Sustento que aqueles que concedem tanto não podem consistentemente parar aí. Se o ato peca­minoso (para fazer o mínimo possível de concessão aos calvinistas) do agente livre foi previsto com certeza por Deus desde a eternidade, então sua ocorrência deve ser certa. Contudo neste universo nada acontece sem uma causa; deve pois haver algum fundamento para a certeza dessa ocorrência. E é nesse fundamento que assenta a presciência de Deus.

 Perguntais que funda­mento é esse?

 Respondo com uma pergunta: Como pode o conhecimento que Deus tem do possível passar para o seu conhecimento do real? Somente pela sua determinação de assegurar a ocorrência deste último. Conceba-se Deus a criar um agente livre, de acordo com o seu plano, e a lançá-lo aí em liberdade. Se Deus conhece de antemão tudo o que esse agente livre vai resolver fazer, se for criado, acaso não pro­põe a realização desses atos, quando cria esse agente? Negá-lo é uma contradição. Podemos não ser capa­zes de ver perfeitamente como é que Deus consegue com certeza a prática desses atos por agentes livres, e ainda deixando-os agir unicamente pela própria vontade deles (espontaneamente), mas o que não po­demos é negar que Ele o faz. Do contrário teríamos a subversão de sua soberania e presciência. Com re­lação ao homem tais acontecimentos podem ser de todo contingentes, duvidosos, eventuais; mas quanto a Deus, nenhum deles pode ser contingente; de outro modo, todas as partes do seu decreto' ligadas, como efeitos, com tais eventos como causas, seriam contin­gentes no mesmo grau”.

“Os arminianos admitem que todos estes atos interme­diários dos homens foram previstos eternamente por Deus, e assim foram incluídos no seu plano como con­dições: mas não foram preordenados. Replicamos: se foram previstos com certeza, sua ocorrência era cer­ta; se esta era certa, então alguma coisa devia haver que determinasse tal certeza. Essa alguma coisa ou era a sábia preordenação de Deus, ou um fado, desti­no, cego e físico. Os arminianos que escolham”.


   Em conclusão, sendo onisciente. Deus sabe tudo o que pode acontecer, inclusive os atos de agentes livres. E sendo onipo­tente, só aquilo que Ele faz ou permite que se faça pode ocor­rer. Por conseqüência, tudo quanto Deus previu foi por Ele decretado. Concluímos, assim, que a presciência de Deus pro­va os seus decretos.

Os Elos da SALVAÇÃO BÍBLICA!

O PROCESSO DA SALVAÇÃO: COMO ACONTECE?

Eleição, predestinação, regeneração (fé salvífica, arrependimento), justificação (adoção, redenção, propiciação, remissão, reconciliação, perdão), santificação e glorificação.

ELEIÇÃO: É o ato soberano e livre exercido por Deus, em escolher os que serão salvos. (Jo 15:16; Rm 8:29; Ef 1:4; 2 Ts 2:13; 2 Tm 1:9).

PREDESTINAÇÃO: São os meios determinados por Deus para trazer os eleitos até Ele. (Jo 6:37, 44; Rm 8:29; Ef 1:5; 2:10; 2 Ts 2:14).

REGENERAÇÃO: É a transição do estado de morte para o estado de vida. (Jo 5:24; Cl 2:13; Ef 2:1, 5, Tt 3:4-7).

JUSTIFICAÇÃO: É a remoção da culpa e da punição do pecado. (Rm 3:24-25; 5:1-2).

SANTIFICAÇÃO: É a libertação do poder do pecado e o processo pelo qual o cristão passa a se parecer com Jesus Cristo, se separando e se consagrando a Deus. (Jo 15:16; Rm 6:18-23; Ef 2:10; 1 Ts 4:7; 1 Pe 2:9).

GLORIFICAÇÃO: É a remoção da presença do pecado. (1 Co 15:43-58; Fp 3:21; 1 Jo 3:2).

BIBLICAMENTE FALANDO, ESTE É O PROCESSO DA SALVAÇÃO.

Sola Scriptura!
Sola Gratia!
Sola Fide!
Solus Christus!
Soli Deo Glória!

