sábado, 1 de agosto de 2015

INTEGRIDADE DE CORAÇÃO

“Nada do que tocamos é eterno”


Esta é uma frase de Charles Kerman que nos ajuda quando tentamos responder a seguinte pergunta: quais são os critérios com os quais Jesus julga a minha vida?

Freqüentemente julgamos a vida alheia a partir de valores mais externos, contábeis e visíveis, do que pelo que se passa no coração. E assim nos encantamos com homens, histórias, livros e lideranças que não encantam a Deus.

A presente sociedade leva-nos a crer que somos aquilo que aparentamos e não são raras as vezes que somos julgados pelos nossos títulos, realizações, influência e tantas outras credenciais que tentam plasticamente definir nossa aparência pública. Entretanto, no Reino de Deus, pregado por Jesus, estas roupagens não representam a nossa identidade, quem de fato somos.

Possuímos uma tendência natural para nos escondermos. Somos, portanto, seres construtores de máscaras. Construímos máscaras com o mesmo intuito que o fazem os povos tribais em rituais xamânicos: para o engano do próximo e manipulação social. Creio que as máscaras que somos tentados a construir possuem, em um primeiro momento, a intenção de apresentar uma imagem que julgamos ideal para os de longe. Comumente esta imagem não representa a verdade do nosso ser, mas sim uma idéia utilitária que tentamos exportar. Se temos sucesso na construção de máscaras que vendam esta imagem aos de longe somos tentados a construir máscaras mais elaboradas, refinadas, que possam enganar também os de perto. É por isto que podemos nos surpreender com alguém bem perto de nós, de nosso círculo de amizade e relacionamento, que repentinamente se desvenda como portador de valores e práticas antagônicas com a imagem que dele tínhamos. É que não o conhecíamos. Olhávamos para ele, mas enxergávamos sua máscara. Mas não paramos aí.

Como seres construtores de máscaras, ao chegarmos ao ponto do engano coletivo aos de longe e perto nos propomos a uma nova empreitada, ainda mais desafiadora: construir máscaras que enganem não apenas o outro, mas a nós mesmos. Chamo tais máscaras de máscaras do auto-engano. Aconselhava um cristão que se surpreendeu consigo mesmo ao trair a confiança de um líder que amava e admirava. Em meio a lágrimas exclamou: como pude fazer isto? Então pensei: quantas vezes esta pergunta nos persegue? O auto-engano não é apenas possível, mas infelizmente freqüente. Pode levar homens e mulheres e jamais confrontarem suas mazelas e pecados levando-os a viverem como se tudo estive bem.

A construção de máscaras de engano e auto-engano é uma prática pecaminosa que nos leva para longe de uma conversa franca e necessária sobre a nossa vida, fugindo assim de um dos assuntos mais controvertidos e evitados pelo homem desde sua queda: a verdade.
No Reino da luz a verdade é o fundamento para qualquer avaliação. Não por acaso a Palavra nos diz que ela nos libertará. A ausência da verdade, por outro lado, nos mantém cativos às mesmas masmorras psíquicas, volitivas e comportamentais de sempre. E o auto-engano, quando a psique humana mente para ela mesma tentando racionalizar o pecado e a fraqueza, torna-se uma das fortes oposições à verdade.

Neste momento, portanto, eu o convido a deixar cair qualquer possível máscara que tenha construído ao longo dos anos e por acaso esteja usando, e olhe para você mesmo em um espelho íntegro, sem reservas, na presença do Espírito do Senhor que nos conhece e nos leva ao caminho da verdade.

O elemento principal com o qual Jesus nos avalia é bem menos visível, menos contábil e certamente menos observado por aqueles que nos cercam, pois Ele nos vê no íntimo, sem máscaras, manipulações ou enganos. A Palavra usa expressões como “coração puro3”, “de todo o teu coração”4, “integridade do coração”5, e “santidade ao Senhor”6 para nos fazer entender que somos mais avaliados por Cristo pelas coisas do coração e não pela nossa roupagem. Entenda claramente algo: Jesus conhece o secreto da sua vida. Ele certamente não se impressiona pelas grandes construções que levantou, realizações aplaudidas por multidões ou teses defendidas debaixo dos holofotes. O Carpinteiro olha direto para o seu coração e vasculha a sua alma. E é justamente neste campo que você será encontrado fiel, ou não.

Integridade é um termo que está ligado a inteireza, do latim integritas, que se aplica a retidão, santidade e um espírito irrepreensível.  O autor de Imitações de Cristo, possivelmente Tomás de Kempis, já perguntava no século IV: “Que mais te pode incomodar e embaraçar que os afetos desordenados de teu coração7?”

Em 1 Samuel 16 o profeta buscava o ungido do Senhor entre os filhos de Jessé. Antes de indicar Davi, que viria a ser rei sobre Israel, o Senhor diz a Samuel: “... Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque eu o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem olha para o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração”.

É certo que não podemos purificar nosso próprio coração. Dentre tantas verdades marcantes do Cristianismo uma delas é esta: nós dependemos de Deus. E dependemos dEle para crer, para segui-lo e para nos parecermos mais e mais com o Filho. Assim creio que o objetivo de Cristo é tão somente levar-nos a orar como o salmista: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabalável8”.

William Hersey Davis, tentando fazer-nos diferenciar entre a ilusão do palco e a realidade da vida, compara caráter e reputação quando diz:

“As circunstâncias nas quais você vive determinam sua reputação.
A verdade na qual você crê determina o seu caráter.
Reputação é o que pensam a seu respeito.
Caráter é quem você é.
Reputação é a sua fotografia.
Caráter é a sua face.
A reputação fará de você rico ou pobre.
O caráter fará de você feliz ou infeliz.
Reputação é o que os homens dizem a seu respeito no dia do seu funeral.
Caráter é o que os anjos falam de você perante o trono de Deus”9.

As conversas de Deus com seus filhos sempre são conversas sinceras que procuram moldar nosso caráter e não apenas construir uma bonita reputação. Mesmo por que a reputação, por mais importante que seja, e é, se apresenta por demais volátil. Em dias de comunicação em massa via internet uma reputação construída ao longo de 30 anos pode ser destruída em 30 minutos. O caráter, porém, é a verdade a nosso respeito, quem de fato somos e como o Senhor nos vê. Este é o bem precioso que não devemos negociar. Um pastor amigo, observando a sua própria vida, regado pelo livro Avalie a sua Vida de Wesley Duewel, desabafou anos atrás em uma carta:

“...os aplausos levaram-me, durante anos, a pensar que tudo estava bem. Saía-me muito bem enquanto estava nos púlpitos, comunicava-me com diversos grupos e era admirado por minha audácia na pregação. Muitos passaram a seguir o meu exemplo. Vários diziam: ‘desejo ser como você’. (...) Não precisei orar muito para que o Espírito Santo me direcionasse para os pecados e falhas em meu caráter. Usava exemplos que não condiziam com a verdade e utilizava livremente o púlpito para atacar os grupos contrários ao meu ministério. Eu possuía todos os elementos para cair e permanecer prostrado. Louvado seja Deus por um dia que tirei para reavaliar a minha vida !”

Este pastor amigo percebia, entre outras coisas importantes, que nenhum homem vai além do seu caráter. E entendia o perigo de se desenvolver uma liderança ou uma reputação descompassada com um caráter íntegro como fundamento. E a integridade, bem como outras virtudes cristãs, precisa ser construída.

Nas palavras do próprio Duewel: “A única vida digna de ser vivida é aquela vivida para Deus”10 e é neste íntimo relacionamento que perceberemos que somente uma boa semente trará bons frutos.

Pensemos um pouco sobre a integridade e suas características. Ao ler tais características utilize este momento para avaliar o seu próprio coração e, confiante no Senhor, esperar coisas novas e boas de Deus.

A Integridade vai além da Sinceridade

Gostaria que você pudesse entender que a integridade vai além da mera sinceridade. A sinceridade é um comportamento da alma expresso através do reconhecimento da verdade. A própria expressão vem do latim sincere, possivelmente quando ídolos eram esculpidos em madeira e vendidos no mercado. Algumas peças, para disfarçar as falhas da madeira, recebiam um acabamento com cera que se tornava imperceptível à primeira vista. Todos sabiam que os ídolos esculpidos de forma perfeita em madeira pura eram “sem cera”, ou sincere.

Tratando da alma humana sabemos que a sinceridade, por si, não nos leva a uma vida íntegra mas sim ao reconhecimento da verdade. E reconhecer a verdade, porém não segui-la, nos conduz tão somente à autoconsciência de nossa presente situação. Podemos atestar uma verdade pessoal, reconhecer nossas falhas morais, concluir que precisamos da transformação do Espírito e mesmo assim vivermos da mesma forma, sem nenhuma mudança, pelos próximos 30 anos. E esta é uma postura comum entre o povo de Deus.

Integridade, portanto, não é apenas convicção. É atitude transformadora e validadora. Leva-nos a uma profunda inquietação que produz transformações internas e externas. Faz-nos desejar viver de acordo com a nossa fé, nossos valores, nossos sermões e escritos, nossos ensinos em sala de aula. Com a Bíblia que lemos e o Deus no qual cremos. Faz-nos desejar mais que o conhecimento teológico, a eloqüência na pregação, a retórica nas colocações e a aura de autoridade perante a igreja. Faz-nos desejar apaixonadamente uma vida autêntica, perante Cristo, mesmo quando ninguém está olhando.

Conheço irmãos preciosos que andam distanciados do Pai mesmo não lhes faltando sinceridade de coração. Reconhecem seus erros, sabem o caminho a buscar, mas não o fazem. Huckabee nos fala sobre como a integridade, aplicada nos processos da vida, pode revolucionar uma pessoa e uma nação11.

Tenho dois amados e obedientes filhos, Viviane e Ronaldo Júnior com 13 e 11 anos. Quantas vezes, ao estarem prestes a uma atitude indevida me olham como já conscientes do que não deve se feito. Talvez algo simples como ligar a TV na hora da refeição. Ao se prepararem para pegar o controle remoto olham para os pais, sabendo o que não deveriam fazer, mas tentados. Há em nossas vidas, normalmente, conhecimento do caminho, das limitações e da verdade. E uma grande diferença entre o conhecimento e a obediência.

Pastor Adail Sandoval, homem de Deus dedicado ao Rei por mais de 40 anos, afirmou em uma de suas palestras: “... se um dia você for levado a escolher entre a sua reputação e o seu caráter, escolha o caráter”. Este homem de Deus não reduz o valor da reputação mas exalta a necessidade de lidarmos com Deus além da exposição pública e da simples sinceridade. Importa-nos obedecer.
Não nos basta compreender os desafios do evangelho nem repetir semanalmente a nossa confissão de fé. É preciso traduzi-los para uma vida íntegra, que vai além da mera sinceridade.  A grande diferença entre sinceridade e integridade é a obediência. Enquanto a primeira reconhece suas falhas e erros a segunda se contorce incomodada por conserto e transformação. A integridade vai além da sinceridade.

A integridade deve perdurar na inconstância

Um dos elementos deste processo de superficialidade que luta contra a integridade em nossas vidas é a inconstância humana.  Sabemos que o universo no qual habitamos é marcado pela inconstância derivada da imperfeição. Conseqüentemente, é também inconstante nosso coração. Há dias bons e maus. Dias de vitória e de derrota. Dias de alegria e de angústia. E da mesma forma que o universo pode abrigar mudanças dramáticas e climáticas em um só dia, também em um só dia podemos passar por momentos de alegria, tristeza, euforia e ansiedade. Somos naturalmente inconstantes.

Como podemos buscar um coração íntegro se o mundo no qual habitamos, a sociedade humana e nossa própria alma, estão sujeitos aos abalos sísmicos de um universo imperfeito e incerto ?

Em primeiro lugar precisamos realmente crer que Deus está no controle de toda e qualquer situação em nossa história pessoal. Que Ele detém o direito autoral de escrever cada capítulo da nossa vida. Que nada, inclusive os momentos mais conflitantes produzidos pela imperfeição universal nascida lá no Éden, fogem ao absoluto controle de Deus. Ele permanece Senhor mesmo quando se cala. E Jesus é a maior demonstração de como o Pai deseja interagir conosco. Não nos tirando do mundo mas nos livrando do mal. E nesta dialética existencial Deus transforma o mal em bem, usa a própria inconstância humana caída como instrumento de aproximação com o Pai, de conversão, de quebrantamento e salvação.

C S Lewis já nos ensinava que a certeza da nossa salvação está na imutabilidade do caráter de Deus. E esta é a nossa segurança. Que o Deus ao qual amamos e servimos não é regido pela mesma dialética inconstante do universo ou dos altos e baixos emocionais e espirituais em nossas vidas. Ele, ao contrário, se apresenta na Palavra como o Monte Sião, que não se abala; as Muralhas de Jerusalém; a Rocha de Israel. É nEle e por causa dEle que podemos descansar mesmo em situações de tempestades e incertezas.

Cantamos um hino em Gana que diz: “...  não vivemos para celebrar o sofrimento;  nem também para chorar; mas quando ele vier choraremos; ... no sofrimento há Deus; não cremos na dor sem Deus, não cremos na dor sem Deus “.