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Aborto - O massacre dos inocentes contra os poderosos

“Ouvindo esta a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; então, Isabel ficou possuída do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre!” (Lucas 1:41-42)
Muitos cristãos, evangélicos e católicos, até mesmo não-cristãos pró-vida, vêm denunciando o ponto mais frágil do argumento em favor da descriminalização ou legalização do aborto: a falta de um conceito claro do que significa ser humano (antropologia)[1] que dê garantias de que não se está matando ou interrompendo uma vida humana quando se aborta.
A discussão toda vai na direção do conceito de “pessoa”. Basicamente este é o argumento: um embrião ou um aglomerado celular, sem consciência, não pode ser considerado uma “pessoa”, logo, nesta fase o aborto seria eticamente viável. Para alguns ou algumas militantes pela legalização ou descriminalização do aborto, por “pessoa” entende-se aquele indivíduo biologicamente humano que desenvolveu consciência ou autonomia.
As consequências lógicas e éticas do argumento acima chegam a lugares antes inimagináveis. Hoje há filósofos envolvidos em reflexões sobre ética médica que defendem a seguinte hipótese: se até aproximadamente os 3 anos não há “pessoalidade” plenamente desenvolvida, não seria antiético matar uma criança até aproximadamente essa idade[2]. Parece “lógico”: se a fronteira entre aborto ético e antiético é a pessoalidade relacionada à consciência ou inconsciência, se argumentos plausíveis apontarem na direção de que uma criança não tem sua consciência plenamente desenvolvida até 3 ou 4 anos, logo, ela poderia ser morta, ou seja, um infanticídio eticamente justificável. As conclusões parecem absurdas, mas são perfeitamente compatíveis com o principal argumento que justifica a interrupção da vida intrauterina.
Com um pouco de discernimento filosófico, mesmo para não filósofos como eu, o que se percebe é que quem dá o tom ao argumento em favor do aborto é uma antropologia (definição de ser humano) radicalmente dualista. O conceito de ser humano que orienta a maioria dos que argumentam a favor da legalização do aborto se baseia em uma diferenciação radical e artificial entre a dimensão biológica e psicológica. Obviamente, neste caso, o que há é uma clara fragmentação ou fatiamento do que significa ser humano.
A ironia é que cristãos, sem necessariamente usar argumentos religiosos, insistem que seres humanos são mais do que meramente uma massa biológica, mas também, são mais do que mera consciência racional. Não admitem nenhum tipo de redução da condição humana a nenhum de seus aspectos constitutivos. E, de fato, nenhum deles pode ser contraposto ao outro sem que com isso sua integridade seja comprometida.
A biologia ou a neurociência não podem dizer quando a pessoalidade começa ou termina em termos seguros. Podem descrever a formação do sistema nervoso ou níveis de complexificação celular, mas produzir uma definição antropológica segura a partir dos dados que fornece, seria dar um salto metafísico estranho às ciências da natureza.
Mesmo sem uma clara definição, a antropologia que justifica o aborto se fundamenta em um dualismo radical. Ou seja, uma separação brusca entre “consciência” e “corpo”. Não há integralidade, mas sim uma dependência da antropologia moderna que reduz o ser humano apenas à esfera da “consciência”, o velho dualismo cartesiano, só que agora cheio de penduricalhos pós-estruturalistas. Em contrapartida, cristãos ortodoxos insistem: seres humanos são integrais e irredutíveis. E, isto, repito, tem relação com uma percepção elevada de dignidade humana.
Cristãos não acreditam em “neutralidade confessional” na orientação de políticas públicas.  Toda política pública se orienta ética e antropologicamente a partir de determinadas “confissões” ou “percepções” de mundo, ou seja, dependem de crenças ideológicas ou filosóficas, não necessariamente racionais. Cristãos liberais que flertam com agendas seculares pecam, por ingenuidade ou por devoção ideológica, quando usam o termo “estado laico” ao associarem o conceito a uma espécie de “não participação ou aplicação de uma cosmovisão cristã na esfera pública”. O discurso é claramente percebido quando se lê algo como o que a militante e defensora da legalização do aborto, Thamyra Thâmara, escreveu recentemente:
“a gente não pode querer que a nossa forma de pensar ou a nossa forma de se relacionar com a fé seja regra para a sociedade. Não podemos querer que religião seja lei, o estado é laico.”[3]
Se a preocupação é que não haja uma imposição de regras eclesiásticas na esfera pública, neste ponto, concordamos. Lutero, Calvino e Kuyper concordariam também. A distinção entre a esfera da igreja e a esfera jurídico-política deve ser mantida e com regras derivadas de suas respectivas estruturas. Mas isso não significa que cristãos, inspirados em seus pressupostos, não podem defender a plausibilidade pública de sua antropologia ante outras antropologias, como a utilizada pelos que defendem a legalização do aborto. Indivíduos pró-escolha (pró-aborto ou pró-legalização do aborto) fundamentam sua opinião ética a partir de conclusões metafísicas e não necessariamente científicas. A metafísica é um campo de reflexão filosófica que lida com a noção de origem e propósito das coisas. Neste sentido, cristãos falam sem pudor que possuem uma metafísica e antropologia melhores do que aquelas que territorializam o corpo, que separam a constituição psicológica da biológica, e que brincam de definir fronteiras entre pessoalidade e não-pessoalidade humanas.
Thamyra, talvez sem perceber, parte de uma antropologia com data e hora de nascimento, argumenta:
“Você sabia que lá no Uruguai o aborto pode ser feito por qualquer motivo até a 12ª semana de gestação, ou seja, antes da formação do sistema nervoso. O feto não iria sofrer.”
Observe que para ela, o limite moral para legalizar o aborto é o “sofrimento” ou “não sofrimento” do feto. Não há nenhuma menção sobre o potencial vital e os fascinantes e providenciais dispositivos biológicos antiabortivos (lembra da progesterona?) disparados no corpo de uma mulher para que aquela vida humana (e não de um cachorro, gato ou golfinho) logre êxito rumo ao nascimento. Não há nenhum receio por parte da autora a respeito das fronteiras difíceis de serem definidas pela ciência, filosofia, psicologia ou teologia. Falta reverência pela vida intrauterina, enquanto há uma forte consideração por uma ética fundada em pura subjetividade e em uma ideologia secular.
A autora desconsidera o fato de que mães que querem o sucesso de sua gravidez não tratam aquele que está em seu útero como “feto” ou “embrião”, mas como “filho”. A preocupação legítima com o sofrimento de mulheres com uma gravidez indesejada, porém associada a uma distinção entre “vida embrionária” e “vida humana”, tem um apelo emocionalista e um efeito retórico colateral que é um verdadeiro “tapa na cara” de outras milhares de mulheres que lidam com esta vida intrauterina em termos de “Eu-Tu” e não “Eu-Isso”[4]. Nenhuma mulher que conheço diz: “- Meu feto querido!” ou “- Meu embrião amado e tão esperado!”. Desde o início, seu corpo, afetos e expectativas projetam-se para um ser humano até seu nascimento, independente do lapso temporal. Para militantes da legalização do aborto essas mães são bobinhas e ingênuas.
A antropologia que orienta as conclusões éticas de muita gente que apoia a legalização do aborto tem fronteiras tão fluídas e arbitrárias que não seria nenhum exagero alegar que:
“o conceito de pessoalidade desconectado da biologia, se torna subjetivo e arbitrário — abrindo a porta para a desumanidade e opressão. Qualquer um em qualquer estágio da vida poderia ser rotulado ao status de ‘não-pessoa’ lhe sendo negado o direito a viver.”[5]
Baseado em tudo que fora discutido até agora, postula-se que:
  1. Qualquer defesa da legalização ou da não-legalização do aborto deve se basear em conclusões metafísicas e definições antropológicas precisas e claras, sem apelo sentimentalista;
  1. Depois de definida a antropologia, deve-se defender a plausibilidade e qual antropologia aprecia adequadamente a dignidade humana;
  1. A antropologia por trás do principal discurso pró-aborto é dualista, não-integral, com um fundo racionalista, sentimentalista e subjetivista;
  1. A defesa cristã de uma antropologia elevada, irredutível e integral não permite o apoio a nenhuma política pública de legalização do aborto sem que isso fira a consciência do cristão;
  1. A antropologia cristã está no cerne da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Vale uma consulta ao livro “Justice: rights and wrongs” de Nicholas Wolterstorff. Qualquer relativização deste princípio levará a humanidade a uma ética arbitrária. Basta lembrar de Richard Rorty, filósofo pragmatista americano, que defendeu no II Fórum de Filosofia da UNESCO (Paris, 1996), que a superação da noção de “direitos universais” é uma questão urgente, afinal, tal conceito têm raízes judaico-cristãs. Em seu lugar, seria necessária uma nova antropologia fundada em superioridade econômica, e um explícito escalonamento entre “humanos” e “sub-humanos”. Honesto, se partirmos da noção secular de que a antropologia judaico-cristã é obsoleta e não tem relevância pública, como indiretamente defendem secularistas travestidos de laicistas, inclusive cristãos.
  1. Seria irresponsável desprezar a noção de dignidade humana universal como um grande e incalculável legado da antropologia judaico-cristã ao ocidente. Sua importância não é de agora, está no coração de qualquer debate sobre direitos humanos. Uma discussão seriamente plural sobre a legalização do aborto deveria considerar interlocutores que se apoiam nesta sabedoria, sem o mito de neutralidade secular que se esconde em memes de laicização.
  1. Se entendemos que seres humanos, desde a concepção até a velhice, estão em permanente, integral e complexo desenvolvimento, garantir a proteção à vida desde a concepção, é garantir o desenvolvimento humano em todas as suas etapas. Não considerando nenhuma delas “não-humana” “menos humana” ou “sub-humana” em relação às outras. O problema é que a antropologia dualista ou naturalista tende a seccionar o desenvolvimento humano em etapas temporais estanques, em que cada fase se tem entidades diferentes. Este seccionamento ontogenético produz uma distorção metafísica que pode levar a conclusões como que se existissem fases do desenvolvimento da vida humana em que na verdade não podem ser consideradas intrinsecamente humanas[6]. Neste caso, bastaria argumentar, ainda que de maneira arbitrária ou subjetiva, que em uma determinada fase ainda não se tem um “ser humano” para justificar um aborto “ético”. Em outras palavras: acredita que o desenvolvimento humano é um direito? Então, garanta-o desde sua concepção.
Baseado nos postulados acima, concluímos que a resistência à legalização do aborto inspira-se em pelos menos três princípios: 1. Uma concepção de ser humano (antropologia) integral e elevada; 2. No direito que o ser humano tem à vida e a seu pleno desenvolvimento desde sua concepção até a velhice; 3. Na irredutibilidade de sua condição humana, ou seja, seres humanos não podem ser reduzidos nem à consciência/racionalidade, nem à esfera biológica e tampouco a nenhum de seus outros aspectos constitutivos.
Enfim, esses parecem ser princípios plausíveis e razoáveis para se tratar com cuidado posições éticas em relação a um tema tão sensível. A legalização do aborto e a defesa de sua prática de modo irrestrito, dependerão sempre de uma concepção reduzida da dignidade humana. E, conceber o ser humano menor do que ele é ou deveria ser é sempre uma violação dos direitos humanos, ou seja, violência.
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[1] O termo antropologia é usado neste texto em seu sentido filosófico, ou seja, como sendo o campo ou disciplina filosófica responsável pela definição ou que lida com a natureza humana. A antropologia filosófica trata do problema: O que é o ser humano?