Além de confiar no caráter imutável de Deus, para mantermos vida íntegra em meio a circunstâncias incertas é necessário buscarmos humildade para poder administrar as perdas. Tenho notado que os maiores erros não resultam de ações mas sim de reações. E basicamente a três circunstâncias: ao pecado, ao sofrimento ou às críticas. Estes três vetores provocam reações que tendem a colocar em xeque a nossa integridade.
Nem todos os caminhos do Senhor são fáceis mas todos são caminhos de amor. Quando o dia mal chega sempre me vem à mente a vida de José. Traído pelos irmãos, jogado em um poço, vendido para uma terra distante, encarcerado e humilhado ele manteve o espírito humilde crendo que Deus o amava. É porque Ele nos ama que freqüentemente transforma o mal em bem. Do cárcere José foi para o palácio e ali foi o braço forte do Senhor na preservação do seu povo durante a época de fome.

Há, portanto, duas verdades que servem como âncora para buscarmos um coração íntegro mesmo perante a inconstância da vida: a certeza de que o Senhor está no controle do universo, incerto, no qual vivemos; e a convicção de que Ele nos ama.

Muitos líderes serviram ao Senhor com zelo e dedicação durante toda uma vida mas se encontram paralizados porque não conseguiram responder bem, reagir bem, perante um vendaval que se abateu sobre suas vidas e ministério. Alguns anos atrás recebi uma mensagem eletrônica, enviada para milhares de pessoas, de um líder angustiado. Nela ele respondia as críticas que lhe faziam e acusava fortemente seus opositores. Uma carta típica de alguém que no calor do sofrimento senta em frente a um computador e não deixa sua ira passar. Ao contrário, reage.

Tempos depois me encontrei com este amigo que me disse como estava transtornado ao escrever aquela mensagem. Na conversa pontuamos alguns passos. Primeiramente a reação. Normalmente somos treinados para agir bem mas não para reagir bem. As reações são mais difíceis que as ações pois, especialmente na liderança, as ações são planejadas e seguem um padrão projetado. Um líder, porém, é medido por suas reações. Se as ações demonstram planejamento as reações demonstram valores.

Em segundo lugar conversamos sobre a ausência de real dimensionamento do problema. Quando estamos em um vendaval ele aparenta ser, para nós, a maior tempestade de todas. Nada se compara a ela. Isto por que somos seres sensitivos e valorizamos muito mais o que experimentamos do que aquilo que observamos. Assim, ao experimentarmos o sofrimento, o pecado ou a crítica, tendemos a dimensionar tal problema de forma supervalorizada. Utilizamos uma medida superfaturada. Certamente muitos que nada sabiam daquele conflito vieram a conhecê-lo da pior maneira possível: através daquele amargurado email em massa. A longanimidade se torna necessária em momentos pontuais e críticos. Longanimidade, no original grego, significa fôlego profundo e a idéia é de um atleta que corre com todas suas forças durante quilômetros e, quando exausto, ainda respira profundamente para vencer a última parte da corrida. Precisamos de espírito longânimo em meio às tempestades. Elas passam.

Perante um problema, seja circunstancial ou relacional, no qual tenhamos ou não falta, a melhor reação é a reação lenta. Penso em duas exceções: quando há risco imediato ou quando o vendaval gera em nós quebrantamento. No primeiro caso é necessário reagir rápido para conter um possível dano e não há tempo para um dimensionamento tranqüilo. No segundo caso o Espírito nos confronta com o pecado e não há tempo a perder para cair de joelhos dizendo: pequei contra Ti. Porém, de forma geral, toda reação lenta tende a ser a melhor reação.

Antes de seguir adiante gostaria de lhe fazer um precioso convite: confie na soberania do Senhor e esteja convicto de que Ele o ama. Isto lhe dará a brandura, paciência e perseverança para seguir buscando um coração íntegro em Sua presença mesmo nos vendavais da vida.

A integridade é vista nos detalhes

Se desejar conhecer a integridade de um homem, observe os detalhes. Conheça-o na informalidade do lar, no trato com amigos chegados, na conversa ao telefone. O conceito bíblico de sermos fiéis no pouco para sermos colocados no muito pressupõe grau de dificuldade e detalhamento. O pouco nos prova como também nos expõe. É, portanto, no pouco, nos detalhes da vida, que podemos diagnosticar em nós ou em outros o grau de integridade.

Pastor Hernandes Dias Lopes é um homem que tem sido tremendamente usado por Deus através de seus abençoados e desafiadores sermões12. Convivendo com ele e sua família na informalidade do lar durante um final de semana era visível que zelava por uma existência coerente com a fé, e isto era visto nos detalhes. A maneira apaixonada como trata a sua esposa, o carinho com os filhos e a forma zelosa como acompanhava até o elevador a senhora que os servia como ajudante no lar. Como bem aplicou Platão, filósofo grego: “Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa”.  A informalidade nos expõe com maior freqüência pois nos encontra em estado de espontaneidade.

Os grandes mestres do conhecimento têm reconhecido que as coisas pequeninas são importantes. Schopenhauer, filósofo alemão, afirma que é precisamente nas coisas pequeninas que o homem revela o seu caráter. Se desejamos trabalhar em nosso caráter e fomentar integridade de coração, comecemos pelas coisas pequeninas, pelos detalhes de cada dia. Da mesma maneira, se desejamos nos avaliar perante Deus, observemos em nossas vidas os detalhes. Fyodor Dostoyevsky cria que um homem poderia ser definido por suas motivações. Se tal afirmação soar um reducionismo, ao menos poderemos concordar que as ações de um homem podem ser definidas por suas motivações. Um exercício que tento fazer ao tomar novas iniciativas é ponderar um pouco sobre minhas motivações. O ser humano possui uma tendência carnal de apoiar ou realizar aquilo que julga lhe beneficiar. Assim são os jogos políticos pois assim é o coração humano. Um exercício positivo é dar passos em direções certas (sejam relacionais, financeiras, ministeriais) que envolvam perdas pessoais. Ao colocar-se em uma situação (quando necessário) de perda ou desconforto para que outro ganhe você estará instruindo seu coração a viver com os valores do Alto.

Isto pode ser feito em pequenas circunstâncias que envolvam dinheiro, tempo e prazer. Evitar uma compra pessoal em prol de um bem mais importante e necessário para outro. Substituir um momento que poderia render um ganho pessoal por um momento para ajudar outro a ganhar. Privar-se de algo que lhe dê prazer para prover algo que a outro dê prazer. Uma das maravilhas de Deus é que Ele nos fez com um espírito ensinável. Precisamos usar esta oportunidade para construirmos uma vida mais parecida com Cristo e isto acontecerá a partir das pequenas coisas.

A integridade deve se traduzir em atitudes

Um dos desafios mais difíceis que enfrentamos desde nossos primeiros pais é a tradução de nossos valores espirituais e morais para atitudes espirituais e morais. Permitam-me listar aqui, dentre tantas atitudes que buscam a construção de um caráter íntegro, algumas que observo de extrema colaboração neste sentido.

Calar-se

Vivemos em uma sociedade onde o simbolismo é elemento definidor das relações humanas. Assim, valorizamos a comunicação verbal, os discursos, as respostas bem colocadas, o jogo de palavras. Se por um lado isto colabora para desenvolver uma comunicação mais ativa, por outro tem nos levado a esquecer o valor do silêncio.

A integridade é testada na adversidade e uma das atitudes mais comuns perante a adversidade relacional é o confronto.  Especialmente em contextos ministeriais onde as críticas nos bastidores ganham a nossa atenção e somos levados a reagir de forma desproporcional, desnecessária ou mesmo inapropriada. Freqüentemente falamos quando deveríamos nos calar.

Podemos nos lembrar do pastor Oswald Smith, da Igreja do Povo em Toronto, no Canadá,  quando décadas atrás passou a viver sob uma cortina de severas críticas e terríveis ataques levantados por todos os lados, especialmente pela liderança de igrejas irmãs. Ao fim de um importante encontro de  líderes aquele homem de Deus bradou, como quem define a linha que separa o neófito do maduro dizendo: não combato nem me defendo. Faço a obra de Deus.

Certamente há momentos de falar, fazer-se ouvir. Mas reconheço que os homens de Deus que tenho conhecido buscavam mais o silêncio do que o confronto verbal perante as adversidades, e faziam a obra de Deus.

Um dos grandes investimentos que podemos fazer em relação ao outro é justamente ouvi-lo. Lincoln dizia que, ao dialogar com alguém gastava um terço do tempo pensando no que falar e dois terços pensando no que o outro falava.

Há, porém, uma forte diferença entre escutar e ouvir. Em Inglês duas palavras distintas são bem utilizadas. Escutar (to hear) fala sobre o ato físico, funcional do aparelho auditivo, enquanto ouvir (to listen) refere-se a um ato mental que nos faz pensar a partir de algo. Muitas vezes nos acostumados apenas a escutar sem que tais palavras tenham qualquer chance de nos fazer ponderar, pensar um pouco mais sobre o assunto, imaginar o outro lado de uma situação. Pessoas que apenas escutam são facilmente identificadas. Suas respostas são prontas e repetitivas.

A maior dificuldade para se ouvir é quando não é preciso ouvir. Penso aqui em uma figura de autoridade que, em sua presente função, seja um professor, um chefe, um líder de equipe ou um pastor, não precisaria ouvir e poderia tão somente falar. Gedson Lidório nos diz: “Quão perigosa é tal posição. A arte de ouvir de fato deve ser perseguida exaustivamente pois será de grande investimento na construção de uma vida íntegra e sobretudo de uma liderança íntegra”13.

Não negociar a verdade 

Provérbios 12:19 nos diz que “O lábio verdadeiro permanece para sempre; mas a língua mentirosa apenas por um momento”. Há certos valores que precisam estar sempre presentes em nossas vidas, relacionamento e processos de liderança. Um deles é não negociar a verdade. Isto inclui, de forma especial, a manipulação da verdade. Refiro-me ao evitamento ou maquiagem da verdade para se contornar um problema ou se beneficiar de um resultado.

Quando a Palavra nos ensina que a posição do crente, o seu falar, deve ser “sim sim, não não”14 o que se advoga não é uma atitude de extremos: ou sim ou não. O assunto aqui é a verdade: dizer sim quando for sim e não quando for não. No cenário do genuíno cristianismo a verdade não pode ser negociada e ela é um dos grandes blocos que constrói uma vida íntegra.

Quando o missiólogo Dr. Antonio Carlos do Nascimento afirmou em seu seminário que “nenhuma igreja vai além do seu pastor” fiquei pensando no investimento pessoal. Ao passo que ele apresentava a figura de uma igreja mais autêntica anotei no rodapé da apostila que tinha em mãos: “Integridade: como tratamos as pessoas; o que falamos; o que não falamos; conversar com e não acerca das pessoas; fazer prioritariamente o que é certo e não apenas o que nos agrada; evitar a influência do dinheiro; evitar a influencia do poder; lembrar os princípios que guiam a vida; testar meu próprio caráter nas pequenas coisas”.

Abraham Lincoln foi um dos estadistas mais atacados em toda a história dos Estados Unidos da América. Recebeu título de desonesto, corrupto, incapaz, mentiroso e adúltero. O Illinois State Register referia-se a ele como o “político mais desonesto da história americana”.  Quando aconselhado a negociar benefícios para os donos dos grandes jornais a fim de que sua imagem fosse poupada, Lincoln respondeu: “Quando deixar este escritório gostaria de sair com um amigo fiel ao meu lado. Minha consciência”15.

Ao falar sobre a verdade de forma mais objetiva (o que é verdadeiro), posso dar-lhe a entender, erroneamente, que esta é a única forma de verdade que importa. Há uma verdade subjetiva a qual também devemos valorizar. Trata-se da verdade volitiva, ou seja, os motivos que nos levam a agir e reagir. Os motivos que nos levam a fazer algo ou deixar de fazer. A falar e calar. Tais verdades motivacionais precisam ser observadas de perto pois elas representam o atual estado de nosso coração. Muitos líderes podem desenvolver realizações corretas por motivações erradas.

O comentário da Bíblia Shedd fala a respeito de Jó que foi chamado de íntegro em Jó 1:1. Comenta-se ali: “Homem íntegro. Literalmente: completo, que não significa sem pecado, mas um homem de honradez, reto, com o temor de Deus em seu coração16”. Interessante o  destaque para o temor e a ligação do mesmo com a integridade. De fato “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria” conforme Salomão escreveu em Provérbios 1:7. A busca pela verdade motivacional que nos leva a integridade de vida passa pelo temor do Senhor. Salomão nos diz que não se deve amar a loucura17  mas sim a sabedoria e com isto ele faz uma apologia ao entendimento. É necessário construir entendimento em nossas mentes e corações a respeito das verdades de Deus pois intuitivamente escolheremos tão somente o caminho mal. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria porque o temor do Senhor leva-me a buscar, em sua Palavra, o entendimento que me levará a ter vida sábia. Quem teme a Deus é liberto do caminho mal18.  W.W. Wirsbe, autor de "A Crise da Integridade", citado pelo pastor João Costa19, diz que a “integridade está para o caráter do indivíduo como a saúde está para o corpo, ou como a visão perfeita está para os olhos.” 

A integridade, que não negocia a verdade seja objetiva ou subjetiva, alimenta um caráter mais parecido com Cristo.

Assumir a responsabilidade 

Quando nos posicionamos ao lado da verdade normalmente somos chamados a assumir responsabilidades, seja pela irredutível defesa de algo que no senso comum poderia passar despercebido, seja por falhas e pecados em nossas vidas que precisam ser confrontados, perdoados e abandonados.

Segundo o escritor francês François La Rochefoucauld quase todas as nossas falhas são mais perdoáveis do que os métodos que concebemos para escondê-las. Uma vida íntegra leva em consideração a possibilidade da falha, do pecado e da queda. Ou seja, precisamos assumir a responsabilidade perante nossas atitudes a fim de mantermos a integridade espiritual e moral. E esta é uma das lições mais difíceis de serem aprendidas. O caminho aparentemente mais curto no caso de uma queda - a negação do pecado e sua responsabilidade sobre ele -  não é de fato curto pois não nos leva onde Deus nos quer.

Precisamos assumir a responsabilidade por aquilo que de fato somos responsáveis, seja algum detalhe um grande ato. No caso de uma queda moral não raramente se vê, na vida daquele que caiu, um sentimento de indignação com a Igreja que o ignora e não colabora para sua recuperação. Certamente esta é uma grande falha da Igreja em nossos dias, e também na história, porém gostaria neste momento de tratar sobre os sentimentos e atitudes daquele que caiu. O caminho de Deus para a restauração passa pelo quebrantamento. É normalmente um caminho que se tenta evitar pois é um caminho de humilhação. Outro dia reclamei com minha filha, Vivianne, sobre algo que, depois, percebi que ela não tinha feito. Fui ao seu quarto lhe pedir perdão porque errei. O sentimento é ambíguo e produz, além da tristeza do erro, uma angústia provinda da humilhação ao se reconhecer: errei. Imaginemos tal situação em uma exposição muito mais ampla, mas dura e implacável como muitas vezes são os ambientes eclesiásticos. A tentativa de fuga é certa, porém não é o melhor caminho. Não há restauração sem que se reconheça e assuma a responsabilidade pelo erro.

Permita-me endereçar líderes que possuem grande dificuldade de pedir perdão de maneira verbal e clara, ou de voltar atrás em decisões tomadas mesmo quando francamente equivocadas. Esta postura provém de um coração soberbo. Uma soberba que lhe faz pensar (mesmo que não de forma gráfica) sobre a sua superioridade. Talvez nutrida pelo seu conhecimento, ou sua posição de liderança, ou sua função de destaque, seus ganhos e merecimentos. Perceba, porém, que este é o caminho de morte. Seu coração, ao  negar  procurar o outro e falar: errei, perdoa-me, se lança em uma rota de colisão com o temor do Senhor e a sabedoria, o entendimento de que somos todos igualmente dependentes da graça de Cristo para viver. Líderes muitas vezes imaginam que sua autoridade estaria sendo questionada se assim o fizessem não se lembrando que aquilo que está em jogo é muito mais valioso do que nossa temporária autoridade. É nosso eterno coração.

Há também aqueles que, para reconhecerem um erro e assumirem a responsabilidade o fazem sob protesto e acusações. Refiro-me aos que, perante seu próprio pecado, racionalizam que o outro também pecou, ou é um agressor maior, que não foi leal ou submisso. Grande erro. Estas razões não passam de sombras nas quais tentam esconder seus próprios corações da humildade necessária para o quebrantamento.

Líderes inacessíveis correm grande risco de seguirem o caminho da soberba e altivez, sem ter quem lhes alerte. Não ande só e aproveite as oportunidades que tem para se humilhar, educando assim o seu coração a aprender o que é bom, e estar no caminho certo.

Leon Tolstoi sabia que “todos pensam em mudar a humanidade, mas ninguém pensa em mudar  a si mesmo20” atestando que é sempre mais fácil falar sobre os problemas universais do que sobre o pecado do coração.  E Wertheimer escreveu que “somente depois de as termos praticado é que as faltas nos mostram quão facilmente as poderíamos ter evitado21”.

Nenhum de nós está isento da possibilidade do erro. Uma das admiráveis atitudes de Davi foi justamente assumir integralmente a sua responsabilidade quando Natan, após falar sobre um que roubara a única ovelhinha do vizinho, afirmou: “este homem és tu”22. Davi não deu desculpas. Não racionalizou dizendo: outros fizeram pior do que eu. Nem mesmo tentou explicar suas motivações. Caiu de joelhos e colocou-se nas mãos de Deus. O coração de Davi dizia: “sou responsável”, e este tornou-se o homem segundo o coração de Deus.
Que Deus nos ajude a administrar o orgulho e a vergonha, também a humilhação, a fim de assumirmos a responsabilidade pelo pecado e seguirmos em frente no perdão transformador do Senhor.

Aprender com os erros 

Precisamos compreender que integridade não é uma atitude medida pela ausência de erros, mas pela decisão em não repeti-los.

Quando assumimos responsabilidades o fazemos também em relação aos nossos erros. Precisamos compreender que integridade é um hábito que se ganha na rotina diária quando procuramos agir de forma pura e justa, e mesmo quando isto não acontece, devemos aprender com nossos erros.

Para que assim caminhemos será preciso, primeiramente, desmistificá-los. Dale Carnegie escreveu, na década de 50, o livro Como Evitar Preocupações e Começar a Viver23. Neste livro Carnegie ensina que devemos deixar o medo de encarar os nossos erros. Devemos analisá-los e compreendê-los. Ele usa William James para nos ensinar que a aceitação do que aconteceu é o primeiro passo para se vencer as conseqüências de qualquer infortúnio.

Pensando em líderes devemos compreender o que muito bem foi colocado por Kevin Cashman24 ao expor que a habilidade que temos de crescer como líderes é limitada pela habilidade de crescermos como pessoas. Jamais devemos distinguir nossa função de liderança (mesmo porque é passageira) de nossa identidade pessoal. Um grande engano em época de empreendedorismo é um auto investimento no perfil de liderança. Não que isto não seja efetivo, porém é passageiro. Investir tempo, forças e energia para se qualificar como um bom líder pode lhe privar de investir tempo, forças e energia para crescer como pessoa e crente. Como líder posso dar-me ao luxo de seguir em frente mesmo tendo cometido erros, porém como pessoa e cristão meus erros, após praticá-los, se tornam minha melhor oportunidade de conserto e crescimento.

Muito se fala sobre aprender com os próprios erros, porém pouco se vê neste sentido. Um dos principais motivos para a tendência de sermos recorrentes nos mesmos erros é a ausência de entendimento sobre eles. Tenho um amigo que possui um temperamento explosivo. Diversas vezes isto se tornou motivo de brincadeiras que ele próprio faz sobre seu temperamento. Ao observarmos alguma alteração desnecessária no tom da sua voz ele rapidamente já se justifica dizendo que tem um temperamento forte. Esta é justamente a forma inadequada de lidarmos com nossos erros: observando-os passivamente, justificando-os e racionalizando-os. Não raramente nos pegamos pensando em pessoas com problemas mais graves tão somente para nos escondermos da óbvia necessidade de sermos confrontados e crescermos. Muitos erros não são advindos de queda espiritual ou moral objetiva mas tão somente da ausência de crescimento. Alguns de nós não tiveram a oportunidade de amadurecer e carregamos as mesmas manias e birras de quando éramos crianças, gerando grandes perdas pessoais e para muitos ao redor.

Para aprendermos com nossos erros é necessário levá-los a sério. Um temperamento explosivo não é apenas um temperamento forte mas algo que machuca pessoas, entristece o Espírito Santo pela falta de domínio próprio e nos pretere de vivermos mais tranqüilos com nossas próprias reações. A crítica não é apenas uma questão de objetividade, ou ser direto, como muitas vezes justificamos. A crítica compulsiva é um agente do diabo para a destruição da vida alheia. Um desencorajamento que pode marcar uma pessoa pelo resto de sua vida além de um mecanismo que faz o coração do crítico adoecer com a amargura. Não conheço pessoas críticas felizes.

A desavença relacional não é apenas um problema de percurso visto que todos tem problemas com relacionamento como podemos pensar. Desavenças relacionais repetitivas com pessoas diferentes indicam que algo está errado em nossa forma de lidar com o próximo.  É certo que muitos problemas relacionais não advém de pecado mas tão somente de perfis distintos ou distintas maneiras de enxergar uma só coisa. O que provém desta diversidade, seja de perfil ou de observação, é que pode se tornar pecado. Quando meu olhar de superioridade impede que meu irmão sinta-se bem ao meu lado. Quando minha fraqueza carnal me impede de andar duas milhas mesmo que outros já tenham feito o mesmo comigo tantas vezes. Quando a minha exigência de perfeição projetada no outro cobra dele uma postura impossível levando-me a julgá-lo por aquilo que não pode ser ou não pode dar. Ao assim fazermos teremos adoecido o coração.

C.S.Lewis nos ensina que “quando um homem se torna melhor, compreende cada vez mais claramente o mal que ainda existe em si. Quando um homem se torna pior, percebe cada vez menos a sua própria maldade”25. Para aprendermos com nossos erros é necessário levá-los a sério, conversar com o Pai sobre eles, pedir forças para mudarmos e amadurecermos, crescermos um pouco mais.

Cuidar do seu coração

O Senhor sonda nosso coração, portanto é nossa imagem interna, e não externa, que precisa de maior cuidado. Em dias de ufanismo e triunfalismo somos levados a procurar sempre o que nos destaca, ou destaca o nosso trabalho. Um grave engano visto que o Senhor não sonda nossos relatórios mas sim nossos corações. Dr. Augustus Nicodemus, profundo expositor da Palavra, afirma que Deus não nos chama para termos sucesso sempre mas sim para sermos fiéis.

Compreender a marcante diferença entre caráter e reputação  não pressupõe que faremos uma escolha legítima. É preciso estar disposto a priorizar a verdade. Abraham Lincoln gostava de afirmar que “caráter é como uma árvore e reputação a sombra. A sombra é o que nós pensamos sobre isto. A árvore é a realidade”26.
Muitas vezes confundimos inteligência, conhecimento e sabedoria. Podemos aplicar as palavras “a inteligência é uma espada ... o caráter a empunhadeira”, de Bodenstedt, dizendo que é o caráter que delineará  a sabedoria no agir. Outras vezes confundimos temperamento brando com bom caráter. Ao contrário, como disse Pierre Azaïz, “o caráter é a esperança do temperamento”.  Um temperamento brando, quieto ou mais vagaroso pode dar a impressão de domínio próprio e esconder as paixões mais carnais.

E neste processo é importante termos uma visão correta a nosso próprio respeito. Quem afinal somos nós? Quem define a nossa identidade? A verdade é que muitas vezes não somos quem as pessoas pensam que nós somos, pois mesmo os amigos mais chegados nos conhecem apenas a partir dos sinais externos.  Nossas emoções, os medos secretos, as esperanças pessoais, os paradigmas da alma, estes formam um cenário totalmente desconhecido por aqueles que se colocam ao nosso lado.

Mas também não somos quem nós pensamos que somos. Isto porque o nosso poder de auto compreensão é por demais limitado. Somos enganados pela falsa sinalização dos sentidos, pelas nossas próprias tendências subconscientes além da óbvia falta de capacidade de um completo auto conhecimento. Aristóteles, filósofo grego e aluno de Platão, já afirmava que “somos seres desconhecidos. Especialmente eu”.

É, portanto, necessário aceitar que nós somos quem o Senhor diz que nós somos. A verdade a nosso respeito não está guardada em um arquivo na casa do amigo nem mesmo em nossa própria posse. Está no julgamento de Deus. Ele nos “sonda e nos conhece”27 e julga-nos com exatidão, pesa a nossa alma e categoriza todos os nossos sentimentos mais profundos.  Você é quem Deus diz que você é.

Convictos desta verdade é preciso crescer. Não priorize o crescimento da sua reputação, ministério ou carreira. Priorize o crescimento do seu caráter.

Neste capítulo conversamos sobre a integridade de coração e gostaria de lhe convidar a refletir um pouco sobre estas verdades aplicando-as em sua vida particular. Mencionei que a integridade vai além da sinceridade, que ela deve perdurar na inconstância, é vista nos detalhes e se traduz nas atitudes. Nestas atitudes, dando um contorno mais prático e visível aos valores da integridade de coração sugeri calar-se, evitando sempre se defender, não negociar a verdade, assumir a responsabilidade do erro, aprender com eles e cuidar do seu coração.

Perante esta conversa e estes assuntos gostaria de lhe perguntar: como está a sua vida com Deus? Não me refiro aqui a seu ministério, realizações, títulos ou reconhecimento público. Deixemos isto tudo de lado por um momento, baixemos a guarda e na presença do Pai peça que Ele, que sonda os corações, lhe traga à memória aquilo que necessita de conserto, de perdão, de molde e quebrantamento.

É neste campo, privado e particular dos nossos corações, que as verdadeiras batalhas são travadas. Não se apresse em seguir adiante para o segundo capítulo. Tire um tempo, o que necessário for, para ponderar sobre a sua vida com Deus. Antes de refletir e ponderar, ore como o salmista: “Sonda-me ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno”28.

domingo, 19 de julho de 2015

O QUE É SALVAÇÃO PELA FÉ SOMENTE?