terça-feira, 29 de maio de 2018

A Quem Deus Ama?

A quem Deus ama?

 “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (1Jo 4.8).

Que Deus é amor é fato. A questão que se levanta é “a quem Deus ama?” Ao longo da história, tal pergunta tem recebido diversas respostas inadequadas, dentre as quais destaco cinco:

1 - Deus não se relaciona com a criação ao ponto de estabelecer vínculos de afeto. Ele criou o cosmos e se afastou dele. Este é o ponto de vista do deísmo.
2 - Deus não ama suas criaturas. Ele trata o universo caprichosamente, manipulando anjos e homens como fantoches. Isso é enfatizado em algumas correntes do satanismo. Ensina-se em tais círculos que Satanás é apenas uma pobre vítima dos atos arbitrários e injustos do Criador.
3 - O amor de Deus por tudo e todos sobrepuja sua justiça. Por amar, Deus não julga. Destarte, todos serão salvos. Define-se essa concepção comouniversalismo.
4 - Deus ama a todos os homens tanto como Criador quanto como Redentor e deseja que sejam todos salvos, mas o homem possui a capacidade de rejeitar o gracioso convite de Deus feito por meio de Cristo. Em suma, a vontade do homem pode impedir Deus de realizar seu propósito de salvação. Eis o Arminianismo — as denominações cristãs que creem dessa forma são chamadas arminianas, uma vez que esse ensino foi defendido por Jacó (James ou Thiago) Armínio, um teólogo do século 16 (1560-1609).
5 - Uma ala do calvinismo proclama que Deus ama somente aos eleitos. Os réprobos[1] são objeto unicamente da ira de Deus. O amor de Deus é entendido exclusivamente como seu favor concedido aos predestinados para a salvação, nada além disso.

Os três primeiros postulados são absolutamente contrários ao ensino da Escritura e rejeitados pela Igreja Cristã. O quarto não é abraçado pela Igreja Presbiteriana do Brasil e outras igrejas reformadas. Quanto ao quinto, é aceito por alguns calvinistas, mas eu a considero também inadequada.

Entendo que existe uma sexta resposta, mais fiel ao evangelho.

A essencialidade e unidade dos atributos divinos

Proponho uma ponderação sobre a harmonia essencial dos atributos divinos. Não se trata de nada sofisticado nem sustentado por dezenas de textos-prova. Eis o argumento:

Primeira premissa: Deus é amor e justiça.[2]
Segunda premissa: Se os atributos acima fazem parte da essência divina, e esta é indivisível, em Deus, amor e justiça jamais se separam.
Conclusão: Deus não deixa de ser amor quando se ira, nem deixa de ser justo quando ama.