  Procurei resumir abaixo o que entendo ser o ensino bíblico acerca deste assunto, que é o mais importante e urgente para nossas vidas, e sobre o qual existe tanta confusão até mesmo entre os evangélicos.
1. Todas as pessoas são carentes de salvação, pois todas elas, sem qualquer exceção, são pecadoras. Isto significa que elas, em maior ou menor grau, quebraram a lei de Deus e se tornaram culpadas diante dele. Esta lei está gravada na consciência de todos, disposta nas coisas criadas e reveladas claramente nas Escrituras - a Bíblia. Ninguém consegue viver consistentemente nem com seu próprio conceito de moralidade, quanto mais diante dos padrões de Deus. Como Criador, Deus tem o direito de legislar e determinar o que é certo e errado e de julgar a cada um de acordo com isto.
2. Ninguém é bom o suficiente diante de Deus para obter sua própria salvação ou de fazer boas obras que o qualifiquem para tal. O pecado de tal maneira afetou a natureza do ser humano que sua vontade é inclinada ao mal, seu entendimento é obscurecido quanto às coisas de Deus e sua fé não consegue se firmar em Deus somente. Sem ajuda externa - a qual só pode vir do próprio Deus - pessoa alguma pode obter ou receber a salvação da condenação e do castigo que seus próprios pecados merecem.
3. Deus enviou Seu Filho Jesus Cristo ao mundo para morrer por pecadores, de forma que eles pudessem obter esta salvação a qual, de outra forma, seria inalcançável. Jesus Cristo, por determinação e desígnio de Deus, morreu na cruz como sacrifício completo, perfeito, único, suficiente e eficaz pelos pecados. Ele ressuscitou física e literalmente de entre os mortos ao terceiro dia, vencendo a morte e o inferno, e subiu aos céus. Assim, somente em Jesus Cristo as pessoas podem encontrar a salvação da culpa e condenação de seus pecados. E fora dele, não há qualquer possibilidade de salvação, diante dos pontos 1 e 2 expostos acima.
4. As pessoas tomam conhecimento da pessoa e da obra de Cristo mediante o Evangelho, o qual é pregado ao mundo todo. Sem o conhecimento do Evangelho, é impossível para as pessoas se salvarem. Cristo é a luz do mundo, o caminho, a verdade e a vida, e ninguém pode ir ao Pai senão por ele. Este Evangelho está claramente exposto na Bíblia, e é por ouvir a Palavra que vem a fé em Jesus Cristo. Com respeito àqueles que nunca ouviram falar de Cristo, o Deus justo haverá de tratá-los sem cometer injustiça e em conformidade com a luz que receberam, quer da sua própria consciência, quer da natureza. Todavia, não poderão alegar desconhecer a lei de Deus.
5. Mediante a fé em Jesus Cristo, como seu único e suficiente Salvador, as pessoas, quem quer que sejam, de qualquer país ou cultura, sem distinção alguma de raça, sexo, posição social ou educação, são perdoadas completamente de seus pecados, aceitas por Deus como filhos e recebem o Espírito de Deus como selo e penhor desta salvação, iniciando assim uma nova vida neste mundo. Nesta nova vida, elas demonstram arrependimento pelas obras más cometidas, humildade e constante penitência diante de Deus, aliadas a uma grande alegria e gratidão a Ele por tão grande e completa salvação. A certeza que eles têm aqui nesta vida de terem sido salvos da condenação eterna não decorre de seus méritos ou obras - os quais eles não possuem - mas da graça e do favor de Deus. Por isto falam desta salvação não em termos arrogantes, mas humildemente, como pessoas que foram misericordiosamente salvas do justo castigo que mereciam.
6. A fé salvadora não é uma força emocional mística. Antes, é a confiança que parte de um coração regenerado por Deus em todas as suas promessas, principalmente aquela de vida eterna na pessoa de Jesus Cristo, Seu Filho. Esta confiança envolve uma compreensão básica do que o Evangelho nos diz sobre Cristo e sua morte e ressurreição e um assentimento intelectual a estes fatos. Como nem esta compreensão e nem mesmo a fé têm origem na capacidade humana, afetada como está pelo pecado, segue-se que a salvação, tendo custado um alto preço que foi a morte de Cristo, é dada gratuitamente por Deus. Ela não depende de obras, mérito, esforço ou qualquer outra coisa que tenha origem no ser humano. É puramente pela graça, mediante a fé.

sábado, 11 de julho de 2015

O CAMINHO DA SALVAÇÃO — A Relação entre Fé e Obra !

O CAMINHO DA SALVAÇÃO — A Relação entre Fé e Obra em Tiago 2
A Palavra de Deus é muito clara com respeito à condição para a salvação. Deus nos mostra que a salvação é por fé e não por obras. Lemos as Escrituras o suficiente e vimos razões suficientemente claras por que nossas obras não podem ser levadas em consideração. Por crermos na obra de Deus por meio do Seu Filho, nossas próprias obras não devem existir. Contudo, alguns que não compreendem as palavras da Bíblia têm vindo a mim, perguntando: “Não é verdade que o livro de Tiago diz-nos claramente que um homem não é justificado pela fé, mas pelas obras? É possível que Tiago e Paulo se contradigam? É possível que o homem seja justificado tanto pela fé como pelas obras?” Essas pessoas acham que Tiago e Paulo não concordam um com o outro. Eles pensam que os livros de Romanos, Gálatas e Tiago também não concordam entre si. Tenho de usar a expressão de Paulo: “Certo que não!” Vamos ao livro de Tiago e vejamos o que ele mesmo tinha a dizer.
Quando lemos o livro de Tiago, devemos tomar cuidado com uma coisa. Podemos ler somente o que está dito; não podemos adicionar a ele nossos próprios conceitos. O que deve ser levado em conta é o que Tiago disse. O que for acrescentado não deve ser considerado. Não leia seus próprios pensamentos no livro de Tiago. Você deve ver o que Tiago disse e não o que ele não disse.

   O TEMA DE TIAGO É MISERICÓRDIA — JUSTIFICAÇÃO É SECUNDÁRIO
Vamos ler Tiago 2:14-26. Contudo, antes de lermos essa passagem, quero fazer uma pergunta: Qual é o contexto desses versículos? Paulo escreveu o livro de Romanos com um tema em mente. Ele também escreveu Gálatas com um tema em mente. Romanos diz que o homem é justificado pela fé; Gálatas diz que o homem não é justificado pelas obras. Romanos fala do lado positivo; Gálatas fala do lado negativo. Romanos declara positivamente como o homem é justificado; Gálatas argumenta, do lado negativo, como ser justificado e como não ser justificado. Portanto, os dois livros, Romanos e Gálatas, complementam-se. O tema desses livros é estritamente a justificação. Eles tratam especificamente do problema da justificação. Um trata do problema do lado positivo; o outro, do lado negativo.
Muitas pessoas acham que Tiago 2 é um capítulo difícil. Qual é o tema de Tiago 2? O tema de Romanos é a justificação e o de Gálatas também é justificação. Mas qual é o tema de Tiago 2? O tema desse capítulo compreende pelo menos a misericórdia e a ajuda aos outros. Que dizem os versículos anteriores a essa porção? Começando do versículo 6, Tiago diz: “Entretanto, vós outros menosprezastes o pobre. Não são os ricos que vos oprimem, e não são eles que vos arrastam para tribunais? Não são eles os que blasfemam o bom nome que sobre vós foi invocado? Se vós, contudo, observais a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem; se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo argüidos pela lei como transgressores. Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Porquanto, aquele que disse: Não adulterarás, também ordenou: Não matarás. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei. Falai de tal maneira e de tal maneira procedei como aqueles que hão de ser julgados pela lei da liberdade. Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo” (vs. 6-13). O tema desses versículos é a demonstração de misericórdia. Tiago diz-nos não para favorecer o rico, mas, pelo contrário, para cuidar dos humildes e mostrar misericórdia para com o pobre. Isso é o que os versículos de 1 a 13 dizem. Além disso, o versículo 1 é uma continuação do capítulo 1. O último versículo do capítulo 1 diz: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo” (v. 27). Esse é o tema de Tiago. Se um homem disser que é um cristão piedoso, sua piedade deve ser manifestada no seu cuidado pelos órfãos e viúvas e na sua oferta a eles. Ele não deve convidar alguém que use vestes ricas para sentar-se em um bom lugar e pedir que os órfãos, as viúvas e o pobre sentem-se debaixo do estrado de seus pés. Ele deve cuidar, mostrar misericórdia e suprir os desprezados. O assunto de Tiago é a religião pura e sem mácula. A religião pura e sem mácula é manifestada para com o pobre, o humilde e o desprezado.
Após 2:14, ele continua a falar sobre o suprir: “Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso?” (vs. 15-16). No final do capítulo um, o tema de Tiago é revelado, qual seja, cuidar dos órfãos e viúvas. Ao final da primeira seção do capítulo dois, ele diz que devemos mostrar misericórdia para com os outros, que devemos suprir o pobre e não desprezá-lo. Na segunda seção do capítulo dois, Tiago nos diz o que alguém deveria fazer quando vir um irmão ou irmã sem vestimenta e carente do sustento diário. Todas essas palavras têm a ver com dar aos outros, mostrar misericórdia para com outros, não desprezar o pobre e ajudar os outros. Os versículos de 14 a 26 falam superficialmente sobre justificação. A questão da justificação é mencionada somente de passagem. Por ser a misericórdia, o dar e o cuidar dos órfãos e viúvas o tema, a justificação é mencionada somente de passagem, como meio de chegar à meta no desenvolvimento de seu tema. Portanto, vemos que Tiago não está ensinando a questão da justificação no seu livro.
O tema de nossas reuniões nessas duas semanas passadas tem sido a salvação de Deus. Mas suponha que nesse período eu me levante na manhã de domingo e dê uma mensagem, não sobre salvação, mas sobre vencer ou sobre o reino ou sobre como reinar com o Senhor Jesus no milênio. Aquele seria o tema da minha mensagem. Enquanto falasse, poderia mencionar de passagem oito ou nove sentenças sobre salvação. Se você desejasse compreender a doutrina da salvação, não consideraria as outras mensagens que dei no restante das duas semanas? Você ignoraria tudo aquilo que foi falado em duas semanas e tomaria apenas as oito ou nove sentenças que ouviu naquela única mensagem? Romanos e Gálatas tratam especificamente de justificação, enquanto Tiago somente menciona umas poucas palavras sobre ela. O seu tema não é a justificação, tampouco é seu propósito ensinar justificação. Seu objetivo é exortar os outros a dar; a questão da justificação é mencionada apenas de passagem. Uma pessoa não pode destruir Romanos e Gálatas com as poucas palavras de Tiago sobre justificação. Tiago, então, está em conflito com Romanos e Gálatas? Em breve você verá que não. Mas desde o início, quero que compreenda precisamente o tema de Tiago. Ele não falou sobre justificação. Ele falou sobre misericórdia, sobre cuidar e sobre o que alguém deve fazer pelos órfãos e viúvas.
A FÉ SEM OBRAS É DE NENHUM PROVEITO
O versículo 14 diz: “Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras?” Repare que Tiago não diz que esse homem tem fé em Deus. Não acrescente a esse versículo o que Tiago não diz. Tiago não diz se esse homem é cristão ou não. Ele só diz que esse homem diz ter fé. Não levando em conta se ele tem obras ou não, esse homem não deveria dizer que tem fé. Se você de fato tiver fé diante de Deus, não há necessidade de falar sobre isso. Paulo diz que o que crê é justificado. Ele nunca diz que o que diz ter fé é justificado. Certamente ninguém é justificado apenas por dizê-lo. Não sei como é o homem mencionado aqui. Não sei se ele tem fé ou não. Tiago não diz que ele verdadeiramente tem fé. O que vemos, entretanto, é um homem orgulhoso. Ele pode ou não ter algo dentro dele. Contudo, quer tenha algo ou não, ele gosta de se mostrar diante dos outros. Ele gosta de imprimir fé em seu cartão de visita e mostrar às pessoas que tem fé. Portanto, Tiago diz: “Meus irmãos, (...) se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” Se você vir um homem que não se preocupa o mínimo com seu comportamento, que é livre para fazer qualquer coisa, mas diz que crê em Jesus, você diria a mesma coisa que Tiago. Você também perguntaria que proveito há se alguém diz ter fé, mas não tem as obras. Talvez ele estivesse brigando ou discutindo com alguém há um minuto, e agora diz que tem fé. Se essa pessoa não tivesse dito nada acerca de ter fé, Tiago não teria dito nada a ela. O motivo de Tiago ter dito algo, é que alguns não têm as obras e, no entanto, se gabam. Você já encontrou pessoas assim? Estes tais gostam de se gabar. Gostam de ser exaltados e glorificados. Não somente Tiago teve de subjugar esse tipo de pessoa; também nós devemos subjugá-las.
Portanto, Tiago não está falando sobre ter fé ou não ter fé. Tampouco está falando de obras para os que têm fé. Tiago está falando especificamente sobre obras para os que dizem ter fé. Ele não trata das obras de cristãos, mas das obras dos que se dizem cristãos. Ele está tratando das obras dos membros nominais da igreja e dos cristãos nominais que dizem ter fé. Tiago 2 diz “se alguém”. Não diz “se algum cristão”.
O versículo 14 prossegue dizendo: “Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” Que é “semelhante fé”? Se a fé não pode salvá-lo, que pode, então? Tiago refere-se à “semelhante fé”, não simplesmente à “fé”. Se a fé não pode salvar-nos, não precisamos mais pregar. Contudo, Tiago refere-se à “semelhante fé”, isto é, a fé que alguém tem em seus lábios. Não distorça o que Tiago está dizendo. Ele não está falando sobre a fé salvando esse homem. Ele está falando sobre aquele tipo de fé salvando-o, isto é, o tipo de fé que alguém tem somente nos lábios. Não sei se você já conheceu pessoas assim. Eu conheci. Dizem que são cristãos, que crêem nisso e naquilo, e que sua fé é isso e aquilo. Pode essa fé salvá-los?
A FÉ SEM OBRAS É MORTA
Nos versículos 15-16, Tiago dá uma ilustração. “Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser”. Este é o homem que diz ter fé. Ele diz aos irmãos e irmãs em necessidade: “Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos”. Se você perguntar a essa pessoa por que ela diz aos outros para ir em paz e por que deseja que sejam aquecidos e alimentados, ela lhe diria que é porque tem fé. Ela lhe diria que acredita que eles serão vestidos com roupas quentes e alimentados abundantemente ao irem para casa. Ela diria que acredita que eles podem ir para casa em paz. Tiago está falando do tipo de fé que crê que estômagos vazios são enchidos automaticamente, e corpos nus são instantaneamente vestidos.
“Sem, contudo, lhes dardes o necessário para o corpo, qual é o proveito disso?” O propósito da ilustração de Tiago não é o de discorrer sobre justificação. Pelo contrário, é de exortar os irmãos e irmãs a adotar medidas práticas. Nosso amor para com os irmãos e irmãs não deve ser somente de palavras, mas igualmente ser evidenciado na conduta. Se vir alguém necessitando de roupa e comida, você deve dar-lhe roupa e comida. Você deve cuidar dele. Essa é a razão de Tiago dizer isso. Tiago é contra alguém dizer: “Vá em paz, pois eu já cri por você”. Tiago diz aqui que agora não é o momento para você crer; agora é o momento para você abrir sua carteira. Nesse momento, para você, a fé não é a questão; a questão é o soltar seu dinheiro. Se você agarra-se firmemente à sua carteira e diz aos outros para irem em paz, dizendo que tem fé, qual o benefício desse tipo de fé? Se você deparasse com um irmão ou irmã pobre e não desse tudo o que tem para ajudar e cuidar dele, mas somente dissesse que crê por ele e que ele pode ir em paz — fosse esse o tipo de fé que você exercitasse ao crer no Senhor Jesus, será que tal fé o salvaria? Se esse é o tipo de fé que você exercita para com os irmãos e irmãs, e se esse é o mesmo tipo de fé que tem quanto à sua justificação, então eu duvido que esse tipo de fé irá justificá-lo. Tiago mostra que se esse é o tipo de fé que você possui para com os irmãos e irmãs, então talvez esse também seja o tipo de fé que você tenha para com o Senhor Jesus. Se a fé que tem para com os irmãos e irmãs é a mesma que tem com relação à salvação e justificação, duvido que semelhante fé possa salvá-lo. Se não houver base para o seu crer em roupas quentes e alimento abundante, então não haverá base para a sua fé na salvação e justificação. Contudo, se vir um irmão em pobreza e der-lhe dinheiro, roupa ou comida, e então crer, haverá base para sua fé.
Quando Deus o viu nu, faminto e pobre, foi assim que Ele disse: “Fique aquecido e saciado. Que você nunca vá para o inferno. Que você vá para o céu”? Se a fé de Deus fosse como a sua, ninguém seria salvo na terra. Mas, que fez Deus? Quando Ele nos viu pobres, famintos, nus, e mortos em pecado, Ele veio cumprir a obra da redenção a fim de que pudéssemos ser salvos. Graças ao Senhor. Primeiramente, Ele demonstrou Sua obra diante de nós; a seguir nós a recebemos. A sua fé para com os irmãos e irmãs é uma fé vã? Se Deus fosse vão com você, tudo sem dúvida seria vaidade. E, se você é fútil para com Deus, sua fé, sem dúvida, também é vazia. Sabemos que somos justificados e salvos e que temos a vida eterna. Por que é assim? É porque Deus não está assentado nas nuvens dizendo: “Que todos em todo o mundo sejam salvos e que ninguém vá para o lago de fogo”. Pelo contrário, Deus desceu pessoalmente do céu para levar a cabo a Sua justiça e tratar com o pecado na cruz. Por Deus ter realizado uma obra concreta, hoje podemos ter fé. Essa é a razão de nossa fé, hoje, ser digna de confiança.
O versículo 17 diz: “Assim também a fé, se não tiver obras, por si só está morta”. Tiago não diz que um homem não é salvo pelo crer. Ele não quer dizer que um homem não é justificado ou não tem a vida eterna pelo crer. Ele quer dizer que ao ouvir tais palavras desse tipo de pessoa, você sabe que a fé dela é morta. Se você pedisse a Paulo para vir aqui hoje e comentar sobre isso, até ele mesmo diria que esse tipo de fé é morta. Se alguém simplesmente diz que tem fé, mas não tem uma expressão exterior disso, essa fé deve ser morta. Pois não importa quão grande seja a fé de alguém, os outros ainda precisam de veste e comida. Eles não podem cobrir sua nudez com a luz do céu. Tampouco podem comer o ar para satisfazer sua fome. Portanto, uma fé sem obras é vazia e morta.
DEMONSTRAR FÉ POR MEIO DAS OBRAS
O versículo 18 diz: “Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé”. Se uma pessoa fútil e arrogante ficar se gabando, alguém por fim se levantará e dirá: “Você diz que tem fé. Mas onde está ela? Fique quieto. Você tem fé, mas eu tenho obras”. Note que esta pessoa não diz que tem somente obras; ela não diz que não tem fé. Isso não é o que um cristão diria. Ele diz: “Você tem fé e eu tenho obras. Hoje dei de comer a alguém. Hoje dei roupas a alguém. Por favor, mostre-me sua fé sem obras. Que benefício há se você apenas fala sobre essas coisas?” Você pode ver o significado dessas palavras? Ao lê-las, você deve dar atenção ao tom. Quando lê Tiago, a coisa mais importante é considerar o tom. Se prestar atenção ao tom aqui, terá de admitir que essa palavra é dita para uma pessoa fútil e arrogante. Tiago, aqui, está falando da prática; ele não está tratando da justificação pela fé.
Devemos considerar a palavra mostrar aqui. Essa pessoa diz: “Mostra-me” e “te mostrarei”. Portanto, Tiago 2 não fala de um homem ter fé ou não perante Deus. Tampouco trata de nossa fé perante Deus; pelo contrário, trata da nossa fé diante dos homens. Se alguém se vangloria diante do homem de que tem fé, você deve dizer a tal pessoa: “Mostre-me sua fé sem obras”. Tiago 2 trata do problema da fé diante dos homens. Ninguém pode ver se você tem fé ou não. Outros vêem somente se você tem obras, isto é, se alimenta os outros e dá roupas para que se vistam. Você percebe que isso também requer fé? Suponha que haja um irmão ou irmã aqui, nesta noite, que tenha carência de roupas ou comida. Se disser a ele ou a ela que, uma vez que creiamos, seremos vestidos e alimentados, isso não é suficiente. Tiago diz que temos de alimentá-lo e vesti-lo e ao mesmo tempo devemos ter fé. Você percebe que a fé é necessária para se dar sustento aos outros? Essa fé provém de dois lados. Se não tiver muito dinheiro, talvez umas poucas moedas em meu bolso, e vir alguém sem comida e roupa, tenho de exercitar a fé. Não preciso ter fé pelos outros; para com eles preciso de obras somente. Todavia, por mim mesmo, preciso de fé. Se não tiver fé, provavelmente não serei capaz de dar essas poucas moedas até que tenha reconsiderado e contado algumas vezes mais. Vou querer saber se serei capaz de conseguir de volta o que vou dar. Mas se puder dar espontaneamente as poucas moedas, isso deve significar que tenho fé. Portanto, ao ver um homem pobre e dar-lhe comida e veste, você deve ter fé antes que possa ter as obras. Sem as obras, sua fé não pode ser manifestada. Além disso, mesmo que você seja rico e que não precise de muita fé para dar um pouco, como sabe que após ter dado o dinheiro, isso não prejudicará aquele que recebeu, levando-o a procurá-lo novamente a fim de que você carregue o fardo dele? Se fizer o bem aos outros indiscriminadamente, isso não faria com que buscassem ajuda no homem continuamente? Muitas vezes não damos nada aos pedintes por temer que agindo assim façamos deles eternos pedintes. Assim, mesmo que seja uma pessoa rica, você deve ter fé de que Deus pode impedir que a pessoa desenvolva o mau hábito de dependência e confiança nos outros. Você deve crer que Deus não quer fazê-lo carregar o fardo dessa pessoa continuamente. Isso é uma obra, mas é uma obra de fé. É uma obra que provém da fé.
Aquele que faz grandes promessas e profere palavras vazias parece ter uma grande fé. Contudo, na verdade, ele não tem fé alguma. Se você tiver fé, deve tirar seu casaco e deixar que outro o vista. Deve convidar outros a comerem sua comida. Se apenas falar de fé, você não a tem. Portanto, Tiago concluiu que este tipo de falar é pecado. O ponto aqui não é que fé é errado, mas que falar palavras vazias é errado. No capítulo anterior falamos sobre fé. No penúltimo também falamos sobre fé. Contudo, ainda não demos atenção a esse tipo de fé. Visto que Tiago era contra ela, nós também nos opomos a ela. É inútil falar palavras vazias.
O versículo 19 diz: “Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem, e tremem”. Essa é uma palavra dura. Você crê que Deus é único. Faz bem em crer assim. Os demônios crêem nisso também, contudo eles tremem. Por favor, considerem a palavra e. A questão hoje não é se você crê ou não. Se disser que crê, ninguém pode dizer o contrário. O problema é que até mesmo os demônios crêem. Todavia, eles não têm paz. Os apóstolos não escreveram aos demônios, dizendo: “Paz seja convosco. Que Deus possa abençoá-los e aos anjos caídos”. Apesar de os demônios crerem, eles tremem. Esse tipo de fé não faz bem a eles. Sua fé faz com que tremam e percam a paz. Se você diz que crê, o seu crer é do mesmo tipo que os demônios têm? As palavras de Tiago são muito fortes e afiadas. Sem dúvida, você crê em Deus. Contudo, os demônios também o crêem. Você diz que crê, mas ao mesmo tempo treme, sente medo e fica nervoso. Portanto, você está na mesma posição dos demônios. Ao continuar a leitura, compreendemos a que Tiago se opõe. Tiago não é absolutamente contra a fé. Ele é contra certo tipo de fé. Tiago não está dizendo que a fé não justifica. Ele está simplesmente dizendo que este tipo de fé não justifica.
No versículo 20, Tiago chama essas pessoas pelo nome. Ele as chama pelo que são. Ele não as chama de irmãos e irmãs. Ele não as chama de seus amados, como Paulo fazia; tampouco as chama de pais ou filhinhos, como fazia João. Pelo contrário, ele as chama de insensatas. “Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante?” Note as palavras queres, pois. Por Tiago ter dito isso prova quão insuportável era a atitude delas. Quando outros falavam a Palavra de Deus a elas e as admoestavam, ainda assim não criam. Portanto, Tiago pergunta se elas queriam ficar certas de que essa espécie de fé é morta. Não que fossem incapazes de saber ou de ter clareza. Não é que ninguém as ensinasse. É simplesmente uma questão de não estarem interessadas em saber. Suponha que eu tente falar a um irmão, e ele olha para outro lado. Ao tentar novamente, ele olha para outra direção. Tentando pela terceira vez, ele começa a falar com outro irmão. Então eu diria: “Irmão, você quer ouvir-me ou não?” Isso é o que Tiago está falando aqui. Vocês estão dispostos a entender que esse tipo de fé sem obras é morta?
Ao lermos a Bíblia, devemos pedir a Deus que nos mostre as circunstâncias em que aquela porção foi escrita. Tiago chama esse tipo de pessoa de insensatos. Eles colocam tudo às claras para que outros vejam e comentem, e assim exibem a si mesmos. Eles querem tomar parte em tudo. Querem falar alto onde quer que estejam. Tiago diz que esse tipo de pessoa deve ser subjugado. ‘Ó homem insensato, você está disposto a saber que esse tipo de fé é inútil?’ Visto que não ouviram após ter-lhes falado tanto, ele tem de ironizar e gritar um pouco com eles.