Note que, na primeira premissa, utilizo a expressão “é” em lugar de “possui”. Além disso, entre os atributos, coloco um “e” e não um “ou”. Deus não apenas age com amor ou com justiça, mas amor e justiça fazem parte de sua essência. Uma vez que a essência de Deus é indivisível, nele, amor e justiça jamais se separam. Deus ama sendo justo e julga sendo amor. Amor e justiça coexistem no UM divino. Sendo assim, é plausível afirmar que o fato de os eleitos serem amados por Deus não significa que Deus não se ira com eles. Por conseguinte, o fato de Deus revelar-se irado contra os réprobos não quer dizer que ele não os ame.

Tal argumentação, estou certo disso, é contestável. Pode ser dito que a presença de um atributo não equivale à obrigatoriedade de sua manifestação em determinado contexto. Mesmo sendo amor, Deus pode demonstrar exclusivamente sua justiça aos réprobos ou vice-versa. Pode ser dito ainda que utilizo sem muita qualificação os termos “amor” e “ira”. Quem sabe eu descubra, para meu aperfeiçoamento, que alguém já assumiu tal posição no passado e foi corrigido de seu erro. Com humildade, porém, pretendo mantê-la como referência, pelo menos até o ponto de confirmá-la ou alterá-la, com base em mais leituras da Escritura e da Teologia.

Outra proposição, agora, sobre o cristão e o ódio

Convido você para acompanhar-me na reflexão sobre uma palavra de Jesus no sermão do monte:

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. […] Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste (Mt 5.43-45, 48).

O cristão pode odiar seus inimigos? Cristo responde que não; é preciso amar até o mais cruel opositor. Como crianças espirituais questionamos a razão disso: Por que devemos amar nossos inimigos? A resposta do Redentor é dupla. Ele diz primeiramente que o amor ao inimigo é necessário “para que vocês se tornem filhos do Pai de vocês”.[3] Jesus estabelece uma ligação entre ser filho de Deus e amar aos inimigos.[4] A segunda parte da resposta é: Vocês devem amar aos inimigos porque Deus “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (v. 45). Em suma, Cristo afirma que mesmo os piores seres humanos são objeto do amor providencial de Deus. A ideia é simples: Os inconversos são inimigos de Deus; mesmo assim Deus cuida deles com sua providência (sol e chuvas). Este amor providencial é o modelo para o amor que o cristão deve dispensar aos seus adversários.

Como explica Bavinck, “também, no lugar de perdição, há graus de punição e, consequentemente, chispas de sua misericórdia”[5] e ainda, “não é verdade que a justiça de Deus só pode ser manifesta na bem-aventurança dos eleitos, pois também no céu sua justiça e santidade estão radiantemente presentes, e até mesmo no inferno há alguma evidência de sua misericórdia e bondade”.[6] Por fim:

Os reprovados também recebem muitas bênçãos, que, como tais, não surgem do decreto da reprovação, mas da bondade e da graça de Deus. Eles recebem muitos dons naturais — vida, saúde, vigor, comida, bebida, bom ânimo e assim por diante (Mt 5.45; At 14.17; 17.27; Rm 1.19; Tg 1.17) — pois Deus não se permite ficar sem testemunho. Ele os suporta com muita paciência (Rm 9.22). Ele quer que o evangelho de sua graça seja proclamado a eles e não tem prazer em sua morte (Ez 18.23; 33.11; Mt 23.27; Lc 19.41; 24.47; Jo 3.16; At 17.30; Rm 11.32; 1Ts 5.9; 1Tm 2.4; 2Pe 3.9).[7]

A palavra de Jesus em Mateus 5.43-48 deve ter soado estranha aos ouvidos dos judeus mais rigorosos porque estes sabiam, pelo AT, que Deus “não suporta” e “detesta” os pecadores (Sl 5.5).[8] Lemos que os “maus” e “injustos” são inimigos de Deus, destinados à condenação (Sl 11.4-7). O judeu mais espiritual podia afirmar como o salmista: “Não aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem? E não abomino os que contra ti se levantam? Aborreço-os com ódio consumado; para mim são inimigos de fato” (Sl 139.21-22). Eis que, então, surge Jesus, Verbo de Deus, um com o Pai, ensinando que os “inimigos”, os “maus”, os “injustos” devem ser amados. E mais: A palavra traduzida por “amai” (agapaō) é a mesma que João usa com respeito ao amor de Deus pelos eleitos (Mt 5.44; Jo 3.16). Seria demais concluir que os discípulos devem amar aos “maus” e “injustos” assim como Deus, providencialmente, os ama?