O EXEMPLO DA JUSTIFICAÇÃO DE ABRAÃO
Nos versículos de 21 a 25, há dois exemplos. Ambos são muito significativos. Eles nos mostram o que a justificação pela fé realmente é. O versículo 21 diz: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque?” Tiago 2 menciona o exemplo de Abraão. Gálatas 3 e Romanos 4 também mencionam o exemplo de Abraão. Paulo diz que o homem é justificado pela fé, não por obras, e usa o exemplo de Abraão como prova. Tanto Romanos 4 como Gálatas 3 provam que o homem é justificado pela fé e não por obras. Tiago também menciona o exemplo de Abraão, mas ele o usa para provar que o homem é justificado não somente pela fé, mas também pelas obras. Se ele tivessse mencionado exemplos de outras pessoas, poderíamos não compreender essa questão. Contudo, ao mencionar o exemplo de Abraão, podemos seguramente entender o que a justificação pela fé realmente é.
Ao usar o exemplo de Abraão, Paulo refere-se a Gênesis 15, enquanto Tiago refere-se a Gênesis 22. Em Gênesis 15 Deus prometeu a Abraão que a sua descendência seria como as estrelas do céu. Em Gálatas 3, Paulo enfatiza intensamente a promessa de Deus a Abraão. No livro de Gálatas, Paulo repetidamente fala da promessa. A palavra promessa é usada com muita freqüência no livro de Gálatas. Paulo exalta a promessa em Gálatas.
Você sabe o que é uma promessa? Em todo o mundo, há somente uma única maneira para o homem receber uma promessa, que é pela fé. Não existe outra maneira para o homem recebê-la. Há somente essa única condição. Se Deus disser que devemos fazer algo e nós o fizermos, isso é obra. Mas Deus não disse a Abraão que lhe daria algo caso fizesse isso ou aquilo. Pelo contrário, Deus disse que lhe daria descendentes. Como Abraão recebeu a promessa? Não havia outra maneira senão por meio da fé. Suponha que um irmão diga a seu filho que se ele memorizar uma lista de palavras esta noite, receberá cinco doces amanhã. Se o filho quiser receber os cinco doces, ele tem de memorizar as palavras. Isso é obra. Contudo, se o pai simplesmente promete ao filho os cinco doces, que seu filho tem de fazer? Dirá ele: “Tenho de fazer isso ou aquilo antes de conseguir o doce?” O menino não tem de fazer nada. Tudo o que tem a fazer é acreditar que seu pai fará isso para ele. Em Gênesis 15 Deus não deu a Abraão uma única coisa para fazer. É como se Deus dissesse: “Eu o farei para você. Dar-lhe-ei descendentes”. Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça (Gn 15:6). Voltando ao exemplo do filho do irmão, o menino poderia dizer: “Meu pai realmente me dará cinco doces? Não parece que uma coisa boa assim possa acontecer”. Se pensar assim, ele não tem fé. Todos os que querem entender o livro de Gálatas devem perceber que uma promessa não implica condição nem obra. A pessoa não tem de fazer coisa alguma. O Pai fez tudo. Graças ao Senhor que tudo o que Deus promete Ele cumprirá. Já que Deus é fidedigno, tudo está bem. Mesmo que alguém tente fazer uma obra, ela não terá utilidade.
Em Gênesis 15 Deus prometeu a Abraão que lhe daria muitos descendentes. Abraão tinha tudo. Todavia ele não tinha filho. Ele possuía gado, ovelhas e tendas. Contudo, ele não tinha filho. Entretanto, Abraão creu em Deus. Ele creu que Deus lhe daria um filho. Ele simplesmente creu em Deus. Ele não fez nenhuma obra. No capítulo vinte e dois, após ter-lhe dado um filho, Deus disse a Abraão: “Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei” (v. 2). Então Abraão levantou-se cedo de manhã e levou seu filho ao monte Moriá. Ele colocou a lenha para o holocausto nas costas de seu filho Isaque e este a carregou, da mesma forma como o Senhor Jesus carregou a cruz. Quando chegaram ao monte, Abraão erigiu um altar, pôs seu filho sobre este, e estava prestes a matá-lo. Este é o acontecimento que Tiago relembra ao referir-se à justificação de Abraão. Em Gênesis 15 a justificação de Deus a Abraão estava relacionada com seu filho. E, em Gênesis 22, a justificação de Deus para ele também estava relacionada com seu filho.
Em Gênesis 15 Abraão não tinha filho. Contudo ele creu em seu coração que se Deus disse que lhe daria um filho, ele certamente teria um filho. No capítulo vinte e dois ele de fato teve um filho, mas Deus quis que ele oferecesse esse filho. Se Abraão não tivesse tido fé, ele teria dito: “Deus, Tu me disseste que me darias muitos descendentes. Ora, se eu matar meu filho, não perderei a todos? Não é que não queira fazer isso; apenas quero ver Tua promessa cumprida. Não que eu tema fazê-lo; simplesmente quero preservar Tua fidelidade”. Você acha que Abraão oferecer Isaque foi uma obra ou um ato de fé? Que boa obra é essa, matar o filho de alguém? Que há para se louvar em matar o próprio filho? O fato de Abraão levantar o cutelo para sacrificar seu filho mostra que ele ainda cria na promessa do capítulo quinze. Deus havia prometido dar-lhe muitos descendentes, e para esse fim Ele lhe havia dado um filho. Agora, se Deus queria que ele matasse o filho, devia ser porque Deus o ressuscitaria dentre os mortos. Isso é o que Abraão pensou quando estava prestes a matar seu filho. Sua prontidão em matar o filho mostra que ele cria que Isaque seria ressuscitado dentre os mortos. A fé em Gênesis 15 é a fé Naquele que chama à existência as coisas que não existem, enquanto a fé em Gênesis 22 é a fé Naquele que ressuscita as pessoas dentre os mortos (Rm 4:17). Em ambos os casos, o que Abraão fez não foi algo de obra, mas de fé. O ato de Abraão provou que ele tinha fé. Isso não significa que Abraão podia ser justificado matando seu filho. Significa que ao sacar o cutelo, ele provou que tinha fé. A prova da fé de Abraão estava na sua disposição de oferecer seu filho.
Portanto, Tiago não disse que não se pode ser justificado pela fé. Paulo diz firmemente que justificação não é por obras, mas Tiago não poderia dizer firmemente que a justificação não é pela fé. Se ambos se contradissessem, esperaríamos que um deles dissesse: “Justificação é proveniente da fé, não de obras”, e o outro: “Justificação é proveniente de obras, não de fé”. Contudo, Tiago não diz isso. Não devemos dizer o que Tiago não disse. Tiago não diz que não devemos ter fé; ele diz que alguém deveria demonstrar sua fé com sua obra. Paulo é alguém que fala do princípio, assim ele pode ousadamente declarar que a justificação é proveniente da fé e não de obras. Tiago é um homem de prática. Assim, ele diz que a pessoa deve ter não somente a fé, mas deve ter as obras igualmente. Somente quando existem obras o homem demonstra que sua fé é genuína. Leiamos Tiago 2:21 novamente: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque?” A oferta de seu filho foi uma obra, e foi essa obra que demonstrou que ele tinha fé.
O versículo 22 diz: “Vês como a fé operava juntamente com as suas obras”. Paulo ousa dizer que alguém pode ter apenas a fé, sem as obras. Contudo, Tiago não ousa dizer que alguém deve ter somente as obras, sem a fé. Ele indica que a fé em Gênesis 15 e a obra em Gênesis 22 andam de mãos dadas. Então ele acrescenta outra frase. Ele não diz que a justificação vem por meio da fé acrescida da obra. Pelo contrário, ele diz: “Foi pelas obras que a fé se consumou”. Em Gênesis 15 vemos que por Abraão ter fé, ele foi justificado perante Deus. Em Gênesis 22 vemos que por Abraão ter as obras, ele foi justificado perante os homens. A justificação de Abraão foi consumada pela sua obra em Gênesis 22. A oferta de Isaque em Gênesis 22 manifestou a fé em Gênesis 15, e a fé em Gênesis 15 foi consumada pela obra em Gênesis 22.
No versículo 23 nosso irmão Tiago também faz citação de Gênesis 15. Em Romanos 4 Paulo cita Gênesis 15 para provar que a pessoa precisa de fé somente, não de obras. Agora nosso irmão Tiago cita a mesma palavra que Paulo: “E se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”. Em Tiago a palavra isso refere-se ao ato no monte em Gênesis 22. Abraão ter oferecido Isaque em Gênesis 22 foi uma oferta de fé. Foi uma obra que manifestou sua fé. Foi um cumprimento das palavras em Gênesis 15, que diz que Abraão creu em Deus e foi-lhe isso imputado para justiça. Em Gênesis 15 Deus justificou Abraão devido à sua fé. A obra de Abraão em Gênesis 22 cumpriu a promessa de Deus em Gênesis15. Portanto, não podemos dizer que a fé somente não salva e que há necessidade de obras também. A condição para a salvação é a fé, não as obras. Todavia se existir fé, então espontaneamente haverá uma mudança em obras.
Suponha que haja um homem cuja ocupação seja a de fazer dinheiro de imitação para ser queimado a ídolos. Um dia ele ouve o evangelho e crê. Contudo, após crer, ele continua a fazer dinheiro de imitação. Isso está errado? Ele compreende no seu íntimo que o dinheiro de imitação é para adoração a ídolos e que um cristão não pode fazer tal trabalho. Se você perguntar se ele crê ou não no Senhor Jesus, ele diria que sim. Mas se ele desistir do seu negócio com dinheiro de imitação, como irá sustentar-se? Ele confessa que é cristão, mas não podemos dizer com certeza que seja salvo. Não sabemos se ele foi salvo perante Deus, se ele tem fé ou não. Se virmos uma pessoa que crê que o Senhor Jesus é o Filho de Deus e que Ele foi crucificado por ele, e que crê no evangelho de Deus plenamente, no entanto não desiste de tal negócio por temor de perder sua subsistência, não há como dizer se ele é realmente salvo. Talvez ele tenha fé diante de Deus. Embora a semente tenha sido semeada, o broto ainda não saiu. Somente podemos saber com certeza após as folhas saírem. Não digo que ele não seja salvo. Digo apenas que não estamos certos se ele é salvo ou não. Aqui está a diferença. Não existe questionamento sobre o ser salvo pela fé. Todavia, se nenhuma obra resultar da fé, os outros não saberão acerca desta fé. Isso não é absolutamente uma questão de bom ou mau comportamento. Perceba isso com muito cuidado. Tiago 2 não fala absolutamente sobre bom ou mau comportamento. A ênfase em Tiago 2 é sobre as obras que provam a fé de alguém. Tiago 2 não nos diz para focalizar nossa atenção em boas ou más obras. O que ele enfatiza são as obras que resultam da fé. Muitas pessoas são muito boas em suas obras. Contudo, essas obras não manifestam sua fé. São obras sem fé; não era com elas que Tiago se preocupava.
O versículo 24 é muito bom: “Uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente”. Você vê como Tiago é cuidadoso? Ele diz que uma pessoa é justificada por obras e não apenas pela fé. Paulo foi capaz de dizer que um homem é justificado pela fé e jamais pelas obras. Mas Tiago nunca disse que o homem é justificado somente pelas obras e jamais pela fé. Se ele dissesse isso, concluiríamos que os dois apóstolos têm divergências na doutrina. Tiago diz que o homem é justificado por obras. Contudo, em seguida acrescenta outra palavra: "e não por fé somente". Quando alguém tem as obras, isso prova que ele tem fé. Isso não significa que alguém deva ter somente as boas obras, mas a pessoa deve ter obras de fé.
O EXEMPLO DA JUSTIFICAÇÃO DE RAABE
Tiago temia que não tivéssemos clareza sobre o exemplo de Abraão; assim, no versículo 25 vemos outra ilustração. Ele menciona o exemplo de uma prostituta. Raabe não era uma mulher honrada. Nada havia de valoroso em suas obras. Portanto, vemos que justificação não é uma questão de boas obras, mas de obras de fé. Já repeti isso algumas vezes. O que está em questão são as obras de fé, não as obras de moralidade. “De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho?” Que tipo de boas obras é esse? Os israelitas estavam atravessando o rio Jordão para atacar Jericó. Se Raabe tivesse sido ao menos um pouco patriota, teria entregue os dois espias. Todavia, quando o rei de Jericó enviou homens para procurá-los, Raabe os escondeu no eirado. Mais tarde ela os deixou fugir. Tiago nos diz que a obra dessa mulher a justificou. Que obra ela praticou? Sua obra foi mentir. Os homens obviamente estavam ali, mas ela disse que não estavam. Mentir é uma boa obra? Todo cristão sabe que mentir não é bom. Contudo, Raabe foi justificada por sua obra de mentir. Se alguns dizem que isso é justificação por obras, é algo que dizem por si mesmos; não é o que Tiago está dizendo. Eles estão simplesmente dizendo em nome de Tiago o que querem dizer. Mas que o próprio Tiago diz? Ele diz que quando Raabe deixou fugir os dois homens que espionavam Jericó, isso foi imputado a ela para justiça.
Que Tiago quer dizer com isso? Quando os israelitas saíram do Egito e foram para o deserto, eles não puderam estabelecer-se em lugar algum, mas tiveram de vagar por quarenta anos. Que há de bom em tal nação? Pelo menos havia uma muralha ao redor da Jericó de Raabe. Tudo o que os israelitas tinham era areia debaixo dos pés. Ao menos havia casas em Jericó. Tudo o que os israelitas tinham eram tendas; até mesmo o Deus deles tinha de habitar em uma tenda. Que havia de tão especial com essa nação? Entretanto, quando os dois espias vieram e contaram-lhe como Deus havia cuidado deles, realizado milagres por eles, e havia prometido que Jericó e até mesmo toda a terra de Canaã seriam entregues a eles, as suas palavras fizeram com que Raabe cresse. Ela pôs seu próprio futuro, sua vida, e mesmo toda sua família sob a custódia deles. Ela até mesmo estava disposta a fazer algo contra seu próprio país. Deus não diz que isso foi uma boa obra; Ele diz que essa obra foi a expressão da sua fé. Se os muros de Jericó tivessem sido feitos de palha ou penas de galinha poderíamos achar que os muros poderiam de fato cair. Mas as muralhas de Jericó eram tão altas como o céu. Seus portões eram fortificados com barras de bronze. Como poderia ser tomada facilmente? Como Raabe pôde ter-se confiado aos dois espias? Isso foi uma obra proveniente da fé, e Deus diz que o que justifica uma pessoa é esse tipo de obra. Não é uma questão de bem ou mal. Não se trata de ter ou não boas obras. A carne é absolutamente inútil diante de Deus. Ela não tem lugar. Toda obra em Adão, seja boa ou má, é rejeitada por Deus. Se um homem disser aos outros que somente as boas obras salvam, essa pessoa não sabe o que é a carne. Portanto, não é uma questão de obras. Boas obras não podem justificar. Tampouco as más obras podem.
Portanto, Tiago 2 fala sobre obras da fé. Nada além disso. Raabe estava ali arriscando sua vida. Se os homens enviados pelo rei de Jericó tivessem encontrado os espias em sua casa, ela imediatamente teria perdido a vida. Mas a sua esperança era ser salva por intermédio dos espias de Israel. Ela entregou a própria vida e futuro nas mãos deles. Portanto, a questão não é boas obras ou más obras, mas o ter fé ou não ter fé. É a fé que justifica. Apesar de Tiago dizer que Raabe foi justificada por obras, suas obras foram nada mais que uma manifestação da sua fé.
Finalmente, o versículo 26 diz: “Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta”. Nosso espírito habita dentro do nosso corpo. Portanto, podemos dizer que nosso espírito é o espírito do nosso corpo. Dizemos que os espíritos malignos são espíritos que deixaram seu corpo, pois eles não têm um corpo. Há um tipo de obra que requer fé e que deve estar unido à fé. Há um tipo de obra que provém da fé e que resulta da fé. Se a fé for sem obras, ela é morta, da mesma forma que um corpo sem espírito é morto. Portanto, somos salvos por meio da fé, somos justificados por meio da fé e também recebemos vida por meio da fé. Embora haja muitas diferentes maneiras de expressar a fé, a fonte ainda é a fé. Alguns expressam-na abandonando sua profissão. Outros expressam-na por não seguir os passos de seus pais. Ainda outros expressam-na por não acompanhar o marido em certas coisas ou por abandonar sua posição. Existem todos os tipos de expressões da fé. A questão não é de boas ou más obras, mas de fé. O que Tiago está dizendo é que quando a oportunidade surge, nossa fé deve ser expressa.
Portanto, não podemos dizer que a salvação é proveniente de obras. Hebreus 6:1 menciona os princípios elementares da doutrina de Cristo. O fundamento da doutrina de Cristo é o arrependimento de obras mortas. Que é o arrependimento de obras mortas? É o arrependimento do que fizemos quando estávamos mortos. Na Bíblia, existem duas coisas das quais devemos nos arrepender. Uma é o pecado; a outra são as obras mortas. Tudo o que é moralmente errado é pecado e transgressão. Se um homem crê no Senhor, ele deve realmente se arrepender e lidar com esses pecados. Além do mais, devemos também odiar e nos arrepender do que fizemos como pessoas mortas. Que são essas obras mortas? São todas as boas obras que fomos capazes de fazer por nós mesmos antes de sermos salvos, antes de nos tornarmos filhos de Deus, antes de recebermos a nova vida e antes de nos tornarmos uma nova raça. As pessoas vêem seus pecados e transgressões pelo que elas são. Mas não vêem as coisas que consideram morais e nobres como algo de que se devam arrepender. Deus diz que são obras mortas. Elas foram realizadas quando estávamos mortos. Devemos arrepender-nos de todas essas obras, não dependendo delas para a salvação.
Ao sermos salvos, existem dois grandes arrependimentos. Um é o arrependimento por todas as coisas que não deveriam ter sido feitas. Todavia, quando a pessoa entende o evangelho e vê a obra completa da cruz do Filho de Deus, ela se arrepende por outras coisas também, que são todas as boas obras que realizou anteriormente. Antes dávamos o melhor de nós para fazer o bem, como se Deus fosse salvar-nos somente se ficasse bastante impressionado pelas nossas boas obras. Hoje, entretanto, tornamo-nos cristãos. Devemos arrepender-nos não somente dos nossos pecados, como também das nossas obras mortas. Por conseguinte, as obras mortas não podem ajudar-nos a ser salvos. Você pode dizer que alguém deveria crer no Senhor Jesus, mas também deveria ter boas obras. Mas Deus vê você como um trapo rasgado. A justiça que Deus nos concede excede em muito à justiça da lei. Portanto, se queremos achegar-nos a Deus, não somente não devemos trazer nossos pecados conosco, como também não devemos trazer as nossas obras. Se desejamos falar sobre obras, então, antes que possam ser aceitáveis, nossas obras devem ser tão perfeitas como são as de Cristo perante Deus.
Meu amigo, você deve ver que a salvação não vem de você mesmo. Deve perceber de coração que tudo é proveniente do Senhor Jesus. A fé não é uma virtude. Fé é simplesmente receber. Um dos nossos hinos1 diz: “Trabalhar não me salvará” e “Prantear não me salvará”. A última estrofe diz: “A fé em Cristo me salvará”. Quando vi pela primeira vez essa linha, imediatamente risquei e substituí por “Somente Jesus me salvará”. A fé não é uma virtude. Fé é apenas permitir que o Senhor nos salve. É como uma pessoa que cai no mar. Quando alguém chega para salvá-la atirando-lhe uma rede, ela não tem de fazer nada. Desde que não pule para fora da rede, estará bem. Tudo foi feito pelo Senhor Jesus. Aleluia! Digo novamente, nunca entenda mal Tiago 2. Obra em Tiago 2 não é uma questão de ser bom ou mau, mas de ter fé ou não.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Discipulado Segundo as Escrituras