O ensino é fechado nesses termos: Os discípulos, ao amarem os inimigos se tornam “perfeitos como perfeito é o […] Pai celeste” (v. 48). O adjetivo usado no original (teleioō) assegura o sentido de “genuíno”, “completo” ou “maduro”: “Sejam inteiros, indivisíveis em amor, assim como Deus é”,[9] ou como sugere Peterson: “Resumindo, o que quero dizer é: cresçam!Vocês são súditos do Reino; tratem de viver como tais. Assumam sua identidade, criada por Deus. Sejam generosos uns para com os outros, pois Deus age assim com vocês”.[10]

Uma leitura dos textos bíblicos que se referem ao ódio de Deus

Olhemos agora para alguns textos da Escritura que se referem ao ódio de Deus. Em Salmos 5.5, citado acima, consta que Deus “não suporta” e “detesta” os pecadores. Ele “abomina” os que amam a violência e “fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre”, além de “vento abrasador” (Sl 11.4-7). A situação é tão séria que, de acordo com Provérbios 3.33, “a maldição do Senhor habita na casa do perverso”.

O leitor certamente já ouviu a frase “Deus ama ao pecador e odeia o pecado”. Para alguns estudiosos sérios, essa afirmação é errada. Baseados nos textos acima (dentre outros), argumentam que Deus ama somente aos eleitos. Quanto aos ímpios, eleunicamente os odeia.[11] Afirmar o amor de Deus pelos réprobos — dizem — não apenas contradiz o ensino bíblico sobre a predestinação, mas também sobre a unidade divina (Deus não pode demonstrar dois amores, duas misericórdias), sua imutabilidade (Deus amaria os réprobos no tempo e os odiaria na eternidade), sua justiça (como é que Deus, que “não pode ver o mal”, amaria os que são completamente iníquos?). A ideia do amor de Deus pelos réprobos implicaria em uma noção incorreta de “amor temporário, limitado, mutável e injusto de Deus (fora de Jesus Cristo!)”.[12] Isso resultaria na destruição da antítese (Gn. 3.15), na amenização da depravação total, no comprometimento da expiação particular, na pregação do desejo de Deus de salvar o réprobo, no silenciamento e negação da eleição e reprovação incondicional, na recusa de condenação do arminianismo e seus mestres, e, finalmente, na permissão de comunhão com os arminianos.[13]

De fato aprecio respeitosamente a todos esses argumentos, que provêm de pessoas piedosas e teologicamente mais capazes do que eu. No entanto, proponho uma leitura diferenciada.

Primeiro, a fidelidade às Escrituras exige a pregação e o ensino de verdades aparentemente contraditórias. Sendo assim, o mestre e pregador fiel proclamará em alto e bom som e com toda a convicção, tanto a soberania de Deus quanto a responsabilidade do homem. Ele anunciará que Deus — Santo, Santo, Santo — odeia não apenas a transgressão, mas também ao transgressor. Ademais, afirmará ele que Deus é amor que se desdobra em atos benevolentes para com os inconversos.

Segundo, a afirmação do amor providencial de Deus pelos ímpios não fere a predestinação, pois deve ser dito que antes de os gêmeos nascessem, Deus escolheu a Jacó e odiou a Esaú (Rm 9.11-13). Por outro lado, Esaú subsistiu e prosperou graças à generosidade divina (Gn 33.9; cf. 1Cr 29.12). Se Isaque, o eleito, é o descendente “mediante a promessa” (Gl 4.23), Ismael, o inconverso filho da ”escrava” é tratado carinhosamente por Deus (Gn 21.8-21). Não é contestada a unidade divina: O mesmo Deus concede amor salvador aos eleitos e amor providencial àqueles que ele criou (sim, o fato de um réprobo existir e manter-se vivo é ato de misericórdia divina; Deus poderia não trazer tal indivíduo à luz ou mesmo matá-lo imediatamente após o seu nascimento). Não é atacada a imutabilidade divina pois é o mesmo Deus, rocha imutável, que no tempo faz chover sobre maus e bons, justos e injustos, e que na eternidade separa os salvos dos reprovados. Ao mesmo tempo, apregoa-se a justiça divina em amar a totalidade de sua criação e, ao mesmo tempo, derramar-se em ira sobre os que se recusam a ouvir ao evangelho.

Deus ama salvificamente aos eleitos e providencialmente a tudo o que criou. Discordo que essa seja uma noção incorreta do amor de Deus, nos termos apontados por Stewart. Trata-se de amor que sobrepuja nossa capacidade de entendimento. É amor que, afirmando a antítese, nos faz amar ao injusto, que declara a depravação total, mas enxerga no pagão Ciro (Is 45.1) um instrumento da bondade e justiça de Deus. Que crê e insiste na expiação particular e, ao mesmo tempo, declara que Deus ama ao mundo e salva a todo o que nele crê, que alardeia a eleição e reprovação incondicionais e firma-se na declaração de erro dos arminianos, ao mesmo tempo em que os ama. Sim, subscrevendo a condenação reformada ao Arminianismo do Sínodo de Dort, cremos na possibilidade de comunhão com aqueles que não têm um entendimento esclarecido dos chamados cinco pontos do Calvinismo (acróstico TULIP), pois é salvo aquele que está incluído no Pacto da Graça, que foi regenerado e creu em Cristo como Senhor e Salvador, mesmo que não saiba articular com maestria a doutrina (cf. At 18.24-28).