  Minhas mais antigas lembranças giram em torno de viagens de pesca com o meu pai. Ele me ensinava a como pôr a isca, como lançar o anzol e como pegar uma peixe-gato sem ser ferido de morte. Mas pesca não era tudo o que eu aprendia. Eu aprendia sobre o meu pai. Aprendia sobre como ele andava, como falava, como brincava, como orava, como conversava e como sempre pensava na minha mãe enquanto dirigíamos para casa.

Mais do que pescar, eu aprendia sobre como ser um homem.

Até hoje, as lições que aprendi com meu pai impactam o modo como eu vivo e amo o próximo. O que acontecia naqueles momentos com o meu pai era uma forma de discipulado. Ele liderava e eu seguia.

O que é o discipulado bíblico? De todas as questões com as quais os cristãos precisam lidar, essa é uma das mais importantes. Sermos discípulos de Jesus é o próprio coração de quem nós somos e do que devemos fazer com as nossas vidas.

Neste artigo, eu sugiro que discipular – ajudar outros a seguirem Jesus – é uma consequência direta de ser um discípulo de Jesus. Discípulos são chamados a seguir Jesus e segui-lo significa ajudar outros a segui-lo.

Você é um discípulo que faz discípulos?

Discípulos seguem Jesus

Ao encontrarmos Jesus, conhecemos um homem que nos chama a vir e morrer (Marcos 8.34-35). E ele nos chama a segui-lo e a aprender dele (Mateus 4.19, 11.29). Não importa se somos espertos ou burros, ricos ou pobres, jovens ou velhos, asiáticos, africanos ou americanos. O único requisito é que nos arrependamos de nossa rebelião contra o Criador e nos apeguemos a ele pela fé (Marcos 1.15; 1 Tessalonicenses 1.9). Se fizermos isso, Deus nos promete perdoar os nossos pecados e nos reconciliar consigo mesmo (Colossenses 1.13-14; 2 Coríntios 5.17-21). Jesus nos chama a vir e morrer, a fim de podermos viver.


Aqueles que seguem Jesus pela fé são conhecidos como seus discípulos. Alguns sugerem que discípulos são “super-cristãos” que são ativos na obra por Jesus, ao passo que cristãos são apenas “crentes normais”. A Escritura, contudo, não oferece nenhum apoio a essa distinção (ver, por exemplo, Mateus 10.38; 16.24-28; Marcos 8.34; Lucas 9.23; João 10.27; 12.25-26). Ou nós estamos seguindo Jesus ou não estamos; não há uma terceira via (Mateus 12.30).

Discípulos imitam e replicam Jesus

No coração do seguir Jesus está o chamado de Jesus para imitá-lo e replicá-lo. Enquanto discípulos, somos chamados a imitar o amor de Jesus (João 13.34), sua missão (Mateus 4.19), sua humildade (Filipenses 2.5), seu serviço (João 13.13), seu sofrimento (1 Pedro 2.21) e sua obediência ao Pai (1 João 2.3-6). Uma vez que ele é o nosso mestre, somos chamados a aprender com ele e lutar, no poder do Espírito Santo, para sermos como ele é (Lucas 6.40). Esse crescimento em semelhança à Cristo é o esforço de uma vida inteira, o qual é estimulado pela esperançosa expectativa de que, um dia, o veremos face a face (1 João 3.2-3).

Discípulos ajudam outros a seguirem Jesus

Ao seguirmos nosso Senhor, rapidamente aprendemos que parte da imitação é replicação. Ter um relacionamento pessoal com Jesus é magnífico, mas é incompleto se termina em nós mesmos. Parte de ser seu seguidor é intencionalmente ajudar outros a aprenderem dele e se tornarem mais parecidos com ele. Como um amigo meu disse, “Se você não está ajudando outras pessoas a seguirem Jesus, eu não sei o que você quer dizer quando afirma estar seguindo Jesus”. Ser seu seguidor é ajudar outros a seguirem-no.

Ser um discípulo que faz discípulo ocorre de duas maneiras em particular. Primeiro, somos chamados a evangelizar. Evangelismo é dizer a pessoas que não seguem Jesus o que significa segui-lo. Nós fazemos isso ao proclamar e adornar o evangelho em nossa vizinhança e entre as nações (Mateus 28.19-20). Nunca podemos esquecer que Deus nos colocou em nossas famílias, locais de trabalho e círculos de amizade a fim de proclamarmos o evangelho da graça àqueles que estão destinados ao inferno à parte de Cristo. Nós devemos ajudar as pessoas a aprenderem como começar a seguir Jesus.

O segundo aspecto de fazer discípulos é ajudar outros crentes a crescerem em semelhança a Cristo. Jesus planejou a sua igreja como um corpo (1 Coríntios 12), um reino de cidadãos e uma família que ativamente edifica uns aos outros até a plenitude de Cristo (Efésios 2.19; 4.13, 29). Somos chamados a instruir uns aos outros sobre Cristo (Romanos 15.14) e a imitar aqueles que estão seguindo a Cristo (1 Coríntios 4.16; 11.1; 2 Tessalonicenses 3.7, 9). Enquanto discípulos, devemos intencionalmente nos deixar gastar por outros discípulos para que eles também possam se deixar gastar por outros (2 Timóteo 2.1-2).

Discípulos intencionalmente constroem relacionamentos

Discipulado não é algo que simplesmente acontece. Nós precisamos ser intencionais em cultivar relacionamentos profundos e honestos nos quais possamos fazer bem espiritual a outros cristãos. Embora possamos ter relacionamentos de discipulado em qualquer lugar, o lugar mais natural para que eles se desenvolvam é a comunidade da igreja local. Na igreja, os cristãos são ordenados a se reunirem regularmente, a estimularem uns aos outros a serem semelhantes a Cristo e a protegerem uns aos outros do pecado (Hebreus 3.12-13; 10.24-25).

Os relacionamentos de discipulado que brotam desse tipo de comunidade comprometida devem ser tanto estruturados como espontâneos. Ao estudarmos a vida de Jesus, vemos que ele ensinava formalmente seus discípulos (Mateus 5-7; Marcos 10.1), enquanto também permitia que eles observassem sua obediência a Deus à medida que viviam juntos (João 4.27; Lucas 22.39-56).

Do mesmo modo, alguns de nossos relacionamentos de discipulado devem ser estruturados. Talvez dois amigos decidam ler um capítulo do Evangelho de João e então discuti-lo durante um café ou um treino na academia. Talvez dois homens de negócios leiam a cada semana um capítulo de um livro cristão e, então, conversem sobre ele no sábado, durante uma caminhada pela vizinhança com seus filhos. Talvez dois casais se encontrem uma vez por mês, à noite, para conversar sobre o que a Bíblia diz acerca do casamento. Talvez uma piedosa senhora convide uma moça solteira mais jovem à sua casa, na tarde de uma terça-feira, para orar e estudar uma biografia cristã. Talvez uma mãe passe algum tempo no parque com outras mães, a cada semana. Independentemente do formato, parte do nosso discipulado deve envolver momentos agendados de leitura, oração, confissão, encorajamento e desafio a que outros cristãos se tornem mais parecidos com Cristo.

O discipulado também pode ser espontâneo. Talvez amigos vão juntos ao cinema e, depois, tomem um sorvete enquanto comparam a mensagem do filme com o que a Bíblia diz. Talvez um pai e um filho se sentem na varanda e reflitam na glória de Deus sendo demonstrada em um pôr-do-sol. Talvez você convide visitantes da igreja para almoçar e pergunte a cada um como eles vieram a conhecer a Cristo.

Nós sempre devemos ser intencionais, mas nem sempre precisamos ser estruturados. De fato, Deuteronômio 6 nos mostra que o discipulado acontece “assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (v. 7). Cada momento apresenta uma oportunidade para discutir quem Deus é e o que ele está fazendo. Uma vez que nós estamos sempre seguindo Jesus, nós sempre temos a oportunidade de ajudar outros a segui-lo também.

Discípulos dependem da graça

Embora seja verdade que um discípulo de Jesus deva ajudar outros a seguirem Jesus, nós devemos sempre nos lembrar de que, à parte da graça sustentadora e fortalecedora de Deus, nada podemos fazer (João 15.5). Seja você um pastor, um encanador, um policial ou uma dona-de-casa, você nunca deixa de depender da graça de Deus.

Ao seguirmos Jesus e ajudarmos outros a seguirem-no, somos constantemente lembrados de que precisamos da graça. Nós falhamos. Nós pecamos. Nós lutamos. Mas, ainda bem, a graça de Deus abunda sobre os seus filhos. Essas são boas novas ao buscarmos juntos seguir Jesus e ser diariamente transformados segundo a sua gloriosa imagem (2 Coríntios 3.18). Que possamos seguir fielmente a Cristo e ajudar outros a fazerem o mesmo até que vejamos a sua face. Ora vem, Senhor Jesus !

terça-feira, 26 de maio de 2015

"SEDE SANTOS"

Um esboço da pregação no culto ao Senhor com a cooperação dos jovens na Assembléia de Deus em São Roberto - SP (24/05/2015)

 "SEDE SANTOS" - (Lv 19:1-2) ;  (Lv:20:7) ;  (1 Pe 1:15-16)

   (Lv 19:1,2)  "Falou mais o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala a toda a congregação dos filhos de Israel, e dize-lhes: Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo."

   (Lv 20:7) - "Portanto santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o Senhor vosso Deus."

   (1 Pe 1:15-16) - "Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver;  Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo."

   A SANTIDADE DE DEUS SIGNIFICA A SUA ABSOLUTA PUREZA MORAL. INDICA QUE ELE NÃO PODE PECAR E NEM TOLERAR O PECADO. DEUS É SANTO POR NATUREZA.

   Deus está separado do homem quanto à natureza e caráter. Ele é perfeito , o homem é imperfeito ;   Ele é Divino, o homem é humano ;  Ele é Espírito, o homem é matéria ;   Ele é moralmente perfeito, o homem é pecaminoso ;   Ele é o Criador, o homem é a criatura.

   JESUS -  é a maior revelação da Santidade de Deus (Lc 1:35) ;  (2 Co 5:21) !

   A Santidade de Deus é revelada através da igreja - (1 Pe 2:9)

   ***DEFINIÇÃO DE SANTO , SANTIDADE - "hebraico KADOSH"- definição : Separado do uso comum, cortado e colocado à parte.
   Ser santo não significa apenas ser separado ;  significa ser separado e consagrado para uso do Senhor - "Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus o nosso Senhor" (Rm 6:11)

   O adorno dos seus atributos é o fulgor da santidade de Deus. Isso significa dizer que a Justiça de Deus é santa, a soberania de Deus é santa, a onipotência, onisciência, onipresença de Deus é santa, todos os seus atributos é fundamentado em Sua SANTIDADE.

   O universo tem 40 bilhões de anos luz de diâmetro. Se você pegar uma nave espacial e atravessar de uma ponta do universo a outra à velocidade da luz, a 360.000 KM por segundo, você demora 40 bilhões de anos pra chegar no final do universo. Nem essa imensidão que compõe bilhões de galáxias, e que cada galáxia compõe bilhões de estrelas, isso é pó perto da natureza de Deus. DEUS É SANTO.

   Uma igreja santa, um povo santo, aponta para um Deus Santo, uma igreja  corrupta e um povo corrupto, aponta para um deus corrupto...

    A santidade é a própria essência do ser de Deus.
 *** Algumas razões pelas quais devemos ser santos :

1) Devemos ser santos porque somos filhos de Deus -  "Amados, agora somos filhos de Deus..." (1 Jo 3:2)

2) Devemos ser santos porque queremos fazer a vontade do Pai  -  "Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação..." (1 Ts 4:3)

3) Devemos ser santos porque queremos ser morada de Deus e um templo para seu Espírito  -  (Jo 14:23) "Jesus respondeu, e disse-lhe; se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada" ;   (1 Co 6:19) "Ou não sabeis que  o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós..."

4)  Devemos ser santos porque queremos ser vaso nas mãos de Deus  -  "Que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra" (1 Ts 4:4)

5)  Devemos ser santos porque somos peregrinos a caminho da Canaã Celestial  -  "...Andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação" (1 Pe 1:17)

6) Devemos ser santos porque queremos morar no céu  -  "Senhor, quem habitará no teu tabernáculo?  Quem morará no teu santo monte? (Sl 15:1)

  "Em todo o tempo sejam alvas as tuas vestes, e nunca falte o óleo sobre a tua cabeça." (Ec 9;8)
  "Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor;" (Hb 12:14)
   "Tu és tão puro de olhos, que não podes contemplar o mal,..." (Hb 1:13)
   " E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas." (1 Jo 1:5)
   "...nem os céus são puros aos seus olhos." (Jó 15:15)
   "Estas coisas tens feito, e eu me calei; pensavas que era tal como tu..." ( Sl 50:21)
   "...santo e tremendo é o seu nome." (Sl111:9)
   "Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; assim sejam poucas as tuas palavras." (Ec 5:2)

Quando lemos o texto de Isaías (Is 6:1-4)  , vemos algo interessante, vemos senhor escrito com apenas o S maiúsculo e também vemos senhor escrito com todas as letras maiúsculas...: -  Senhor  -  com "S" maiúsculo e as demais letras minusculas - -  definição hebraica - Adonai...  O Senhor, soberano, supremo.
SENHOR  -  com todas as letras maiúsculas - definição hebraica - YAHWEH   (Javé aportuguesado) - EU SOU, Está associado ao Santo, está intrínsecamente ligado a sua pessoa, ao ser de Deus....
   O judeu ortodoxo usa adonai e jamais  YAHWEH.

Armandinho - "quando deus me desenou, ele estava namorando, ..."
Xuxa  -  o cara lá de cima..."
Existe uma seita na América do norte que na entrada do seu templo tem um enorme tapete escrito o nome  de "JESUS" ,  e  a medida que os membros vão chegando eles pisam neste tapete e cospem no nome de Jesus que ali está escrito...

 E VOCÊ O QUE ESTÁ FAZENDO COM O NOME DE JESUS QUE VOCÊ LEVA POR SE INTITULAR CRISTÃO ???

  Olha o testemunho que a Bíblia dá do seu santo nome :

   "Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;" (Fp2:9)
    "Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos."  (Is 57:15)

"Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!  Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro?  Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?  Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém." (Rm 11:33-36)

Rei Uzias - Um dos monarcas que mais reinou sob a nação de Israel (55 anos) - Promoveu uma reforma, pecou  , ficou leproso e morreu. Após sua morte houve um grande declínio espiritual na nação de Israel. Cinco anos depois foi fundada a cidade de Roma, coincidência ou não, que sabe... e então Deus levanta um profeta chamado Isaías.
  Isaías tem uma visão, onde serafins cobrem o rosto e os pés com suas asas diante da glória de Deus...

 COBREM O ROSTO  -  Cobrem o rosto com duas asas porque eles estão diante da glória de Deus, para que não sejam dizimados, desintegrados instantaneamente,...

COBREM OS PÉS  -  Porque o lugar que eles estão é santificado pela presença e glória de Deus, referência do Sinai onde Deus manda Moisés  tirar as suas sandálias porque o lugar onde está é santo...Os serafins sequer podem pisar no lugar onde a glória de Deus é emanada em toda sua essência... A santidade de Deus é insuportável e sequer eles ousam pisar naquele lugar.

***MEU IRMÃO COMO É QUE VOCÊ TEM ENTRADO NA PRESENÇA DE DEUS ???

  A única coisa que podem dizer naquele lugar é o TRISSÁGIO    :  SANTO, SANTO, SANTO  - O único atributo de Deus que é elevado ao terceiro graú de repetição em toda a Bíblia, Deus é três vezes santo,  triplamente santo.

 A expressão da santidade de Deus, a glória que emana de Deus é tão forte que até os umbrais se movem, até os objetos inanimados, ininteligíveis tremem,  eles respondem a santidade de Deus, e vemos hoje crentes apáticos a tal atributo.

Agora por que 3x santo ???

Na língua portuguesa quando se quer dar ênfase a alguma palavra escrita, tal palavra é colocada entre aspas, parenteses, em negrito, escreve-se tudo maiúsculo, faz-se um círculo em volta de tal palavra.

Na língua hebraíca se repete a palavra para dar ênfase.

Em Gálatas 1:8-9 vemos : "Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema.  Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema." (Gl 1:8,9)
 (HÁ UMA REPETIÇÃO)

JESUS -  Em verdade em verdade vos digo  - (há uma repetição para dar-se ênfase.)

No livro de Isaías vemos o profeta pronunciando vários "AÍS" , mas quando ele se depara ante a glória do Senhor ele diz aí de mim que vou perecendo...Mas quando ele se depara com o Deus 3x santo ele aponta um aí a sí mesmo : "Aí de mim que vou perecendo..."

O que eu aprendo com isso :  A santidade de Deus é traumática, transformadora, insuportável para a raça humana.

A glória de Deus está externada na sua criação. Mas quando nos deparamos com sua real presença, somos transformados, não somos capazes de suportar tal essência... Olha exemplos do que a santidade de Deus faz :

 - (Dn 10:4-9) - "E no dia vinte e quatro do primeiro mês eu estava à borda do grande rio Hidequel;  E levantei os meus olhos, e olhei, e eis um homem vestido de linho, e os seus lombos cingidos com ouro fino de Ufaz;  E o seu corpo era como berilo, e o seu rosto parecia um relâmpago, e os seus olhos como tochas de fogo, e os seus braços e os seus pés brilhavam como bronze polido; e a voz das suas palavras era como a voz de uma multidão.  E só eu, Daniel, tive aquela visão. Os homens que estavam comigo não a viram; contudo caiu sobre eles um grande temor, e fugiram, escondendo-se.  Fiquei, pois, eu só, a contemplar esta grande visão, e não ficou força em mim; transmudou-se o meu semblante em corrupção, e não tive força alguma.  Contudo ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo o som das suas palavras, eu caí sobre o meu rosto num profundo sono, com o meu rosto em terra."

- (Ap 1:17) -  "E eu, quando o vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; Eu sou o primeiro e o último;"

- (At 9:4) - "E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?"

- (Is 6:5) - " Então disse eu: Ai de mim ! Pois estou perdido; (perecendo) , o mais próximo do original é "desintegrado" - Desintegrado é o contrário de íntegro. Ele quis dizer que era miserável, vil, pecador.

(Lv  10:1-3) -  " E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o SENHOR, o que não lhes ordenara.  Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor.  E disse Moisés a Arão: Isto é o que o Senhor falou, dizendo: Serei santificado naqueles que se chegarem a mim, e serei glorificado diante de todo o povo. Porém Arão calou-se."
***Obreiros e ministros tomem cuidado em como abrem a boca para falar de um Deus SANTO...

***Precisamos entender que todos os atributos de Deus são alicerçados em sua santidade:

A onisciência de Deus é santa... Ele sabe o que você pensa...
A onipresença de Deus é santa... Ele está com você em todo lugar...
Todos os atributos de Deus estão intrínsecamente ligados à sua santidade. Deus é santo...

O Julgamento de Deus para o ditador Joseph Stalin, para o nazista Adolf Hitler não é nada perto de falsos profetas que existem por aí e que estão blasfemando de um nome tão santo quanto o nome do Senhor... Eles darão conta diante do juízo do trono branco !!! (Ap 20:11)

sábado, 2 de maio de 2015

O que quer dizer "piedade" no Novo Testamento?

  As palavras piedade, piedoso(a) e piedosamente são encontradas mais de 40 vezes no Novo Testamento, e freqüentemente são mal-entendidas. A palavra "piedade" vem do Latim, e tem dois sentidos: "1. Amor e respeito às coisas religiosas; religiosidade; devoção. 2. Pena dos males alheios; compaixão, dó, comiseração". Na linguagem popular, e muitas vezes no Antigo Testamento, a palavra tem o segundo sentido e traz a idéia de compaixão. Mas, no Novo Testamento, o sentido normalmente é o primeiro, ou seja, devoção a Deus ou respeito às coisas religiosas.
   Quando você encontra a palavra "piedade" ou "piedoso" na leitura do Novo Testamento, pense primeiro no sentido de devoção a Deus (temente a Deus) ou às coisas religiosas, e na santidade. Na maioria dos casos, essas definições vão comunicar melhor o sentido do original. Vamos ver alguns exemplos:
   (1 Timóteo 2:10) fala sobre "mulheres que professam ser piedosas". A palavra grega aqui é theosebeia, que obviamente inclui Deus (theos) como o objeto da devoção. (João 9:31) usa uma forma da mesma palavra, onde é traduzido "teme a Deus".
Outras palavras gregas são traduzidas como piedade, piedoso e piedosamente, especialmente a palavra eusebeia e outras da mesma família. O sentido principal destas palavras é louvor, reverência ou devoção.
   Veja como este entendimento esclarece alguns versículos. (2 Timóteo 3:12) diz que "Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos." O sentido de mostrar compaixão para com outras pessoas não se encaixa aqui (seremos perseguidos por mostrar compaixão?). Antes, os que demonstram reverência a Deus serão oprimidos. (1 Timóteo 3:16) diz que "grande é o mistério da piedade", mas o versículo não fala de sentir dó para os outros. Fala, sim, dos motivos que temos para adorar a Jesus.
   Enquanto os presbíteros devem mostrar compaixão e hospitalidade, a palavra "piedoso" (gr. hosios) em (Tito 1:8) quer dizer santo, puro e devoto a Deus.
   A nossa palavra "piedade" descreve os dois grandes mandamentos (Mateus 22:37-40), mas o sentido mais comum no Novo Testamento enfatiza o primeiro, "Amar a Deus". Vamos nos esforçar para ser verdadeiramente piedosos.