Eis o resumo da sexta posição: Descarto o universalismo; somente os que creem em Cristo como Senhor e Salvador serão salvos e os que não crerem serão eternamente condenados (Jo 5.24-29, 6.47). Rejeito também o Arminianismo; somente os eleitos recebem a dádiva da fé salvadora (Jo 6.65; At 13.48, 16.14; Rm 8.28-30, 9.6-18; Ef 1.3-14, 2.4-10). Não aceito ainda a proposição do amor divino unívoco — dispensado somente aos eleitos. Deus ama aos eleitos salvificamente, como Pai que os adota para íntima comunhão. Ao mesmo tempo ele possui um vínculo de amor providencial com toda a sua criação, o que inevitavelmente inclui os não-crentes. Esse último tipo de dispensação de amor não implica, necessariamente, em salvação, mas em criação e preservação. Não apenas isso: Deus até concede dons aos não-convertidos de modo que estes produzam coisas boas e belas, ainda que rebelando-se contra o Criador.

O escorregadio universo das palavras

Você aprendeu até aqui que todos os calvinistas concordam quanto ao amor de Deus pelos eleitos. Há uma divisão, porém, quando se fala do amor divino pelos réprobos. Um grupo diz que Deus só ama aos eleitos; o outro entende que ele ama a todas as suas criaturas, aos eleitos salvificamente e aos réprobos providencialmente. Eu me situo no segundo grupo.

O segundo grupo diz que Deus demonstra amor aos réprobos na graça comum. O primeiro argumenta — e prova biblicamente — que os termos “graça” e “misericórdia” só podem ser aplicados no contexto da aliança da salvação, da mediação de Cristo, da regeneração e do perdão de pecados. Tais palavras, dizem, não fazem sentido no contexto da criação. Eles citam teólogos do passado[14] e atuais que demonstram, pela Escritura, que o bem-estar e prosperidade dos ímpios não decorrem da benevolência divina e sim são como lugares escorregadios que os levam à “destruição” (Sl 73.18). Alguns desses teólogos chegam ao ponto de considerar como heresia a defesa da graça comum e propõem separação radical — impossibilidade de comunhão — entre os dois grupos, ou seja, para eles, o calvinismo puríssimo exige rompimento tanto com arminianos quanto com outros calvinistas que assumam a graça comum (ou o amilenismo, ou outros pontos de doutrina).

Os calvinistas da graça comum, por sua vez, admitem que nos primeiros quatro capítulos do livro de Gênesis não são encontradas as palavras “aliança” e “graça”; no entanto, ambas as ideias estão presentes, nos seguintes termos:

Na criação Deus estabeleceu um vínculo de amor e vida com tudo o que criou. Ele criou o universo e providenciou condições para o florescimento e manutenção da existência biológica. Criou o homem e deu-lhe ordenanças. A desobediência humana traria a morte como consequência. Todos os aspectos que compõem um pacto ou aliança estão presentes em Gênesis (as partes pactuantes, o vínculo de vida e amor e, por fim, privilégios e responsabilidades).[15]

Após a queda Deus podia simplesmente matar o primeiro casal, mas ele não fez isso. Pelo contrário, estabeleceu a antítese entre a descendência da serpente e o descendente da mulher (Cristo) e prometeu que este último esmagaria a cabeça do Tentador (Gn 3.15). Em seguida, cobriu a nudez do primeiro casal (Gn 3.21). Note que a palavra “graça” não se encontra no texto, mas a ideia está presente: Favor imerecido relacionado à salvação — a redenção dos eleitos de Deus.

Lemos em Gênesis 4 que Eva deu à luz a Caim que, ao matar seu irmão, demonstra pertencer à linhagem da serpente e tornou-se o primeiro ser humano amaldiçoado na Bíblia (Gn 4.1-8, 11; cf. 1Jo 3.12). Então, surpreendentemente, depois de amaldiçoar a Caim, Deus o marca a fim de preservar-lhe a vida física (Gn 4.15). Logo adiante, a descendência de Caim desenvolve pecuária, artes e siderurgia (cf. Gn 4.20-22). Deus dá a Caim, imerecidamente, condições para viver e desenvolver aspectos dos mandatos social e cultural, ainda que sob a égide do pecado, mui toscamente e para juízo. Isso se configura não como um favor para a salvação, mas providencial (Mt 5.45; cf. Ec 2.24-25) e torna possível falar do amor divino dirigido aos homens réprobos.

Perceba que ambos os grupos identificados como calvinistas abraçam a eleição, são conservadores em sua Teologia, entendem que Deus ama aos eleitos e trata a todos nesta vida — convertidos e inconversos — imerecidamente. A diferença é que, para o primeiro grupo, não podem ser usadas as palavras “misericórdia”, “graça” e “amor”, muito menos “graça comum”, quando se refere aos réprobos. O segundo grupo não vê problema no uso de tais termos.

Respeitando aos grandes teólogos do primeiro grupo, afirmo que, no escorregadio universo das palavras, dividimo-nos. “Você não pode usar a palavra graça nesse caso; os réprobos recebem uma benevolência divina que é diferente do amor”; ou “se você crê na graça comum não pode mais tomar santa ceia comigo”. Respeito quem pensa assim, mas discordo.

Mais: Por estranho que pareça, sou da opinião que a maior dificuldade do ser humano não é crer no ódio, e sim, no amor de Deus. Os réprobos descreem absolutamente e os eleitos, mesmo crendo, duvidam.[16] Ainda que eu pregue sem titubear que Deus julga (e condenará-castigará definitivamente) o Mal e os Maus, entendo que devo proclamar o amor divino revelado primeiramente na criação e providência e, de modo pleno e maravilhoso, em Cristo. Como Paulo no Areópago, proclamo aos ouvintes não-crentes que Deus “não está longe de cada um de nós”, nele “vivemos, e nos movemos, e existimos” e, por meio de Cristo há tanto redenção para os que crerem quanto juízo para os que não crerem (At 17.24-31). Os réprobos, quais réplicas de Satanás, já possuem de forma inata a certeza de que estão sob o juízo de Deus, e o odeiam por isso. Os eleitos, presos à sua estrutura pecaminosa, sabem que são pecadores, e afastam-se constrangidos de Deus. Cabe aos pregadores auxiliar as ovelhas do Senhor a beber nas águas da graça que perdoa, limpa e santifica e então, desafiá-las a demonstrar e anunciar a todos o amor de Deus que “excede todo entendimento” (Mt 5.43-48; Jo 3.16; Ef 3.14-21).

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Notas
[1] Ainda que sujeito a contestação, neste artigo eu utilizo o vocábulo eleito referindo-me ao indivíduo separado por Deus para ser dele, no desfrute de sua salvação. Os que são deixados no estado de depravação e, por conseguinte, serão condenados, são aqui denominados réprobos.
[2] Isso equivale a dizer que Deus é amor e santo (1Jo 4.8; cf. Is 6.3).
[3] Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).
[4] O termo usado no original grego denota finalidade: É preciso amar ao inimigo para tornar-se filho do Pai celestial. Essa condicionalidade é semelhante à encontrada na oração do Pai-Nosso: “Perdoa as nossas ofensas como também nós perdoamos as pessoas que nos ofenderam” (Mt 6.12 — NTLH).
[5] BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada: Deus e a Criação. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 395. v. 2.
[6] BAVINCK, op. cit., p. 398.
[7] Ibid., p. 407.
[8] A tradução Revista e Atualizada (ARA) traduz como “aborreces” e “abomina”. Os termos na Bíblia Hebraica contêm a ideia de “ódio”.
[9] LOUW, J. P.; NIDA, E. A. Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains. 2. ed. New York: United Bible Societies, 1996, 88.100, p. 752–753.
[10] PETERSON, Eugene. Bíblia A Mensagem.
[11] Cf. BAKER, Kyle. O Ódio de Deus. Em formato PDF. Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[12] STEWART, Angus. Graça Comum. Em formato PDF. Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[13] Será que a “comunhão com os arminianos” é vedada aos crentes calvinistas? Eu não entendo que George Whitefield, um calvinista, pecou ao cultivar comunhão com o arminiano John Wesley.
[14] Especialmente VERMIGLI, Peter Martyr. Manual de Teologia Sistemática (cerca de 1656), citado por MOORE, Jonathan. É Novidade Negar a Graça Comum? Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[15] Cf. VAN GRONINGEN. Criação e Consumação. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. v. 1.
[16] Ao ensinar os crentes sobre a correção divina, Calvino sublinha a necessidade de sermos confirmados na certeza de que Deus nos é propício, ou seja, nos ama infinitamente por meio de Cristo — CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. III.4.38. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. v. 3).